sábado, 5 de dezembro de 2020

A linguagem universal do ecumenismo

 Cesar Vanucci 

 “O que supera o fazer e o saber é o Amor.”
 (Oração do Bhagavad-Gita) 

 Constitui sempre motivo de contentamento, para este desajeitado escriba, anotar neste acolhedor espaço de divulgação o tema ecumenismo. A linguagem ecumênica está sintonizada com o autêntico sentimento do mundo. Harmonizada com os verdadeiros propósitos do projeto da Criação. Suas raízes estão fincadas da proposta de serena beleza vinda do alto e do fundo dos tempos. As malquerenças de cunho religioso que, volta e meia, no curso da história, desembocam em inenarráveis tragédias, estão em gritante dissonância com os textos sagrados, de louvor à divindade, das diferentes culturas e tendências. É o que se deflui da releitura prazerosa de livro muito especial, elaborado por um frade dominicano que conhecemos nos anos 50. Ele se chamava frei Raimundo Cintra. Faleceu no final da década de 60. Compunha o quadro sacerdotal responsável pelos bons trabalhos desenvolvidos na paróquia de São Domingos, de Uberaba, onde se acham localizados a casa matriz da congregação dominicana no Brasil e um dos mais belos templos do acervo arquitetônico católico. Ministrando curso de História das religiões, Raimundo Cintra produziu bela antologia, enfeixando orações que exprimem a relevância do ecumenismo. Tal circunstância foi muito bem captada pela empresária cultural Rose Marie Muraro. Assinalando que o livro constituiu “fenômeno único” em seu itinerário pessoal de vida, Rose registra que, por meio dele, “pude perceber como todas as religiões em seus cumes místicos falam a mesma linguagem em todos os espaços e todos os tempos: a linguagem da ligação com a totalidade.” Intitulada “As mais belas orações de todos os tempos”, envolvendo como coautora, responsável pela seleção e tradução de textos, a já citada pensadora, e contando com prefácio de ninguém mais nem menos do que Tristão de Athayde, o inesquecível Alceu Amoroso Lima, a obra é um cântico universal por onde a voz da humanidade se eleva a Deus. O próprio frei Cintra fala, na introdução, dos caminhos que, desde sempre, conduzem o homem a Deus: a busca do amor, da verdade e da beleza. Mostra, também, que a oração é uma atitude vital. Uma forma de liberação dos mais nobres impulsos da alma em direção ao Absoluto, ao Inominado, a Deus. Nas orações que compõem a primorosa coletânea, tanto nas dos chamados povos primitivos, dos povos da antiguidade, quanto nas dos povos da chamada era moderna da civilização, o que se percebe, com clareza, é uma identificação bastante forte em termos de emoções e de sentimentos. Algo que extrapola tempo, território, conceitos culturais, dogmas, regras, latitudes físicas e psicológicas e que torna a aventura humana uma procura amorável e fascinante de integração com o cosmos. “Deus é aquele que sentimos em nós quando praticamos uma boa ação.” Haverá quem discorde, não importa a crença religiosa a que esteja vinculado, do teor da mensagem de singela beleza extraída dessa prece do povo iename, tribo que povoou, em tempos idos, as terras norte-americanas? Em suas invocações ao Altíssimo, os gregos do século VIII a.C. chamavam Zeus de rei soberano, “pai dos deuses e dos homens”. E proclamavam, com fervor: “Um sinal apenas de sua fronte basta para sacudir o Universo! És justo e poderoso, punes implacavelmente os maus, fulminas os orgulhosos, recompensas os bons e os humildes.” Neste “versículo da luz”, atribuído ao profeta Maomé, os muçulmanos expressam sua devoção a Alá: “Deus é a luz dos céus e da terra. Sua luz é como um nicho onde se acha uma lâmpada. E este é como um astro brilhante. Seu óleo provém de uma oliveira abençoada. Que não vem do Oriente, nem do Ocidente.” Numa prece a Viracocha, das tradições incas, louva-se com estas palavras a divindade: “Senhor antigo, Senhor longínquo (...) que criou e estabeleceu todas as coisas, dizendo: que seja o homem, que exista a mulher, (...) permitirá que eu possa viver em bravura, em segurança.” O “Hino a Horus”, entoado pelos egípcios na época dos faraós, invoca o “Pastor que apascenta o rebanho” e que “habita nas profundezas do céu”, pedindo-lhe assegure aos homens “vida e repouso.” A substanciosa coletânea revela ser universal e permanente a linguagem dos corações fervorosos. Igual em todos os tempos e em todas as partes. É só comparar as ligeiras amostras reunidas com as preces feitas em nosso cotidiano. Textos como os enunciados ajudam a entender o sentido da vida. E a enaltecer o ideal ecumênico, alojado nas mentes mais espiritualizadas ao longo da extensa jornada humana pela pátria terrena.

sábado, 28 de novembro de 2020

 

 

Racismo, praga daninha


Cesar Vanucci


“Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas estorvam e inundam as avenidas para fazer com que se demore duas horas para chegar em casa. E tudo para ver um macaco. Brasileiro, mas ainda macaco.”

