quinta-feira, 19 de março de 2026

Duas mulheres destemidas


Cesar Vanucci*

“Coragem é a dignidade colocada sob pressão” (John Kennedy)

O relato a seguir foi feito em reunião evocativa do Dia da Mulher. Repasso-o agora, com justificável satisfação ao estimado leitorado. 

Quando John Kennedy foi assassinado, em 63, uma rede de TV retirou a programação, colocando no lugar vinheta com a palavra “vergonha”. Foi a forma encontrada de traduzir a santa ira da sociedade diante da ocorrência que afastou da cena mundial uma liderança carismática, comprometida com a construção de um mundo melhor.

O estado de choque causado, anos mais tarde, no Brasil, com a cassação dos direitos políticos do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira povoou os corações brasileiros de emoção bem parecida. A sensação de “vergonha” ficou estampada nos semblantes. Só que, por motivos óbvios, era difícil aparecer alguém com suficiente ousadia para tornar pública sua compreensível indignação. No entanto, para espanto geral, apareceu um casal em Uberaba, educadores de escol, sem qualquer militância política, que não se intimidou com a tormenta da hora. Os nomes da destemida dupla: Alda Vanucci Loes Frateschi e Alberto Frateschi, ambos de saudosa memória. Ele, maestro renomado, ela esplêndida guerreira consagrada a causas culturais e humanitárias. Ambos fundadores do conceituado Conservatório Musical de Uberaba. Em manifesto de página inteira, estampado nos diários locais, Alda e Alberto expressaram indignação e inconformismo. Deixaram cravado, para a história, em soberbo pronunciamento, o seu protesto. Exemplo isolado e raro de coragem cívica, extremamente valorizado, por haver brotado de pessoas do povo não envolvidas nas engrenagens sedutoras do poder.

Muitos anos depois, outra cena empolgante. A Polícia Militar MG prestava, numa bela cerimônia, tocante homenagem à memória do cel. Américo de Magalhães Goes. Um humanista dotado de invejável bagagem cultural. O agradecimento pela carinhosa manifestação,  ficou a cargo da viúva, a também saudosa Anita Rosa de Magalhães Goes. Num discurso memorável, repassado de emoção, acompanhado com respeito por centenas de convidados, civis e militares graduados, ela falou de sua gratidão. Para revelar depois, em tom de veemente lamento, expressando revolta, que naquele preciso momento um grande amigo seu, Juscelino Kubitschek de Oliveira, encontrava-se injustamente preso, depois de haver sido injustamente cassado. Mesmo os que conheciam e admiravam Anita pelos seus extraordinários dons, autoridade moral e engajamento em causas nobres, ficaram surpreendidos e eletrizados com esse gesto de notável destemor.

Estou contando essas historietas, primeiramente, para realçar posturas pessoais dignas de louvor, como contribuição à memória cívica. E, segundamente, para dizer, com certa pontinha de orgulho na fala, que essas mulheres são, ambas, modéstia à parte, primas deste desajeitadíssimo escrevinhador.

cantonius1@yahoo.com.br

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