sexta-feira, 22 de março de 2019
Perda
de parâmetros
Cesar
Vanucci
“É
a perda de parâmetros, é o descontrole, é a bagunça administrativa. É a Babel.”
(Ministro Marco Aurélio Mello, do STF)
De
princípio, tamanho o espanto suscitado, imaginou-se que se tratasse, como está
em moda, de mais uma “fake”. Intriga danada de maldosa nascida, certamente, em
redutos ocupados por mafiosos poderosos descontentes diante da eficiente
repressão ao crime organizado. Confirmada, contudo, a fidedignidade da
denúncia, houve quem admitisse ser o fato de molde a estarrecer um frade de
pedra, como era costume dizer-se em tempos de antanho.
A
acumulação de detalhes surpreendentes sobre o ocorrido acabou criando ensancha
oportunosa para a afirmação de que o estarrecimento de um único frade de pedra
não seria suficiente o bastante para explicar tanto aturdimento. O mais
adequado era reconhecer no censurável episódio proporção capaz de espavorecer
todo o conjunto das estátuas de pedra de sabão, configurativas dos Apóstolos,
enfileiradas no adrio da Matriz de Bom Jesus de Matozinhos, Congonhas do Campo,
esculpidas pelo genial Aleijadinho, nosso Michelangelo barroco.
Exorbitando
em suas atribuições institucionais, superestimando à desmesura o papel, sem
dúvida relevante, que lhes toca representar no enredo administrativo, político
e jurídico, ilustres componentes da coordenação da “Lava Jato” entenderam, de
modo próprio, ao arrepio da lei, de articular a implantação de uma fundação
privada abastecida com recursos vultosos pertencentes ao Tesouro Nacional, a
ser por eles próprios gerida. A mufunfa, equivalente a um orçamento inteiro da
Unicamp, à metade do orçamento do Ministério Público, seria aplicada em
iniciativas voltadas “para proteção e promoção de direitos fundamentais
afetados pela corrupção, como os direitos à saúde, à educação e ao meio
ambiente, dentre outros.”
Em
“acordo”, pra dizer o mínimo esdrúxulo, firmado pela turma de Curitiba
diretamente com a Petrobras, sem passar pelo crivo de qualquer órgão superior
qualificado, como a PGR, o Tribunal de Contas e a Controladoria Geral da União,
o Congresso, a estatal, atendendo a recomendação exclusiva do grupo, carreou a
avultada soma de 2 bilhões 560 milhões de reais para uma conta bancária a ser movimentada
com os intuitos propalados.
A
dinheirama proveio de acertos procedidos pela petrolífera com a Justiça dos
Estados Unidos. Do ponto de vista institucional, moral e legal, o correto seria
que tais recursos fossem capitalizados pela empresa, ou destinados a
finalidades de interesse público definidas naturalmente por órgãos
constitucionalmente competentes, e não por grupo isolado de agentes públicos
que se auto-proclame investido de poderes situados consideravelmente além de
sua alçada. A grita provocada pela invulgar ocorrência, implicando magistrados,
juristas, lideranças políticas e de outros setores da sociedade, foi de tal
monta que à Procuradora Geral Raquel Dodge não sobrou outra alternativa que não
pedir ao STF a anulação do “acordo”, por nele enxergar inconteste violação dos
preceitos constitucionais. Na justificativa do saneador procedimento, ela
evocou a autonomia dos Poderes, a necessidade de preservação das funções
essenciais à Justiça e os princípios da legalidade, da moralidade, além de se
reportar à exorbitância de atribuições constatada na atitude dos subordinados.
Esclareça-se,
ainda, a respeito da candente questão que os procuradores envolvidos, após o
pronunciamento da Procuradora Geral, requereram a suspensão da criação do fundo
privado bilionário que se propuseram a implantar com recursos recuperados da
Petrobras. No pedido de adiamento,
formulado perante a Justiça Federal, confessaram-se dispostos a consultar,
agora, a Advocacia Geral, a Controladoria Geral e o Tribunal de Contas da
União, na busca de soluções adequadas para que os valores restituídos aos
cofres públicos sejam usufruídos pela comunidade.
As
vigorosas reações à desnorteante atitude dos procuradores acham-se
emblematicamente traduzidas em declarações como as reunidas na sequência.
Jornalista Élio Gáspari: “A turma da Lava Jato acertou muito e errou pouco, mas
tropeçou na soberba”. Jurista Marcelo Mascarenhas: “Se um prefeito ou um
governador desviasse a arrecadação de multas para uma ONG escolhida por ele,
era condução coercitiva na hora”. Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo: “A
mistura entre público e privado, sem a devida fiscalização, não interessa à
sociedade. É ato pernicioso, fazendo surgir “super órgãos”, inviabilizando o
controle fiscal financeiro. É a perda de parâmetros, e o descontrole, é a
bagunça administrativa. É a Babel”.
Encurtando
papo: uma incompreensível e desedificante forçação de barra.
“Incidente”
em carnaval de outrora
Cesar
Vanucci
"Uma ocorrência escabrosa!"
(Palavras do presidente do clube a respeito
dos preservativos largados na sala de estar)
As
reviravoltas nos usos e costumes mundanos são desconcertantes. Falamos disso em
narrativa anterior. Voltamos ao assunto trazendo do baú episódio ocorrido há
mais de meio século, em período carnavalesco, tendo sob mira objeto que, no
passado, todo mundo considerava de pecaminosa serventia e que, em tempos de
hoje, é alvo de intensas campanhas educativas, de teor profiláxico, nos
veículos de comunicação em massa.
