sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Snowden, o filme

Cesar Vanucci

“Oliver Stone sempre foi conhecido por trazer em seus filmes temas incômodos ao seu país de origem. Extremamente politizado, Stone alia uma narrativa que traz novo olhar para assunto polêmico, com forma capaz de atrair o público.”
(Giovanni Rizzo, crítico de cinema)

O esclarecimento foi prestado pelo próprio cineasta Oliver Stone, quando da visita, dias atrás, ao Brasil. A alternativa sugerida nas palavras “herói ou traidor”, pespegadas ao título “Snowden”, do filme recentemente lançado, não está contemplada na história. Trata-se de um subtítulo marotamente introduzido nos letreiros.  Fruto de inocultável “forçação de barra” dos distribuidores, pressionados com toda certeza por órgãos comprometidos com a paranoia sherloqueana estadunidense.

A envolvente narrativa cinematográfica não abre chance, visivelmente, para que a pecha de “traidor” seja aplicada ao ex-agente da CIA que denunciou o assustador esquema de vigilância global, no tétrico estilo previsto no “Big Brother” de Aldous Huxley, por parte do Tio Sam. A disposição dos produtores da fita é exaltar o relevante papel desempenhado, no contexto histórico, pelo ex-servidor das agências de espionagem. Tudo no enredo conflui para enaltecer sua postura desassombrada; para ressaltar a grandeza do gesto de um cidadão que se sentiu, a partir de certo momento, alvejado em sua dignidade, diante dos abusos perpetrados em escala planetária contra os direitos fundamentais, pelos serviços de inteligência de seu país.

Consciente dos enormes riscos pessoais a enfrentar em consequência da divulgação do nefando esquema de arapongagem eletrônica massiva ocorrido – pasmo dos pasmos! – na administração Barack Obama, Edward Snowden prestou, na realidade, no modo de entender dos produtores do filme, um serviço de inestimável valor à sociedade humana. Oliver Stone faz questão de registrar o fato de forma razoavelmente convincente. Ninguém deixa a sala de projeção em dúvida quanto à classificação justa a ser atribuída ao analista de sistemas responsável pelo destemeroso ato.

A mesclagem de contundentes fatos reais - extraídos da documentação que Snowden entregou à mídia internacional, deflagrando o avantajado processo de divulgação que impactou o mundo -, com ficção de estilo melodramático, salpicada de exageros “hollywoodescos”, impede que, do ponto de vista artístico, “Snowden” possa ser comparado a outras obras marcantes do mesmo celebrado autor. Casos, por exemplo, de “JFK, uma pergunta que não quer calar” e “Nascido em 4 de julho”.

As relações afetivas do personagem central, focadas na figura de Lindsay Mills – que o acompanha na atualidade em sua vida de asilado no território russo -; a condição de saúde precária de Snowden recebem tratamento cinematográfico edulcorado, com o indisfarçável fito de tornar a fita um produto comercialmente mais palatável.

Afiguram-se compreensíveis conjecturas a respeito de que o  resultado dessa momentosa obra cinematográfica pudesse revelar-se, talvez, mais substancioso, se o competente Oliver Stone houvesse enveredado por uma trilha exclusivamente documental. Seja como for, por representar contundente amostra dos descaminhos percorridos pelas grandes potências em suas ousadas manobras geopolíticas de cunho hegemônico e pelos angustiantes problemas de consciência humana suscitados pelos posicionamentos assumidos pelo agente da CIA tomado de desencanto, o filme “Snowden – herói ou traidor” justifica sua ida ao cinema.


Uma jovem romancista chamada Yasmin

Cesar Vanucci

“A mocidade é um relâmpago ao pé da eternidade!)
(Guilherme de Almeida)

Yasmin Rocha Debossan, 14 anos, estudante de nível médio do Colégio Santo Agostinho, madrugou na carreira literária. Seu primeiro romance – “O amor além das estrelas”, 400 páginas, lançamento da “Chiado Editora”, de Portugal – encantou muita gente, mormente no meio jovem. A garota já tem um segundo romance no forno. Seu auspicioso ingresso na lida da criação literária inspirou-nos as considerações abaixo, transmitidas no ato de lançamento do primeiro livro.

Pessoas como Yasmin, com os cintilantes dons de seu percurso de vida primaveril, são apostas certas da vida na construção de um mundo melhor. A jovem talentosa provém de ambiente familiar encharcado de místicas inspirações. Isso favorece em muito a circunstância de saber botar pra fora impulsos generosos de fecundidade criadora singular. Está compenetrada – tudo aponta nessa direção – de que a imaginação governa o mundo, como dizia Napoleão. Trata-se de uma espécie de tocha divina apensa ao espírito do homem, que lhe permite mover-se nas trevas da criação, como propunha Joaquim Nabuco. O mesmo Joaquim Nabuco que nos ensinou a suprema utilidade do poder da imaginação no fortalecimento da inteligência. Essa imaginação, que conforme disse também alguém conhecedor a fundo dos mistérios da vida, é inventora da verdade.

Yasmin constatou desde cedo algo transcendente, de muito valor na contemplação do semblante fantástico da realidade: o espírito humano é que nem o paraquedas. Só funciona aberto. A mensagem transmitida no romance que inaugura um ciclo literário que se prevê radioso – “O amor além das estrelas” - encerra mensagem impregnada de ternura. Tem aparência de uma ermida singela plantada no outeiro de paragem com mágico visual. É enredo composto para ser assimilado por pessoas de sensibilidade lírica. Pessoas que, na contemplação dos prodígios do cosmos, diante das fantásticas revelações já conhecidas e das mais fantásticas revelações a conhecer, aprendem a extrair do fundo da mente e do coração, num céu estrelado em noite com suavidade de oração, uma definitiva exclamação de sabedoria “Uai! Minha Nossa! Não é que eu sou parte de tudo isso? Desse colosso de coisas?”

A graciosa Yasmin é um ponto luminoso no cenário tumultuado do mundo. Quando falamos de pontos luminosos, detectados na paisagem humana de nossos tempos, recordamo-nos de uma fala de Sai Baba, o célebre pensador indiano – não sabemos se proferida antes ou depois de sua passagem pela pátria dos homens –, quando assevera que a vida em seu estágio atual, ao contrário do que a maioria pensa, não é regida por trevas espessas, mas por luminosidade ofuscante. Mas, como? Indagarão, por certo, alguns, expressando surpresa com esse tipo de conceituação da história moderna. E as guerras? E as injustiças sociais? E as desigualdades? Como é que tudo isso entra nessa proposta? O que está havendo – explica, então, o sábio – é uma estrondosa manifestação de insurgência comportamental, onde homens e mulheres de boa vontade, abundância de paz no coração, angustiados com os dramas à volta, impostos pela hipocrisia, pela arrogância, pelos desmandos, pela prepotência, estão a deflagrar reações suscetíveis de colocar em pratos limpos acontecimentos indesejáveis, dispostos a desfazerem as muitas estruturas depressivas que nos regem e retardam o nosso processo evolutivo.

