sexta-feira, 5 de novembro de 2021

 

Relembrando santa criatura

 

                                       Cesar Vanucci

 

“Irmã Maria da Glória mantinha um diálogo constante com Deus.”

(Padre Antônio Tomas Fialho, de saudosa memória)

 

Na roda de amigos em que se falava de prodígios atribuídos à saudosa Irmã Maria da Glória, de Macaúbas, prometi relatar história emocionante e instigante a seu respeito. Aqui está. 

No livro “Um certo Dom”, em que retrato passagens da lendária história do saudoso Arcebispo Alexandre Gonçalves Amaral, falo das visitas periódicas que o Prelado fazia, a um refúgio de paz e orações chamado Mosteiro Nossa Senhora da Glória, localizado em Macaúbas. 

Quem costumava levá-lo de carro até aquelas paragens era minha esposa Addi, que acabou ficando conhecida das religiosas do lugar como a “chofer de Alexandre”. 

Tal circunstância permitiu-lhe aproximação com figura humana maravilhosa, acrisolada de dons especiais, a Irmã Maria da Glória. Essa meiga criatura, que fez da vida, pela oração e com demonstrações contínuas de amor ao próximo, um diálogo permanente com Deus, nutria por Dom Alexandre filial afeição. Ele, a seu turno, dispensava-lhe, bem como às suas companheiras de clausura, paternal solicitude. Esse entrelaçamento fraternal e afetividade criou o pano de fundo propício a uma situação cheia de encantamento, se bem que misteriosa, que acabou colocando em nossas mãos um presente inesperado. Um relicário muito valioso. No livro já mencionado, prometi contar também o que se passou. 

Cabe registrar que à volta da Irmã Maria da Glória, independentemente – como é óbvio supor – de sua vontade, estabeleceu-se, por força de edificantes lições de vida, uma poderosa e contaminante onda de empatia popular, que não deixou de tomar, com os tempos, a clara feição de uma devoção. Para um contingente apreciável de pessoas, a trajetória, pela pátria terrena, da freira de Macaúbas, teve timbre de indiscutível santidade. A crença comunitária a esse respeito brotou da postura humilde, impregnada de humanismo e espiritualidade, assumida, vida afora, por Irmã Maria da Glória. As informações transmitidas, boca a boca, relativas a graças alcançadas com sua intermediação, eram e continuam sendo significativas. Muitas das notícias reportam-se a fatos considerados prodigiosos, na avaliação singela dos devotos. 

Tudo começou, no episódio que estou em condições de relatar, com um frasco de água benta trazido do Mosteiro, depois de um encontro com a saudosa Irmã. Porções do conteúdo do frasco foram oferecidas, no curso de algum tempo, a amigos e conhecidos. O restante do líquido foi deixado num copo de cristal que permaneceu guardado por meses num armário. Quando, num belo dia, o copo foi retirado da prateleira, deparamo-nos em casa, entre perplexos e comovidos, com surpreendente e instigante revelação. A água benta havia se evaporado toda. Mas no fundo do copo de cristal podia ser claramente distinguida uma crosta de forma circular com enigmática sinalização: muitas estrelas e algumas cruzes. Uma pergunta desconcertante nos acorreu de pronto: figurações geométricas podem surgir de um processo de evaporação numa superfície de vidro? Pusemos água benta, de variadas procedências, e água de filtro noutros copos idênticos e ficamos esperando pelos resultados. Nada ligeiramente parecido aconteceu. A história do copo foi levada ao conhecimento da própria Irma Maria da Glória antes que ela partisse primeiro. 

A resposta que deu ao pedido de explicação acerca do – chamemos assim – instigante fenômeno tomou a forma de um sorriso franco, escancarado, encharcado de suavidade e santa ternura, algo muito seu. 

Um venerável sacerdote da comunidade da Boa Viagem, Padre Francisco, já falecido, examinou os intrigantes caracteres do copo, brindando-nos com observação igualmente enigmática: “Não procurem entender os desígnios de Deus.” 

Desfecho da história: com alguns sinais já esmaecidos pelo perpassar dos anos, o copo foi conservado, por largo espaço de tempo, como um precioso relicário.

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