sábado, 5 de dezembro de 2020
sábado, 28 de novembro de 2020
Racismo,
praga daninha
Cesar Vanucci
“Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas estorvam e inundam as avenidas para fazer com que se demore duas horas para chegar em casa. E tudo para ver um macaco. Brasileiro, mas ainda macaco.”
(Carlos Manuel TreviñoNúñez, político mexicano, em ofensa racista a um atleta brasileiro contratado, anos atrás, por clube de seu país)
O
“Dia Nacional da Consciência Negra”, cuja celebração é criticada em alguns
retrógrados setores políticos, confere-nos a oportunosa ensancha de tecer
considerações sobre o racismo, essa praga daninha. Uma espécie de tiririca. Ou
seja, essa graminha manhosa descrita num saboroso poema roceiro magistralmente
recitado pelo Rolando Boldrim em seu apreciado programa na TV Cultura.
Lamentavelmente, este escriba não conseguiu guardar o nome do autor do poema.
Os versos, de singelo lirismo, falam que “a gente pode arrancar a grama
tiririca, sacudi-la, virá-la de raiz pro ar, mas qua! – um fiapo escondido no
torrão faz a peste vicejar...”.
Aqui
e alhures, defrontamo-nos com iradas manifestações de intolerância merecedoras
de vigoroso repúdio. Nos “arquivos
implacáveis” conservamos um punhado de histórias relacionadas com o
efervescente tema. Se a elas nos reportamos, de vez em quando, é para
documentar ou ilustrar a incômoda permanência da questão racista no rol das
preocupações humanas mais angustiantes. Os Estados Unidos da América acumulam
exemplos de beligerância racista. Numerosos deles, como ocorreu ainda
recentemente, ganham extraordinária retumbância universal. Falaremos abaixo de
um desses desatinos racistas. Fez jus a manchetes.
O desvario mencionado provocou, entre compreensíveis reações de indignação, uma manifestação burocraticamente comedida de censura da alta cúpula governamental estadunidense, que se agarrou à inconsistente tese de que episódios do gênero constituiriam ações isoladas no contexto comunitário. Tese, com absoluta certeza, enganosa. Estrepitosamente desmentida na rotina cotidiana, como comprova o noticiário nosso de cada dia ao relatar confrontos de rua sangrentos produzidos frequentemente pela virulência racista.
Vamos adiante. Às pessoas atentas não passa despercebido o fato de que, em aeroportos dos EUA e Europa, guardas aduaneiros estabelecem pelo olhar carregado de desconfiança uma triagem prévia dos passageiros desembarcados. Em momentos de surto histérico, muitos viajantes são impedidos até de desembarcar. As pessoas claras desfrutam, de modo geral, nesses portais de chegada, de tratamento especial, com garantia de circulação ágil pelos guichês, direito a mesuras e acenos cordiais. Quando chega a vez do grupo dos amorenados, das pessoas de tez escura, pele amarela, aparência oriental, desvanece-se o sorriso cúmplice, substituído por polidez glacial, e por triques-triques que fazem a glória da rotina burocrática. Os semblantes crispados lembram os mal-humorados guardas russos e alemães de fronteira escalados para conferirem passaportes, revistar passageiros e bagagens dos antigos filmes dos gêneros de guerra e de espionagem. Não havia quem na poltrona do escurinho do cinema não sentisse, ao avistá-los, um baita calafrio na espinha.
Uma só raça, a humana
Cesar Vanucci
“É preciso mais coragem para amar do que para odiar.”
(Lázaro Ramos, ator, explicando o que o levou a produzir o documentário “Falas negras”, levado ao ar pela “Rede Globo”, no Dia Nacional da Consciência Negra.)