Aumentam, a cada dia, as legiões humanas ávidas por transformações essenciais, que recoloquem os trilhos da vida no rumo do bem estar social. Das lideranças humanas em todos os setores os construtores deste novo cenário esperam que se disponham, em dado momento, a deixarem pra traz os refúgios da hipocrisia e do embuste, em que se encastelam; façam cessar a enganação, abrindo-se para a transparência com luz solar das coisas. É muita gente que se empenha, no mundo todo, em trocar lâmpadas de dez watts dos quartos de despejo onde têm sido lançados, ao longo da história, os detritos da incompetência e das insuficiências humanas, por lâmpadas de trezentos watts que, iluminando amplamente as dependências, localizem, visando elimina-las, as sujeiras ali acumuladas. Esse processo de renovação - ordeiro, pacífico, cheio de retos propósitos, de generosas cogitações, abominando radicalismos, fanatismos, ímpetos incendiários, espírito belicoso, racismo, intolerância, preconceito -, exaltando, por outro lado, os valores democráticos, humanísticos e espirituais, será alicerçado com base na luminosidade projetada da alma popular.

Essa, a luminosidade que conta para escorraçar de vez as ameaças das trevas espessas. A mocidade que, segundo o poeta, representa um relâmpago ao pé da eternidade, mostra-se apta, com pureza de intenções, descontaminada de vícios dilacerantes, a ajudar o mundo a palmilhar caminhos mais condizentes com a dignidade da aventura humana. Nossa Yasmin traz contribuição pessoal para tal empreitada.




sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Deus salve a América!


Cesar Vanucci

“Um radical é um homem com os 
dois pés firmemente plantados no ar.”
(Franklin Delano Roosevelt, compatriota de  Donald Trump, num discurso pronunciado há 80 anos)

A exclamação “Deus Salve a América!”, da canção famosa, perde bruscamente seu suave e lírico timbre original, verdadeiro cântico de esperança, para uma entonação grave e sombria, sob forma de dramático apelo à misericórdia divina, no momento em que, tomada de estupefação, a Humanidade se dá conta do indigesto placar eleitoral na corrida pela Casa Branca.

A delegação de poderes que correntes integristas, xenófobas, racistas, machistas, impelidas por ódio e ressentimento, resolveram conferir a Donald Trump para que ele possa exercer, pelos próximos anos, as ilimitadas prerrogativas inerentes ao cargo de maior expressão política, militar, econômica, estratégica da história contemporânea, é algo que injeta mastodônticas doses de pânico no sentimento da sociedade, em tudo quanto é canto do mundo.

As cautelosas e bem comportadas reações diplomáticas dos diferentes governos e a euforia desbordante dos agrupamentos extremistas, ligados ao ultraconservadorismo, fornecem uma medida assaz preocupante dos fortes impactos ocasionados pela vitória do homem que na campanha prometeu e, depois de vitorioso nas urnas, reitera a disposição de construir muros. Muitos muros, como tradução prática das políticas repressivas que cogita implantar no enfrentamento de questões nascidas das diversidades que a vida oferece e da pluralidade de ideias e crenças que compõem o efervescente mosaico humano. Abra-se parêntese para um registro histórico danado de intrigante: a data das recentes eleições transcorridas nos Estados Unidos coincidiu com mais um aniversário da derrubada do famigerado “muro da vergonha”, implantado em Berlim no período da chamada “guerra fria”.

Os radicais de todos os matizes vêm saudando com incontível regozijo a chegada à rampa do poder do “líder mundial” de suas ardentes aspirações. Dirigentes da extrema direita europeia, engajados em combate acirrado e permanente às propostas de globalização social e às politicas de fortalecimento dos direitos humanos fundamentais, mostram-se exultantes com o revigorante apoio trazido pela eleição de Trump aos seus retrógrados projetos políticos. Projetos esses sabidamente calcados na intolerância, no fundamentalismo religioso, em idiossincrasias insanáveis com relação às minorias e aos setores de opinião livre que cometam a “heresia” de divergir de suas rançosas doutrinas medievais estribadas no “crê ou morre”.

Marine Le Pen, na França, candidata à presidência da república, célebre pelas posições radicais assumidas na negação das conquistas humanísticas que conferem dignidade à vida, é uma, entre outros numerosos dirigentes de tendência fascista, que trouxe a público júbilo arrebatado pelo triunfo do magnata. A Ku Klux Klan retirou do baú os bolorentos estandartes, convocando seus aguerridos adeptos a saírem às ruas em passeatas cívicas mode que comemorar o estrondoso feito do republicano. Trump é apontado pela organização como um paradigma da “supremacia racial branca”, que constitui a essência de sua indormida cruzada racista em prol dos “sagrados postulados cristãos”, dos quais se confessa, minha Nossa Senhora d’Abadia, “zelosa guardiã”. Espera-se que saiba, pelo menos, refrear o ímpeto por linchamentos de seus leais seguidores, pessoal notabilizado em malvadezas equivalentes às cometidas pelos talebãs de outras tendências. 

“Trump oferece o fim da ideia de um Estado Palestino”: foi o que bradou, num arroubo insano, triunfalmente, o Ministro da Educação de Israel, Naftali Bennett, figura exponencial do radicalismo no Oriente Médio. Sua manifestação foi acompanhada, imediatamente, de um apelo do colega, Ministro da Justiça, Aylet Shaked, para que os Estados Unidos, no futuro governo, reconheçam oficialmente a anexação de Jerusalém, deslocando a sede de sua Embaixada para a cidade sagrada, como ato indicativo de não reconhecimento da existência da nação palestina.

Os de boa memória haverão de se recordar da impetuosa onda de radicalismo, de feição bem atemorizante, irrompida mundo afora após a tragédia de Dallas, em 1963. Uma tragédia que deixou sinais traumáticos, até hoje não dissipados na consciência cívica da mais poderosa nação do mundo. Uma tragédia que estimulou polarizações extremadas, desestabilizando a ordem constituída vigente em muitos lugares.

A eleição de Donald Trump levanta, de repente – informados que todos estamos do poder contaminante exercidos pelos fatos relevantes da história estadunidense sobre o resto do mundo -, receios de consequências muito desagradáveis, numa reação em cadeia. O que se fica a esperar, agora, por conseguinte, das legiões majoritárias de homens e mulheres de boa-vontade, em todas as partes do planeta, e das lideranças mais lúcidas do pensamento democrático, humanístico e espiritual, é que saibam conjugar vontade política poderosa e energia criativa suficientes para oferecer, a tempo e a hora, tenaz e forte resistência à encapelada onda de temores, incertezas e desvarios antevista nos horizonte da civilização com o mal-estar e desconforto produzidos pela eleição.

O verdadeiro sentimento universal e a consciência democrática humana constituem generosos mananciais em que a sociedade saberá por certo recolher inspirações para o bom combate a ser travado no sentido de impedir que a retórica belicosa da campanha do presidente eleito acarrete, no plano das materializações governamentais, danos insanáveis à convivência internacional e conquistas civilizatórias. Deus salve a América!