Em
dias recentes, próximos de uma folia carnavalesca, o carro de um conhecido
emparelhou-se com o meu na descida da avenida, de frente ao "farol",
como se diz em dialeto paulistês. Ele jogou pela janela uma pergunta que, por
força das circunstâncias, não pude responder na hora: - Escuta aqui, meu chapa,
o que há de tão engraçado pra você aí, sozinho no fusca, cair de repente na
risada?
Explico, agora,
respondendo à pergunta, a razão do riso solitário no flagrante de rua. Eu havia
acabado de guardar no porta-malas uma sacola atulhada de preservativos, a serem
distribuídos por ONG envolvida em campanha preventiva de saúde. Ao transportar
o material, bateu-me a lembrança de uma festa carnavalesca dos anos 50. O fato
relembrado, inspirando confrontação dos costumes vigorantes em épocas bastante
distanciadas, deu causa à reação que tanto intrigou o conhecido. História na
sequência relatada.
A batucada
carnavalesca ia à toda no suntuoso clube, "frequentado pela nata de nossa
progressista sociedade," segundo a abalizada opinião do festejado
colunista do jornal da cidade. A moçada, trazendo nas mãos lança-perfume,
serpentina e saco de confete, rodopiava pelo salão ricamente decorado, entregando-se com
animação às relativamente bem comportadas brincadeiras, típicas dos folguedos,
toleradas nas posturas morais dominantes. Das mesas, ao redor da regurgitante pista
de dança, pais zelosos acompanhavam as graciosas evoluções das filhas donzelas
com suas fantasias multicoloridas, de apurado gosto.
De súbito, percorreu
o salão, de mesa em mesa, trazido pelo vento do espanto e da indignação, um
chocante relato. A esposa do diretor social, dama de peregrinas virtudes e de
alta respeitabilidade, acabara de testemunhar, entre soluços e lágrimas, na sala
de estar do reservado feminino, algo "danado de indecente". A
"escabrosa ocorrência", tomando emprestadas as palavras do ilustre
presidente do clube na reunião de emergência montada para uma tomada enérgica
de providências, consistiu na descoberta, largadas sobre o confortável divã
onde madame se refestelava depois de haver retocado a maquiagem, de duas
"camisinhas de vênus" com indícios de uso recente. A primeira versão
extraída dos fatos dizia que um casalzinho "prafrentex" havia
resolvido mandar pra cucuia, na cara e na coragem, valendo-se de momento de
distração da vigilância, as sadias regras da moral e dos bons costumes.
Chegou-se mesmo, com certo açodamento, à citação de nomes de supostos autores
da "sórdida proeza". O que acabou acendendo comentários maledicentes
e, mais tarde, malquerenças familiares insanáveis. Outra versão posta nas
especulações arguia a hipótese de que "aquelas indecências" houvessem
sido lançadas por um estudante, malcaratista juramentado de cidade vizinha,
depois de encher a cara com umas e outras. O auê à volta do "ato de
depravação", cujos pormenores ficaram para sempre inexplicados, afetou de
modo irreparável a festa. Honrados chefes de família, batendo duro os
calcanhares, convocaram as distintas consortes e amuados rebentos para se
recolherem mais cedo aos respectivos domicílios. A presença de foliões no baile
seguinte, "terça-feira gorda", sem intenção de trocadilho, foi magra.
Bem aquém das expectativas, tamanha a dimensão do escândalo.
A
história rendeu outros ruidosos desdobramentos. Numa assembléia religiosa, dias
depois, devotos piedosos acompanharam, compenetrados, incandescente prédica
tendo como foco o "abominável caso", com o pregador caprichando nas
citações das passagens bíblicas que se ocupam de Sodoma e Gomorra.
Quem,
dentre as testemunhas oculares do bololô armado no salão, ousaria imaginar que
os "indecorosos artefatos de látex", mercadoria clandestina
incogitável nos hábitos de consumo das pessoas de bem, passariam num futuro não
tão distante a ser maciçamente distribuídos, com expressas recomendações
paternas aos mancebos e moçoilas em flor no sentido de que soubessem
conservá-los ao alcance das mãos, guardadinhos nos bolsos e nas bolsas, pra
acudir a quaisquer emergências?
sexta-feira, 15 de março de 2019
Vanucci tomará posse no IHGMG
O jornalista Cesar Vanucci estará assumindo, no
próximo dia 30 (trinta) de março, sábado, às 9h30 (nove e meia da manhã), uma
cadeira efetiva no Instituto Histórico e
Geográfico de Minas Gerais.
O evento
contará com a participação artística do consagrado instrumentista, concertista e compositor Cid Ornellas.
Os amigos do
“Blog do Vanucci” estão convidados a comparecerem ao ato.
A sede do
Instituto fica localizada na Rua dos Guajajaras, 1268 - Santo Agostinho, BH.
A
grama tiririca...
Cesar
Vanucci
“Simplesmente
inventaram o que seriam “candidatos laranjas”,
cuja
única função aparente era receber verbas e transferi-las.”