(Carlos Manuel TreviñoNúñez, político mexicano, em ofensa racista a um atleta brasileiro contratado, anos atrás, por clube de seu país)


O “Dia Nacional da Consciência Negra”, cuja celebração é criticada em alguns retrógrados setores políticos, confere-nos a oportunosa ensancha de tecer considerações sobre o racismo, essa praga daninha. Uma espécie de tiririca. Ou seja, essa graminha manhosa descrita num saboroso poema roceiro magistralmente recitado pelo Rolando Boldrim em seu apreciado programa na TV Cultura. Lamentavelmente, este escriba não conseguiu guardar o nome do autor do poema. Os versos, de singelo lirismo, falam que “a gente pode arrancar a grama tiririca, sacudi-la, virá-la de raiz pro ar, mas qua! – um fiapo escondido no torrão faz a peste vicejar...”.

 O racismo contamina, produz devastadores estragos. Na escala dos defeitos humanos mais abjetos atinge topo everestiano. Quer dizer, situa-se acima, muito acima, da dose máxima de tolerância caridosamente suportável na convivência comunitária. 

 O que o babaca mexicano acima citado andou dizendo, tempos atrás, na boçal ofensa ao atleta Ronaldinho Gaúcho, referindo-se à aglomeração de torcedores na apresentação do jogador à torcida do clube que o contratou, é amostra loquaz de um comportamento abominável, de teor racista, volta e meia detectado,  sobretudo no setor dos esportes que aglutinam multidões.

 Os agravos racistas à dignidade humana são constantes.

Aqui e alhures, defrontamo-nos com iradas manifestações de intolerância merecedoras de vigoroso repúdio.  Nos “arquivos implacáveis” conservamos um punhado de histórias relacionadas com o efervescente tema. Se a elas nos reportamos, de vez em quando, é para documentar ou ilustrar a incômoda permanência da questão racista no rol das preocupações humanas mais angustiantes. Os Estados Unidos da América acumulam exemplos de beligerância racista. Numerosos deles, como ocorreu ainda recentemente, ganham extraordinária retumbância universal. Falaremos abaixo de um desses desatinos racistas. Fez jus a manchetes.

 O autor do desatino, figura de posto graduado na administração pública, seguramente militante de alguma das facções fundamentalistas ocupadas, em diversas partes do mundo, em disseminar teses amalucadas com reinterpretações da história, da ciência, e visível hostilidade aos ideais e pensamentos democráticos, humanísticos e espiritais que enobrecem a existência humana, cismou de botar pra fora toda ferocidade de seu “credo racista”. Revelou-se um inimigo declarado do pensamento liberal e democrático. Bradou, a plenos pulmões, com todas as letras, pontos e vírgulas, que estimulara prática de aborto no seio da comunidade negra representa maneira altamente eficaz, jurídica e eticamente, de reduzir os índices da criminalidade em seu país. Valha-nos Deus, Nossa Senhora! Que tipo de atrocidade não estará “apto” a cometer um indivíduo como esse em sua aversão tão tresloucada aos direitos fundamentais? Provavelmente se disporia, de bom grado, a comprimir com o joelho o pescoço de pessoa indefesa, estirada no chão, asfixiando-a até a morte...

O desvario mencionado provocou, entre compreensíveis reações de indignação, uma manifestação burocraticamente comedida de censura da alta cúpula governamental estadunidense, que se agarrou à inconsistente tese de que episódios do gênero constituiriam ações isoladas no contexto comunitário. Tese, com absoluta certeza, enganosa. Estrepitosamente desmentida na rotina cotidiana, como comprova o noticiário nosso de cada dia ao relatar confrontos de rua sangrentos produzidos frequentemente pela virulência racista.

Vamos adiante. Às pessoas atentas não passa despercebido o fato de que, em aeroportos dos EUA e Europa, guardas aduaneiros estabelecem pelo olhar carregado de desconfiança uma triagem prévia dos passageiros desembarcados. Em momentos de surto histérico, muitos viajantes são impedidos até de desembarcar. As pessoas claras desfrutam, de modo geral, nesses portais de chegada, de tratamento especial, com garantia de circulação ágil pelos guichês, direito a mesuras e acenos cordiais. Quando chega a vez do grupo dos amorenados, das pessoas de tez escura, pele amarela, aparência oriental, desvanece-se o sorriso cúmplice, substituído por polidez glacial, e por triques-triques que fazem a glória da rotina burocrática. Os semblantes crispados lembram os mal-humorados guardas russos e alemães de fronteira escalados para conferirem passaportes, revistar passageiros e bagagens dos antigos filmes dos gêneros de guerra e de espionagem. Não havia quem na poltrona do escurinho do cinema não sentisse, ao avistá-los, um baita calafrio na espinha.

 

Uma só raça, a humana


Cesar Vanucci


“É preciso mais coragem para amar do que para odiar.”

(Lázaro Ramos, ator, explicando o que o levou a produzir o documentário “Falas negras”, levado ao ar pela “Rede Globo”, no Dia Nacional da Consciência Negra.)

 

A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra é enxergada, por alguns, com manifesto desdém, quando não com aberta hostilidade. Entre os militantes da reduzida, posto que barulhenta e aguerrida falange talebanista nativa, há quem, até mesmo, não se constranja, fazendo cara de paisagem, em declarar que não houve escravidão no Brasil. Só fica faltando mesmo dizer – se é que já não foi dito por aí, em meio ao desvario negacionista solto na praça -, que a “imigração maciça” registrada, por longo e tenebroso período, até o final do século XIX, “proporcionou” a milhões de africanos “a benfazeja chance do desfrute de condições de vida superiores às de seus pagos natais”... Minha Nossa Senhora da Aparecida!