Festa uberabense na
 Amulmig

Cesar Vanucci

“Mário Palmério foi o maior benfeitor
de Uberaba em todos os tempos!”
(Luiz Gonzaga de Oliveira, jornalista,
 novo integrante dos quadros da Amulmig)

Sessão solene memorável! Esta a forma de classificar o evento de saboroso recheio cultural e artístico promovido no último dia 8 de novembro, terça-feira, pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.

Quatro novos acadêmicos, figuras exponenciais na criação literária e jornalismo do Triângulo Mineiro, foram emplacados na oportunidade. Procedentes de Uberaba, três deles já integrantes dos quadros da valorosa Academia de Letras do Triângulo Mineiro, tiveram calorosa recepção por parte de público de expressiva representatividade intelectual. A Secretária Estadual de Educação, professora Macaé Evaristo, compareceu ao encontro, prestigiado também por outras autoridades, dirigentes de entidades culturais, acadêmicos, jornalistas e educadores.

A programação cumprida abrangeu aplaudidas palestras sobre a vida e obra de dois célebres escritores, os uberabenses Mário Palmério e Campos de Carvalho, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado pelos círculos literários. José Humberto Silva Henriques, um dos acadêmicos empossados, romancista e poeta laureado com incontáveis prêmios literários, considerado o mais prolífico escritor brasileiro da atualidade com perto de 300 títulos publicados, focalizou a vida e a obra do autor de “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre”. Relatou passagens interessantíssimas de sua convivência com o criador da Universidade de Uberaba, ex-Deputado Federal, ex-Ministro de Estado e antigo Embaixador brasileiro no Paraguai. Da exposição relativa a Campos de Carvalho, autor entre outros livros acolhidos pela crítica e público de “A lua vem da Ásia”, ficou incumbida a escritora Ilcea Borba Marquez, também empossada, renomada psicóloga, presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Ela apontou Campos como figura de proa da literatura surrealista.

Os dois outros escritores que passaram a compor o quadro de sócios da Amulmig foram os jornalistas Luiz Gonzaga de Oliveira e João Eurípedes Sabino. Gonzaga, respeitado comentarista de rádio e televisão, transpôs para o papel, numa sequência de títulos e artigos, perfis e cenas significativas da vida de Uberaba. Sabino, outro talentoso memorialista, vem acumulando na  trajetória literária palpitantes relatos sobre sua terra natal.

A saudação aos novos acadêmicos foi feita pelo Presidente Emérito da Amulmig, Luiz Carlos Abritta. Destacando os predicados intelectuais de cada um deles, o orador louvou a pujança cultural que torna Uberaba uma cidade tão fascinante. A manifestação de agradecimento dos empossados ficou a cargo do Acadêmico Luiz Gonzaga de Oliveira. Referiu-se à figura inolvidável de Mário Palmério como o maior benfeitor de Uberaba de todos os tempos. Fez conhecida  revelação histórica inédita: como Embaixador brasileiro em Assunção, Mário Palmério foi quem conseguiu vencer a obstinada resistência do ditador Alfredo Stroessner à ideia de colaboração oficial paraguaia à construção da Usina de Itaipu. Esse fato ficou obscurecido por motivações políticas, à vista da circunstância de a atuação de Palmério como nosso representante diplomático haver ocorrido no período do governo deposto de João Goulart.

Nesta verdadeira “festa uberabense” em que se transformou a solenidade na Amulmig, o tenor Marzo Sette Torres, encarregado da parte musical, interpretou, com a ajuda de coral improvisado na hora, a guarânia “Saudade”, melodia célebre do tradicional repertório musical paraguaio, composta por Palmério aos tempos de sua passagem por aquele país irmão.

Como é próprio do ritual acadêmico, cada empossado anunciou no curso da sessão, o patrono de sua cadeira: Ilcea Borba Marquez - escritor e advogado Edson Gonçalves Prata, um dos fundadores da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; José Humberto Silva Henriques - historiador Hildebrando Pontes; João Eurípedes Sabino -  jornalista Quintiliano Jardim, pioneiro da imprensa e rádio da região triangulina; Luiz Gonzaga de Oliveira - Juvenal Arduini, sacerdote, sociólogo e professor, também um dos fundadores da ALTM.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Movimentações financeiras criminosas
                              
 Cesar Vanucci

“Quando é que uma rígida legislação específica, nascida do consenso mundial, irá por fim ao escândalo dos tais paraísos fiscais?”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Já dissemos e voltamos a repetir. É mais do que chegada a hora de se cogitar, numa proposi­ção em que o verdadeiro espírito da globalização seja levado re­almente a sério, de uma legislação competente, elaborada sob os auspícios da ONU, que vede a facínoras, devidamente reconhe­cidos como tais, o direito de operarem nos mercados financei­ros. Uma medida dessa magnitude seria extremamente saudá­vel. Retiraria aos terroristas, aos donos de cartéis de drogas, a corruptos de todos os matizes e a outros execráveis mafiosos a condição de poderem especular livremente em bolsas e de se lançarem aberta e ostensivamente em diversificados e lucrativos empreendimentos na esfera internacional. E, via de consequência, de auferirem, por meio de tais proces­sos, ganhos que acabem sendo carreados para operações deli­tuo­sas contra a sociedade.

As informações, volta e meia divulgadas, de que as organizações ligadas a grupos terroristas movimentam operações financeiras em todos os cantos do mundo, engajadas em negócios de alta rentabilidade, colocam em dúvida a eficiência dos governos que se empenham em rastrear e combater o banditismo organizado. Volta e meia, também, são anunciadas intervenções, em nível planetário, nos negócios dessas organizações. Mas, os resultados práticos dessas intervenções deixam muito a desejar. A opinião pública nada fica sabendo a respeito. A sensação que se tem é de que é longo ainda o caminho a ser percorrido entre a promessa de se fazer algo positivo nessa área e a realidade da implantação de rígidos e eficazes esquemas de controle, oriundos de um consenso internacional, que possam amortecer ou destruir os sistemas operacionais que garantem o fluxo de recursos financeiros para atividades que ameaçam a paz e colocam em risco vidas e patrimônios preciosos.

A aldeia global em que se transformou o mundo, regida por processos de comunicação instantânea que podem vir a ser, dependendo da vontade dos homens, valioso instrumento de progresso e bem-estar social, não tem mais como absorver e to­lerar manipulações financeiras que se coloquem ao desabrigo de causas construtivas e nobres. A sociedade humana tem todo o direito de criar mecanismos de controle dessas movimentações financeiras malsãs. O procedimento há que ser visto como atitude de legítima defesa. Os países empenhados em campanhas permanentes contra os malfeitores de todas as categorias dispõem de instrumentos capazes de neutralizar atividades rendosas utilizadas como suporte em crimes praticados contra a humanidade.

Fica evidente, por outro lado, que quaisquer decisões que venham a ser to­madas com esse saudável propósito moralizador, para alcançarem plena eficá­cia, não poderão ignorar, também, as sedutoras operações clan­destinas estimuladas pelos tais “paraísos fiscais”, criados pela velhacaria e ganância como valhacoutos de bufunfas imoral e irregular­mente adquiridas. Tome-se como exemplo mais famoso o complexo bancário suíço. Não é de hoje que, com toda aquela panca de cafetina pundonorosa, facilita a ocultação, em con­tas numeradas inacessíveis, do dinheiro mal ganho por patifes de todos os matizes e origens. Está claro que não poderá ficar de fora, nessa vastíssima ação saneadora global.