(Editorial do “Diário do Comércio”, dois de
março)
A
corrupção, sempre com as mandíbulas expostas à desmesura, é mais antiga do que
a Serra da Canastra. “Rome omnia venalia esse” (“Em Roma tudo está à venda”),
já denunciava Salústio, bocado de anos antes do advento do Cristianismo. O
registro pertence ao esplêndido “Dicionário de Citações” organizado no supremo
capricho por Paulo Rónai. Outras frases, também inseridas na mencionada
publicação, atestam a perversa longevidade da abominável prática. Aqui estão:
“A corrupção do melhor é a pior das corrupções” (“Corruptio optimi pessima”).
Autor? S.Gregório, O Grande, que viveu entre 504 e 604. William Shakespeare
(1564-1616) bate forte, como de costume: “Ah, se as propriedades, títulos e
cargos/Não fossem fruto da corrupção! E se as altas honrarias/Se adquirissem só
pelo mérito de quem as detêm!/Quantos, então, não estariam hoje melhor do que
estão?/Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?” Isso aí...
A
corrupção, já foi dito também noutra ocasião, é que nem grama tiririca. Extraio
de um poema composto no saboroso dialeto roceiro sugestiva descrição dessa
planta daninha. Ilustra bem a comparação arguida. Vamos lá: a tiririca “a gente
pode arrancá,
virá de raiz pro ar, mais qua! Um fiapo escondido
no torrão faiz a peste vicejá...” A citação do verso cobra
deste desajeitado escriba uma explicação. Por bom pedaço de tempo andei
admitindo que os dizeres sobre a matreira gramínea fossem da lavra do notável
Catulo da Paixão Cearense, Primeiro Violão inconteste da Sinfônica Poética
Brasileira. Dei-me conta do equívoco, certo dia, ao ouvir o Rolando Boldrin
declamar o poema por inteiro em seu magnífico programa na televisão. Contudo,
lastimavelmente, não houve como reter na memória velha de guerra o nome do
verdadeiro talentoso autor.
Os
corruptores e corruptos de carteirinha de todos os tempos não esmorecem em seus
nefandos propósitos. Imaginação fertilíssima, valem-se de todos os estratagemas
já inventados para burlar a boa fé coletiva. No andamento da operação “Lava
Jato” tivemos amostras disso. Quando começaram a vir a lume as primeiras
informações acerca dos malfeitos cometidos, a impressão que se tinha era de que
os atos ilícitos estavam circunscritos à esfera petista. Com o andar da
carruagem comprovou-se que não era bem assim. O “propinoduto” atendeu a gregos
e troianos. Despejou “agrados” em todas as bandas. Por mais inverossímil que
pareça, oposicionistas extremados, entre os tucanos, emedebistas e outros, que
se gabavam em tom triunfal de sua conduta ilibada em meio à pororoca de
denúncias, se viram, também, de hora para outra, clamorosamente pilhados com a
“boca na botija”. A opinião pública, estarrecida, deu-se conta, então, das
reais proporções do asfixiante problema. Empreiteiros desonestos, agentes
públicos infiéis, políticos inidôneos, das mais diferentes tendências,
achavam-se enredados num colossal esquema de desvio de recursos públicos.
A
vigorosa expectativa e mesmo a ardente esperança da sociedade brasileira,
focadas em mudanças fundamentais que consigam opor barreiras a desvios de
conduta geradores de fraudes no manuseio dos dinheiros públicos, expressamente
evidenciadas na campanha sucessória, já se vêem molestadas por ardilosas
manobras indicativas do reflorescimento da “tiririca”. O nosso DC, no editorial
estampado na edição de 2 de março, pontua magistralmente, ao se reportar à
“invenção” dos “candidatos laranja”, que “mais uma vez, para desilusão talvez
dos mais crédulos, a diferença entre o desejável e o acontecido foi grande e
não foi preciso muito tempo para que se percebesse como partidos políticos e
candidatos – nem todos é de se supor – se adaptaram aos novos tempos e com
assustadora agilidade”.
Há
mais coisas inconvenientes relacionadas com o vasto “laranjal”. A bancada
parlamentar convocada a apoiar projetos governamentais, tal qual acontecia no
passado, impôs condições - ao que parece já devidamente acertadas – para que
tudo se enquadre no enredo costumeiro. Ou seja, para que tudo permaneça “como
dantes no quartel de Abrantes”. O propalado “banco de talentos” não passa de rótulo
novo para a antiga distribuição de cargos a cupinchas na administração pública.
A liberação de “bônus” nada mais é do que a tradicional e generosa oferenda de
verbas para ações de interesse estrito dos representantes parlamentares.
Encurtando razões: mais do mesmo.
Um
fiapo escondido no torrão faz mesmo a peste vicejar...
Carnaval,
clarão de esperança
Cesar
Vanucci
“O
Brasil cultiva concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida.”
(Domenico de Masi, sociólogo italiano)
Na
pauta, outra vez, carnaval. No desfrute do vigor físico e mental proporcionado
por quatro decênios de vida útil, já festejados pela segunda vez consecutiva,
confesso-me, em boa e lisa verdade, adepto entusiasta do carnaval. Não me
animo, tá claro, no curso dos ruidosos folguedos, a vestir “uma camisa listrada
e sair por aí (...) carregando um pandeiro na mão”, como proposto na canção de
Assis Valente, tornada famosa na magistral interpretação de Carmem Miranda.
