sábado, 28 de novembro de 2020

 

 

Racismo, praga daninha


Cesar Vanucci


“Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas estorvam e inundam as avenidas para fazer com que se demore duas horas para chegar em casa. E tudo para ver um macaco. Brasileiro, mas ainda macaco.”

(Carlos Manuel TreviñoNúñez, político mexicano, em ofensa racista a um atleta brasileiro contratado, anos atrás, por clube de seu país)


O “Dia Nacional da Consciência Negra”, cuja celebração é criticada em alguns retrógrados setores políticos, confere-nos a oportunosa ensancha de tecer considerações sobre o racismo, essa praga daninha. Uma espécie de tiririca. Ou seja, essa graminha manhosa descrita num saboroso poema roceiro magistralmente recitado pelo Rolando Boldrim em seu apreciado programa na TV Cultura. Lamentavelmente, este escriba não conseguiu guardar o nome do autor do poema. Os versos, de singelo lirismo, falam que “a gente pode arrancar a grama tiririca, sacudi-la, virá-la de raiz pro ar, mas qua! – um fiapo escondido no torrão faz a peste vicejar...”.

 O racismo contamina, produz devastadores estragos. Na escala dos defeitos humanos mais abjetos atinge topo everestiano. Quer dizer, situa-se acima, muito acima, da dose máxima de tolerância caridosamente suportável na convivência comunitária. 

 O que o babaca mexicano acima citado andou dizendo, tempos atrás, na boçal ofensa ao atleta Ronaldinho Gaúcho, referindo-se à aglomeração de torcedores na apresentação do jogador à torcida do clube que o contratou, é amostra loquaz de um comportamento abominável, de teor racista, volta e meia detectado,  sobretudo no setor dos esportes que aglutinam multidões.

 Os agravos racistas à dignidade humana são constantes.

Aqui e alhures, defrontamo-nos com iradas manifestações de intolerância merecedoras de vigoroso repúdio.  Nos “arquivos implacáveis” conservamos um punhado de histórias relacionadas com o efervescente tema. Se a elas nos reportamos, de vez em quando, é para documentar ou ilustrar a incômoda permanência da questão racista no rol das preocupações humanas mais angustiantes. Os Estados Unidos da América acumulam exemplos de beligerância racista. Numerosos deles, como ocorreu ainda recentemente, ganham extraordinária retumbância universal. Falaremos abaixo de um desses desatinos racistas. Fez jus a manchetes.

 O autor do desatino, figura de posto graduado na administração pública, seguramente militante de alguma das facções fundamentalistas ocupadas, em diversas partes do mundo, em disseminar teses amalucadas com reinterpretações da história, da ciência, e visível hostilidade aos ideais e pensamentos democráticos, humanísticos e espiritais que enobrecem a existência humana, cismou de botar pra fora toda ferocidade de seu “credo racista”. Revelou-se um inimigo declarado do pensamento liberal e democrático. Bradou, a plenos pulmões, com todas as letras, pontos e vírgulas, que estimulara prática de aborto no seio da comunidade negra representa maneira altamente eficaz, jurídica e eticamente, de reduzir os índices da criminalidade em seu país. Valha-nos Deus, Nossa Senhora! Que tipo de atrocidade não estará “apto” a cometer um indivíduo como esse em sua aversão tão tresloucada aos direitos fundamentais? Provavelmente se disporia, de bom grado, a comprimir com o joelho o pescoço de pessoa indefesa, estirada no chão, asfixiando-a até a morte...

O desvario mencionado provocou, entre compreensíveis reações de indignação, uma manifestação burocraticamente comedida de censura da alta cúpula governamental estadunidense, que se agarrou à inconsistente tese de que episódios do gênero constituiriam ações isoladas no contexto comunitário. Tese, com absoluta certeza, enganosa. Estrepitosamente desmentida na rotina cotidiana, como comprova o noticiário nosso de cada dia ao relatar confrontos de rua sangrentos produzidos frequentemente pela virulência racista.

Vamos adiante. Às pessoas atentas não passa despercebido o fato de que, em aeroportos dos EUA e Europa, guardas aduaneiros estabelecem pelo olhar carregado de desconfiança uma triagem prévia dos passageiros desembarcados. Em momentos de surto histérico, muitos viajantes são impedidos até de desembarcar. As pessoas claras desfrutam, de modo geral, nesses portais de chegada, de tratamento especial, com garantia de circulação ágil pelos guichês, direito a mesuras e acenos cordiais. Quando chega a vez do grupo dos amorenados, das pessoas de tez escura, pele amarela, aparência oriental, desvanece-se o sorriso cúmplice, substituído por polidez glacial, e por triques-triques que fazem a glória da rotina burocrática. Os semblantes crispados lembram os mal-humorados guardas russos e alemães de fronteira escalados para conferirem passaportes, revistar passageiros e bagagens dos antigos filmes dos gêneros de guerra e de espionagem. Não havia quem na poltrona do escurinho do cinema não sentisse, ao avistá-los, um baita calafrio na espinha.

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