O preconceito racial estruturado, pra quem tem olhos pra ver, ouvidos pra escutar e sensibilidade social para perceber, é fato irretorquível e impactante. Os negros e pardos são mais de 53 por cento da população brasileira. Mas não costumam ser vistos – e não por falta de desejo ou vontade -, em lugares onde a evolução civilizatória já conseguiu estabelecer padrões superiores de conforto e bem estar aos seres humanos. Sua participação em quadros diretivos, em funções executivas elevadas, na vida pública e na esfera privada, está muito, mas muito mesmo, aquém das possibilidades que podemos, legitimamente, delinear ao ter-se em mira a proporcionalidade demográfica assinalada. As estatísticas são reveladoras. Sete de cada dez brasileiros que habitam moradias inadequadas – casas desprovidas de um mínimo de conforto e higiene, sem água encanada, rede de esgoto e, até mesmo, energia elétrica -, são negros ou pardos. É o IBGE que atesta.

De dados atordoantes extraem-se, ainda, coisas assim: as mulheres negras acham-se mais expostas a riscos de atentados mortais do que as mulheres brancas. A diferença é de 64 por cento. Nos casos de ferimentos provocados por violência, bem como nos de mortes, o índice percentual correspondente aos negros é maior e sempre ascendente. Existe hoje, nas penitenciárias e cadeias, cumprindo penas, aguardando sentenças, um contingente infinitamente maior de negros. Na média nacional, 62 por cento das mulheres encarceradas são negras ou pardas. Há Estados onde esse indicador chega a 97 por cento. Sustentando que a desigualdade, nesse contexto racial, começa no útero, a jornalista Cláudia Colucci anota, na “Folha de São Paulo”, que as mulheres negras fazem muito menos pré-natais do que as brancas e que o registro de mortes é bem mais elevado entre as pacientes de cor. Seguindo essa linha de raciocínio, apura-se ainda que a probabilidade de uma criança negra vir a falecer no primeiro ano de vida é de 22 por cento maior.

As constatações desse estado de coisas chocantes jorram impetuosamente. Todas as estatísticas disponíveis convergem implacavelmente numa única direção. Em todos os itens que dizem respeito a acessos de promoção social oferecidos, em amplitude universal, pela tecnologia, pelas políticas públicas de inclusão nas áreas da saúde, educação, lazer, na habitação, alimentação e por aí vai, as pessoas de epiderme escura estão sempre em desvantagem. Se é verdade que o drama da desigualdade social atinge multidões consideráveis, sem distinção de cor, não deixa de ser verdade, também, que seus efeitos perversos alvejam mais gritantemente, em termos comparativos, integrantes da comunidade negra.

 A discriminação e intolerância são identificadas continuamente em flagrantes da vida cotidiana.  Ocorrem, com frequência perturbadora - todos nós estamos suficientemente informados -, em clubes, escolas, locais de trabalho, nas ruas. Em supermercados...

As reações de inconformismo e indignação contra essa aberração comportamental ilegal, desumana, vêm se expandindo de forma elogiável e animadora, envolvendo segmentos cada vez mais representativos da sociedade. Os defensores dessa causa entendem perfeitamente que só existe uma raça, a humana. Cor de pele é detalhe anatômico. A inclusão do Dia Nacional da Consciência Negra no calendário das comemorações populares deriva de impulsos generosos e anseios ardentes de gente que, ancorada em valores jurídicos, cívicos, morais, democráticos, sonha com uma pátria amada Brasil liberta dessa praga daninha, o preconceito racial. Mesmo que e apesar de, à sua volta, aqui e ali, uma que outra voz desafinada se esforce por ser ouvida com o intuito de transmitir, a propósito do candente assunto, palavras ambíguas, conformistas, confusas, enfim, negacionistas. Tudo imensamente distanciado do verdadeiro sentimento nacional.

sábado, 21 de novembro de 2020

 A cor do gato

 

Cesar Vanucci

 

“Vacinação em massa e gratuita”

(Joseph Biden, presidente do EUA)

 

Assim que definida, de modo insofismável, sua escolha como presidente dos Estados Unidos da América, Joseph Biden anunciou vacinação gratuita contra o Covid-19 para todos. Traduziu irrefreável vontade das ruas. Todas elas. Ruas de seu país. Ruas do mundo inteiro.

Uma vacina que seja capaz de assegurar imunização contra o flagelo que açoita a humanidade constitui, certeiramente, nesta quadra da existência humana, aspiração suprema ardentemente compartilhada pela gente do povo em todos os quadrantes do planeta. Independentemente de nacionalidade, cultura, etnia, credo, idioma, hábitos comportamentais, condição social, todos, em todos os lugares, anseiam pelo momento histórico em que a Ciência irá fazer uma proclamação liberando a fórmula, ou as fórmulas farmacêuticas eficazes para o combate vitorioso ao vírus letal. Tanto as lideranças conscientes, quanto a opinião pública compenetrada de suas prerrogativas nas práticas cidadãs estão suficientemente informadas de que a ela, Ciência, é que toca proferir a decisão acerca dos procedimentos corretos a serem adotados, na momentosa questão da vacinação, no sentido de garantir a almejada proteção das populações.