Minha participação na “algazarra momesca” se adstringe a acompanhar, lá de casa
mesmo, com discretas batidas de pés, batucando à distância, as multicoloridas
evoluções coreográficas na base do improviso ou ensaiadas no capricho por
escolas de samba, blocos, trios elétricos e foliões isolados, projetadas na
telinha. Tão manifesta simpatia pela causa carnavalesca – mostra pujante da
autêntica cultura brasileira – leva-me a adotar, como articulista, o estilo
baiano de celebrar o carnaval, qual seja, começando bem antes e espichando o
ronco das cuícas além do prazo institucionalmente designado para tanto. Este papo introdutório ajuda explicar a razão
pela qual as maltraçadas de hoje retomam o tema, mesmo depois do carnaval que
passou...
O
carnaval brasileiro, “uma tradição venerável, adorada”, conforme assinala
Gilberto Amado, constitui sempre uma explosão feérica de alegria espontânea,
propícia à confraternidade social. Incomparável em relação a qualquer outra
manifestação cultural capacitada a atrair multidões, estremece de contaminante
entusiasmo ruas e lares, mentes e corações. Merece ser apontado como um clarão
de esperança.
Dá
pra perceber que a festividade carnavalesca deste ano de 2019, com sua
democrática e brejeira interpretação das coisas da vida, acionando dezenas de
milhões de pessoas em tudo quanto é canto, quebrou padrões, superou
expectativas. Alcançou retumbância maior do que em outros momentos, embora isso
pudesse ser pratrazmente enxergado como inatingível proeza. Consideradas as
inusitadas proporções assumidas pelo chamado “tríduo momesco” - que na quase
totalidade dos lugares, a começar pela Bahia de inesgotável fôlego, deixou há
muito de ser apenas um “tríduo” -, contrariou em cheio prognósticos acerca de
eventual retração na participação popular. Alguns sustentavam a hipótese, como natural
consequência inevitável da crise.
O
que se viu foi algo diferente do que se imaginou. O transbordamento de emoções
genuínas extrapolou os limites concebíveis. Escancarou as inexauríveis
potencialidades humanas que fazem da Nação brasileira um pedaço de mundo tão
especial. Para os especialistas em
Ciências Sociais afigura-se, agora, indeclinável a tarefa de interpretar
adequadamente esse possante sopro de energia que costuma acionar a gente do
povo nessas estupendas afirmações culturais e humanísticas. Material abundante
para reflexões de sociólogos e antropólogos foi despejado, durante a
celebração, nas praças públicas, do Oiapoque ao Chuí, sugerindo a conveniência
de explicações por parte dos mencionados estudiosos dos fenômenos sociais. Fica
bem evidenciado que as manifestações flagradas se contrapuseram à atmosfera
pesada, sombria, de timbre derrotista ininterruptamente propagada no noticiário
nosso de cada dia.
Face
ao exposto dá, então, pra perceber melhor aquilo que o sociólogo italiano Domenico
de Masi proclama: a cultura da inteligência e a contemplação da beleza
desvelam, no caso brasileiro, atrás de motivos de medo, radiosas ocasiões de
esperança. E isso graças à benfazeja circunstância de que, ainda no entender do
pensador, o modelo de vida brasileiro acena sempre com perspectivas alentadoras
no tocante às conquistas do futuro. Representa exemplo eloquente de proposta de
vida bela e colaborativa. Mas o melhor mesmo é deixar que o próprio Domenico se
encarregue de explicar, com a paixão que nutre pelas coisas brasileiras e
encantamento que sente pelo jeito de ser de nossa gente, no que consiste
realmente esse estilo de vida enaltecido. “O Brasil, apesar de assolado pela
violência, pela escandalosa desigualdade entre ricos e pobres, pela corrupção,
pela carência de infraestrutura, cultiva uma concepção poética, alegre, sensual
e solidária da vida, uma propensão à amizade e à solidariedade, um
comportamento aberto à cordialidade”.
O que ele falou e disse parece primorosamente
retratado no carnaval brasileiro, não é assim mesmo?
sexta-feira, 8 de março de 2019
Brasil, país do carnaval
Cesar Vanucci
“O
carnaval é a única festa nacional
da
política, dos programas de salvação pública!”
(Ribeiro Couto – 1898-1963)
Abram
alas. Deixem o carnaval passar. Com seu fascínio irresistível, com sua
exuberância multicolorida, com suas ruidosas e inconfundíveis manifestações, a
assim denominada folia momesca cria condições, por paradoxal que possa parecer,
para uma pausa no torvelinho da existência. E se o ritmo das ocorrências
rotineiras vem sendo marcado por desafinações perturbadoras, como as que estão
sendo dadas a perceber na cena brasileira nestes dois primeiros meses de
acumulação de problemas no nada bento, até aqui, ano de 2019, o intervalo
aberto revela-se propício para descontração, apaziguamento de ânimos, diversão,
meditação, por ai, de acordo com as diversificadas opções de gosto de uma
freguesia acossada por tanto sufoco. O melhor a fazer, foliões ou não, é tirar
partido do bem-vindo recesso.
Brasil, país do carnaval! Há quem demonstre algum
ou mesmo forte desconforto com a designação. Franzindo a testa em sinal de quem
comeu e não gostou, coloca desdém na voz sempre quando chamado a falar da feérica
celebração popular. Deixa cair a opinião de que tudo isso não passa de baita
despropósito. Algo que, em seu distorcido parecer, empobrece pra valer a
cultural nacional.
