sexta-feira, 28 de março de 2014

A Primazia é da Vida

“A vida é tudo que se tem
Assim, vamos tê-la” (Anon).

 Não deixo por menos. Fico simplesmente estarrecido diante da revelação de que um portador de doença pertinaz viu-se forçado, em dado instante, a recorrer à Justiça para poder fazer uso de medicamentos receitados, de valor elevadíssimo, inacessível à sua capacidade financeira. O preço da droga (R$36mil, neste preciso caso), composta de drágeas para consumo no período de apenas um mês, uma a uma, é de tamanho a levantar justificada indignação. Custo de remédio nessas altitudes everestianas nem milionário “guenta” ...

Dou-me conta ainda, a proposito de tão candente questão, que os valores extorsivos dos remédios são geralmente vistos, por quase todo mundo, de autoridades a incautos consumidores, com surreal naturalidade. Essa espantosa indiferença face a coisa tão séria estende-se ainda à circunstância de ser habitualmente encarado como situação normal o custeio de remédios de alto valor, eventualmente bancado pelo governo para atender a quem não tenha dinheiro para adquiri-lo. Por lastimável equivoco de interpretação das regras fundamentais da vida poucos ousam apontar quem é e quem não é vilão nessa atordoante e desconcertante historia. Afianço, com convicção, que não são os governos (pelo menos exclusivamente) e nem tampouco os consumidores. Algo definitivamente funciona errado num processo que seja capaz de estipular, ao gosto exclusivo das altamente lucrativas multinacionais atuantes no ramo de medicamentos, a prerrogativa de definir preços escorchantes e jogar todo o ônus para o consumidor, ou para o Erário Público.

Hoje, mais do que nunca, estou solidamente convencido da justeza dos conceitos expressos em artigo publicado há mais de um decênio neste mesmo espaço. O que defendi com ardor e volto a defender, com a republicação que vou fazer do tal comentário em minha próxima participação nesta página, é a tese de que a vida moderna, ancorada em preceitos de justiça social, nos direitos humanos essenciais, aconselha - mais do que isso reclama - a reformulação com urgência urgentíssima dos critérios universais que andam norteando a comercialização de remédios capazes de salvar vidas.

Aos inventores e fabricantes dessas fórmulas prodigiosas sejam assegurados, para todo o sempre, todos os aplausos e reverencias, todas as honras, glorias e recompensas pecuniárias que façam por merecer. Esse procedimento é correto. Mas, por outro lado, o acesso livre, sem obstáculos de qualquer natureza de todos os cidadãos aos benefícios proporcionados pelos produtos farmacêuticos derivados de ações criativas, amparadas em louvável conhecimento cientifico e aplaudido conhecimento profissional, terá que ser garantido imediatamente, assim que anunciada a descoberta dos mesmos. Sem essa, por conseguinte de explorar à exaustão as vantagens comerciais por tempo a perder de vista. Medicamento que salva vidas é um bem precioso que carece ser incorporado de pronto ao patrimônio comum da humanidade. O mundo vai ter que caminhar inapelavelmente na direção de compor uma sistemática de comercialização de remédios que assegure a quem precise, a tempo e a hora, sem ônus abusivos, o produto farmacêutico indicado no receituário como essencial ao restabelecimento da saúde do paciente. A primazia sobre tudo que existe e acontece deve ser sempre da Vida.

Genoma, encantamento e preocupação

Cesar Vanucci *

Daí ser a venda de remédio um negócio de primeira ordem”
(Antônio Callado)

Este desajeitado escriba, com suas prosaicas e quiméricas interpretações do jogo da vida, entende que as ideias expendidas neste artigo, publicado há 15 anos, conservam frescor de atualidade: Hollywood já fez uma penca de filmes explorando o filão. Alguns deles interessantíssimos, sobretudo se levada na devida conta a espetaculosa pirotecnia bolada pelos craques em efeitos especiais que enxameiam os estúdios. Numa das fitas, aquele ator com panca de halterofilista olímpico e talento duvidoso, que se tornou depois governador, de nome Arnold e sobrenome difícil de pronunciar e escrever, vive papel marcante como herói galáctico.

Ao recobrar a lembrança de acontecimentos passados, escondidos no inconsciente por efeito de manipulações químicas provocadas por desafetos, o protagonista desencadeia uma ação justiceira contra os todo-poderosos donos de um sinistro esquema detentor do controle do oxigênio que abastece uma colônia terráquea em Marte. Noutras histórias, igualmente ambientadas num futuro dominado por tipos, maquinário e paisagens surrealistas e também estreladas por intérpretes de bilheteria certa, vilões da pior espécie aprontam pra cima da coletividade, controlando com o objetivo do poder e de ganhos financeiros, as fontes de fornecimento de bens vitais, como a água e o combustível. Assumem postura imperial na condução dos destinos da “ralé”. A peleja dos mocinhos encaixados nos enredos dos filmes refaz a ordem de coisas, de modo a poder redistribuir os benefícios por todo mundo.

Se é que já não aconteceu, fazendo com que este aplicado cinemeiro tenha passado batido, não vai demorar muito para a tormentosa questão dos medicamentos de cura não aplicados em enfermos que não possam pagar, acabar virando filme. Será uma continuidade natural da saga agourenta dessa categoria de películas, fantasiosas ou não, onde se projeta uma temática explosiva dentro dos descaminhos trilhados pela ambição e egoísmo humanos.

O Projeto Genoma, tão decantado em verso e prosa nestas horas de grande efervescência científica e tecnológica, tem muito a ver com o assunto. Pelo andar atual da carruagem, já dá pra perceber que as conquistas resultantes de tão fulgurante realização não vão ser colocadas ao dispor, pelo menos de imediato, de todas as criaturas. São indisfarçáveis os sinais de uma movimentação frenética dos grupos responsáveis pelo monopólio dos bens voltados para saúde no sentido de, a partir do conhecimento exclusivo das fórmulas de cura das doenças, abocanhar ganhos polpudos e ininterruptos sobre a produção dos remédios, criando assim uma nova escala de privilégios e prioridades no acesso da população a eles. Por isso mesmo, a um só tempo que fascina, o Projeto Genoma não deixa também de amedrontar.

O lado do encantamento decorre das infinitas e promissoras possibilidades que começam a ser pressentidas pelo homem, em sua busca infatigável de novos níveis de conforto e bem-estar, com fundamento nas luminosas descobertas anunciadas. Os avanços poderão ser de tal magnitude que alguns estudiosos, entregando-se a voos extremamente ousados de esperança e imaginação, vaticinam possa o homem chegar, no espaço de poucas décadas, à decifração completa do código genético, de maneira a alcançar, até mesmo, a imortalidade física. E, junto, surgirão curas impossíveis, a regeneração de órgãos e tecidos, a recuperação para a vida de indivíduos condenados ao sofrimento perene por conta de males hoje sem remédio.

O outro lado da moeda exibe o temor de que venha a acontecer com os esplêndidos frutos da ciência moderna o mesmo que acontece, aqui e agora, em tantos lugares, com outros bens vitais indevidamente apropriados pela cobiça de grupos econômicos desapartados do sentido social das atividades produtivas. Os remédios que garantem sobrevida aos portadores de HIV positivo, até que surja a vacina ou o antídoto salvadores, só são assegurados hoje a parte das populações atingidas pela epidemia. Dispõe do medicamento, em boa parte do mundo, quem possa comprá-lo ou quem consiga obtê-lo junto a organizações públicas ou privadas dotadas de recursos para adquiri-lo no mercado. (Abra-se aqui parênteses para lembrar que o Brasil não deixa de ser, auspiciosamente, nesse capitulo especifico, uma magnifica exceção, já que a Saúde Pública garante acesso aos medicamentos que combatem o mal a todas as pessoas). O resto, a esmagadora maioria, impedida de receber a medicamentação por falta de dinheiro em dezenas e dezenas de países, fica na fatídica fila de espera dos registros obituários. A situação da doença na África, que se transformou em verdadeira pandemia, é amostra cabal e suficiente do que costuma ocorrer por esse mundo do bom Deus onde o diabo costuma fincar seus enclaves.