A “politização da vacina”, acirrando fastidiosas polêmicas, dando vaza a egocentrismos e a reações demagógicas, bem como a manifestações histéricas fundamentalistas e teorias conspiratórias dos “terraplanistas” de carteirinha, coloca em desconforto a sociedade. Agride o sentimento das ruas. O sentimento nacional. Traz desassossego e confusão. O bom-senso e o acatamento comunitário confiante às recomendações emanadas das instituições científicas oferecem blindagem contra esses fatores de distorção dos fatos e de negacionismos mórbidos e persistentes.

Um velho ditado anota que não importa a cor do gato, o que importa mesmo é que ele, gato, pegue o rato. Trazendo o emblemático conceito para a faixa cotidiana em que ocorrem as estéreis discussões provocadas por uma minoria barulhenta, é o caso de se afirmar, em alto tom, não importar coisa nenhuma que a vacina seja inglesa, americana, chinesa, australiana, alemã, canadense, russa. O que importa, de verdade, é que ela imunize as pessoas contra a enfermidade. Assegure proteção ampla, geral, irrestrita, tenha efeitos duradouros e, quem sabe até, definitivos.

Há uma “torcida uniformizada” global aí, carregada de esperança, aguardando que todos os experimentos laboratoriais em curso cheguem, no mais curto espaço possível, e, se possível também, todos ao mesmo tempo, ao derradeiro e redentor objetivo. E que, ainda, as vacinas possam, todas elas, ser produzidas em escala volumosa suficiente de modo a favorecer utilização maciça imediata, a custo zero, pelas multidões.

A propósito, o provérbio acima citado é chinês. Seu entendimento, universal.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

 

Fábrica de moleque malcriado...

 

Cesar Vanucci

 

“Nenhum taverneiro poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira..."

(De um edital da Câmara da Vila de Catimbal, Minas Gerais, publicado no ano de 1868)

 

Na reorganização, tempos atrás, de minha biblioteca, meti a mão no fundo do baú, desencavando algumas preciosidades em matéria de livros e textos soltos. Foi assim que andei redescobrindo um exemplar do “Elixir do Pagé”, sobre o qual João Dornas Filho assim se expressa: “Um injustiçado pudor sempre dificultou a leitura do que eu considero os melhores versos de Bernardo Guimarães, os seus poemas eróticos. Sugeri, por mais de uma vez, a inclusão desses versos numa antologia galante, que contivesse outras joias líricas da nossa poesia e continuo a pensar que constituiriam um escrínio precioso da nossa poética”.

 

Uma outra publicação rara, ofertada pelo próprio autor, a pessoa de meu apreço pessoal por ocasião de visita que lhe fez, na década de 30, em sua fazenda em Ponte Nova, é o livro que contém o desassombrado pronunciamento nacionalista de Arthur Bernardes, na sessão de 18 de junho de 1937, na Câmara dos Deputados, sobre a Itabira Iron.

Sem que me veja em condições de poder explicar em detalhes, recorrendo apenasmente à memória, como foram parar em meus “arquivos implacáveis”, deparei-me, também, nessa mexida, com documentos de nítido caráter picaresco que me disponho, agora e em dois outros momentos na sequência, pelo seu sabor hilário, a trazer ao conhecimento de meus preclaros leitores. Os textos republicados ajudam a quebrar a sisudez dos comentários sobre a temática política e econômica desta hora de pandemia e pandemônio.

 

O que vem aí é a transcrição de uma portaria editada pela Câmara Municipal de Catimbau, Província de Minas Gerais, no ano de 1868. Foi encontrada nos arquivos do INPM.

“Antônio Pires de Noronha Franco, fiscal aprovado pela Câmara desta Vila de Catimbau Minas Gerais:

Faço saber aos povos desta vara que no dia 1° do mês que vem sairei em triunfo de correção aferindo os pesos de todos, bem como as respectivas.

Art. 1°- Ficam proibidos os regos. Aqueles que não mandarem tapar os que tiverem, bem como todos buracos, serão multados em 20$000 cobre.

Art. 2°- Nenhum animal de ordem das cabras poderá roer pelo vizindário.

Art. 3°- Nenhum negociante ou taverneiro, ainda mesmo Coronel da Guarda Nacional, poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira.

Art. 4°- Negro sem bilhete, tarde da noite na rua, é ladrão. Multa no senhor de 6$000.

Art. 5°- Português de braço dado com negra cativa, alta noite, é fábrica de moleque malcriado e sem-vergonha. Cadeia nos dois, um em cada xadrez, para evitar dúvidas.

Art. 6°- Boi ou vaca deitado na rua de noite, sem lamparina no chifre, do modo que os andantes não o vejam bem, multa de 5$000.

E para que não digam que não sabiam mando afixar este edital e mais outro na porta de frente e de trás do boticário, que é o lugar onde se fala da vida alheia.

Em 4 de março de 1868.”

 

Ofereço, na sequência, a transcrição de uma decisão distribuída no âmbito do Juizado de Direito da comarca de Porto de Folha, Bahia, datada de 15 de outubro de 1833.

 

De xumbregância e capadura...                                                           

Cesar Vanuccci 


“A capadura deverá ser a macete."

(Decisão judicial de 1833)

 

No documento abaixo transcrito, que desencavei do fundo do baú, conta-se como o cabra da peste Manoel Duda, por causa de malefícios praticados contra a mulher de Xico Bento, foi condenado à capação a macete, nos idos de 1833, na comarca de Porto de Folha. Já na súmula da decisão, é sublinhado que “comete pecado mortal o indivíduo que (...) faz coças de suas victimas desejando a mulher do próximo para (...) suas chumbregâncias”.