É
claro que a turma partidária desse ponto de vista está rotundamente equivocada.
Como também é notório que parte dessa minoria de viventes preconceituosos em
relação ao carnaval não encontra motivos para se rejubilar com o fato de que sermos
reconhecidos como o “país do futebol”. Não é improvável, ainda, que se sintam
mais a vontade numa comemoração, por exemplo, do “halloween”, do que numa festa
junina com aquele sabor típico roceiro descrito nos poemas e no canto de Catulo
da Paixão Cearense, primeiro violão da Sinfônica poética brasileira. Ou até mesmo
que achem naturalíssimo o emprego pedante, num trivial papo com conhecidos, de
expressões em “inglês moroless”, como “feedback”, “brunch”, “feeling” (e por aí
segue...), empregadas abusivamente para classificar situações obvias do
cotidiano.
Não
nos importemos, todavia, com o que alguns poucos pensam e dizem do carnaval. As
vibrações ricas em calor humano, magnéticas, contagiantes desse inigualável
festejo, aqui por nossas bandas, são únicas, têm marca registrada. Exprimem
admiravelmente, como acontece também no reino do futebol, o modo de ver e
sentir de nossa gente. Estampam, de forma magistral, as múltiplas faces da
genuína cultura nacional.
Disponho-me a
contar, em seguida, coisas amenas de outros carnavais. Naquele tempo, sabe seu
moço, a criação musical revelava-se mais pujante. O carnaval era época
geralmente reservada para lançamento de belos sambas e marchas, boa parte deles
até hoje com lugar assegurado na memória das ruas.
“Alalaô”,
“Chiquita Bacana”, “A Jardineira”, “Não me diga adeus” são alguns clássicos da
incomparável canção popular brasileira nascidos nos teatros-revistas e nas
rádios, por ocasião do então chamado “tríduo momesco”. Essa expressão aí, por
sinal, acabou caindo em desuso em tudo quanto é parte, mas, na verdade, um
pouco mais mesmo na Bahia, já que o carnaval na “boa terra” costuma começar bem
antes e acabar muito depois, como é sabido por todos e desfrutado por muitos.
Autores e
intérpretes musicais se preparavam, então, para o carnaval com o mesmo capricho
e cuidado de qualquer artista na antevéspera de uma temporada de espetáculos. O
concurso das melodias carnavalescas fazia parte do show. Servia de trampolim
para a glória.
Naquele tempo,
o lança-perfume não era considerado esguicho alucinógeno. Todo folião digno do
nome trazia-o sempre ao alcance da mão, nos salões e nas ruas. Os mais abonados
adquiriam artefatos metálicos. Os outros consumiam os de vidro, mais em conta.
Tinha-se por certo, na consciência coletiva, que o dano extremo que o emprego
do lança-perfume conseguia produzir era um ardor incômodo, quando o gélido jato
das bisnagas atingia o olho de algum desprevenido folião. Vez por outra, alguns
poucos carnavalescos, debaixo da reprovação da maioria, se compraziam em
promover duelos de lança-perfume. Contrariavam, assim, a regra pacificamente
aceita de que o lança-perfume nada mais devia ser do que forma galante de
aproximação.
O carnaval bem
diferente de agora projetou nos últimos anos, graças sobretudo à cobertura da
televisão, uma visão panorâmica impressionante da capacidade artística
brasileira. A alegria, que costuma explodir franca e espontânea em tudo quanto
é espaço ocupado pelos foliões, serve de pano de fundo para que sejam expostas
– repetimos - as múltiplas e arrebatantes faces da cultura nacional.
As tradições,
os símbolos folclóricos, os mitos, os costumes de cada região, trabalhados por
carnavalescos criativos, ganham colorido e vibração nas manifestações. E deixam
no espírito popular a certeira certeza de que, seja no Rio, ou em São Paulo, ou
Belo Horizonte, nas cidades históricas de Minas, na Bahia, em Pernambuco, ou no
Amazonas, vive-se, todos os anos, nessa época, em todo o Brasil afinal, um festejo
incomparável em matéria de promoções a envolver multidões. Produto pra desfrute
turístico que nenhum outro país do planeta tem condições, vontade e capacidade
de oferecer.
País
do carnaval, sim! Com orgulho.
Ora,
veja, pois!
Cesar Vanucci
“Chico Mendes foi irrelevante.”
(Ministro do Meio
Ambiente Ricardo Salles)
Coisas
do arco da velha pipocando. As acontecências detectadas parecem, ao primeiro
olhar, petas. Quer dizer: lorotas, patranhas, ou como virou moda dizer-se em
tempos de agora “fake news”.
Chico
Mendes “foi irrelevante” e, além do mais, “grileiro”. Quem proclama isso, com
ar triunfal, sem se enrubescer, do topo de embriagadora autossuficiência, é o
ilustre Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Ele deixa cair essa opinião
perante a estupefação de uma plateia de jornalistas no programa “Roda Viva”, da
TV Cultura. Demonstra conhecer bulhufas, ou, o que é pior, menosprezar
absurdamente a história legendária do desassombrado brasileiro que, em
admirável trajetória profissional como líder seringueiro, enfrentando riscos e
dissabores descomunais, pagando com a própria vida tributo à defesa intimorata de
causas cívicas e humanitárias nobres, granjeou o respeito e a admiração
universal. O Ministro menoscaba a importância das honrarias concedidas, em
todas as partes do mundo, a alguém que se transformou, ao tempo de vida, em
símbolo itinerante na árdua batalha em favor da preservação do meio ambiente. O
registro infeliz é desses que, num primeiro momento, a gente toma por
informação falsa.
