sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Deus salve a América!


Cesar Vanucci

“Um radical é um homem com os 
dois pés firmemente plantados no ar.”
(Franklin Delano Roosevelt, compatriota de  Donald Trump, num discurso pronunciado há 80 anos)

A exclamação “Deus Salve a América!”, da canção famosa, perde bruscamente seu suave e lírico timbre original, verdadeiro cântico de esperança, para uma entonação grave e sombria, sob forma de dramático apelo à misericórdia divina, no momento em que, tomada de estupefação, a Humanidade se dá conta do indigesto placar eleitoral na corrida pela Casa Branca.

A delegação de poderes que correntes integristas, xenófobas, racistas, machistas, impelidas por ódio e ressentimento, resolveram conferir a Donald Trump para que ele possa exercer, pelos próximos anos, as ilimitadas prerrogativas inerentes ao cargo de maior expressão política, militar, econômica, estratégica da história contemporânea, é algo que injeta mastodônticas doses de pânico no sentimento da sociedade, em tudo quanto é canto do mundo.

As cautelosas e bem comportadas reações diplomáticas dos diferentes governos e a euforia desbordante dos agrupamentos extremistas, ligados ao ultraconservadorismo, fornecem uma medida assaz preocupante dos fortes impactos ocasionados pela vitória do homem que na campanha prometeu e, depois de vitorioso nas urnas, reitera a disposição de construir muros. Muitos muros, como tradução prática das políticas repressivas que cogita implantar no enfrentamento de questões nascidas das diversidades que a vida oferece e da pluralidade de ideias e crenças que compõem o efervescente mosaico humano. Abra-se parêntese para um registro histórico danado de intrigante: a data das recentes eleições transcorridas nos Estados Unidos coincidiu com mais um aniversário da derrubada do famigerado “muro da vergonha”, implantado em Berlim no período da chamada “guerra fria”.

Os radicais de todos os matizes vêm saudando com incontível regozijo a chegada à rampa do poder do “líder mundial” de suas ardentes aspirações. Dirigentes da extrema direita europeia, engajados em combate acirrado e permanente às propostas de globalização social e às politicas de fortalecimento dos direitos humanos fundamentais, mostram-se exultantes com o revigorante apoio trazido pela eleição de Trump aos seus retrógrados projetos políticos. Projetos esses sabidamente calcados na intolerância, no fundamentalismo religioso, em idiossincrasias insanáveis com relação às minorias e aos setores de opinião livre que cometam a “heresia” de divergir de suas rançosas doutrinas medievais estribadas no “crê ou morre”.

Marine Le Pen, na França, candidata à presidência da república, célebre pelas posições radicais assumidas na negação das conquistas humanísticas que conferem dignidade à vida, é uma, entre outros numerosos dirigentes de tendência fascista, que trouxe a público júbilo arrebatado pelo triunfo do magnata. A Ku Klux Klan retirou do baú os bolorentos estandartes, convocando seus aguerridos adeptos a saírem às ruas em passeatas cívicas mode que comemorar o estrondoso feito do republicano. Trump é apontado pela organização como um paradigma da “supremacia racial branca”, que constitui a essência de sua indormida cruzada racista em prol dos “sagrados postulados cristãos”, dos quais se confessa, minha Nossa Senhora d’Abadia, “zelosa guardiã”. Espera-se que saiba, pelo menos, refrear o ímpeto por linchamentos de seus leais seguidores, pessoal notabilizado em malvadezas equivalentes às cometidas pelos talebãs de outras tendências. 

“Trump oferece o fim da ideia de um Estado Palestino”: foi o que bradou, num arroubo insano, triunfalmente, o Ministro da Educação de Israel, Naftali Bennett, figura exponencial do radicalismo no Oriente Médio. Sua manifestação foi acompanhada, imediatamente, de um apelo do colega, Ministro da Justiça, Aylet Shaked, para que os Estados Unidos, no futuro governo, reconheçam oficialmente a anexação de Jerusalém, deslocando a sede de sua Embaixada para a cidade sagrada, como ato indicativo de não reconhecimento da existência da nação palestina.

Os de boa memória haverão de se recordar da impetuosa onda de radicalismo, de feição bem atemorizante, irrompida mundo afora após a tragédia de Dallas, em 1963. Uma tragédia que deixou sinais traumáticos, até hoje não dissipados na consciência cívica da mais poderosa nação do mundo. Uma tragédia que estimulou polarizações extremadas, desestabilizando a ordem constituída vigente em muitos lugares.

A eleição de Donald Trump levanta, de repente – informados que todos estamos do poder contaminante exercidos pelos fatos relevantes da história estadunidense sobre o resto do mundo -, receios de consequências muito desagradáveis, numa reação em cadeia. O que se fica a esperar, agora, por conseguinte, das legiões majoritárias de homens e mulheres de boa-vontade, em todas as partes do planeta, e das lideranças mais lúcidas do pensamento democrático, humanístico e espiritual, é que saibam conjugar vontade política poderosa e energia criativa suficientes para oferecer, a tempo e a hora, tenaz e forte resistência à encapelada onda de temores, incertezas e desvarios antevista nos horizonte da civilização com o mal-estar e desconforto produzidos pela eleição.