 

A decisão do Juiz Municipal, acolhendo representação da Promotoria, é abaixo reproduzida, respeitada a ortografia original, inclusive com a expressão xumbregância grafada com “ch”.

 

“VISTOS, ETC.

 

O adjunto de Promotor Público, representa contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’anna, quando a mulher do Xico Bento ia para fonte, o supracito cabra que estava de tocaia em uma moita de mato sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher (...), para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recusasse, o dito cabra abrafolou-se ella, (...) deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimonio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Clementos Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante, e pediu a condenação delle como incruso nas penas de tentativas de matrimonio proibido (...). As testemunhas, duas são de vista porque chegaram no flagrante e bisparam a perversidade do cabra (...). Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer nauvrágio do sucesso faz prova (...):

 

CONSIDERO – que o cabra Manoel Duda, agrediu a mulher do Xico Bento por quem roia a brocha, para conxambrar, com ella, coisas que só o marido della, competia eonxambrar, porque eram casados pelo regime da Santa Igreja Catholica Romana; - que o cabra deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas conxambranças, viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver; - que a paciente estava peijada e que em conseqüência do sucedido, deu à luz de um menino macho que nasceu morto; - que o cabra é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias, tanto que quis também fazer comxumbranças com a Quitéria e Clarinha, que são moças donzellas, e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia;- que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma causa que atalhe a perigança delle, amanhã está metendo medo até nos homens por vias das suas patifarias e deboxes; - que Manoel Duda está em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar a mulher do próximo (...); - que sua Majestade Imperial (...) precisa ficar livre do cabra Manoel Duda para secula, seculorum amém, arrefem dos deboxes e semveregonhesas por elle praticados.

 

POSTO QUE:

Condeno o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez a mulher do Xico Bento (...) a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita A MACETE.

 

A execução deverá ser feita na cadeia desta Villa, Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação depos de 30 dias o mesmo Carcereiro solte o cujo cabra para que se vá em paz. O nosso prior aconselha – Homine debochado eboxatus mulherorum inovocabus est sententias quibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pete.

 

Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares publicos. Apelo ex oficio desta sentença para o Dr. Juiz de Direito desta Comarca.

Porto de Folha, 15 de outubro de 1833

a)  Manoel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício”.

 

Um tal Dionísio...


Cesar Vanucci


“Em minha humilde opinião, ele deve ser enforcado e ficar na forca até feder."

(Trecho da correspondência do Juiz de Paz de um lugarejo baiano a Dom Pedro II)

 

Incomodado com a presença, no lugarejo em que pontificava como representante supremo da lei e da ordem, de um tal Dionísio, pelo visto “republicano bagunceiro e anti-clerical incorrigível”, Antônio Pires de Oliveira, também conhecido por Tonico Paçoca, no exercício de suas elevadas funções de Juiz de Paz, resolveu manter em cativeiro o “perigosíssimo anarquista”, aplicando-lhe severos corretivos. Entendeu também de seu indeclinável dever dar conta a Sua Alteza, o Imperador Dom Pedro II, dos “malfeitos” provocados em seus pagos pelo “indigitado subversivo”. A inusitada ocorrência, registrada no Arraial de Sapecado, Província da Bahia, no ano da graça de mil oitocentos e setenta e cinco, vem relatada com pormenores em pitoresco ofício. O texto do Tonico Paçoca foi reproduzido, alguns anos atrás, numa revista da capital da Bahia, “Mensageiro da fé”.

 

Protestante, maçon e republicano, o tal de Dionísio passou maus bocados nas mãos do zeloso guardião dos valores imperiais, morais e cristãos, pelo que se deduz da missiva. Conservamos na reprodução aqui trazida, a ortografia utilizada na correspondência ao Imperador.

 

“Ilmo. Sr. Imperadô,

Antônio Pires de Oliveira, vurgamente conhecido por Tonico Paçoca, moradô no arraiá do Sapecado e juis de pais do mesmo mencionado arraiá, vem por meio da presente adeclará para voça ecelentícima o que abaixo vai dizê: Appareceu por aqui “um tar de Diunizo” que intentô virá o povo na lei do protestante, maçono e arrepublicano, adeclarando que voça Sinhoria é um bobo que faz de nóis pau de amarrá égua. Eu, im vista da formação que tive por quexa do spetor, prendi em sufragante o referido Diunizo que se acha amarrado legalmente dos péis e das mãos, em corda, pur não havê argema, e purtanto eu peço a voça Sinhoria que me arresponda o que qué que eu faça do bicho, o quar eu tenho martratado pior du que um caxoro.

Na minha mirde opinião ele deve sê enforcado e ficá na forca até fedê, porque não é brinquedo a bobage que ele bota em voça Sinhoria de todo nome feio e eu já quiz dá nelle promorde as injurias que esse tranca diz a seu respeito.

Espero a sua resposta pra meu gunvernu.

No mais pro sê.

Seu amigo e defensô perpetu.

(a) Antonio Pire de Oliveira

-- Dado e paçado no arraiá do Sapecado no dia 28 de fevereiro do anno que estamos n’ele”.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

 Os dados intrigantes da OCDE

 

Cesar Vanucci

 

“Ao contrário do que alegam,

o Estado brasileiro não é inchado.”