A
comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra é enxergada, por alguns, com
manifesto desdém, quando não com aberta hostilidade. Entre os militantes da
reduzida, posto que barulhenta e aguerrida falange talebanista nativa, há quem,
até mesmo, não se constranja, fazendo cara de paisagem, em declarar que não
houve escravidão no Brasil. Só fica faltando mesmo dizer – se é que já não foi
dito por aí, em meio ao desvario negacionista solto na praça -, que a
“imigração maciça” registrada, por longo e tenebroso período, até o final do
século XIX, “proporcionou” a milhões de africanos “a benfazeja chance do
desfrute de condições de vida superiores às de seus pagos natais”... Minha
Nossa Senhora da Aparecida!
O
preconceito racial estruturado, pra quem tem olhos pra ver, ouvidos pra escutar
e sensibilidade social para perceber, é fato irretorquível e impactante. Os
negros e pardos são mais de 53 por cento da população brasileira. Mas não costumam
ser vistos – e não por falta de desejo ou vontade -, em lugares onde a evolução
civilizatória já conseguiu estabelecer padrões superiores de conforto e bem
estar aos seres humanos. Sua participação em quadros diretivos, em funções
executivas elevadas, na vida pública e na esfera privada, está muito, mas muito
mesmo, aquém das possibilidades que podemos, legitimamente, delinear ao ter-se
em mira a proporcionalidade demográfica assinalada. As estatísticas são
reveladoras. Sete de cada dez brasileiros que habitam moradias inadequadas – casas
desprovidas de um mínimo de conforto e higiene, sem água encanada, rede de
esgoto e, até mesmo, energia elétrica -, são negros ou pardos. É o IBGE que
atesta.
De
dados atordoantes extraem-se, ainda, coisas assim: as mulheres negras acham-se
mais expostas a riscos de atentados mortais do que as mulheres brancas. A
diferença é de 64 por cento. Nos casos de ferimentos provocados por violência,
bem como nos de mortes, o índice percentual correspondente aos negros é maior e
sempre ascendente. Existe hoje, nas penitenciárias e cadeias, cumprindo penas,
aguardando sentenças, um contingente infinitamente maior de negros. Na média
nacional, 62 por cento das mulheres encarceradas são negras ou pardas. Há
Estados onde esse indicador chega a 97 por cento. Sustentando que a
desigualdade, nesse contexto racial, começa no útero, a jornalista Cláudia
Colucci anota, na “Folha de São Paulo”, que as mulheres negras fazem muito
menos pré-natais do que as brancas e que o registro de mortes é bem mais
elevado entre as pacientes de cor. Seguindo essa linha de raciocínio, apura-se ainda
que a probabilidade de uma criança negra vir a falecer no primeiro ano de vida
é de 22 por cento maior.
As
constatações desse estado de coisas chocantes jorram impetuosamente. Todas as
estatísticas disponíveis convergem implacavelmente numa única direção. Em todos
os itens que dizem respeito a acessos de promoção social oferecidos, em
amplitude universal, pela tecnologia, pelas políticas públicas de inclusão nas
áreas da saúde, educação, lazer, na habitação, alimentação e por aí vai, as
pessoas de epiderme escura estão sempre em desvantagem. Se é verdade que o
drama da desigualdade social atinge multidões consideráveis, sem distinção de
cor, não deixa de ser verdade, também, que seus efeitos perversos alvejam mais
gritantemente, em termos comparativos, integrantes da comunidade negra.
As reações de inconformismo e indignação contra essa aberração comportamental ilegal, desumana, vêm se expandindo de forma elogiável e animadora, envolvendo segmentos cada vez mais representativos da sociedade. Os defensores dessa causa entendem perfeitamente que só existe uma raça, a humana. Cor de pele é detalhe anatômico. A inclusão do Dia Nacional da Consciência Negra no calendário das comemorações populares deriva de impulsos generosos e anseios ardentes de gente que, ancorada em valores jurídicos, cívicos, morais, democráticos, sonha com uma pátria amada Brasil liberta dessa praga daninha, o preconceito racial. Mesmo que e apesar de, à sua volta, aqui e ali, uma que outra voz desafinada se esforce por ser ouvida com o intuito de transmitir, a propósito do candente assunto, palavras ambíguas, conformistas, confusas, enfim, negacionistas. Tudo imensamente distanciado do verdadeiro sentimento nacional.
sábado, 21 de novembro de 2020
A cor do gato
Cesar
Vanucci
“Vacinação
em massa e gratuita”
(Joseph
Biden, presidente do EUA)
Assim que
definida, de modo insofismável, sua escolha como presidente dos Estados Unidos
da América, Joseph Biden anunciou vacinação gratuita contra o Covid-19 para
todos. Traduziu irrefreável vontade das ruas. Todas elas. Ruas de seu país.