O verdadeiro sentimento universal e a consciência democrática humana constituem generosos mananciais em que a sociedade saberá por certo recolher inspirações para o bom combate a ser travado no sentido de impedir que a retórica belicosa da campanha do presidente eleito acarrete, no plano das materializações governamentais, danos insanáveis à convivência internacional e conquistas civilizatórias. Deus salve a América!


Festa uberabense na
 Amulmig

Cesar Vanucci

“Mário Palmério foi o maior benfeitor
de Uberaba em todos os tempos!”
(Luiz Gonzaga de Oliveira, jornalista,
 novo integrante dos quadros da Amulmig)

Sessão solene memorável! Esta a forma de classificar o evento de saboroso recheio cultural e artístico promovido no último dia 8 de novembro, terça-feira, pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.

Quatro novos acadêmicos, figuras exponenciais na criação literária e jornalismo do Triângulo Mineiro, foram emplacados na oportunidade. Procedentes de Uberaba, três deles já integrantes dos quadros da valorosa Academia de Letras do Triângulo Mineiro, tiveram calorosa recepção por parte de público de expressiva representatividade intelectual. A Secretária Estadual de Educação, professora Macaé Evaristo, compareceu ao encontro, prestigiado também por outras autoridades, dirigentes de entidades culturais, acadêmicos, jornalistas e educadores.

A programação cumprida abrangeu aplaudidas palestras sobre a vida e obra de dois célebres escritores, os uberabenses Mário Palmério e Campos de Carvalho, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado pelos círculos literários. José Humberto Silva Henriques, um dos acadêmicos empossados, romancista e poeta laureado com incontáveis prêmios literários, considerado o mais prolífico escritor brasileiro da atualidade com perto de 300 títulos publicados, focalizou a vida e a obra do autor de “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre”. Relatou passagens interessantíssimas de sua convivência com o criador da Universidade de Uberaba, ex-Deputado Federal, ex-Ministro de Estado e antigo Embaixador brasileiro no Paraguai. Da exposição relativa a Campos de Carvalho, autor entre outros livros acolhidos pela crítica e público de “A lua vem da Ásia”, ficou incumbida a escritora Ilcea Borba Marquez, também empossada, renomada psicóloga, presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Ela apontou Campos como figura de proa da literatura surrealista.

Os dois outros escritores que passaram a compor o quadro de sócios da Amulmig foram os jornalistas Luiz Gonzaga de Oliveira e João Eurípedes Sabino. Gonzaga, respeitado comentarista de rádio e televisão, transpôs para o papel, numa sequência de títulos e artigos, perfis e cenas significativas da vida de Uberaba. Sabino, outro talentoso memorialista, vem acumulando na  trajetória literária palpitantes relatos sobre sua terra natal.

A saudação aos novos acadêmicos foi feita pelo Presidente Emérito da Amulmig, Luiz Carlos Abritta. Destacando os predicados intelectuais de cada um deles, o orador louvou a pujança cultural que torna Uberaba uma cidade tão fascinante. A manifestação de agradecimento dos empossados ficou a cargo do Acadêmico Luiz Gonzaga de Oliveira. Referiu-se à figura inolvidável de Mário Palmério como o maior benfeitor de Uberaba de todos os tempos. Fez conhecida  revelação histórica inédita: como Embaixador brasileiro em Assunção, Mário Palmério foi quem conseguiu vencer a obstinada resistência do ditador Alfredo Stroessner à ideia de colaboração oficial paraguaia à construção da Usina de Itaipu. Esse fato ficou obscurecido por motivações políticas, à vista da circunstância de a atuação de Palmério como nosso representante diplomático haver ocorrido no período do governo deposto de João Goulart.

Nesta verdadeira “festa uberabense” em que se transformou a solenidade na Amulmig, o tenor Marzo Sette Torres, encarregado da parte musical, interpretou, com a ajuda de coral improvisado na hora, a guarânia “Saudade”, melodia célebre do tradicional repertório musical paraguaio, composta por Palmério aos tempos de sua passagem por aquele país irmão.

Como é próprio do ritual acadêmico, cada empossado anunciou no curso da sessão, o patrono de sua cadeira: Ilcea Borba Marquez - escritor e advogado Edson Gonçalves Prata, um dos fundadores da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; José Humberto Silva Henriques - historiador Hildebrando Pontes; João Eurípedes Sabino -  jornalista Quintiliano Jardim, pioneiro da imprensa e rádio da região triangulina; Luiz Gonzaga de Oliveira - Juvenal Arduini, sacerdote, sociólogo e professor, também um dos fundadores da ALTM.


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