(Carlos Drummond, jornalista)

 

Fiquei deveras surpreso e intrigado ao inteirar-me, de repente, de dados divulgados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em análise comparativa a respeito das políticas tributária e administrativa dos países que integram a instituição. Ou seja, países detentores das economias mais pujantes do planeta, o Brasil entre eles.

 Em extensa atividade como jornalista, a exemplo de tanta gente, absorvi com tranquilidade, sem questionamentos, as informações fortemente enraizadas no conhecimento popular, retumbantemente difundidas em palanques, tribunas, artigos, por líderes políticos, classistas, empresariais e de outros setores, de que o Brasil ocupa, tradicionalmente, incômoda dianteira no concerto das nações, em matéria de custos tributários e de exagero na composição do quadro de servidores encarregado de movimentar as engrenagens burocráticas do Estado.

 Mas não é que os dados da OCDE se contrapõem ruidosamente a essas versões! Registram, muito antes, pelo contrário, que a posição brasileira é na “rabeira”, não na dianteira nessas classificações! Antes de passar aos números e índices das inesperadas revelações, cuidemos de explicar o que vem a ser a OCDE. Aglutinando 37 países – os de maior PIB, repita-se -, ela se dedica à promoção de padrões convergentes em vários temas, como questões econômicas, financeiras, comerciais, sociais e ambientais, fornecendo contribuição às políticas públicas executadas por seus integrantes. Os encontros e debates que promove permitem troca de experiências e apoio a iniciativas em áreas diversificadas da atuação governamental. O trabalho executado reúne cerca de 200 comitês e forças-tarefas, abrangendo concurso de 40.000 funcionários de governo, membros da sociedade civil e representantes do setor privado. Calcula-se sejam realizadas, nessas ações, duas mil reuniões por ano. A OCDE busca definições, medidas e conceitos que possibilitem comparações em problemas similares confrontados pelos países. Fomenta enfoques comuns para políticas públicas. A vinculação do Brasil à OCDE começou na década de 90. A relação foi beneficiada com a decisão da entidade de estreitar contatos com países selecionados por seu potencial de expansão econômica.

 Chega, agora o momento de anotar os índices comparativos que divergem dos argumentos, amplamente propagados, de que o Brasil tributa muito mais que os outros países e de que nossa máquina burocrática seja inchada, comportando contingente exagerado de servidores.

 Entre 37 países analisados, ostentando índice de 35,6 por cento com referência ao PIB, nosso país, segundo a OCDE, está em 29º lugar. O índice médio do conjunto de países é superior ao nosso: 42,4 por cento. A Dinamarca, com índice de 56%, é o Estado que mais tributa. Acima da posição do Brasil colocam-se, entre outros, a Grã-Bretanha, Alemanha, Espanha, Portugal, Holanda, Áustria, Suécia, Finlândia.

 Na comparação internacional correspondente à mão de obra empregada no serviço público, a posição brasileira é de 32º lugar no contexto das nações. O indicador é de 12,1% relativamente à população ocupada. Nos demais países avaliados, o índice é quase o dobro: 21,9%. Também, nesse capítulo, a Dinamarca, com 34,9%, é o país que mais funcionários arregimenta. Nesse item, só quatro países vêm abaixo do Brasil: México, Chile, Japão e Coréia do Sul.

 Os quadros comparativos em que se baseiam estas considerações constam de trabalho do renomado jornalista Carlos Drummond, na “CartaCapital”, sobre a Reforma Tributária em estudo no Congresso Nacional. Volto a dizer: os indicadores deixaram-me intrigado.

 · Guardiões talebanistas. Mais essa agora: “Guardiões do Crivella”! Num Rio de Janeiro já acuado pelas milícias, pela “corrupção institucionalizada”, pelas quadrilhas do tráfico de drogas, pela ferocidade de segmentos policiais, surge agora, para atazanar ainda mais a paciência da população, uma falange, composta de “voluntários”, com o objetivo de intimidar, nas portas dos hospitais, cidadãos em busca de informações sobre pacientes internados. A ação irada dos “guardiões”, em boa parte recrutados nos quadros do funcionalismo público, contempla preferencialmente jornalistas encarregados da cobertura de fatos ligados ao flagelo da Covid-19. Essa mais recente ofensiva de intolerância talebanista, registrada na cena carioca, agride acintosamente os preceitos democráticos.

 

 

Antes da vacina chegar

 

Cesar Vanucci

 

“O ideal seria contar com um antivírus especifico,

com alta eficácia, como as drogas para Aids.”

(Dráuzio Varela, em entrevista a Mino Carta)

 

Dráuzio Varela, aclamado cientista brasileiro, de renome internacional, inspira-se nos bons resultados alcançados no combate à Aids para apostar na pesquisa com o retrovírus no enfrentamento da Covid-19. Ele acredita que um coquetel de drogas pode surtir efeitos positivos, enquanto a vacina não chega. Explica seu ponto de vista em momentosa entrevista concedida a Mino Carta, um dos mais influentes jornalistas do país, diretor da apreciada revista “CartaCapital”. Da entrevista, estampada na edição de 23 de setembro último, tomo a liberdade de reproduzir, na sequência, alguns trechos significativos.