Ruas do mundo inteiro.
Uma
vacina que seja capaz de assegurar imunização contra o flagelo que açoita a
humanidade constitui, certeiramente, nesta quadra da existência humana,
aspiração suprema ardentemente compartilhada pela gente do povo em todos os
quadrantes do planeta. Independentemente de nacionalidade, cultura, etnia,
credo, idioma, hábitos comportamentais, condição social, todos, em todos os
lugares, anseiam pelo momento histórico em que a Ciência irá fazer uma
proclamação liberando a fórmula, ou as fórmulas farmacêuticas eficazes para o
combate vitorioso ao vírus letal. Tanto as lideranças conscientes, quanto a
opinião pública compenetrada de suas prerrogativas nas práticas cidadãs estão
suficientemente informadas de que a ela, Ciência, é que toca proferir a decisão
acerca dos procedimentos corretos a serem adotados, na momentosa questão da
vacinação, no sentido de garantir a almejada proteção das populações.
A
“politização da vacina”, acirrando fastidiosas polêmicas, dando vaza a
egocentrismos e a reações demagógicas, bem como a manifestações histéricas
fundamentalistas e teorias conspiratórias dos “terraplanistas” de carteirinha,
coloca em desconforto a sociedade. Agride o sentimento das ruas. O sentimento
nacional. Traz desassossego e confusão. O bom-senso e o acatamento comunitário
confiante às recomendações emanadas das instituições científicas oferecem
blindagem contra esses fatores de distorção dos fatos e de negacionismos
mórbidos e persistentes.
Um velho
ditado anota que não importa a cor do gato, o que importa mesmo é que ele,
gato, pegue o rato. Trazendo o emblemático conceito para a faixa cotidiana em
que ocorrem as estéreis discussões provocadas por uma minoria barulhenta, é o
caso de se afirmar, em alto tom, não importar coisa nenhuma que a vacina seja
inglesa, americana, chinesa, australiana, alemã, canadense, russa. O que
importa, de verdade, é que ela imunize as pessoas contra a enfermidade.
Assegure proteção ampla, geral, irrestrita, tenha efeitos duradouros e, quem
sabe até, definitivos.
Há uma
“torcida uniformizada” global aí, carregada de esperança, aguardando que todos
os experimentos laboratoriais em curso cheguem, no mais curto espaço possível,
e, se possível também, todos ao mesmo tempo, ao derradeiro e redentor objetivo.
E que, ainda, as vacinas possam, todas elas, ser produzidas em escala volumosa
suficiente de modo a favorecer utilização maciça imediata, a custo zero, pelas
multidões.
A
propósito, o provérbio acima citado é chinês. Seu entendimento, universal.
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
Fábrica de moleque malcriado...
Cesar Vanucci
“Nenhum taverneiro poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira..."
(De um edital da Câmara da Vila de Catimbal, Minas Gerais, publicado no ano de 1868)
Na
reorganização, tempos atrás, de minha biblioteca, meti a mão no fundo do baú,
desencavando algumas preciosidades em matéria de livros e textos soltos. Foi
assim que andei redescobrindo um exemplar do “Elixir do Pagé”, sobre o qual
João Dornas Filho assim se expressa: “Um injustiçado pudor sempre dificultou a
leitura do que eu considero os melhores versos de Bernardo Guimarães, os seus
poemas eróticos. Sugeri, por mais de uma vez, a inclusão desses versos numa
antologia galante, que contivesse outras joias líricas da nossa poesia e continuo
a pensar que constituiriam um escrínio precioso da nossa poética”.