 História espantosa

Cesar Vanucci 

 “Investigação internacional descobre que Estado Islâmico repassa relíquias saqueadas para a máfia em troca de dinheiro e armas.”
(Raul Montenegro, jornalista, na revista “IstoÉ”)

As grandes potências se dizem firmemente empenhadas em combater o sinistro Estado Islâmico. Aos olhos de observadores atentos, os métodos de ação e estratégias adotados pelos sofisticados serviços de inteligência dessas potências, que têm ao dispor uma fabulosa parafernália tecnológica, fazem prova constante de irrazoável ineficiência, para não dizer apavorante incompetência.

As evidências desse insatisfatório desempenho acumulam-se. A opinião pública mundial não consegue mais esconder sua estupefação diante dos resultados pífios das campanhas deflagradas com o alegado objetivo de desbaratar o complexo militar dessa horda de fanáticos acantonada em territórios sírio, iraquiano e líbio.

As perguntas presas na garganta que clamam por respostas suscitam apreensão e temor. Se é verdade mesmo que os terroristas estão confinados em áreas delimitadas, despojados dos recursos de produção necessários, que lhes garantam condições até de sobrevivência; se são mantidos sob a mira permanente de um fabuloso aparato bélico - composto de poderosas esquadrilhas aéreas, frotas navais super equipadas, tropas terrestres bem adestradas -, como é que eles se arranjam para sustentar seu incrementado ativismo bélico? Como é que fazem para prover as demandas cotidianas básicas? Seus suprimentos logísticos nas diversas frentes de combate são garantidos por quais mananciais de produção? Chegam até eles por quais misteriosas vias? Como explicar disponham os terroristas de carros de combate, peças de artilharia, mísseis, tanques, outros armamentos de última geração, munição inesgotável, material de reposição para todos esses equipamentos? Os fornecedores desses apetrechos, imprescindíveis nas ações empreendidas pelas falanges radicais, estão, afinal de contas, baseados em que lugares? Aonde se localiza a sede das operações negociais e por qual sistema bancário tramitam os recursos alusivos às encomendas dos produtos destinados a abastecerem armazéns e arsenais? E de onde, responda quem puder, sai a dinheirama toda para as ousadas empreitadas levadas a cabo por esses amalucados guerreiros, que se valem da desvirtuada interpretação de conceitos religiosos, sagrados para multidões fervorosas, em seu nefando propósito de semear o ódio, a intolerância e o fanatismo?

Recentemente, jornalistas italianos identificaram uma situação estranha, muito estranha, ao que parece não detectada pelos supracitados setores de inteligência das grandes potências, a Itália obviamente incluída, que talvez ajude a responder, em diminuta proporção, algumas das inquietantes indagações acima arroladas. Nos arredores de Nápoles, num frigorífico controlado pela máfia, vêm sendo feitas escancaradamente, sem repressão de quem quer que seja, sombrias operações favoráveis aos interesses do ISIS. Embarcações de grande porte, controladas por bandidos chineses, russos e parceiros de outras origens da máfia italiana, singram tranquilamente as águas do Mediterrâneo para descarregar no local citado material remetido pela organização terrorista, a ser trocado por armamento. Os navios chegam carregados de tesouros saqueados pelos fanáticos fundamentalistas de sítios arqueológicos do Oriente Médio. A máfia napolitana, que mantém o controle das operações portuárias, recolhe as relíquias e as redistribui, até mesmo a museus, como denunciam os jornalistas, falsificando – ora, veja, pois! - atestados de procedência. No retorno, os navios levam armamentos e outras provisões.

Na edição de número 2447 da revista “IstoÉ”, a história dessa trama inacreditável é relatada com minuciosos detalhes pelo jornalista Raul Montenegro. Sem qualquer margem para equívocos, a parceria firmada pelos terroristas com a máfia italiana não explica, por completo, as circunstâncias de o Estado Islâmico manter-se vigoroso diante de toda a poderosa conjugação de forças constituída para desestabilizá-lo. Mas não deixa de ser um indício alarmante de coisas escabrosas que podem estar acontecendo no subsolo das conveniências geopolíticas. Coisas que fazem os serviços de espionagem e contraespionagem das grandes potências parecerem mais negligentes e ineficazes do que realmente são. Em toda essa espantosa situação, existe, tá na cara, uma lógica tenebrosa.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Recados eloquentes


Cesar Vanucci


“A democracia é antes de tudo um estado de espírito.”
(Pierre Mendès-France, estadista francês)

Recado curto e eloquente. Claro que nem o sol chamuscante deste verão metido a besta que a Natureza cismou de encaixar em plena estação primaveril, emitindo mais um sinal de alerta acerca dos desvarios humanos com relação ao meio ambiente.

Na etapa derradeira da campanha eleitoral, como já havia sucedido no primeiro momento, valendo-se da linguagem toda especial das urnas, a opinião pública fez questão de desabafar seu desencanto. O inconformismo projetado contempla os descaminhos trilhados por tanta gente, militantes de diferentes greis partidárias, na atividade política. O eleitorado expressou também avantajado anseio por reformas estruturais pra valer. Reformas que expressem, na verdade, avanços relevantes do ponto de vista democrático e republicano. À classe política resta como alternativa a humildade de um mea-culpa sincero e convincente.

Não podemos deixar de ressaltar que o pleito, realizado de forma alvissareira outra vez mais, colocou à prova o elevado grau da maturidade democrática reinante no seio da sociedade. Revelou também – e este é outro item auspicioso a ser comemorado – a eficiência do incomparável instrumental tecnológico de vanguarda adotado pelo Estado brasileiro, via Justiça Eleitoral, para aferir a soberana vontade do eleitor nas pugnas eleitorais previstas no calendário político.

A manifestação de desagrado popular mais notória ganhou configuração no avultado índice de abstenção e de votação nula e em branco observado em tudo quanto é lugar. Deu pra sentir no ar uma sensação de enfado, de fadiga, de contrariedade com o que rola no pedaço político, onde as reformas fundamentais são indefinidamente procrastinadas.

Na capital de Minas Gerais, por exemplo, o Prefeito foi eleito com número de sufrágios inferior ao somatório das abstenções, votos brancos e nulos. Noutros centros a situação se repetiu, denunciando a insatisfação ostensiva de parcelas ponderáveis do eleitorado com referência a candidatos e partidos.

Por outro lado, ficou bastante nítida a disposição dos votantes em infringir derrota a grupos políticos de presença hegemônica marcante nas comunidades. Os resultados em Belo Horizonte refletem, igualmente, esse estado de espírito. A vitória de Alexandre Kalil ancorou-se numa alardeada insubmissão do candidato às correntes políticas tradicionais. A par disso, pôde-se constatar, por parte dos demais candidatos, desde o primeiro turno, zelo e cuidados extremos em não exporem demasiadamente suas vinculações partidárias e comprometimentos com dirigentes políticos de proa. Tais posturas comportamentais traduziram, insofismavelmente, reconhecimento de que as legendas e seus próceres de maior realce atravessam fase de maré baixa no conceito e simpatia das ruas.