Ficamos a imaginar se já não está passando a hora de se introduzir nos códigos a obrigação de se colocar sob a égide da sociedade um ditame de convivência social, segundo o qual todo e qualquer bem considerado vital, como é o caso dos medicamentos que comprovadamente salvem vidas, se incorpore, imediatamente, assim que comprovada sua eficácia, ao patrimônio dos benefícios comunitários a serem desfrutados por toda humanidade. Aos descobridores das fórmulas salvadoras, todas as honras, todas as glórias e uma recompensa material justa, conferida por governos e sociedade. Mas, jamais, a outorga ilegítima, a eles, através do controverso esquema das patentes, de poderes para atuar como deuses do Olimpo interferindo no processo de estender, reduzir, salvar ou condenar vidas.  Medicamento que cura é que nem oxigênio. É pra todo mundo. Sua distribuição não pode ser seletiva, ao arbítrio ou capricho de interesses mesquinhos, situados além e mesmo contra o espírito da solidariedade humana e da justiça social.








quinta-feira, 20 de março de 2014

Absurdo atrás de absurdo

“Mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo!”
(Albert Einstein)

Os números vindos a seguir estampam um acúmulo inimaginável de absurdos. São típicos deste mundo em que vivemos, surreal sob tantos aspectos.

Dan Akerson, antigo presidente mundial da General Motors, embolsava salário de 9 milhões e 100 mil dólares anuais. Ou seja, 21 milhões, 840 mil reais. Deixou a função para continuar prestando consultoria à própria montadora por “módicos” 4 milhões e 600 mil dólares por ano. Em nossa moeda algo equivalente a 11 milhões. Quem passou a ocupar, com sua saída, a presidência da empresa, foi a engenheira Mary Barra, primeira mulher no comando da organização, contratada com o salário de 4 milhões e 400 mil reais, inferior à remuneração atual de seu antecessor pelas tarefas de consultoria.

As primeiras situações absurdas detectadas decorrem, naturalmente, dos valores que acabam de ser enunciados. São valores que escancaram a abissal diferença existente, a bem da verdade em tudo quanto é lugar, entre quem é colocado no topo e quem é colocado no piso do sistema salarial vigente, mesmo que não saibamos neste momento qual vem a ser o salário mínimo na GM. Não fica difícil pra ninguém comprovar o desnível injusto dos padrões salariais adotados tanto em organizações públicas quanto privadas. Trata-se de uma insensatez que, nalgum momento futuro da trajetória humana, terá que ser fatalmente corrigida.

Cabe registrar agora outra absurdidade. O salário que a GM pagava ao antigo presidente é infinitamente superior ao que ora é pago pelas mesmíssimas tarefas à presidenta, um e outro, já visto, elevadíssimos O episódio é revelador de uma tendência universal, inexplicável à luz do bom senso, de se atribuir gratificação diferenciada ao esforço produtivo de homens e mulheres. Tudo funciona naquela manjada base daquele refrão publicitário antigo, bem maroto, de uma marca de chocolate, que distribui um “delicado” pra elas e dois ou muito mais “delicados” pra eles. Prática genuinamente machista provinda de tempos antediluvianos, incompatível com tudo aquilo que as lideranças costumam teorizar, em ocasiões solenes, na exaltação dos princípios fundamentais que conferem dignidade a pessoa humana.

A disparidade salarial foi classificada, dia desses, pelo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, como um “constrangimento”. A mulher – asseverou – merece o mesmo pagamento pelo mesmo trabalho. A jornalista Mariana Queiroz Barbosa menciona o fato em reportagem da “IstoÉ” repleta de registros numéricos comprobatórios do abismo salarial prevalecente entre homens e mulheres.

Creio que o leitor concordará com a observação de que a expressão “constrangimento” é por demais branda para classificar o que realmente rola no pedaço. O que os dados levantados pela jornalista projetam deve ser definido como um desproposito sem tamanho. Como uma indecência. Vejam só se não tenho razão! No mundo de hoje a distância remuneratória entre gêneros é, em média, de 22.8%. No Brasil, o indicador é um pouco maior: 27%. Há 10 anos, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho) a coisa mostrava-se pior ainda: 36.4%. Santa Catarina é o Estado com a diferença mais gritante: 34.2%. Já o Amapá, surpreendentemente, é a unidade da Federação que registra a diferença menor: 6.7%.

Para reflexão geral seguem mais esses elementos informativos. Praticamente em todas as partes do planeta o abismo salarial entre homens e mulheres, mal ou bem, tem decrescido. Menos – ora, veja, pois! – em Portugal, onde só tem feito crescer de ano para ano. Na Itália, a diferença fica abaixo de 10%. Nos Estados Unidos chega a 23%. Na União Europeia cai: 16.2%. Mas isso não impede que na Alemanha e na Inglaterra atinja mais de 20%.

Recordando o empenho incessante, muitas vezes infrutífero, dos homens e mulheres de boa vontade no sentido de libertar o mundo dos grilhões dos inúmeros preconceitos odiosos que o asfixiam, entre os quais se avulta o machismo, caracterizado aqui numa de suas facetas mais notórias, somos levados a um registro lapidar de alguém nada menos que Albert Einstein: “Época triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”.


O todo poderoso “mercado”

 "A Bolsa despencou por causa de um feriado nos Estados Unidos."
(É o que propalou a mídia, algum tempo atrás)

As pessoas que desejam o melhor ao Brasil, notadamente as que atuam na comunicação social, bem que poderiam firmar um pacto no sentido de desmistificar e desqualificar as forças contrárias aos interesses nacionais que se movimentam por aí, com irresponsável desenvoltura, travestidas de "mercado".

Fico pasmado, dia sim outro também diante das reações cotidianas do tal "mercado". Onipotente, esse ser incorpóreo, com lampejo de vida estritamente ectoplásmico, é “convocado” a opinar a respeito de tudo, Ele funciona como uma espécie de sismógrafo viciado, medindo a conjuntura econômica a serviço escancarado dos grupos de assalto especulativo. Interpreta as coisas a seu exclusivo talante. Não se dá ao mais leve escrúpulo de disfarçar as contradições gritantes dos posicionamentos de encomenda. Mantém sob controle, a soldo, um batalhão de prestimosos colaboradores. Gente fervorosamente engajada em esforço conspiratório contrário às nossas aspirações de progresso. É só por tento no que tais colaboradores, que atendem pelos apelidos de "analistas", agências de risco etc., costumam aprontar a cada vez que nas áreas política, administrativa, tecnológica, produtiva – considerados aí os setores produtivos primário, secundário e terciário – se delineiem iniciativas ou atitudes estimuladas pelos interesses brasileiros de caráter desenvolvimentista. Tudo serve de pretexto para as soezes tentativas de apequenar-nos diante de nossos próprios olhos. Para fazer-nos crer que, os brasileiros, somos ineficientes, despreparados, sem condições, portanto, de almejar acesso a brevês que assegurem autonomia de voo mais ampla na conquista de novos espaços econômicos e sociais no contexto mundial.