Uma outra
publicação rara, ofertada pelo próprio autor, a pessoa de meu apreço pessoal
por ocasião de visita que lhe fez, na década de 30, em sua fazenda em Ponte
Nova, é o livro que contém o desassombrado pronunciamento nacionalista de
Arthur Bernardes, na sessão de 18 de junho de 1937, na Câmara dos Deputados,
sobre a Itabira Iron.
Sem que me
veja em condições de poder explicar em detalhes, recorrendo apenasmente à
memória, como foram parar em meus “arquivos implacáveis”, deparei-me, também,
nessa mexida, com documentos de nítido caráter picaresco que me disponho, agora
e em dois outros momentos na sequência, pelo seu sabor hilário, a trazer ao
conhecimento de meus preclaros leitores. Os textos republicados ajudam a
quebrar a sisudez dos comentários sobre a temática política e econômica desta
hora de pandemia e pandemônio.
O que vem aí é
a transcrição de uma portaria editada pela Câmara Municipal de Catimbau,
Província de Minas Gerais, no ano de 1868. Foi encontrada nos arquivos do INPM.
“Antônio Pires de Noronha
Franco, fiscal aprovado pela Câmara desta Vila de Catimbau Minas Gerais:
Faço saber aos povos desta vara que no dia 1° do
mês que vem sairei em triunfo de correção aferindo os pesos de todos, bem como
as respectivas.
Art. 1°- Ficam proibidos os regos. Aqueles que não
mandarem tapar os que tiverem, bem como todos buracos, serão multados em 20$000
cobre.
Art. 2°- Nenhum animal de ordem das cabras poderá
roer pelo vizindário.
Art. 3°- Nenhum negociante ou taverneiro, ainda
mesmo Coronel da Guarda Nacional, poderá vender farinha em cuia, que é
ladroeira.
Art. 4°- Negro sem bilhete, tarde da noite na rua,
é ladrão. Multa no senhor de 6$000.
Art. 5°- Português de braço dado com negra cativa,
alta noite, é fábrica de moleque malcriado e sem-vergonha. Cadeia nos dois, um
em cada xadrez, para evitar dúvidas.
Art. 6°- Boi ou vaca deitado na rua de noite, sem
lamparina no chifre, do modo que os andantes não o vejam bem, multa de 5$000.
E para que não digam que não sabiam mando afixar
este edital e mais outro na porta de frente e de trás do boticário, que é o
lugar onde se fala da vida alheia.
Em 4 de março de
Ofereço, na
sequência, a transcrição de uma decisão distribuída no âmbito do Juizado de
Direito da comarca de Porto de Folha, Bahia, datada de 15 de outubro de 1833.
De xumbregância e capadura...
Cesar Vanuccci
“A capadura deverá ser a macete."
(Decisão judicial de 1833)
No documento
abaixo transcrito, que desencavei do fundo do baú, conta-se como o cabra da
peste Manoel Duda, por causa de malefícios praticados contra a mulher de Xico
Bento, foi condenado à capação a macete, nos idos de 1833, na comarca de Porto
de Folha. Já na súmula da decisão, é sublinhado que “comete pecado mortal o
indivíduo que (...) faz coças de suas victimas desejando a mulher do próximo
para (...) suas chumbregâncias”.
A decisão do
Juiz Municipal, acolhendo representação da Promotoria, é abaixo reproduzida,
respeitada a ortografia original, inclusive com a expressão xumbregância
grafada com “ch”.
“VISTOS, ETC.