 O entrevistador indaga: “A esperança do mundo concentra-se na vacina. É esta a solução?” Dráuzio responde: “Não é uma solução milagrosa, primeiro a vacina vai proteger 98 por cento dos infectados? Nenhum cientista diz isso. Quem tomar a vacina vai ter uma resposta duradoura? A gente também não sabe. Sabemos, isto sim, que a vacina ítalo-inglesa, que está sendo produzida em Oxford e comercializada pela AstraZeneca, vai precisar de duas doses. A vacina da Cynovac, que está sendo testada pelo grupo do Butantã, também vai precisar de duas doses. Será que a imunidade vai ser suficiente para proteger a gente por anos? Nós não sabemos. A vacina da gripe, por exemplo, tem de ser tomada todos os anos. Eu acredito haver uma alternativa para desenvolvimento de uma substância antiviral. Está claro que não é a cloroquina. Ao contrair uma gripe comum, você começa o dia com o corpo meio quebrado, meio cansado, no outro dia você está com febre, que pode ser alta, coriza, dores no corpo. Em 24, 48 horas, desenvolvemos a gripe. Mas com essa doença não. Com essa doença a pessoa pega o vírus. Qual é o sintoma? Você vai tomar café e não sente o perfume, fica um pouco enjoado, mas a primeira semana decorre mais ou menos normalmente, nos primeiros dias, a pessoa tem sintomas gripais muito leves até. Depois do quinto, sexto, sétimo dia, ela piora, abre-se então uma janela de tratamento. O ideal seria contar com um antivírus especifico, com alta eficácia, como temos as drogas para Aids. Diziam que para Aids era impossível conseguir e hoje você pega uma pessoa HIV positivo, toma a medicação e o paciente vive 20 anos sem manifestar a doença. Nós temos drogas altamente eficazes de alta potência contra o HIV, então por que não podem desenvolver outras contra o coronavírus?”

 Adiante, Dráuzio Varela responde assim à pergunta “E que dizer da segunda onda que ocorre em muitos países?”: “Olha, eu tenho muita dificuldade em aceitar essa chamada segunda onda como uma entidade separada da primeira. Acho que, na verdade, os países estão vivendo a mesma onda que começou lá atrás e tem períodos de calmaria. A partir do momento que as pessoas começam a se movimentar e a se aglomerar, a doença volta a atacar mais gente. Também acho que há uma onda única que responde às aglomerações, aumentando o número de casos e infecções. Se fazem isolamentos, caem os níveis de infecções e de casos confirmados. O exemplo de Israel é bem típico, lá eles voltaram ao lockdown completo porque os casos estão aumentando, como estão aumentando também na Espanha e na França. Aquela ideia de que teríamos um pico e do pico os casos cairiam rapidamente, e pronto, estaríamos livres. Com a gripe espanhola foi assim, ela chegou dizimando populações. Em dois meses, no surto de 18, a doença foi embora. Isso porque a gripe infectou uma massa muito grande e aí passa a ter essa imunidade coletiva mais depressa. Mas com o coronavírus não vai ser assim, as infecções podem seguir persistindo.”

 A entrevista é longa e rica em considerações sobre questões de saúde pública. Dráuzio Varela afiança existirem motivos de sobra para os brasileiros se sentirem “orgulhosos de nosso Sistema Único de Saúde (SUS)”. Lembra que, no mundo inteiro, “nenhum país, com mais de 100 milhões de habitantes, ousou oferecer saúde pública para todos”.

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

 

As duas frentes de luta na Amazônia

 

Cesar Vanucci

 

“A Amazônia corre risco permanente por causa

da devastação e por causa da cobiça estrangeira.”

(Antonio Luiz da Costa, educador)

 

Cobiça estrangeira e devastação florestal. Na atilada percepção da sociedade brasileira são duas questões candentes que comportam ser enfrentadas, a um só tempo, com máxima disposição e destemor.

 

Minimizar a gravidade da ação predatória, fora de controle, detectada no fabuloso bioma amazônico, atribuindo a divulgação persistente, sobre o que vem acontecendo, exclusivamente a grupos que, lá fora, promovem permanentemente articulações no sentido de obter acesso livre, para explorá-las a bel prazer, às prodigiosas riquezas dos dadivosos solo e subsolo, não representa, de maneira alguma, a verdade fatual. É certo, absolutamente certo – não há como negar -, que grupos e personagens influentes, das mais diferentes nacionalidades, ora dissimuladamente, ora às escancaras, defendem a estapafúrdia tese de que a Amazônia é região a ser internacionalizada. No momento presente, esses setores se mostram mais alvoroçados que de costume, em seus destemperos verbais, por causa justamente do volume mais intenso, escorado em recordes históricos, das queimadas despropositadas nos principais biomas de nosso país.

 

Cabe, obviamente, ao Governo brasileiro tomar a si a responsabilidade de repelir, com toda a veemência, de conformidade com o sentimento nacional, quaisquer ações oriundas de tais grupos e personagens, que, agora e sempre, atentem contra nossa soberania. A Amazônia é brasileira e os problemas a ela atinentes dizem respeito tão somente à Nação brasileira.

 

A atitude de repulsa do Brasil a qualquer intromissão terá que levar em conta, naturalmente, outros aspectos. Por exemplo: que história mais insana é essa de cartilhas escolares, em alguns países ditos amigos, como já foi insistentemente denunciado, apontarem o território amazônico como zona regida por organismos internacionais, e não parte indesvinculável de nossa pátria? Que história mais adoidada é essa de revistas de quadrinhos mostrarem o “famoso” Capitão Marvel usando seus “poderes miraculosos” para “proteger” a Amazônia de “marginais brasileiros” que estariam a “invadi-la” com o fito de se “apoderarem” de suas riquezas?