O monitoramento feito pelo "mercado" é tendencioso e implacável. Por inexistir uma constatação à altura das impertinências praticadas, o "mercado" passa a ideia de infalibilidade. Defende com fervor frenético seus bolorentos dogmas. Suas reações têm força, para alguns, de édito real ao tempo em que as monarquias eram levadas a sério. São recebidas como clausulas pétreas no contrato comunitário em círculos não afeiçoados ao exercício da divergência democrática. Em face dessas circunstâncias, o "mercado" não se acanha de insultar a inteligência dos cidadãos, de alvejar despudoradamente o bom senso. Ele, "mercado", sabe muito bem que suas opiniões encontram sempre boa divulgação, agências de risco para respaldá-las, porta-vozes solícitos para justificá-las.

O "mercado", visto está, não se peja um tiquinho que seja, em lançar mão de arguições absurdas, quando colocado diante de pedidos de explicações dos setores mais lúcidos da opinião pública, com relação ao que ocorra de estranho na economia. Mantém engatilhado um pretexto extravagante para ocultar os incessantes ataques especulativos acobertados. Está aqui, como amostra, um exemplo dos procedimentos escalafobéticos que adota, sempre confiante na extremada simploriedade popular.

Num momento de razoável euforia face aos anúncios da ligeira reação nos negócios, da expansão significativa na balança comercial, da superação prematura da meta do "superávit primário"; justo nesse preciso momento, tempos passados, a Bolsa despencou. As taxas do dólar e do euro se elevaram e o "risco Brasil" (olha aí!) subiu. O que foi mesmo que o "mercado" saiu apregoando a respeito? Acredite, se quiser: a "causa" de toda a ebulição negativa foi um feriado ocorrido no meio de semana nos Estados Unidos.

A "explicação" é dada assim, com a mesma cara-de-pau com que se estaria levantando a hipótese maluca de que os "resultados adversos" decorreriam de uma crise de disenteria que acometeu os habitantes de uma vila na parte setentrional da Capadócia.

Valha-nos Nossa Senhora da Abadia D'Água Suja!



Encontro Cultural de 31 de março 19:30 Horas

quinta-feira, 13 de março de 2014

Torcida contraria

Cesar Vanucci *

“Na economia, como na Copa, não vale torcer contra o Brasil”
(Fernando Pimentel, até recentemente Ministro do
Desenvolvimento, Indústria e Comercio Exterior).

Como é que é mesmo? O PIB brasileiro cresceu 2.3 por cento em 2013, índice inferior apenas aos resultados de dois entre 14 países da lista dos detentores de economias pujantes, a China (7.7%) e a Coreia do Sul (2.8%)? Nosso índice de expansão econômica no exercício passado foi, então, superior aos da Grã-Bretanha, Estados Unidos, África do Sul, todos com 1.9%, Japão (1.6%), Alemanha (0.4%), França (0.3%), México (1.17%), Itália e Espanha (com registros de retração acima de 1%)?

Uai! Mas nada disso constava, até indoutrodia, dos vaticínios de doutos analistas econômicos com presença realçante nos espaços midiáticos. O que eles anunciavam, estardalhantemente, a ponto de semear desassossego, com inequívoco intuito crítico, de modo politicamente tendencioso, era que a situação estava mal, muito mal. O caos se aproximava a galope. O mundo inteiro mostrava-se confuso com os “indicadores declinantes”, da “fragilizada” economia brasileira. Nada parecia suficiente o bastante para desfazer as profecias catastróficas. Nem mesmo os expressivos números e dados das políticas sociais de moradia, de inclusão educacional, de ocupação da mão-de-obra, de ampliação da assistência médica, ao lado dos investimentos de grande porte em obras de infraestrutura, contrapondo-se flagrantemente a tão agourentas previsões.

Falar mal do Brasil, negar categoricamente suas virtualidades e potencialidades, apontar nossa permanente e total “incapacidade” para executar projetos de magnitude parece constituir exercício rotineiro em certos redutos despojados de sentimento nacional. Dessa prática desagregadora não se furtam, deleitando-se com as besteiras assacadas, numerosos sabichões que se dizem especialistas em avaliações da conjuntura politica e econômica. Esse pessoal de mal com a vida finge desconhecer que o Brasil continua despertando o mesmo grau de interesse por parte dos investidores desde muitos anos pra cá. Em 2013, o assim denominado Investimento Estrangeiro Direto (IED) foi de 63 bilhões de dólares. Já tinha sido em 2012 de 65 bilhões de dólares.

O ex-Ministro Fernando Pimentel chama a atenção para dados extremamente positivos. De um ano para outro a demanda em recursos de investimentos por setores de máquinas e equipamentos foi de 10.2 por cento. Ano passado, o BNDEs liberou, via Programa de Sustentação dos Investimentos, a soma de 82.1 bilhões para aquisição e exportação de máquinas e projetos de inovação, com juros anuais de 3.5 por cento e prazo para pagamento em até 12 anos.

Enquanto isso, a arrecadação federal bateu novo recorde histórico agora em janeiro. Paralelamente a isso, uma banca de consultores econômicos internacionais reconhecia ser o real a moeda mais valorizada da América Latina ante o dólar. Mais: no começo deste ano de 2014, a abertura de empresas acusava recorde na história empresarial brasileira, segundo registros do Indicador Serasa Experian.

Resumo da ópera: o que boa parte dos analistas econômicos propala, em sua obsedante verrina pessimista, está em estridente dissonância com a realidade.


Esses racistas de carteirinha...

“No Galo, o preto e o branco sempre andaram juntos.”
(Faixa de repudio ao racismo exposta nas
arquibancadas do Independência pela torcida atleticana)

Numa mesma semana duas demonstrações estridentes de nauseabundo racismo ocuparam o noticiário nosso de cada dia. Num campo de futebol em cidade peruana, o atleta Tinga, do Cruzeiro, foi alvejado com refrãos ofensivos a cor todas as vezes em que tocou a bola. A insana agressão motivou uma onda compreensível de desagravos, envolvendo até mesmo manifestação da Presidenta Dilma Rousseff.

Na Capital da República, uma australiana de maus bofes, em flagrante desarmonia com a vida, aprontou baita confusão num salão de beleza, ao recusar-se ser atendida por uma profissional negra. Não satisfeita com a violência praticada, apelou também para ofensas, na base de descabido preconceito, ao ser abordada por policiais de epiderme escura incumbidos do boletim de ocorrência.

Gestos bestiais desse teor não podem permanecer nunca sem resposta à altura. O enquadramento nas conformidades da lei de grupos e indivíduos emaranhados nessas repulsivas manifestações de intolerância tem sempre pedagógicos efeitos. No caso de não poder ser feita, para fins de punição, a identificação individual dos racistas no meio de uma multidão, como sói ocorrer num estádio de futebol, as autoridades competentes nem por isso deverão se omitir na aplicação dos corretivos legais cabíveis. A interdição de jogos no local da ocorrência é capaz de dissuadir torcedores tendentes a repetir atos desse gênero de virem a fazê-lo.

O incidente registrado no Peru enseja outra observação intrigante. Quem conhece a realidade peruana sabe bem que a população desse belo país-irmão, berço de soberbas civilizações em períodos bastante distanciados da história, é constituída na maior parte de descendentes dos povos indígenas colonizados pelos espanhóis. E não ignora também a existência, a prevalecer até dias de hoje, de um execrável ranço racista atingindo esses povos, procedente ainda da opressiva era colonial. A constatação causa amargura aos setores mais lúcidos e socialmente comprometidos da dinâmica comunidade peruana. No incidente envolvendo o atleta brasileiro chamou a atenção a circunstância de a plateia nas arquibancadas, exprimindo com fidelidade o quadro demográfico étnico do país, comportar em bem mais elevada quantidade descendentes da orgulhosa população nativa andina. Entre os que se compraziam em alvejar com refrãos racistas o atleta negro brasileiro encontravam-se, por certo, cidadãos que nalgum momento da vida experimentaram, na convivência mundana, o fel da discriminação.