O adjunto de Promotor Público, representa contra o
cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’anna, quando a
mulher do Xico Bento ia para fonte, o supracito cabra que estava de tocaia em
uma moita de mato sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher (...),
para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recusasse, o dito
cabra abrafolou-se ella, (...) deixando as encomendas della de fora e ao Deus
dará, e não conseguio matrimonio porque ella gritou e veio em assucare della
Nocreto Correia e Clementos Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante, e pediu
a condenação delle como incruso nas penas de tentativas de matrimonio proibido (...). As testemunhas, duas são de vista porque
chegaram no flagrante e bisparam a perversidade do cabra (...). Dizem as leises
que duas testemunhas que assistam a qualquer nauvrágio do sucesso faz prova
(...):
CONSIDERO
– que o cabra Manoel Duda, agrediu a mulher do Xico Bento por quem roia a
brocha, para conxambrar, com ella, coisas que só o marido della, competia
eonxambrar, porque eram casados pelo regime da Santa Igreja Catholica Romana; -
que o cabra deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas
conxambranças, viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de
ver; - que a paciente estava peijada e que em conseqüência do sucedido, deu à
luz de um menino macho que nasceu morto; - que o cabra é um suplicante deboxado
que nunca soube respeitar as famílias, tanto que quis também fazer
comxumbranças com a Quitéria e Clarinha, que são moças donzellas, e não
conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia;- que Manoel Duda é
um sujeito perigoso e que não tiver uma causa que atalhe a perigança delle,
amanhã está metendo medo até nos homens por vias das suas patifarias e deboxes;
- que Manoel Duda está em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é
proibido desejar a mulher do próximo (...); - que sua Majestade Imperial (...)
precisa ficar livre do cabra Manoel Duda para secula, seculorum amém, arrefem
dos deboxes e semveregonhesas por elle praticados.
POSTO QUE:
Condeno o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez
a mulher do Xico Bento (...) a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita A
MACETE.
A execução deverá ser feita na cadeia desta Villa,
Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação depos de 30 dias o mesmo
Carcereiro solte o cujo cabra para que se vá em paz. O nosso prior aconselha –
Homine debochado eboxatus mulherorum inovocabus est sententias quibus capare
est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pete.
Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares
publicos. Apelo ex oficio desta sentença para o Dr. Juiz de Direito desta
Comarca.
Porto
de Folha, 15 de outubro de 1833
a) Manoel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal
suplente em exercício”.
Um tal Dionísio...
Cesar Vanucci
“Em minha humilde opinião, ele deve ser enforcado e ficar na forca até feder."
(Trecho da correspondência do Juiz de Paz de um lugarejo baiano a Dom Pedro II)
Incomodado com
a presença, no lugarejo em que pontificava como representante supremo da lei e
da ordem, de um tal Dionísio, pelo visto “republicano bagunceiro e
anti-clerical incorrigível”, Antônio Pires de Oliveira, também conhecido por
Tonico Paçoca, no exercício de suas elevadas funções de Juiz de Paz, resolveu
manter em cativeiro o “perigosíssimo anarquista”, aplicando-lhe severos
corretivos. Entendeu também de seu indeclinável dever dar conta a Sua Alteza, o
Imperador Dom Pedro II, dos “malfeitos” provocados em seus pagos pelo “indigitado
subversivo”. A inusitada ocorrência, registrada no Arraial de Sapecado,
Província da Bahia, no ano da graça de mil oitocentos e setenta e cinco, vem
relatada com pormenores em pitoresco ofício. O texto do Tonico Paçoca foi
reproduzido, alguns anos atrás, numa revista da capital da Bahia, “Mensageiro
da fé”.
Protestante,
maçon e republicano, o tal de Dionísio passou maus bocados nas mãos do zeloso
guardião dos valores imperiais, morais e cristãos, pelo que se deduz da
missiva. Conservamos na reprodução aqui trazida, a ortografia utilizada na
correspondência ao Imperador.