 

Chegamos, assim, nestas considerações, a uma clara constatação. Devastação florestal e olho gordo estrangeiro na Amazônia são situações com características distintas. Como muito bem diz o ditado popular, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Advém daí o imperativo de se reconhecer que o “dever de casa” governamental não vem sendo realizado a contento, no tocante à necessária, urgente e indeclinável defesa do meio ambiente. Amazônia em chamas, Pantanal em chamas, Cerrado e Mata Atlântica pegando fogo são fatos insofismáveis mostrados pelos sistemas de monitoramento. A culpa pelo que rola não pode ser imputada, assim sem mais nem menos, a índios e a moradores de recônditos lugarejos espalhados pela vastidão amazônica. Os culpados são outros: grileiros, madeireiros, garimpeiros, a banda podre do agronegócio. Esses aí, sim, carecem ser contidos em sua reiterada insubmissão às leis e portarias que dão suporte à política ambientalista do país.

 

O desserviço que a predação florestal acarreta é tremendo. Das fragilidades que deixamos à mostra, no combate aos abusos ininterruptos cometidos, nossos inimigos, embuçados ou não, se prevalecem a mancheia, para lesionar a imagem brasileira, para prejudicar interesses econômicos brasileiros em suas vinculações com o resto do mundo.

 

A conjugação de vontades políticas com as dos demais segmentos da sociedade é reclamada para constantes e infatigáveis esforços em duas frentes de luta: a da criminosa destruição florestal e a das insidiosas e solertes manobras dos grupos que contemplam a Amazônia com gula colonial.

 

Biden ou Trump?

  

Cesar Vanucci


“A sugestão de se conferir a Donald Trump o Nobel da Paz fortalece

a impressão de que alguma coisa no ar anda afetando o miolo das pessoas.”

(Domingos Justino Pinto, educador)

 

 · Biden ou Trump? Conhecidos respondem: pra nós, tanto faz como tanto fez. Trata-se de uma forma de dizer que, a grosso modo, nada tende a mudar, de modo a favorecer o resto do mundo, qualquer que venha a ser a escolha do eleitorado estadunidense, na conduta política da Casa Branca no plano internacional. A relação de Washington com outros países se prima sempre pela mesmíssima ótica imperial da Roma dos césares, guardadas, obviamente, as devidas proporções e configurações da conjuntura política e cultural vigente nos tempos de agora. Valendo-nos de chistosa observação, ouvida em mais de uma ocasião, a diferença na mudança do poder supremo na grande potência equivale, comparativamente, à do sabor da pepsi e da coca cola. Todas essas considerações não invalidam, contudo, a “torcida” que, em diferentes partes do planeta, setores da opinião pública identificados com a democracia e valores humanísticos, fazem pela vitória do candidato democrata. A aposta no triunfo de Biden leva em conta a perspectiva de alívio nas tensões cumulativas criadas pelo seu oponente, cidadão despreparado e fanfarrão, com um parafuso de menos na cachola. É certo que Joe Biden não reúne, a uma vista d’olhos superficial, as qualificações de um Barack Obama, ou de John Kennedy. Mas pra quem acompanha as performances do atual mandatário estadunidense, dúvida alguma paira quanto à opção a fazer. Trump vive emaranhado em trapalhadas e manobras belicosas com potencial para acender estopins de explosões incontroláveis.

 

· Nobel da Paz. Ato escancarado de desfaçatez pré-eleitoral. Quem ousou promovê-lo foi um deputado norueguês, Christian Tybring-Gjedde, membro da Assembleia Parlamentar da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Ele indicou o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, ao “Prêmio Nobel da Paz”, ora, veja pois! A indicação de personagens e instituições, no tocante ao Nobel, é ampla, geral e irrestrita. Não significa que o indicado venha a ser escolhido. Brasileiros ilustres, carregados de méritos, como Dom Helder Câmara e Chico Xavier, tiveram os nomes apontados para receber a honrosa láurea. As sugestões não foram acolhidas. O Comitê do Nobel não se manifesta previamente sobre eventuais candidaturas. São os autores das indicações que se encarregam de divulgá-las, como agora acontece no caso de Trump. É significativo o número de propostas nascidas ao longo dos anos, de conveniências políticas inocultáveis. Oportuno assinalar, a esse propósito, que as eleições presidenciais nos Estados Unidos estão bem próximas. Cabe, também, recordar que, no passado, entre as figuras de projeção política mundial “lembradas”, mas não condecoradas, estiveram Adolf Hitler, Benito Mussolini e Joseph Stalin.

 

 · Guardiões talebanistas. Mais essa agora: “Guardiões do Crivella”! Num Rio de Janeiro já acuado pelas milícias, pela “corrupção institucionalizada”, pelas quadrilhas do tráfico de drogas, pela ferocidade de segmentos policiais, surge agora, para atazanar ainda mais a paciência da população, uma falange, composta de “voluntários”, com o objetivo de intimidar, nas portas dos hospitais, cidadãos em busca de informações sobre pacientes internados. A ação irada dos “guardiões”, em boa parte recrutados nos quadros do funcionalismo público, contempla preferencialmente jornalistas encarregados da cobertura de fatos ligados ao flagelo da Covid-19. Essa mais recente ofensiva de intolerância talebanista, registrada na cena carioca, agride acintosamente os preceitos democráticos.

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...