Seja adicionado também que não é nada difícil desenhar o perfil padrão do racista. Trata-se, geralmente, alguém de mal com a vida. Por mais que procure disfarçar, nutre pelo fascismo em suas variegadas modalidades um forte pendor. Hitler e Stalin e outros tiranos menos votados representam para ele, racista de carteirinha, personagens exponenciais da história. O racista aprova com entusiasmo a violência para externar desagrado ou inconformismo com relação à politica. Considera “esse tal negócio de direitos humanos” uma bobajada, externando sempre o ponto de vista de que as reivindicações sociais devam ser resolvidas preferencialmente na base do cassetete.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Manifestações sim, baderna não

Cesar Vanucci *

É dever dos próprios manifestantes afugentar
 os baderneiros infiltrados nas passeatas.”
(Domingos Justino Ferreira, educador)

Indivíduos de suprema periculosidade, travestidos de “manifestantes” bem intencionados, “torcedores” entusiasmados, “policiais” cônscios do dever, “mocinhos” empenhados em combater o mal, andam criando clima de tensão e incomum desassossego nas ruas das grandes cidades.

Esses ferozes malfeitores constituem uma minoria organizada especialista em promover distúrbios e danos físicos, morais, materiais e psicológicos por onde circula. Precisam ser contidos a bem da paz social. Exemplarmente punidos conforme as exigências de uma sociedade sobressaltada.

Operações de segurança eficazes mode neutralizar as deletérias ações praticadas carecem ser adotadas com urgência. A Copa Mundial de Futebol está próxima. Todos almejamos poder acompanha-la com muita vibração, sem ameaças aos padrões ordeiros da boa convivência comunitária. Recusamo-nos, categoricamente, os brasileiros, a admitir que a bandidagem articulada continue a aprontar desatinos, projetando do país uma imagem desfocada, negativa, contraposta em tudo por tudo à verdadeira índole de nossa gente.

Poder Público, grupos sociais, mídia, lideranças em todos os níveis, educadores, adultos e jovens, população em geral, deixadas de lado quaisquer diferenças e divergências no campo das ideias, estão na obrigação de resguardar a todo custo os valores da nacionalidade. Disso brota naturalmente firme decisão de repelir as reações descabidas desses plantonistas da desordem. Um pessoal reconhecidamente truculento, posto que insignificante do ponto de vista quantitativo.

Todos estamos concordes quanto a garantir condições propícias para as manifestações que traduzam nas ruas e praças emoções populares legitimas. A democracia (e só ela é capaz disso) estimula, de modo saudável, esse procedimento. Mas, a partir de atitudes resolutas, da vigilância atenta dos próprios manifestantes engajados nos esquemas reivindicatórios, toda a comunidade terá que se sentir mobilizada no afã de expungir dessas concentrações públicas os baderneiros nelas infiltrados. Não passam de delinquentes que, atrás das máscaras, carregam ódio e ressentimento, além de petardos letais trazidos nas mochilas. O incidente estupido que ceifou a vida preciosa do cinegrafista da Band é amostra loquaz, ao lado de outras, de um estado de coisas que a opinião pública deseja ver devidamente desmantelado. Todo mundo alimenta, neste momento, a expectativa de que medidas vigorosas de defesa social sejam adotadas contra essa avalancha de abusos inqualificáveis, colocando um basta definitivo nas depredações de bens públicos e privados promovidas pelos desordeiros de sempre.

Por extensão, já que se trata de um tipo de ocorrência inserida no mesmo contexto, todos passamos também a aguardar que, em sua relevante missão institucional de resguardo da ordem, a policia não mais empregue meios que, ao contrário de conter abusos, contribuam para exacerbá-los.

De outra parte, o que ora sucede no futebol, dentro e fora dos estádios, por conta da insânia das chamadas “torcidas organizadas”, e ainda nas ruas, em falsas repressões a ações de assaltantes pelos assim chamados “justiceiros”, reclama também explícitas condenações da sociedade. Acumulam-se os episódios que envolvem delinquentes especializados em tumultuar espetáculos futebolísticos. Essa malta a serviço da baderna agride, lesiona, mata, invade concentrações, dita ameaçadoramente regras aos jogadores sobre como se comportarem nos gramados. Conta, às vezes com a leniência de paredros esportivos. Seus integrantes têm que ser, vez por todas, banidos do futebol.

Enquadramento severo nos conformes da lei é o que se recomenda igualmente, sem tardança, ao bando de imbecis, racistas e homofóbicos que, nas ruas, em desafio aberto à lei, anuncia “justiça” pelas próprias mãos. Intitulando-se “implacáveis justiceiros”, espancam, torturam, tiram vidas. Os alvos das atrocidades são mendigos, menores, “suspeitos” segundo seu desatinado critério. Na internet gabam-se das “façanhas heroicas”. Deixam rastro de sinais suficientes das articulações criminosas em que se acham emaranhados.


Globalização da indiferença

“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.”
(Paulo, Primeira Epístola a Timóteo , já naquele tempo)

A globalização da indiferença, que encobre inaudita crueldade no trato das questões sociais, promove incessantemente, diante da insensibilidade geral, um desfile assustador de acontecimentos que não poderiam jamais passar desapercebidos nas reflexões e comentários críticos da sociedade humana sobre estes nossos tempos amalucados.

Vejam só esta revelação! Oitenta e cinco megatrilionários possuem patrimônio equivalente ao conjunto de valores pecuniários de 3 bilhões e 500 milhões de seres humanos. Ou seja: metade da população mundial. Para que esta informação possa ser devidamente assimilada, cuidemos de gravar bem gravado que não se está a falar aqui de 85 milhões, nem de 85 mil indivíduos bem aquinhoados pela roda da fortuna, parcelas numéricas, aliás, já escandalosamente desproporcionais num quadro justo de partilhamento de bens universais. Do que se está falando mesmo é de apenasmente, tão somente, de 85 pessoas. Quer dizer: número talvez equivalente ao da lotação de um desses veículos articulados apelidados de “move”, ora em fase de testes pra correr nas linhas do futuro BRT.

Tão atordoante revelação veio a furo numa pesquisa da ong britânica Oxfan. Foi apresentada aos “donos do mundo” no recente encontro das lideranças politicas e econômicas de Davos, Suíça. Trocada em miúdos, a pesquisa aponta entre outras absurdidades que a hiperconcentração da riqueza mundial só tem feito crescer. Paralelamente a isso, como fica fácil deduzir, a vergonhosa desigualdade social não para de aumentar.

Colho na “CartaCapital”, em trabalho assinado por Luiz Antônio Cintra, mais dados impactantes do referido estudo. Carlos Slim, magnata mexicano, considerado o cara mais rico do mundo, possuía em 2009 bens avaliados em 35 bilhões de dólares. Isso correspondia, a valores de hoje, a mais de 80 bilhões de reais. Importância comparável ao PIB do Uruguai em 2013. Já no ano passado, a fortuna de Slim escalava as altitudes everestianas dos 73 bilhões de dólares. Quase 200 bilhões de reais, algo próximo do PIB inteiro de Portugal ou do Peru.