“Ilmo. Sr. Imperadô,
Antônio Pires de Oliveira, vurgamente conhecido por
Tonico Paçoca, moradô no arraiá do Sapecado e juis de pais do mesmo mencionado
arraiá, vem por meio da presente adeclará para voça ecelentícima o que abaixo
vai dizê: Appareceu por aqui “um tar de Diunizo” que intentô virá o povo na lei
do protestante, maçono e arrepublicano, adeclarando que voça Sinhoria é um bobo
que faz de nóis pau de amarrá égua. Eu, im vista da formação que tive por quexa
do spetor, prendi em sufragante o referido Diunizo que se acha amarrado
legalmente dos péis e das mãos, em corda, pur não havê argema, e purtanto eu
peço a voça Sinhoria que me arresponda o que qué que eu faça do bicho, o quar
eu tenho martratado pior du que um caxoro.
Na minha mirde opinião ele deve sê enforcado e ficá
na forca até fedê, porque não é brinquedo a bobage que ele bota em voça
Sinhoria de todo nome feio e eu já quiz dá nelle promorde as injurias que esse
tranca diz a seu respeito.
Espero a sua resposta pra meu gunvernu.
No mais pro sê.
Seu amigo e defensô perpetu.
(a) Antonio Pire de Oliveira
--
Dado e paçado no arraiá do Sapecado no dia 28 de fevereiro do anno que estamos n’ele”.
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
Os dados intrigantes da OCDE
Cesar Vanucci
“Ao contrário do que alegam,
o Estado brasileiro não é inchado.”
(Carlos Drummond, jornalista)
Fiquei deveras surpreso e intrigado ao inteirar-me, de repente, de dados divulgados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em análise comparativa a respeito das políticas tributária e administrativa dos países que integram a instituição. Ou seja, países detentores das economias mais pujantes do planeta, o Brasil entre eles.
Em extensa atividade como jornalista, a exemplo de tanta gente, absorvi com tranquilidade, sem questionamentos, as informações fortemente enraizadas no conhecimento popular, retumbantemente difundidas em palanques, tribunas, artigos, por líderes políticos, classistas, empresariais e de outros setores, de que o Brasil ocupa, tradicionalmente, incômoda dianteira no concerto das nações, em matéria de custos tributários e de exagero na composição do quadro de servidores encarregado de movimentar as engrenagens burocráticas do Estado.
Mas não é que os dados da OCDE se contrapõem ruidosamente a essas versões! Registram, muito antes, pelo contrário, que a posição brasileira é na “rabeira”, não na dianteira nessas classificações! Antes de passar aos números e índices das inesperadas revelações, cuidemos de explicar o que vem a ser a OCDE. Aglutinando 37 países – os de maior PIB, repita-se -, ela se dedica à promoção de padrões convergentes em vários temas, como questões econômicas, financeiras, comerciais, sociais e ambientais, fornecendo contribuição às políticas públicas executadas por seus integrantes. Os encontros e debates que promove permitem troca de experiências e apoio a iniciativas em áreas diversificadas da atuação governamental. O trabalho executado reúne cerca de 200 comitês e forças-tarefas, abrangendo concurso de 40.000 funcionários de governo, membros da sociedade civil e representantes do setor privado. Calcula-se sejam realizadas, nessas ações, duas mil reuniões por ano. A OCDE busca definições, medidas e conceitos que possibilitem comparações em problemas similares confrontados pelos países. Fomenta enfoques comuns para políticas públicas. A vinculação do Brasil à OCDE começou na década de 90. A relação foi beneficiada com a decisão da entidade de estreitar contatos com países selecionados por seu potencial de expansão econômica.
Chega, agora o momento de anotar os índices comparativos que divergem dos argumentos, amplamente propagados, de que o Brasil tributa muito mais que os outros países e de que nossa máquina burocrática seja inchada, comportando contingente exagerado de servidores.
Entre 37 países analisados, ostentando índice de 35,6 por cento com referência ao PIB, nosso país, segundo a OCDE, está em 29º lugar. O índice médio do conjunto de países é superior ao nosso: 42,4 por cento. A Dinamarca, com índice de 56%, é o Estado que mais tributa. Acima da posição do Brasil colocam-se, entre outros, a Grã-Bretanha, Alemanha, Espanha, Portugal, Holanda, Áustria, Suécia, Finlândia.