Falando ainda das eleições em Minas. Embora o fato não tenha sido até aqui, ao que saibamos, objeto de análises mais aprofundadas, este escriba é de parecer que num município da região metropolitana, Betim, ocorreu, certeiramente, o lance mais emblemático do que se pode apontar como demonstração da ardente expectativa comunitária por transformações político-administrativas essenciais. A escolha para Prefeito de um cidadão com a dimensão humanística de Vittorio Medioli, baita empreendedor, soa como algo diferente no cenário. Deverá atrair para aquele município, a partir de janeiro, segundo nossa percepção, atenções especiais da opinião pública e meios políticos.


Debates suscitados 
pela Lava Jato

Cesar Vanucci


“O artigo de Cerqueira Leite foi uma opinião a mais
no grande debate aberto pela operação “Lava Jato”.
(Élio Gaspari, jornalista)

Os métodos de atuação das autoridades responsáveis pela momentosa operação “Lava Jato”, com destaque para o famoso Juiz Sérgio Moro, têm sido alvo de acesas controvérsias no plano jurídico, noticiadas de forma inusualmente comedida pela mídia impressa de penetração nacional. Decantados em verso e prosa por parcelas ponderáveis – dir-se-ia mesmo majoritárias – da opinião pública, alguns procedimentos adotados, em não poucos instantes do saneador processo investigatório, são questionados por vozes representativas da intelectualidade brasileira.

A polêmica fica centrada, de modo especial, na utilização frequente do instituto da “delação premiada”, das constantes conduções coercitivas e, sobretudo, da estridência midiática que costuma rodear boa parte dos atos de alçada dos investigadores. Atos esses que, no ver dos críticos, deveriam ser sempre pautados com prudência e cautela. Seria essa uma maneira legalmente correta – sob tal ótica – de impedir indesejáveis antecipações de culpabilidade das pessoas com base em temerários indícios ou denúncias que poderão se revelar, mais adiante, inconsistentes. Já no entendimento oposto, a deliberada divulgação de fatos contendo fortes suspeitas com respaldo probatório foi o que assegurou à operação "Lava Jato” o nível de eficácia que se lhe é reconhecido. Foi graças aos métodos empregados – sustenta-se ainda nessa linha de argumentação – que boa parte dos malfeitos pôde desaguar em punições.

O debate travado tem sido bastante incandescente, sem que parte da sociedade esteja sendo informada do teor por inteiro das alegações expendidas pelos contendores. Uma demonstração elucidativa deste conflito de ideias aconteceu recentemente. O diálogo compreendeu contundentes verbalizações formuladas por personagens de elevada expressão intelectual e profissional nos segmentos em que atuam. Tudo começou com um comentário do professor Rogério Cerqueira Leite, físico, catedrático emérito da Unicamp, membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, na “Folha de São Paulo”. No artigo, Cerqueira Leite compara o Juiz Sérgio Moro ao frade dominicano Girolamo Savonarola, “representante tardio do puritanismo medieval". Assinala que “a história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o Juiz Sérgio Moro”. Anotando que “a corrupção é quase que um pretexto”, o articulista sustenta que “Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça é muito mais que intolerância moralista”. Acrescenta que, “por isso mesmo, (Moro) não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT”. Conclui assim o artigo: “Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai Vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes. Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não”.

Como seria de se esperar, o magistrado Sérgio Moro reagiu com toda veemência à crítica. Rebateu os termos do comentário numa carta publicada também pela “Folha de São Paulo”. Assinalou o seguinte: “Lamentável que um respeitável jornal como a “Folha” conceda espaço para publicação de artigo como o “Desvendando Moro”, e mais ainda surpreendente que o autor do artigo seja membro do Conselho Editorial da publicação. Sem qualquer base empírica, o autor desfila estereótipos e rancor contra os trabalhos judiciais na assim denominada operação Lava Jato, realizando equiparações inapropriadas com fanático religioso e chegando a sugerir atos de violência contra o ora magistrado”.

Mais adiante, sem diminuir o tom de repulsa às considerações comentadas, frisou: “Embora críticas a qualquer autoridade pública sejam bem-vindas e ainda que seja importante manter um ambiente pluralista, a publicação de opiniões panfletárias partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual, deveriam ser evitadas, ainda mais por jornais com a tradição e a história da “Folha”.

Este, sem dúvida alguma, é um dos palpitantes debates levantados pela operação “Lava Jato”.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Deu mesmo a louca...

Cesar Vanucci

“Como sabes que a Terra não é o inferno de um outro planeta?”
(Aldous Huxley)

Adeptos das teorias conspiratórias sustentam que tudo aquilo que vai ser lido na sequência faz parte de um gênero de ocorrências singulares derivadas de uma circunstância sinistra: absorção pelo organismo de partículas de estrôncio lançadas na atmosfera. Mas eles não sabem dizer quem faz isso e nem quais são os intuitos da inverossímil ação. Tá na cara que a tese não encontra aceitação no entendimento das ruas.

Mas um mundo de gente admite que, realmente, coisas assustadoramente estranhas andam pintando ultimamente no pedaço, numa escala de incomum intensidade. São incidentes insanos, de feição danada de inusitada. Episódios pontuais que explodem de repente, alvejando na base da tocaia a rotina tranquila das pessoas comuns. Produzem espanto e sobressaltos duradouros.

Não, do que se está falando aqui, não são daquelas tragédias, descomunais nas proporções, que enchem de inquietação bilhões de criaturas, criadas pela proverbial insensatez humana. Tragédias que parecem, às vezes, convalidar conceito desconcertante de Aldous Huxley, quando lembra que a Terra poderia ser, talvez, o inferno, citado nas narrativas bíblicas, de outro planeta povoado.  O objeto de atenção são aquelas tragédias da esquina; da casa, da rua, do bairro em que a gente mora; ou daquele lugar que costumamos frequentar com amigos. Acontece que esses “BO.s”, de características pode se dizer inéditas e macabras, vão se tornando, nestes tempos amalucados, alarmantemente constantes.

Alinhamos abaixo fatos extraídos do recente noticiário nosso de cada dia.

A inocente jovem, de origem humilde, estava prestes a dar à luz. Um bando criminoso sequestrou-a e assassinou-a com perversos requintes. Arrancou de seu ventre a criança para entregá-la à autora intelectual da bárbara trama. A dita cuja vinha simulando para o companheiro e familiares estar grávida, arquitetando tudo com o objetivo maquiavélico de poder exibir a criança como sua filha recém-nascida.

O vídeo na internet capta imagens arrepiantes em matéria de virulência racista. Numa praia, pedaço de chão que a Natureza dadivosamente reservou para amplas confraternizações ecumênicas e democráticas, a mulher branca, abonada financeiramente, apronta o maior escarcéu. Soltando fogo pelas ventas, espumando ódio pela boca, bota pra fora, numa saraivada de impropérios, seu inconformismo. Tudo por causa da “presença acintosa, incômoda”, próxima ao “espaço” escolhido para o lazer de seus dignos familiares, de algumas pessoas de cor negra, “gente que não aprende nunca a conhecer seu lugar”...