Já o financista Warren Buffet, norte-americano, outro afortunado, detinha patrimônio de 40 bilhões de dólares antes da bolha imobiliária que tantos estragos promoveu justamente na área em que se especializou e em que construiu retumbante carreira. Isso não afetou seus guardados financeiros, sabe-se lá porque cargas d’água, nadica de nada. Contabilizando agora haveres de 59 bilhões de dólares, ele engrossa com essa dinheirama toda no bolso a lista dos 85 viventes premiados com a mega sena do Olimpo. Cidadãos que, juntos, repita-se, conseguiram amealhar patrimônio igual ou superior ao da metade da população deste planeta azul do bom Deus, onde o diabo aprecia fixar seus enclaves.

O estudo da ong inglesa acerca da hiperconcentração da riqueza mundial entrega à apreciação dos estudiosos em questões socioeconômicas muitos outros elementos desconcertantes. Por exemplo: em função do poderio das grandes corporações financeiras, 95 por cento do ganho de renda registrado nos Estados Unidos a partir de 2009 foram carreados para o contingente humano dos 1% mais abonados. Em 2012, de outra parte, enquanto o grupo dos 1% mais ricos lograva abiscoitar 22 por cento da renda do país, 0,01% deles, ainda mais afortunados (se é que seja possível imaginar algo assim), abocanhavam 11% do bolo. A lógica seguida no jogo do “mercado”, idêntica noutras paragens do atlas, foi a de garantir mais para quem tem mais, valha-nos Deus, Nossa Senhora!

Enquanto isso, anotando dados numéricos de uma das vertentes mais perversas dos problemas gerados pela concentração da riqueza nas mãos de poucos, chegamos a aterrorizante constatação. O desemprego, de acordo com a Organização Interamericana do Trabalho, cresce incessantemente em todos os continentes. Os “sem salários” os “sem carteiras assinadas” totalizavam, em 2013, 202 milhões de criaturas. Cinco milhões a mais do que em 2012.


De tudo quanto aqui colocado, indicadores candentes de uma questão momentosa de descomunal proporção, projeta-se inarredável certeza. Para que o mundo funcione melhor transformações substanciais terão que ser introduzidas na sistemática que rege as atividades econômicas. A economia há que ser vista como meio. Não como fim em si mesma. O dinheiro, como lembra o Papa Chico, existe para servir ao homem. Não para governá-lo.

sábado, 1 de março de 2014

Melou a festa
Cesar Vanucci *

"Uma ocorrência escabrosa!"
(Palavras do presidente do clube a respeito
dos preservativos largados no reservado feminino)

Sacumé, uma coisa puxa outra.
Leitor assíduo destas maldatilografadas, reportando-se às trapalhadas do moleque Candinho, contadas na crônica de sábado retrasado, 22,, lembrou-me de uma outra ocorrência aqui relatada, anos atrás, com foco no ex-impublicável vocábulo “preservativo”. Vocábulo esse que em tempos de antigamente era mais conhecido por “camisinha de vênus”.  Vocábulo que ninguém, por pudor e respeito aos tímpanos pudicos da época, ousava pronunciar em ambientes familiares e rodas sociais ajuizadas e respeitosas. Vocábulo ainda que, nos dias tumultuados de hoje - mas que baita mudança nos costumes, minha Santa Engrácia!- frequenta intensamente anúncios institucionais na televisão, com prudentes aconselhamentos a moças e rapazes para que conservem sempre ao alcance nas mãos os aplicativos de látex a que se refere.
A história citada pelo leitor, colocando em estridente confronto costumes de épocas bastante distanciadas, é esta aqui.
A batucada carnavalesca ia à toda no suntuoso clube, "frequentado pela nata de nossa progressista sociedade," segundo a abalizada opinião do festejado colunista do jornal da cidade. A moçada rodopiava pelo salão  ricamente decorado, entregando-se com animação às relativamente bem comportadas brincadeiras, típicas dos folguedos, toleradas nas posturas morais dominantes. Das mesas, ao redor da regurgitante pista de dança, pais zelosos acompanhavam as graciosas evoluções das filhas donzelas, com suas fantasias multicoloridas, de apurado gosto. De súbito, percorreu o salão, de mesa em mesa, trazido pelo vento do espanto e da indignação, um chocante relato. A esposa do diretor social, dama de peregrinas virtudes e de inatacável respeitabilidade moral, acabara de testemunhar, entre soluços e lágrimas, na sala de estar do reservado feminino, algo "deveras escabroso". A "indecente ocorrência", tomando emprestadas palavras do presidente do clube na reunião de emergência montada para uma tomada enérgica de providências, consistiu na descoberta, largadas sobre o confortável divã onde madame se refestelava depois de haver retocado a maquiagem, de algumas "camisinhas de vênus" com indícios de uso recente. A primeira versão extraída dos fatos dizia que um casalzinho "prafrentex" havia resolvido mandar pra cucuia, na cara e na coragem, valendo-se de momento de distração da vigilância, as sadias regras da moral e dos bons costumes. Chegou-se mesmo, com certo açodamento, à citação de nomes de supostos autores da "sórdida proeza". O que acabou acendendo comentários maledicentes e, mais tarde, malquerenças familiares insanáveis. Outra versão posta nas especulações arguia a hipótese de que "aquelas indecências" houvessem sido lançadas por estudante de maus bofes de cidade vizinha rival, depois de tomar umas e outras.
O auê à volta do "ato de depravação", cujos pormenores restaram inexplicados para sempre, tirou a graça dos carnavalescos. Melou a festa. Chefes de família, batendo duro os calcanhares, convocaram as distintas consortes e amuados rebentos para se recolherem mais cedo aos domicílios. O baile seguinte, "terça-feira gorda", sem intenção de trocadilho, foi magro. Bem aquém das expectativas.
O incidente rendeu outros ruidosos desdobramentos. Numa assembleia religiosa, dias depois, devotos piedosos acompanharam, compenetrados, incandescente prédica tendo como foco o "abominável caso", com citações das passagens bíblicas que se ocupam das depravações acontecidas em Sodoma e Gomorra.
Isso tudo nos remete inevitavelmente a instigante reflexão: quem, dentre as testemunhas oculares do bololô armado no salão, ousaria imaginar que os "pecaminosos artefatos de látex", mercadoria clandestina incogitável nos hábitos de consumo das pessoas de bem, passariam a ser maciçamente distribuídos pela Saúde Pública num futuro não tão distante? Mais ainda: quem conceberia num exercício mental tresloucado a hipótese de que a inimaginável distribuição sob a égide oficial pudesse vir a ser ainda acompanhada de expressas recomendações paternas, aos mancebos e moçoilas em flor, para que os conservassem sempre à mão, guardadinhos nos bolsos e nas bolsas, pra atender situações de emergência geradas pelas circunstâncias efervescentes do tríduo carnavalesco?