Na comparação internacional correspondente à mão de obra empregada no serviço público, a posição brasileira é de 32º lugar no contexto das nações. O indicador é de 12,1% relativamente à população ocupada. Nos demais países avaliados, o índice é quase o dobro: 21,9%. Também, nesse capítulo, a Dinamarca, com 34,9%, é o país que mais funcionários arregimenta. Nesse item, só quatro países vêm abaixo do Brasil: México, Chile, Japão e Coréia do Sul.
Os quadros comparativos em que se baseiam estas considerações constam de trabalho do renomado jornalista Carlos Drummond, na “CartaCapital”, sobre a Reforma Tributária em estudo no Congresso Nacional. Volto a dizer: os indicadores deixaram-me intrigado.
· Guardiões talebanistas. Mais essa agora: “Guardiões do Crivella”! Num Rio de Janeiro já acuado pelas milícias, pela “corrupção institucionalizada”, pelas quadrilhas do tráfico de drogas, pela ferocidade de segmentos policiais, surge agora, para atazanar ainda mais a paciência da população, uma falange, composta de “voluntários”, com o objetivo de intimidar, nas portas dos hospitais, cidadãos em busca de informações sobre pacientes internados. A ação irada dos “guardiões”, em boa parte recrutados nos quadros do funcionalismo público, contempla preferencialmente jornalistas encarregados da cobertura de fatos ligados ao flagelo da Covid-19. Essa mais recente ofensiva de intolerância talebanista, registrada na cena carioca, agride acintosamente os preceitos democráticos.
Antes
da vacina chegar
Cesar Vanucci
“O ideal seria contar com um antivírus
especifico,
com alta eficácia, como as drogas para Aids.”
(Dráuzio
Varela, em entrevista a Mino Carta)
Dráuzio
Varela, aclamado cientista brasileiro, de renome internacional, inspira-se nos
bons resultados alcançados no combate à Aids para apostar na pesquisa com o
retrovírus no enfrentamento da Covid-19. Ele acredita que um coquetel de drogas
pode surtir efeitos positivos, enquanto a vacina não chega. Explica seu ponto
de vista em momentosa entrevista concedida a Mino Carta, um dos mais influentes
jornalistas do país, diretor da apreciada revista “CartaCapital”. Da
entrevista, estampada na edição de 23 de setembro último, tomo a liberdade de reproduzir,
na sequência, alguns trechos significativos.
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
As duas frentes de luta
na Amazônia
Cesar Vanucci
“A Amazônia corre risco permanente por causa
da devastação e por causa da cobiça
estrangeira.”
(Antonio
Luiz da Costa, educador)
Cobiça
estrangeira e devastação florestal. Na atilada percepção da sociedade
brasileira são duas questões candentes que comportam ser enfrentadas, a um só
tempo, com máxima disposição e destemor.
Minimizar
a gravidade da ação predatória, fora de controle, detectada no fabuloso bioma
amazônico, atribuindo a divulgação persistente, sobre o que vem acontecendo,
exclusivamente a grupos que, lá fora, promovem permanentemente articulações no
sentido de obter acesso livre, para explorá-las a bel prazer, às prodigiosas
riquezas dos dadivosos solo e subsolo, não representa, de maneira alguma, a
verdade fatual. É certo, absolutamente certo – não há como negar -, que grupos
e personagens influentes, das mais diferentes nacionalidades, ora
dissimuladamente, ora às escancaras, defendem a estapafúrdia tese de que a
Amazônia é região a ser internacionalizada. No momento presente, esses setores se
mostram mais alvoroçados que de costume, em seus destemperos verbais, por causa
justamente do volume mais intenso, escorado em recordes históricos, das
queimadas despropositadas nos principais biomas de nosso país.
Cabe,
obviamente, ao Governo brasileiro tomar a si a responsabilidade de repelir, com
toda a veemência, de conformidade com o sentimento nacional, quaisquer ações
oriundas de tais grupos e personagens, que, agora e sempre, atentem contra
nossa soberania. A Amazônia é brasileira e os problemas a ela atinentes dizem
respeito tão somente à Nação brasileira.