Nessa outra ocorrência aqui, um homem sobre quem pesava ligeira suspeita de pedofilia foi encontrado perto de sua casa com a cabeça separada do corpo.

Revoltante caso de pedofilia, bem documentado, envolveu um coronel da Polícia Militar carioca, presidente da Caixa Beneficente da corporação. O cara foi flagrado por subordinados – pasmo dos pasmos! – na prática de atos libidinosos com criança de dois anos de idade. Comparsa sua incumbia-se, há tempos, de “selecionar” meninas dessa faixa etária para que ele pudesse satisfazer seus bestiais instintos.

Uma câmera indiscreta, instalada pelo caseiro de um sítio, pilhou ex-senador da República pelo Estado de Tocantins em práticas assemelhadas. As vítimas eram menores de cinco e seis anos. Enquanto isso, noutra região do norte do país, a filha de individuo detentor de elevado cargo na segurança pública viu-se compelida, tal a suprema gravidade do ato cometido pelo genitor, a denunciá-lo. Ele havia estuprado neta de menor idade.

O tema estupro rendeu, por sinal, recentemente, uma desnorteante pesquisa. Resultados estarrecedores. Trinta e três por cento das pessoas consultadas, homens e mulheres, deixaram claramente explicitado que as sórdidas agressões são geralmente provocadas pelas próprias vítimas, por causa de “gestos e trajes indecentes, em desafio escancarado à moral e bons costumes”, minha Nossa Senhora da Abadia da Água Suja!

Dia desses, na hora do lanche na repartição, um grupo de funcionários trocava ideias sobre o desconforto trazido ao cotidiano de todos nós por essa incidência de fatos ultra chocantes que vêm pontilhando a vida moderna. Alguém no grupo bradou: - Parece até que o mundo tá acabando! Foi quando a faxineira do lugar, até então arredia às discussões, resolveu também emitir seu parecer: - Gente boa, o mundo já acabou, nós é que não fomos ainda informados...


Gumercindo e Noé

Cesar Vanucci

“Os mais sagazes em matéria política conseguem ver num ponto muito mais que uma simples letra!”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Gumercindo chegou ao céu trazendo no rosto os sinais de medo de suas derradeiras experiências terrenas. Ao atravessar o túnel de luz dourada que, a se crer nos místicos e em pessoas que alegam haver retornado do estado de coma, separa este nosso mundo de infinitas provações do mundo das eternas bem-aventuranças, transportou na mala todas as emoções absorvidas na tragédia da inundação que o levou a “encantar-se”, como diria o sábio Guimarães Rosa.

Homem temente a Deus, consagrado à família, ao trabalho e à religião, Gumercindo vira ruir, de hora para outra, com a apavorante enchente do rio provocada por tromba d’água não anunciada nas previsões da Maju, todas as referências importantes de sua vida pacata e singela. Sentiu, ao desencarnar, um bocado de dificuldades em desvencilhar-se das sofridas recordações: a caudal avassaladora engolindo gente, casas, criações, plantações. Ribeirinho afeito às lidas da terra e da água, jamais pusera os pés em cidade grande. Acompanhara, com o espanto dos simples e ordeiros, a marcha trepidante da história pelo radinho de pilha. Assistiu ao “fim do mundo” mal chegado aos 80. O choque foi de tal impacto que São Pedro achou por bem encomendar para Gumercindo atenção toda especial dos plantonistas do serviço celestial de psicologia.

Nos primeiros momentos de morada celeste, ele fez questão de narrar, tintim por tintim, a quem se dispusesse a ouvi-lo, fôlego de cantador de víspora, a história inteira da descomunal tragédia que o arrancou da vidinha pacata naquele pedaço esquecido do sertão. Encontrou compreensão da parte de quase todo mundo com quem se relacionou. Ficou intrigado, entretanto, com a atitude de um residente antigo do excelso lugar. Um cidadão de longas barbas brancas, que se lhe pareceu, o tempo todo, embora cortês, indiferente aos números e dados aterrorizantes. Não suportando o suposto descaso do outro, Gumercindo resolveu queixar-se: - “Cara mais estranho, esse aí! Não se abala um tiquinho com a enchente que arrasou a minha região. Quem ele pensa que é?” A resposta do psicólogo escalado por São Pedro clareou tudo: - É o Noé, o da arca!

Conhecido meu, experimentado analista, que circula há décadas pelos desvãos da política e que ostenta no invejável currículo ativa participação em mil e uma campanhas eleitorais, reconhecido ainda como traquejado articulador de conchavos, dominando de cor e salteado eletrizantes experiências acontecidas no Brasil e mesmo no exterior, deu uma de Noé, dia desses, com o neto. O rapaz, mal chegado aos 30 anos, tomado de fascínio com o intrigante jogo político, sentiu-se de repente bastante confuso com a atmosfera pesada reinante nessa área de atividade. Enumerou um bocado de lances contundentes, incompreensíveis à uma primeira vista d’olhos, frutos de tricas e futricas de bastidores, que vêm pintando no pedaço e rendendo manchetes vistosas, de modo a confundir o espírito da gente do povo. Resolveu transmitir suas preocupações ao avô. O velho, escolado, experiente, ouviu tudo com suprema paciência, sem emitir comentário que denotasse apreensão diante dos atordoantes fatos relatados. Manteve no semblante passividade típica de bonzo recolhido a eremitério do Himalaia. Desconcertado, meio sem graça, um tanto frustrado, o neto só viu cair a ficha e manjou a postura do avô quando alguém deu-lhe a conhecer a historinha do Gumercindo. Aprendeu, no exato momento, que o aparente desdém do avô face à enxurrada de denúncias e armações soltas na praça, parte delas vinda à tona pelo estridente noticiário, recheadas de picardia política, representa, na verdade, recado na linha (diluviana) de Noé. É como se estivesse dizendo: - Vosmecês ainda não viram nada. O que tá acontecendo é café pequeno para o que vem vindo por aí...

  
Cunha e a delação premiada

Cesar Vanucci

“Acho que algumas pessoas podem, sim, ter medo de uma delação...”
(Deputado Paulinho da Força, político bastante 
chegado ao ex-deputado Eduardo Cunha)

Vamos lá. Não há um único vivente deste território continental, noutros tempos chamado Pindorama – incluídos aí os aborígenes das remanescentes tribos amazônicas a serem ainda contatadas pelos sertanistas da Funai -, que ignore o potencial demolidor contido numa eventual “delação premiada” do “malvado favorito” de tanta gente, hoje recolhido ao cárcere de Curitiba. Comparativamente falando, um acordo de Eduardo Cosentino da Cunha está para os pactos firmados com a Lava-Jato por Dulcídio Amaral e por Sérgio Machado (ex-presidente da Transpetro), assim como os efeitos dos disparos de mísseis de um caça de última geração estão para os estrondos e estragos produzidos por meia dúzia de bananas de dinamite.