Outra
que também andou falando pelos cotovelos foi a ilustre Ministra da Família,
Mulher e Direitos Humanos Damares Alves. As palavras, a seguir reproduzidas, de
sua lavra, provocaram reações de autoridades holandesas. “Na Holanda –
asseverou – os especialistas ensinam que o menino tem que ser masturbado com
sete meses de idade, para quando chegar à fase adulta ele possa ser um homem
saudável sexualmente. Já a menina tem que ter a vagina manipulada desde cedo
para que desfrute de prazer na fase adulta.” Da dita cuja também, pessoa que
vem ganhando notoriedade por afirmações bombásticas, é a revelação anotada na
sequência: “A gente recebeu uma
pesquisa que (mostra que) o Brasil é o pior país da América do Sul para criar
menina. Se eu tivesse que dar um conselho para quem é pai de menina, mãe de
menina: foge do Brasil. Você está no pior país da América do Sul para criar
meninas” — afirmou a ministra em entrevista ao jornalista Reinaldo Oliveira.
Também
centrado na vertente educacional, o ilustrado Ministro da Educação Ricardo Vélez
emitiu declaração sustentando que “as universidades devem ficar reservadas para
uma elite intelectual”... Ora, veja, pois!
Outro
surpreendente pronunciamento chegado ao conhecimento público decorre da
apresentação, no Parlamento Federal, de um projeto do Deputado Márcio Labre,
estipulando a proibição da venda de anticoncepcionais, do DIU e da chamada
“pílula do dia seguinte”. Dizendo contar “com a proteção de Deus”, ele assevera
que sua proposição “tem por finalidade combater frontalmente uma farsa e fazer
valer, na prática, a inviolabilidade do direito à vida”. Acrescenta que a
proposta “visa proteger a saúde da mulher”...
Num
contexto diferenciado dos fatos acima relatados, o leitor atento se deparou ainda
com notícia, pra dizer o mínimo incrível, recolhida em canto de página de
jornal. Como se já não bastasse a avalancha de informações impactantes e
dolorosas referentes à predação bestial institucionalizada das riquezas
minerais existentes nas entranhas de um Estado apontado, nos livros didáticos dos
tempos de meninice, como sendo “coração de ouro, num peito de ferro”, somos
inopinadamente “brindados” com mais essa outra informação aqui concernente a
uma ousadíssima ação clandestina de vandalização de jazidas em áreas que
integram o patrimônio público. A Polícia Federal acaba de desmantelar esquema
criminoso voltado para a extração não autorizada de um manancial mineral
valioso, que vinha funcionando há mais de um decênio. A operação “SOS Canastra”,
levada a efeito no Parque Nacional da Serra da Canastra, Minas Gerais,
identificou 9 locais, alguns com mais de 2 quilômetros de extensão, “reservados”
pela quadrilha desbaratada à exploração do quartzito. Em consequência das
atividades criminosas detectadas na região mencionada, a Justiça Federal de
Passos, sul de Minas, expediu – vejam só o tamanho da encrenca! - 160 mandados,
sendo 77 de busca e apreensão, 73 de prisão e 10 de apreensão de caminhões e
equipamentos. As maquinações ilícitas envolvem grupo de elementos domiciliados em
Belo Horizonte, Alpinópolis, Passos, Itaú de Minas, Carmo do Rio Claro, São
João Batista do Glória, Piumhi e, também, Batatais (interior de São Paulo). O
sistema ilegal desarticulado, responsável por consideráveis danos ambientais, dispunha
de frota de veículos, depósitos para guarda de minério, oficinas de lapidação e
atividades intensas de vendas dos produtos trabalhados nos diversos Estados e no
exterior.
sexta-feira, 1 de março de 2019
Cheguei a pensar que fossem “fakes”
Cesar Vanucci
“Não se espantar com nada talvez seja o
único meio...”
(Horácio,
65-8 a.C)
Tempos danados de confusos. Tempos
sujeitos a inimagináveis chuvas e trovoadas, a súbitos dilúvios lamacentos. A
berros esganiçados de sirenes anunciando o apocalipse, concitando pacatos
cidadãos a deixarem suas casas em desabalada carreira sem saber ao certo quando
ou se a elas poderão retornar. Tempos amalucados de insidias apelidadas de
“fakes”, disseminadas com impetuosidade sorrateira de grama tiririca. Tempos de
insanidades propagadas via eletrônica por vespas anônimas que vêm das sombras e
que nas sombras se refugiam. Tempos de perplexidade nutrida por realidades incômodas
e dilacerantes, impostas por diversificadas modalidades de desvario
comportamental. Tempos de confusão de espírito que dificulta para muitos
diferenciar na avalancha de notícias circulantes o que é verdadeiro do que é
falso.