País do carnaval

 “O carnaval é a única festa nacional
que consola a gente (...) da queda do mil-réis,
da política, dos programas de salvação pública!”
(Ribeiro Couto – 1898-1963)

Brasil, país do carnaval! Há quem demonstre forte desagrado com a designação. Franzindo a testa em sinal de que comeu e não gostou, coloca desdém na voz sempre que chamado a falar sobre a grandiosa celebração popular. Considera a manifestação um baita despropósito. Algo que, em seu distorcido parecer, empobrece pra valer a cultural nacional.
É claro que a turma partidária desse ponto de vista está rotundamente equivocada. Como também é notório que parte dessa minoria de viventes preconceituosos em relação ao carnaval não é de se rejubilar com a circunstância de nos fazermos também reconhecidos como país do futebol. Não é improvável, também, que se sintam mais à vontade na comemoração, por exemplo, do “halloween” do que de uma festa junina tipicamente roceira. Ou até que achem naturalíssimo o emprego pedante e amiudado, no bate-papo com conhecidos, de expressões em “inglês moroless”, como “feedback”, “brunch”, “feeling” (e por aí vai...), para classificar situações obvias do cotidiano.
Não nos importemos, todavia, com o que alguns poucos pensam e dizem do carnaval. As vibrações feéricas, magnéticas, contagiantes desse inigualável festejo, aqui por estas bandas, são únicas. Exprimem admiravelmente, como acontece também no reino do futebol, o modo de ver e sentir de nossa gente. Estampa, de forma magistral e exuberante, as múltiplas faces da genuína cultura nacional.
Disponho-me a contar, em seguida, coisas amenas de outros carnavais. Naquele tempo, sabe seu moço, a criação musical era mais pujante. O carnaval era época geralmente reservada para lançamento de belos sambas e marchas, boa parte deles até hoje com lugar assegurado na memória das ruas.
“Ala la ô”, “Chiquita Bacana”, “A Jardineira”, “Não me diga adeus” são alguns clássicos da incomparável canção popular brasileira nascidos nos teatros-revistas e nas rádios, por ocasião do então chamado “tríduo momesco”. Essa expressão aí, por sinal, acabou caindo em desuso em todas as partes do país, mas, na verdade, um pouco mais mesmo na Bahia, já que o carnaval da boa terra costuma começar bem antes e acabar muito depois, como é sabido por todos e desfrutado por muitos.
Autores e intérpretes musicais se preparavam, então, para o carnaval com o mesmo capricho e cuidado de qualquer artista na antevéspera de uma temporada de espetáculos. O concurso das melodias carnavalescas fazia parte do show. Servia de trampolim para a glória.
Naquele tempo, lança-perfume não era considerado esguicho alucinógeno. Todo folião digno do nome trazia-o sempre ao alcance da mão, nos salões e nas ruas. Os mais abonados adquiriam caixas de artefatos metálicos. Outros já consumiam os de vidro, mais baratos. Tinha-se por certo, na consciência coletiva, que o dano extremo que o emprego do lança-perfume conseguia produzir era um ardor incômodo, quando o gélido jato do conteúdo das bisnagas atingia o olho de algum desprevenido folião. Vez por outra, alguns poucos carnavalescos, debaixo da reprovação da maioria, se compraziam em promover duelos de lança-perfume. Contrariavam, assim, a regra pacificamente aceita de que o lança-perfume nada mais era do que uma forma galante de aproximação.
O carnaval bem diferente dos tempos de hoje projetou, nos últimos anos graças sobretudo à cobertura da televisão, uma visão panorâmica impressionante da capacidade artística brasileira. A alegria, que costuma explodir franca e espontânea em tudo quanto é espaço ocupado pelos foliões, serve de pano de fundo para que sejam expostas – repetimos - as múltiplas e exuberantes faces da cultura nacional.
As tradições, os símbolos folclóricos, os mitos, os costumes de cada região, trabalhados por carnavalescos criativos, ganham colorido, ritmo e vibração nas manifestações. E deixam no espírito popular a certeira certeza de que, seja no Rio, ou em São Paulo, nas cidades históricas de Minas, na Bahia, em Pernambuco, ou no Amazonas, vive-se, todos os anos, nessa época, em todo o Brasil, uma festa popular incomparável em matéria de promoções a envolver multidões. Produto pra desfrute turístico que nenhum outro país do planeta tem condições, vontade e capacidade de oferecer.

País do carnaval, sim! Com orgulho.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O sábio que acaba de partir

Cesar Vanucci *

“A seiva gostosa da vida paroquial.”
(É como Padre Libanio se referia à sua
experiência como pároco em Vespasiano)

Uma dúzia, mais ou menos, de contatos pessoais espacejados para troca de opiniões. Outro tanto de ligações telefônicas, distribuídas ao longo de uns quinze anos. Mais a leitura constante de seus escritos em livros e artigos. Tudo isso junto concorreu para garantir-me um lugar nas fileiras da frente na legião de admiradores do saudoso Padre João Batista Libânio. Sua figura austera, de serenidade nazarena, a inteligência refulgente e a invejável sabedoria humanística, refletidas na palavra social empenhada na construção de mundo mais fraterno e igualitário, tornaram-no personagem de realce na galeria dos grandes pensadores da história brasileira contemporânea.

Libanio era formado em teologia, desfrutando de reputação mundial nessa fascinante área do conhecimento. Atuou como mestre e doutor na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e em numerosas universidades brasileiras. Foi assessor da Conferência dos Religiosos do Brasil e do Instituto Nacional de Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.

Escreveu “livros à mancheia”, mandando “o povo pensar”: 36 de autoria individual, 125 em coautoria. Engajado na peleja das letras sagradas, como costumava dizer, circulou pelo Brasil inteiro, pelo continente, por muitos países da Europa, pregando a teologia da libertação, da qual se fez qualificado mensageiro. Estocou experiências de cunho social valiosíssimas para o trabalho apostólico encetado. “Foram tempos muito ricos e que me fizeram mergulhar na realidade latino-americana”, registrou.

Dono de cultura e erudição incomuns foi pessoa de vida bastante singela. Sentia-se realizado em plenitude com a “seiva gostosa da vida paroquial”, sorvida notadamente nas ações pastorais cumpridas em Vespasiano, Minas Gerais.

Conviveu, nas latitudes elevadas da inteligência filosófica com algumas das cabeças pensantes mais bem aquinhoadas do mundo contemporâneo. Recolheu e transmitiu saberes, orientando as pessoas no sentido da busca de um entendimento melhor a respeito dos cruciais desafios enfrentados pela sociedade de nossos tempos. Admitia que as questões humanas estavam resumidas na tentativa de “sobrevivência diante da insânia incompreensível de uma razão enlouquecida pela ganancia e pelo poder, além de surtos fanáticos”. Propunha, como objetivos religioso e humanístico essenciais, o ecumenismo e um diálogo interreligioso de amplitude tal que permitisse “todas as religiões” convergirem numa mesma direção na construção da paz e da convivência entre os povos. Chamava a atenção para a violência imperante no mundo sob diferentes formas, sublinhando que as reações desvairadas do homem estavam “destruindo o cosmos”, fomentando guerras e guerrilhas “alimentadas principalmente pela indústria armamentista e pelo comércio da droga.”

Libanio vai fazer baita falta na difusão de boas ideias e nas ações voltadas para as transformações sociais.


Outros carnavais


“Os vícios de outrora são os costumes de hoje.”
(Sêneca - 55 a.C a 39 d.C)

O carnaval se aproxima com suas singulares e magnéticas sensações. Traz consigo, como agora costumeiramente acontece, acauteladoras recomendações da Saúde Pública, dirigida sobretudo aos jovens foliões. O conselho dado é para que não se descuidem. Carreguem sempre nos bolsos e nas bolsas, por favor, os estoques pessoais de preservativos.

Acode-me, nesta hora, à memoria velha de guerra episódio, já relatado anos atrás, referente ao Candinho. Coisa ocorrida nas ladeiras da infância, num contexto cultural que nada tem a ver com a realidade de hoje.