Bastante compreensíveis, por conseguinte, a nervosa expectativa geral que se formou no seio da opinião pública e o clima de inocultável apreensão detectado nos arraiais políticos desde que anunciada a detenção do ex-presidente da Câmara dos Deputados. A possibilidade de que ele possa, então, promover retaliações a desafetos e, sobretudo, antigos aliados, em sua ótica considerados “infiéis” nestes seus desditosos momentos, é considerada coisa perfeitamente factível.

Desde que afastado da Presidência do Legislativo pelo Supremo Tribunal Federal, situação agravada com a cassação do mandato em acachapante votação em plenário, Cunha vem alimentando o noticiário com a perspectiva de bagunçar pra valer o coreto. Prometeu lançar livro com explosivas revelações. Interpelado sobre quem poderiam vir a ser os personagens centrais da narrativa, respondeu enigmaticamente: “Todo mundo!”

Em entrevista concedida, dias depois da perda do mandato, alvejou “dileto companheiro” de frutíferas caminhadas políticas ainda recentes. O responsável pelo sistema de Parceria dos Programas de Investimentos do governo, Moreira Franco, apontado como um dos políticos de maior influência no núcleo central do poder em Brasília, foi por ele acusado de envolvimento em maracutaia que teria ocorrido no financiamento das obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Não deixou a acusação por menos: “Na hora em que as investigações avançarem, vai ficar muito difícil a permanência dele, Moreira, no Governo”.

Enquanto isso, partidários do ex-parlamentar deixavam subentendido, em sibilinos registros, que os temores circulantes nos redutos políticos acerca de denúncias envolvendo próceres destacados de diferentes siglas, poderão, sim, se converter, de hora para outra, em libelos acusatórios capazes de molestar a reputação de muita gente. De um desses leais seguidores de Cunha ouviu-se, dias atrás, a seguinte frase: “Acho que algumas pessoas podem, sim, ter medo de uma delação...” Para analistas experimentados da cena política, a declaração mais do que externando um ponto de vista pessoal de alguém ligado a Cunha, soa como ameaçador recado do próprio a pessoas que, ainda recentemente emaranhadas em seus projetos e maquinações políticas, optaram pelo “salve-se quem puder” na hora em que o barco começou adernar.

Astuto, maquiavélico, estrategista, desafiador, ousado, desconhecedor de limites éticos nas aprontações, Cunha reúne condições de encrencar um mundão de cidadãos de diferentes legendas partidárias. As informações privilegiadas que detém, como protagonista e testemunha ocular de ilicitudes intensamente praticadas na vida pública brasileira de largo espaço de tempo para cá, tornam-no um verdadeiro “arquivo vivo”. Na avaliação de qualificados observadores, ele dificilmente deixará de utilizar esses elementos, pacientemente estocados ao longo dos anos, na tentativa de procurar aliviar a “barra pesada” que ora incide sobre sua vida e sobre sua esposa, também ré numa das ações da “Lava-Jato”.


Uma outra circunstância confere especial dramaticidade ao episódio que levou, após tantos meses de espera, Eduardo Cunha à prisão preventiva. A impressão nutrida por muitos conhecedores da hermenêutica jurídica é de que esse ato representaria  prólogo de uma decisão destinada a alcançar enorme repercussão na vida nacional: a detenção do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016


O medo nosso de cada dia


Cesar Vanucci

“A cada dia, a cada hora, a gente
aprende uma qualidade nova de medo”.
(Guimarães Rosa)

Uma era, como a atual, favorecida por conquistas tecnológicas esplendorosas e por solenes compromissos nascidos do consenso universal em torno da propagação dos direitos fundamentais, teria tudo para fazer deste maltratado planeta azul uma morada privilegiada em termos de bem-estar social e de convivência amorável e venturosa. Mas isso, desafortunadamente, não acontece. Tudo por culpa das armadilhas traiçoeiras, ciladas perversas e dos ardis inesperados engendrados pela prepotência, obscurantismo, arrogância, egoísmo e insanidade de setores muito bem identificados, com poderes decisórios sobre os rumos das engrenagens comunitárias.

As utopias positivas que jorram dos corações dos homens e mulheres de boa-vontade acenam com transformações comportamentais garantidoras de relacionamentos entre nações e indivíduos consentâneos com a dignidade humana. Elas tropeçam, todavia, a cada instante, em reações que outros propósitos não descortinam senão o retardar da evolução do processo civilizatório. Todos nos damos plena conta disso. A poderosa e extensa fileira das articulações nefastas contínuas contra as generosas aspirações humanas focadas no desenvolvimento espiritual e material é acrescida, volta e meia, de lances insensatos e cruéis elevados ao paroxismo.

O noticiário nosso de cada dia – sabe-se lá por que cargas d’água!  – não se ocupou de uma candente e momentosa questão com o destaque crítico que ela faz por merecer. Assustadora, muito assustadora, a revelação trazida a lume, indoutrodia. Encaixa-se, com perfeita adequação naquilo que Guimarães Rosa proclama: “A cada dia, a cada hora, a gente aprende uma qualidade nova de medo”. No caso em foco, tenebroso fruto de jogo de conveniências espúrias do Governo dos Estados Unidos com uma multinacional de comunicação na tecnologia de ponta, o medo vem associado – pasmo dos pasmos! – ao eficiente e complexo sistema de comunicação que, bilhões de vezes ao dia, proporciona a avalancha de mensagens telefônicas e registros eletrônicos que a rede mundial de computadores põe pra correr o mundo de ponta a ponta.

A agência “Reuters”, exibindo convincente material probatório, acaba de dar ciência à sociedade humana, debaixo de compreensível estupor, que a agência de espionagem NSA e a empresa “Yahoo!”, conluiadas, adaptaram programas para favorecer uma ampla, geral e irrestrita bisbilhotagem das mensagens aglutinadas nas caixas de entradas de mais de meio bilhão de clientes. O sórdido esquema de xeretagem montado abre espaço aos arapongas da NSA para que vasculhem, de cabo a rabo, a torto e a direito, todo o conteúdo das manifestações feitas pelos desavisados usuários.

Não fica fora de propósito, por conseguinte, imaginar que neste preciso momento, compenetrados agentes especializados em contraespionagem, numa repartição qualquer daquele vigilante órgão oficial estadunidense, estejam concentrados na tentativa de decifrar o significado oculto de um recado que dona Sulamita Hallal, moradora em Santana do Jacaré, libanesa, dama de peregrinas virtudes, doceira de mão cheia, encaminhou ao filho Jamil, residente em Ann Arbor, Michigan, falando de coisas do trivial variado familiar. Esposa de Chafir Hallal, sírio, comerciante de secos e molhados, Sulamita recomenda zelosamente a Jamilinho que, em sua próxima visita a Nova Iorque, pra conhecer a Estátua da Liberdade, não se esqueça, por causa do clima invernoso, de levar o felpudo capote coreano, tecido com lã paquistanesa que ela adquiriu “para o filhinho querido” quando de recente peregrinação ao Egito para um retiro espiritual na mesquita central do Cairo. Atenta ainda à circunstância de o filho estar cursando escola de gastronomia no Tio Sam, transmite-lhe, na mesma mensagem, receita caseira sobre a fabricação de bombas de baunilha, enfatizando a necessidade de hidratação por doze horas do damasco utilizado como recheio, para que o produto atinja o ponto certo.

