sexta-feira, 4 de março de 2022


Brevidade imperceptível da vida


Andreia Donadon Leal


 
                                                                                                     Túmulo vazio, sem flores e gramas. Coração transborda saudades. Quarto respira mofo, flores, gavetas e cabides vazios. Medo das paredes encardidas, do mato alto que toma todo terreno inclinado do terreiro. Escadas impregnadas de lodo e folhas secas. Silêncios gritantes em cada cômodo. Quem entra, entra com medo ou chora, chora de solidão. Água de chuveiro rola pelo ralo. Barulho de água que lava meu corpo, compactua silêncios e dores represadas.  Espelho embaçado. Vejo meu rosto que não é mais o mesmo no mesmo espelho. Rugas marcam os cantos dos olhos. Cicatrizes do tempo. Estico a pele com as pontas dos dedos. Ensaio um sorriso e uma careta. Convenhamos: a máscara disfarça minha sisudez e sorriso amarelo. Não nasci pra sorrir.  Um gato pula o muro, escorrega no chão, equilibra-se num segundo. Lua minguante. Varanda guarda memórias incandescentes. O morador de lado grita meu nome num cumprimento saudoso. Retribuo acenando com sorriso posto. Respondo que está tudo bem. A frase sai tão natural quanto minhas necessidades fisiológicas. Sai, independentemente, do humor.  Uma conhecida passa vagarosamente pela rua. Olha pra cima. Para. Pergunta como estão meus pais. Ela se esqueceu dos que foram. Finjo que esqueci. "Está tudo bem com todos". Caminha com dificuldades, de máscara no rosto, equilibrando-se na ponta da bengala, para de caminhar, abaixa a máscara, acende o cigarro. A mesma marca, o mesmo vício. Céu borrado de preto, cinza claro e laranja. Vai chover ou é mais uma inconstância do tempo. Puxo a cadeira de ferro. Respiro fundo. Não tenho chicletes. Esqueci da tradição de mascar, exercitar a boca, o paladar e os músculos do rosto. Não sei por que perdi esse hábito. Parece banal e insignificante, mas certos hábitos devem permanecer feito herança honrada, memórias preservadas. As águas do céu derrubaram casas, soterrando vidas e planos. Chorei pouco. Deveria ter chorado mais, chorado medos, chorado aflições e abafamentos. Meu celular toca sem parar. Maldito robô de telemarketing.  Bloqueio. Aparece outro número.  Bloqueio. Outro número.  Desisti de atender chamadas de números de telefones não identificados. Não tenho urgências. Outro gato atravessa a rua. Olha pra mim. Seus olhos bolas-de-gude brilham intensamente. Some do meu campo de visão com agilidade. Talvez tenha pulado o muro... Não sei por onde anda o gato. Fecho os olhos. A tristeza é um bloco de gelo enterrado dentro da gente. Meu cachorro deita nos meus pés. Relaxa, cochila e sonha. Geme e sorri. Sua bocarra abre-se lentamente. Não faço barulho. Vigio seu sono tranquilo. Um carro passa na rua. Revejo minha rotina diária da semana. Fecho os olhos. O celular toca novamente. Ignoro. A cortina da varanda levanta com o sopro do vento. Um pingo de chuva cai no meu rosto. Fico esperando a chuva engrossar. Mãe já chutou a chuva. Mãe já chutou a enxurrada. Mãe já deixou a chuva encharcar o corpo. Mãe já dançou na chuva, sem guarda-chuvas. 'Se for dançar na chuva, tenha coragem pra molhar dos pés a cabeça'. Respondo outro cumprimento. Entro. Levo meu cachorro para dentro da casa. Uma lâmpada do lustre queimou. Sento na poltrona. Olho cada parede da sala. Passa um filme em progressão acelerada. Risos altos, música, árvore de Natal. Um irmão se esbarra no outro; corre em direção à varanda. Um guri com taças, outro com espumantes e refrigerantes. A varanda mal cabe o número de pessoas que se aglomeram para ver a queima de fogos. Foguete que explode numa cascata de cores, barulho ensurdecedor da pirotecnia, gritos de crianças e adultos. Uma lágrima furtiva percorre meu rosto flácido. Deveria ter chorado mais, sorrido mais, corrido mais, abraçado mais, conversado mais... Passou rápido. Dizem que 
a vida é curta. Eu curto essa brevidade imperceptível...

 

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