Divulgou-se intensamente, nos últimos
dias, que a alta direção da Vale estava careca de saber que a represa de
Brumadinho poderia romper a qualquer momento, mas furtou-se a adotar qualquer
medida preventiva tecnicamente recomendável em tentativa que pudesse evitar a
brutal tragédia que enlutou a Nação. Priorizando a conveniência de garantir
lucros mais polpudos para abonados acionistas, ignorou solenemente suas
responsabilidades humanitárias, sociais e institucionais, as regras éticas mais
comezinhas, concorrendo assim para que a catástrofe ocorresse, ceifando vidas
preciosas, devastando propriedades e desfigurando o meio ambiente. Ao tomar
conhecimento de tão insólita informação, este desajeitado escriba, tanto quanto
uma legião imensa de ingênuos cidadãos, pôs-se a conjecturar se tais revelações não seriam fruto de nauseante
perfídia. De alguma “fake” revestida de
suprema crueldade. Todos nos equivocamos. Pasmo dos pasmos! Não se tratava de
“fake” coisíssima alguma...
Em entrevista a revista de grande
circulação, o ilustríssimo Ministro da
Educação Ricardo Véles Rodrigues, colombiano naturalizado brasileiro em 1955
aos 54 anos, teria deixado cair espantosa afirmação: “O brasileiro viajando é
um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o acento salva-vidas no avião, ele
acha que sai de casa e pode carregar tudo.” Acreditei, piamente, num primeiro
momento, na mais cândida inocência, que se tratasse de “intriga da oposição”. A
frase atribuída a Sua Excelência jamais teria sido proferida. Tudo se resumiria
a mais uma “fake”, decorrente de sensacionalismo jornalístico barato. Torci
pacas para que assim “sesse”. Não era.
Li, nas assim denominadas redes sociais
- que nalguns instantes provocam perturbadoras reações na mente das pessoas –
e, ao depois, em jornal, que o ilustre senador Renan Calheiros, ex-governador,
ex-presidente da Câmara Alta, teria sido acometido de reação furibunda, botando
pra fora insuspeitada prepotência machista, diante da crítica de uma jornalista
que o chamou de arrogante. Assim teria se pronunciado o conhecido parlamentar,
figura de proa, há anos, na cena política brasileira: Ela (a jornalista) “acha
que sou arrogante. Não sou. Sou casado e por isso sempre fugi ao seu assédio.
Ora, seu marido era meu assessor e preferi encorajar Geddel (Vieira Lima, ex-deputado
baiano, aquele cara que guardava fortuna em caixas de sapato num apartamento
alugado em Salvador) e Ramez (Tebet, senador já falecido), que chegou a colocar
um membro mecânico para namorá-la. Não foi presunção. Foi fidelidade.” Li,
reli, tornei a ler e a reler. Inclinei-me fortemente a admitir que se tratasse
de “fake” de supremo mau gosto. Acredite, se quiser! Não, não era “fake”...
Conhecida de muitos anos, modesta
funcionária pública estadual comenta seu desaponto com relação a uma decisão
que alega ter sido tomada pelo governo recém-empossado. Ela está se referindo
ao Excelentíssimo Governador Romeu Zema, que chegou ao Palácio da Liberdade
lastreado em apoio popular impressionante, autor de uma declaração recente que
tem dado o que falar, a respeito da catástrofe de Brumadinho, da qual
resultaram mais de 300 mortos e desaparecidos: “Parece que desta vez eles
reconheceram o erro apesar do incidente”. Referia-se à Vale... Referia-se, ora,
veja, pois, à Vale...
Voltemos agora à decisão que molestou a funcionária.
Ato do Executivo teria determinado, em função do pesado endividamento recebido
como legado dos antigos administradores do Estado, que o décimo-terceiro
salário correspondente a 2018, ainda não quitado, fosse pago em 11 parcelas
mensais, para todos os servidores. Retificando: para o grosso do contingente de
servidores. Algumas categorias especiais de agentes públicos, por sinal os mais
bem remunerados, seriam poupadas dessa desagradável contingência. Redargui, com
certa veemência, ao que estava sendo transmitido pela funcionária. “Duvido que
isso possa acontecer”, sustentei, argumentando com a tese de que todos são
iguais perante a lei. Cheguei a dizer que a revelação não passaria, no duro da
batatolina, de outra “fake”. Pois não é que tornei a me equivocar? Tive que me curvar perante a contundente
evidência de que a notícia transmitida não era “fake”, servindo para comprovar,
de novo, que agora como sempre tem sido alguns são mais iguais perante a lei
...
Os poetas sabem das coisas (II)
Cesar Vanucci
“Minha/ casa/ minha/ vida/ lama/ tomou!”
(Andreia Donadon
Leal, poeta aldravianista)
Volto a explicar. Inspirado no tsunami de lama que
varreu do mapa, em 2015, o povoado de Bento Rodrigues, e produziu danos
irreparáveis noutras paragens, um grupo de versejadores de escol, filiado à
corrente literária aldravianista, deu forma poética, num livro de 300 páginas
intitulado “Mineralamas”, ao inconformismo e à revolta brotados da alma
popular. Lamentou o acontecido em Mariana e o lamento se ajusta, também, ao que
ocorreu, três anos depois, em Brumadinho.
O grupo ergueu mais do que um protesto. Valeu-se da
poesia, “repórter milenar dos feitos heroicos ou dos fracassos humanos”,
conforme acentuado na publicação, para emitir um brado de alerta contra a
predação desatinada, com consequências sempre catastróficas, dos recursos
naturais colocados à disposição do ser humano para celebrar a vida. E não para
espalhar morte e destruição.