Como consequência da sofisticada avaliação dos competentes sherloques debruçados sobre o diálogo originário de Santana do Jacaré, não constituirá surpresa possam as prosaicas atividades da família Hallal ser reviradas, de repente, de cabeça pra baixo. Bastará para tanto que o desconfiômetro da arapongagem institucionalizada, à cata de chifre em cabeça de cavalo, acuse desconforto com algumas expressões vocabulares suspeitosas empregadas por dona Sulamita. Isso já ocorreu com outros usuários de internet. A imprensa americana informa, por exemplo, que um advogado muçulmano de Portland teve, de hora para outra, seu telefone grampeado e seu histórico de navegação na internet investigado, sua casa e seu escritório revolvidos, com dissabores sem conta como é óbvio imaginar, antes que as autoridades chegassem à conclusão de terem se enredado num tremendo dum equívoco. Uma outra família americana também passou por vexames ao falar de bomba... escolar.

Da desagradável situação criada por essa maquiavélica conjugação de forças brotam mais indagações perturbadoras. Será que a torpe invasão de privacidade em termos escandalosamente globais ficou adstrita tão somente aos entendimentos, aqui narrados, dos serviços de espionagem da Casa Branca com apenas um único provedor da gigantesca rede mundial de computadores? Hein?


Greve japonesa


Cesar Vanucci


“Um radical é um homem com os
dois pés firmemente plantados no ar.”
(Franklin Delano Roosevelt)

Há mais de 20 anos lancei neste espaço um artigo intitulado “Greve japonesa”. Relendo-o, constatei que ele conserva ainda sonora atualidade.

Fazendo turismo no Japão, um cidadão brasileiro precisou recorrer a uma operação bancária de emergência. Foi quando ficou sabendo que os bancários nipônicos haviam entrado em greve, exigindo reposição de perdas salariais, mais isto, mais aquilo, tudo de acordo com o figurino sindicalista mundial. Comentou, desolado, com a cara-metade: - “Eles entram em greve e eu entro em parafuso. Como é que vou me arranjar, minha nega?” A resposta à sua inquietação veio sob a forma de uma revelação tranquilizadora, recebida por ele entre espantado e aliviado. A “greve japonesa” se regia por critérios totalmente diversos de tudo aquilo que havia aprendido no Brasil e ficado conhecendo sobre o assunto em outros países.

Os bancos não cerrariam as portas um minuto sequer. A prestação de serviços à clientela não sofreria a mais leve alteração. A diferença fundamental entre o dia normal de atividade e o dia sacudido pelo movimento de discordância trabalhista consistia no fato de que os grevistas, atraindo por eficaz esquema de divulgação a atenção da opinião pública, aproveitando para criticar com veemência os patrões, haviam espalhado, por tudo quanto é canto, sistema de som, faixas e cartazes e exibiam ostensivamente braçadeiras em que se proclamava o estado de greve. A assistência aos clientes fluiu tranquila, plena em eficiência, recheada de todas aquelas mesuras que fazem parte da cultura do país e que já renderam deliciosos momentos em comédias cinematográficas americanas. Ao solícito caixa que o atendeu, o nosso brasileiro, deslumbrado, perguntou que diabo de greve era aquela em que as pessoas trabalhavam com o entusiasmo e dedicação de sempre. A resposta arremessou-o na lona: - “O objetivo é atrair simpatia para a causa, não o contrário”.

Já que no Brasil, a começar das chamadas elites, espichando por outras camadas da população, existe uma compulsiva inclinação para copiar (em numerosos casos, mal e porcamente) modelos de atuação que presumivelmente deram certo em outros lugares, fico a matutar, cá com os meus botões, se não seria de bom alvitre patrocinar a ida ao Japão de alguns próceres sindicais do lado de cá do Equador. Eles poderiam conhecer ao vivo essa e outras experiências interessantes dos sindicalistas locais, em suas lutas por benefícios sociais. Nem seria o caso de sonhar com a incorporação de tal greve sem paralização aos nossos hábitos na contenda trabalhista.

Mas de se imaginar, com o exemplo que vem da Ásia, um tipo de manifestação, sem servilismo, sem a abjuração de princípios, que não representasse, em hora alguma, contrafação daquilo que verdadeiramente importa numa greve: a busca pelo reconhecimento de prerrogativas classistas e da cidadania. Porque, pra falar mesmo a verdade, sem que se possa com isso alvejar as motivações legítimas que povoam o inconformismo dos assalariados, diante do solene desprezo que o governo e outros setores votam às questões sociais, não há como deixar de condenar enfaticamente certas reações de protesto, trazidas às ruas por grupos anárquicos, comandados por líderes primários e radicais.

Não há uma única pessoa de bom senso disposta a dar um ceitil de apoio a movimentos reivindicatórios, mesmo considerados justos e pertinentes no apelo de origem, quando representantes desse movimento passam a agir que nem fossem uma horda de vândalos, ocupando repartições, destruindo instalações, sitiando autoridades nos ambientes de trabalho. Ou quando, na briga natural pela recomposição de um direito espezinhado, um bando de despreparados, infensos ao diálogo, cismam de paralisar e até de sabotar o funcionamento de serviços vitais para comunidades inteiras, fabricando o caos nas ruas e nas casas, ou, ainda, quando em posturas antiprofissionais que clamam aos céus, se negam a dar atendimento à gente humilde que enfileira o seu sofrimento nas portas de casas de saúde construídas como garantia de socorro ao semelhante.

A greve é um importantíssimo item democrático. Não se adapta aos limites geográficos dominados por versões despóticas, de quaisquer colorações. Na Rússia tzarista e na União Soviética bolchevista, para ficar com um único exemplo, foi sempre tratada como caso de polícia, resolvido na pata da cavalaria cossaca ou nas lagartas blindadas dos sovietes. A desfiguração da greve, por vesguice mental, ou por induzimento de origem suspeitosa, à margem do sentimento profissional, agride a essência da democracia. Desserve a causa dos direitos humanos. Engrossa o caldo de ressentimentos e maldades que os eternos inimigos botam para cozinhar, a fogo lento, no caldeirão em que lançam ingredientes colhidos nas debilidades, fraquezas e fragilidades humanas e operacionais do regime.

Fazer greve pela greve é rematada imbecilidade. Quem não entende os limites impostos às ações dentro da regência democrática, não se mostra digno de desfrutar das franquias inerentes à liberdade de expressão e movimentos. O grevismo desvairado, que não consegue ou que demora para alcançar seus objetivos, bem que poderia promover uma pesquisa junto à população, investigando se ela está de acordo com a anarquia, com a desordem e com a violentação de outros direitos, que têm marcado alguns movimentos e tornado ainda mais aflitiva e angustiante a situação do homem da rua. A consulta apontará, fatalmente, a necessidade de uma mudança de mentalidade e de rumo. O Brasil aborrece o histerismo radical, que, além de afrontar a cidadania, é uma boçal, intolerável e inaceitável encheção de saco.


A SAGA LANDELL MOURA

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