Candinho era o que se poderia chamar de moleque endiabrado. Nove anos de peraltices. Falo de um tipo de travessura inofensiva, tempos da escola risonha e franca, comecinho da década de 40, quando o golquiper do Uberaba Sport se chamava Yé. O danado do menino morava na rua Alaor Prata, centro de Uberaba. Colegas de escola, participávamos das peladas de rua, movidas a bola de pano, um pouco de briga, palavrões, de quando em vez interrompidas por conta de um chute mal calibrado reduzindo a estilhaços a vidraça da casa de dona Lili.

Naquele dia, Candinho entrou, esbaforido em casa, carregando uma vareta de bambu com estranhos objetos dependurados na ponta. Chegou até a cozinha, onde Gertrudes, a mãe, quitandeira de mão cheia, frequentadora da missa diária na Igreja dos dominicanos, preparava um bolo de fubá afamadíssimo, cuja receita se recusava, egoisticamente, a passar pras conhecidas. No minuto em que, ajeitando melhor os óculos, se deu conta da natureza dos objetos trazidos pelo filho, a santa criatura quase teve um troço. O que saiu da garganta foi mais um uivo de animal ferido. Ecoou por toda rua. Ameaçando o filho com o chinelo, afogada em lágrimas, a bondosa mulher quase perdeu o fôlego, recorrendo aos sais aromáticos trazidos providencialmente pela vizinha e comadre, dona Naná, ela também em estado de choque.

O que acabara de ser introduzido, pelas mãos do menino, naquele lar honrado, temente a Deus, eram mercadorias repulsivas cuja simples citação a moral e os bons costumes desaconselhavam em rodas de família. Como os tempos são outros, pra não espichar demasiadamente a curiosidade do leitor, vou dando logo nome aos artigos causadores do bafafá, artigos reservados para pecaminosas ações, em âmbitos dominados pela luxuria, despojados ali do invólucro de papel, soltos ao vento: camisinhas de vênus. Um punhado. Ficou óbvio que o guri não tinha consciência da real serventia do material. Tanto que, sem propósito de troça, assustado, sugeriu candidamente fosse "colocado ar naquilo pra virar bexiga", ou, então, que se fizesse linguiça "daquelas tripas", enchendo-as de pedaços de lombo. Na casa tomada rapidamente por pequena multidão alguém comentou com Jerônimo, pai de Candinho, convocado às pressas no serviço, que as camisinhas haviam sido dadas pelo dono da farmácia da esquina. O já transtornado Jerônimo virou bicho. Todos se assustaram ao vê-lo anunciar um acerto de contas, garrucha na cinta, a costumeira mansidão de boi transformada em fúria de leão. Guilhermina, respeitada pelos competentes dotes de benzedeira, persignando-se, bradava num canto da casa, para quem se dispusesse a ouvi-la, seu refrão predileto: "O mundo tá perdido! De mil passou, mas a dois mil não chegará!" Descobriu-se, mais adiante, com a mediação do pároco, que a história do farmacêutico tava mal contada. Os preservativos haviam sido largados, isso sim, num terreno baldio perto da farmácia. O pai injuriado foi, assim, dissuadido de tomar satisfação. Mas, por via das dúvidas, o farmacêutico tirou o time de circulação, arranjando viagem súbita a Sacramento.

Isso aí, gente boa! O hilário confronto dessas imagens da meninice com os reclames institucionais do governo para o momento carnavalesco – por exemplo, o do preservativo ajustado a robusto recipiente de suco de uva mostrado na televisão anos atrás - revela, de modo lapidar, como são desconcertantes e inesperados os rumos da história no trepidante capítulo do comportamento e costumes. Quem não se mostrar, devidamente preparado para as surpresas desconcertantes destes tempos de agora, acaba, inapelavelmente, dando uma de dona Gertrudes. Tem um troço.
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XXI Encontro Cultural da Academia






quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

CONVITE XXI ENCONTRO CULTURAL DA "ACADEMIA MINEIRA DE LEONISMO"








Espiritualidade e física quântica. 
 A psicóloga Cristina Cavalieri, do Instituto Rama, encaminhou-nos gentilmente a gravação que fez da palestra de Maria Ângela Vaz de Melo, proferida no XX Encontro Cultural da Academia. Os interessados em ouvir essa vibrante exposição poderão acessar o link a seguir.
http://www.youtube.com/watch?v=SmqE2T5F63U&feature+youtu.be


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Questão social, não policial


Cesar Vanucci *

“Não se viu, a propósito dos rolezinhos, um debate sobre as
 causas estruturais que permitiram a essas mobilizações aflorar.”
(Senador Cristovam Buarque)

Fixei a atenção por momentos nos assim denominados rolezinhos. Precisei de curto tempo para concluir que a questão levantada é social, não policial. Pitadas de preconceito e de despreparo profissional é que andam conferindo ao caso dimensão despropositada. A contribuição da mídia sensacionalista revelou-se significativa para o espalhafato criado a respeito. Ou seja, desses encontros marcados em “shoppings” por jovens da periferia socialmente desguarnecida.
A história reclama diálogo urgente para que sejam desfeitos mal-entendidos. O debate terá que ser calcado num bom começo de conversa. Isso implica no reconhecimento taxativo do direito à livre circulação de qualquer cidadão, independente da categoria social, em todo e qualquer centro comercial. Em tudo quanto é lugar de convergência pública. A vedação pura e simples dessa prerrogativa cidadã, que está atrelada à liberdade constitucional de ir e vir, caracteriza inapelavelmente apartação social. Agressão a um direito fundamental, à democracia. Rescende a “apartheid”, para relembrar, desgostosamente, vocábulo repulsivo empregado para designar práticas segregacionistas ainda aplicadas em certas paragens deste nosso mundo velho de guerra sem porteira.
Assim vistos os acontecimentos, o melhor a fazer é partir imediatamente para a construção do diálogo. Comungo do ponto de vista do Prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, quando propõe que “as cidade têm de ser discutidas”, sugerindo sejam abertos espaços públicos para que seus habitantes de todas as faixas etárias e classes possam desfrutá-las. E, quando também pontua que a incompreensão de muita gente face ao assunto tem suscitado reações marcadas por exageros. “Mas nada, que uma boa conversa não resolva”, como sublinha.
O que os rolezinhos vêm fazendo é, na verdade, denunciar uma sociedade desumana, injusta e segregadora, como também constata o filósofo Leonardo Boff, entre outros categorizados observadores da conjuntura social. Cristovam Buarque, senador da República, é outra voz respeitada a partilhar da mesma percepção. Admite: os rolezinhos “desnudam o sistema de apartação implícita, sem leis.” Alerta ainda: “Daqui para a frente, os “shoppings” (...) terão um papel positivo no conforto social, mas a “guerrilha cibernética” (o senador refere-se aí às redes sociais utilizadas para a programação dos encontros dos jovens) é uma realidade com a qual vamos conviver. Ou assume-se a segregação explicita, ou promove-se a miscigenação social.”
Não era pra ser, mas virou problema, por ausência de bom senso no trato da questão. Moças e rapazes das camadas menos aquinhoadas financeiramente, a exemplo de rapazes e moças das camadas afortunadas, possuem todo o direito do mundo em programar pelas redes sociais encontros em lugares de afluência pública, os shoppings incluídos. Despiciendo registrar que ninguém, nenhum poder articulado, pode estabelecer restrições a esses contatos via internet, nem tampouco impedir sejam os encontros realizados em consequência de posturas preconceituosas de classe. De outra parte, habitualmente inábil na lida social, como fartamente demonstrado, a polícia não pode adotar na vigilância contra eventuais excessos praticados em locais públicos, o estilo “leão de chácara” de boate. Não se ajusta ao seu papel institucional exigir de quem frequente centros comerciais carteirinha indicativa de capacidade pecuniária como consumidor.
Deixe-se claro, ainda, por outro lado, aos jovens que seus encontros em lugares públicos não podem se aprestar a palco de arruaças e confusões. E sejam as autoridades competentes lembradas que lhes cumpre a obrigação de distinguir, com precisão e equilíbrio, a diferença de comportamento entre quem compareça a tais locais para papear com amigos, usufruir momentos de lazer, adquirir mercadorias e os que – certeiramente, uma minoria insignificante – estejam ali a fim de infringir regras de convivência social. Confundir, por puro preconceito, jovens das periferias com marginais é insano e injusto. A turma dos rolezinhos dispõe de aparelhos de TV e de acesso aos demais veículos de comunicação de massa. Como os jovens de lares abonados financeiramente, são submetidos também a um bombardeio midiático massivo, que chama sua atenção para as ofertas de produtos nas vitrinas multienfeitadas e coloridas das lojas dos shoppings. Adquirir produtos ou simplesmente admirá-los nas prateleiras, por singelo prazer, hábito de tanta gente, não configura de maneira alguma ato passível de condenação.
O Poder Público precisa saber extrair dos fatos as lições devidas. A abertura de espaços comunitários para a convivência humana é de grande significação nas politicas de integração social. A escola de tempo integral, com boa qualidade cultural, faz parte dessas politicas.
Resumindo toda essa “melódia”: em se tratando do Brasil, corremos riscos maiores com o “rolezão” da exclusão social acionado a partir de atitudes precipitadas e de intolerâncias descabidas, do que com os tais rolezinhos, manifestação juvenil que pode ser perfeitamente escoimada de algum possível exagero na base de um papo legal.
                             