A Aldravia nada mais é do que uma forma de expressão
lírica sintética, escorada em apenas seis palavras. Despontou para a vida
literária na primaz da manifestação poética mineira, Mariana, por obra, arte e
espírito vanguardeiro de um senhor time de intelectuais criativos e talentosos.
Conquistou adeptos em todas as partes do território continental brasileiro,
alcançando, ao depois, plagas outras d’além mar.
Para apreciação do culto leitorado, selecionei mais
aldravias divulgadas no já citado livro. Antes, porém, de repassá-las quero
aqui reproduzir texto poético de um personagem genial da literatura brasileira
que, pelo visto, também sabia das coisas que costumam rolar no pedaço da
exploração minerária, quando esta se processa em termos de abominável
vandalização. Estou falando de Carlos Drummond de Andrade e de um poema seu de
mais de trinta anos atrás: “O rio? /É doce./ A Vale?/ amarga./ Ai, antes fosse/
Mais leve a carga./ Entre estatais/ e multinacionais,/ quantos ais!/ A dívida
interna./ A dívida externa. / A dívida eterna./ Quantas toneladas exportamos/
de ferro?/ Quantas lágrimas disfarçamos/ Sem berro?”
Chegam, agora, as aldravias.
Gabriel Bicalho: “mineiro/vira/minério:/cimenta/seu/cemitério”;
“dinheiro/
apaga/ essa/ praga/ da/ lama?”; lama/ não/ lava:/ leva/ a/ lavoura!”;
“quanto/ vale/ um/ vale/ de/ lama?”. Else Dorotéa Lopes: “Nem/ casa/ de/ Deus/
lama/ perdoou.”; “reescrevam/ a/ geografia/ pois/ lama/ modificou”.Elizabeth
Rennó: “nada/ mais/ restou/ além/ do/ telhado.”; “Na/ triste/ madrugada/
Mariana/ desacordada/ enlameada.”; “memórias/ apagadas/ águas/ contaminadas/
localidades/ inundadas.”Dilma Rocha de Athayde: “lama/ descendo/ apressada/
cidade/ morrendo/ soterrada.”. Cyro Mascarenhas Rodrigues: “mineradora/ insana/
haja/ lucro/ morte/lama.”; “vale/ estéril/ pela/ vale/ quanto/ vale?”Claydes
Regina Ricardo Araújo: “silêncio/ dos/ pássaros/ clamor/ da/ natureza.”;
“perseverança/ solidariedade/ doação/ assobio/ de/ luz.”Auxiliadora de Carvalho
e Lago: “impiedade/ incapacidade/ irresponsabilidade/ gerando/ terrificante/
imagem.”Anício Claves: “lama/ abandona/ carro/ em/ telhado/ alheio.”; “mar/ de/
lama/ lama/ ao/ mar.”Joreani Adalmar Netto: “se/ todo/ mundo/ sabe/ ninguém/
viu?”; “semáforo/ diz/ adiante/ verde/ em/ extinção.”Luiz Carlos Abritta:
‘mortos/ choram/ pelos/ vivos/ à/ deriva.”; “aí!/ Mariana/ jazida/ de/
história/ mutilada!”Marcus Stoyanovith: “tragédia/ anunciada/ ganância/
confirmada/ Homem/ denunciado.”; “óxido/ vivo/ marreco/ morto/ homem/
solto.”Matusalém Dias de Moura: “jaz/ sob/ lama/ pedaço/ de/ Mariana.” “rio/
doce/ corre/ sujo/ de/ ganância.”Miriam Stella Blonski: “meio/ ambiente/ chora/
lágrimas/ de/ barro.”; “Natureza/ morta/ imagem/ petrificada/ de/ barro.”Luiz
Fernando dos Santos: “pintaram/ nosso/ rio/ de/ outra/ cor.”; “lavam/ casas/
com/ lama/ altamente/ concentrada.” Luiz Poeta: “só/ rios/ secam.../ lágrimas/
nunca/ evaporam.”; “quantas/ lamas/ ainda/ teremos/ que/ chorar?”; “são/
marcos/ são/ marcas/ são/ corpos.” Maria Beatriz Del Peloso Ramos: “ganância/
econômica/ moldou/ lágrimas/ de/ barro.” Maria Lopes: “lamento/ tormento/
muito/ sofrimento/ pelo/ rompimento.” Nilze Monteiro: “abriu/ comporta/ inferno/
doce/ lembrança:/ passado.” J.B.Donadon-Leal: “sobre/ rejeitada/ lama/ sol/
resseca/ esperança.”;J.S.Ferreira: “um/ dia/ trem/ emudece/ cidade/ acorda.”
Assinar:
Postagens (Atom)
A SAGA LANDELL MOURA
Caos e Poesia: Um senhor espetáculo musical!
Obra merece ser reverenciada Foto: Denise dos Santos “Arte é pura catarse”. (Carol Saletti – Dirigente da Escola e Espaço de Dança Casulo) ...
-
*Cesar Vanucci “Queremos resolver o problema o mais rápido possível” (Vice-Presidente Alckmin) Avaliada pelo prisma Ju...
-
*Cesar Vanucci “Registro quase indestrutível para a posteridade.” (Escritor, J.A.Fonseca) O Parque Nacional do Peruaçu, com s...