A
atitude de repulsa do Brasil a qualquer intromissão terá que levar em conta,
naturalmente, outros aspectos. Por exemplo: que história mais insana é essa de
cartilhas escolares, em alguns países ditos amigos, como já foi insistentemente
denunciado, apontarem o território amazônico como zona regida por organismos
internacionais, e não parte indesvinculável de nossa pátria? Que história mais
adoidada é essa de revistas de quadrinhos mostrarem o “famoso” Capitão Marvel
usando seus “poderes miraculosos” para “proteger” a Amazônia de “marginais brasileiros”
que estariam a “invadi-la” com o fito de se “apoderarem” de suas riquezas?
Chegamos,
assim, nestas considerações, a uma clara constatação. Devastação florestal e
olho gordo estrangeiro na Amazônia são situações com características distintas.
Como muito bem diz o ditado popular, uma coisa é uma coisa e outra coisa é
outra coisa. Advém daí o imperativo de se reconhecer que o “dever de casa”
governamental não vem sendo realizado a contento, no tocante à necessária,
urgente e indeclinável defesa do meio ambiente. Amazônia em chamas, Pantanal em
chamas, Cerrado e Mata Atlântica pegando fogo são fatos insofismáveis mostrados
pelos sistemas de monitoramento. A culpa pelo que rola não pode ser imputada,
assim sem mais nem menos, a índios e a moradores de recônditos lugarejos espalhados
pela vastidão amazônica. Os culpados são outros: grileiros, madeireiros,
garimpeiros, a banda podre do agronegócio. Esses aí, sim, carecem ser contidos
em sua reiterada insubmissão às leis e portarias que dão suporte à política
ambientalista do país.
O
desserviço que a predação florestal acarreta é tremendo. Das fragilidades que
deixamos à mostra, no combate aos abusos ininterruptos cometidos, nossos
inimigos, embuçados ou não, se prevalecem a mancheia, para lesionar a imagem
brasileira, para prejudicar interesses econômicos brasileiros em suas
vinculações com o resto do mundo.
A
conjugação de vontades políticas com as dos demais segmentos da sociedade é reclamada
para constantes e infatigáveis esforços em duas frentes de luta: a da criminosa
destruição florestal e a das insidiosas e solertes manobras dos grupos que contemplam
a Amazônia com gula colonial.
Biden
ou Trump?
Cesar Vanucci
“A sugestão de se conferir a Donald Trump o Nobel da Paz fortalece
a impressão de que alguma coisa no ar anda
afetando o miolo das pessoas.”
(Domingos
Justino Pinto, educador)
· Nobel da Paz. Ato escancarado de desfaçatez pré-eleitoral. Quem
ousou promovê-lo foi um deputado norueguês, Christian Tybring-Gjedde, membro da
Assembleia Parlamentar da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Ele
indicou o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, ao “Prêmio Nobel da
Paz”, ora, veja pois! A indicação de personagens e instituições, no tocante ao
Nobel, é ampla, geral e irrestrita. Não significa que o indicado venha a ser
escolhido. Brasileiros ilustres, carregados de méritos, como Dom Helder Câmara
e Chico Xavier, tiveram os nomes apontados para receber a honrosa láurea. As
sugestões não foram acolhidas. O Comitê do Nobel não se manifesta previamente
sobre eventuais candidaturas. São os autores das indicações que se encarregam
de divulgá-las, como agora acontece no caso de Trump. É significativo o número
de propostas nascidas ao longo dos anos, de conveniências políticas
inocultáveis. Oportuno assinalar, a esse propósito, que as eleições
presidenciais nos Estados Unidos estão bem próximas. Cabe, também, recordar
que, no passado, entre as figuras de projeção política mundial “lembradas”, mas
não condecoradas, estiveram Adolf Hitler, Benito Mussolini e Joseph Stalin.
A SAGA LANDELL MOURA
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