                            Lideranças despreparadas

Cesar Vanucci *

“O mundo tornou-se mau por ser malgovernado
e não porque a natureza humana seja pervertida.”
(Dante Alighieri, sempre atual)


“Tamo n’água!” Esta singela expressão era bastante empregada em papos cotidianos de outrora. Servia como registro de uma forte decepção ou temor diante do proceder de alguém importante depositário de nossa confiança que, de repente, contrariasse as expectativas gerais à volta de uma questão palpitante.

Certas reações patéticas de personagens que se viram alçados a posições de relevo, com caneta cheia na mão para decisões capazes de influenciar a vida de multidões, levam—nos, hoje também, reconferindo atualidade à expressão, a exclamar: “tamo n’água, gente boa!”

A cena mundial aponta-nos alguns vultos eminentes providos de enorme força moral que ninguém em sã consciência ousa contestar. O conceito se aplica ao papa Francisco, ao Dalai Lama e a não mais do que uma meia dúzia de outros dois ou três cidadãos. Todos reverenciados pela liderança exercida com lucidez e espírito público. Mas nenhum, verdade seja dita, com plena legitimidade politica para impor suas propostas essenciais de transmutação oferecidas à humanidade com o nobre objetivo de acelerar a conquista de patamares mais elevados na convivência social.

As sábias recomendações que traçam arrancam entusiásticos aplausos. Mas cadê coragem e vontade política das elites para implementá-las? Da retórica não se consegue passar jamais para as ações concretas. Conexões ocultas de uma conjuntura perversa, que concede ao dinheiro o privilégio de governar, não de servir ao homem, não permitem possam as ideias generosas, expressas por cérebros iluminados, germinarem nos frutos almejados. Em virtude disso os avanços na direção de estágios de vida mais fraternais ocorrem num ritmo mais moroso do que o cobiçado nas esperanças que povoam a alma das ruas.

Um punhado de cidadãos poderosos, senhores de prerrogativas suficientes para alterar os rumos das coisas que pintam no pedaço, recusa-se intransigentemente a promover as mudanças desejadas nos sonhos globais de construção de um mundo melhor. Age assim por comodismo, despreparo, abomináveis conveniências.

Foquemos a atenção em aprontações recentes dos dois dirigentes com maior poder de fogo nos conciliábulos internacionais. Quando mencionamos “poder de fogo” incluimos, obviamente, o formidando arsenal bélico das potencias que representam. Em patéticos episódios ambos deixam à mostra, outra vez, inimaginável indigência intelectual, ausência de sensibilidade social em questões momentosas. Revelam-se despojados do sentimento de mundo que pode contribuir para um processo de construção consentâneo com a dignidade humana.

A imagem de Vladimir Putin está associada a gestos truculentos, mesmo que, num e noutro momento de sua atuação, como nos casos da desativação do arsenal de armas químicas da ditadura síria e da reaproximação do Irã com o ocidente, ele se tenha revelado hábil negociador. A opinião pública não se esquece dos métodos brutais empregados na repressão radical às operações dos rebeldes chechenos ocorridos num teatro de Moscou e numa escola do interior de seu país, que levou ao extermínio de alguns culpados e centenas de inocentes. Ele passa a impressão de sentir dificuldades em se desvencilhar das amarras de militante ativo da tenebrosa KGB.

Indoutrodia fez uso dos meios de comunicação para uma proclamação tipicamente imperial. Lembrou éditos dos antigos tzares. Dirigindo-se aos atletas que participarão dos Jogos Olímpicos de Inverno, deixou cair; solene, sem meias palavras, essa desconcertante declaração: “Venham para os Jogos, mesmo se vocês forem homossexuais. Nada acontecerá com vocês, sempre que deixem as crianças em paz!” A estapafúrdia afirmação pode ser assim interpretada: para o chefe do governo russo toda pessoa com orientação sexual não tradicional é pedófilo de nascença. Está claro que uma afirmação temerária dessas cairia melhor na boca de algum radical religioso fundamentalista do que na boca de alguém em condições de anunciar decisões de relevância crucial para a sociedade de nossos tempos.

Barack Obama, que não mais se preocupa em preservar as anotações humanísticas de sua biografia, convocou também a midia para “explicações” sobre a arapongagem eletrônica dos órgãos de segurança estadunidenses. Falou, falou e nada disse que pudesse significar tênue arrependimento pelas violações aos direitos humanos praticadas. Lembrou Cantinflas com todo aquele papo furado. Não evidenciou a mais leve disposição de formalizar pedido de desculpas aos “aliados” e cidadãos que tiveram as vidas devassadas pela bisbilhotice paranoica e comercialmente interesseira. Junto com o pronunciamento, que vendeu a ideia arrogante da existência de um esquema de comando acima do bem e do mal, desejoso de fazer de leais amigos apenas obedientes vassalos, irrompeu no noticiário nova leva de denúncias sobre abusos da espionagem. Outras ocorrências inacreditáveis sobre ações desencadeadas pelos serviços secretos americanos e britânicos. O rastreamento eletrônico voltou-se também para os usuários de aplicativos de smartphones. As coletas de informações penetram na vida pessoal das vítimas, não poupando nem detalhes de seu alinhamento político e religioso ou de sua orientação sexual.

O monitoramento tem como alvos o “Google Maps” nos smartphones, listas de contatos, registros de telefones e dados geográficos em fotos postadas pelos celulares nos aplicativos do “Facebook”, do Flicker”, do “Linkedin” e do “Twitter”, do jogo infantil “Angry Birds”, entre outros, minha Nossa Senhora d’Abadia!

Falar verdade. Com esses caras por aí, embaralhando e dando as cartas, comandando de forma tão irresponsável, pra dizer o mínimo, os destinos do planeta, sentimo-nos, indo do espanto para o temor, impelidos a ressuscitar o simplório desabafo dos tempos de infância:”Tamo n’água, minha gente!”

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...