sexta-feira, 7 de março de 2014

Manifestações sim, baderna não

Cesar Vanucci *

É dever dos próprios manifestantes afugentar
 os baderneiros infiltrados nas passeatas.”
(Domingos Justino Ferreira, educador)

Indivíduos de suprema periculosidade, travestidos de “manifestantes” bem intencionados, “torcedores” entusiasmados, “policiais” cônscios do dever, “mocinhos” empenhados em combater o mal, andam criando clima de tensão e incomum desassossego nas ruas das grandes cidades.

Esses ferozes malfeitores constituem uma minoria organizada especialista em promover distúrbios e danos físicos, morais, materiais e psicológicos por onde circula. Precisam ser contidos a bem da paz social. Exemplarmente punidos conforme as exigências de uma sociedade sobressaltada.

Operações de segurança eficazes mode neutralizar as deletérias ações praticadas carecem ser adotadas com urgência. A Copa Mundial de Futebol está próxima. Todos almejamos poder acompanha-la com muita vibração, sem ameaças aos padrões ordeiros da boa convivência comunitária. Recusamo-nos, categoricamente, os brasileiros, a admitir que a bandidagem articulada continue a aprontar desatinos, projetando do país uma imagem desfocada, negativa, contraposta em tudo por tudo à verdadeira índole de nossa gente.

Poder Público, grupos sociais, mídia, lideranças em todos os níveis, educadores, adultos e jovens, população em geral, deixadas de lado quaisquer diferenças e divergências no campo das ideias, estão na obrigação de resguardar a todo custo os valores da nacionalidade. Disso brota naturalmente firme decisão de repelir as reações descabidas desses plantonistas da desordem. Um pessoal reconhecidamente truculento, posto que insignificante do ponto de vista quantitativo.

Todos estamos concordes quanto a garantir condições propícias para as manifestações que traduzam nas ruas e praças emoções populares legitimas. A democracia (e só ela é capaz disso) estimula, de modo saudável, esse procedimento. Mas, a partir de atitudes resolutas, da vigilância atenta dos próprios manifestantes engajados nos esquemas reivindicatórios, toda a comunidade terá que se sentir mobilizada no afã de expungir dessas concentrações públicas os baderneiros nelas infiltrados. Não passam de delinquentes que, atrás das máscaras, carregam ódio e ressentimento, além de petardos letais trazidos nas mochilas. O incidente estupido que ceifou a vida preciosa do cinegrafista da Band é amostra loquaz, ao lado de outras, de um estado de coisas que a opinião pública deseja ver devidamente desmantelado. Todo mundo alimenta, neste momento, a expectativa de que medidas vigorosas de defesa social sejam adotadas contra essa avalancha de abusos inqualificáveis, colocando um basta definitivo nas depredações de bens públicos e privados promovidas pelos desordeiros de sempre.

Por extensão, já que se trata de um tipo de ocorrência inserida no mesmo contexto, todos passamos também a aguardar que, em sua relevante missão institucional de resguardo da ordem, a policia não mais empregue meios que, ao contrário de conter abusos, contribuam para exacerbá-los.

De outra parte, o que ora sucede no futebol, dentro e fora dos estádios, por conta da insânia das chamadas “torcidas organizadas”, e ainda nas ruas, em falsas repressões a ações de assaltantes pelos assim chamados “justiceiros”, reclama também explícitas condenações da sociedade. Acumulam-se os episódios que envolvem delinquentes especializados em tumultuar espetáculos futebolísticos. Essa malta a serviço da baderna agride, lesiona, mata, invade concentrações, dita ameaçadoramente regras aos jogadores sobre como se comportarem nos gramados. Conta, às vezes com a leniência de paredros esportivos. Seus integrantes têm que ser, vez por todas, banidos do futebol.

Enquadramento severo nos conformes da lei é o que se recomenda igualmente, sem tardança, ao bando de imbecis, racistas e homofóbicos que, nas ruas, em desafio aberto à lei, anuncia “justiça” pelas próprias mãos. Intitulando-se “implacáveis justiceiros”, espancam, torturam, tiram vidas. Os alvos das atrocidades são mendigos, menores, “suspeitos” segundo seu desatinado critério. Na internet gabam-se das “façanhas heroicas”. Deixam rastro de sinais suficientes das articulações criminosas em que se acham emaranhados.


Globalização da indiferença

“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.”
(Paulo, Primeira Epístola a Timóteo , já naquele tempo)

A globalização da indiferença, que encobre inaudita crueldade no trato das questões sociais, promove incessantemente, diante da insensibilidade geral, um desfile assustador de acontecimentos que não poderiam jamais passar desapercebidos nas reflexões e comentários críticos da sociedade humana sobre estes nossos tempos amalucados.

Vejam só esta revelação! Oitenta e cinco megatrilionários possuem patrimônio equivalente ao conjunto de valores pecuniários de 3 bilhões e 500 milhões de seres humanos. Ou seja: metade da população mundial. Para que esta informação possa ser devidamente assimilada, cuidemos de gravar bem gravado que não se está a falar aqui de 85 milhões, nem de 85 mil indivíduos bem aquinhoados pela roda da fortuna, parcelas numéricas, aliás, já escandalosamente desproporcionais num quadro justo de partilhamento de bens universais. Do que se está falando mesmo é de apenasmente, tão somente, de 85 pessoas. Quer dizer: número talvez equivalente ao da lotação de um desses veículos articulados apelidados de “move”, ora em fase de testes pra correr nas linhas do futuro BRT.

Tão atordoante revelação veio a furo numa pesquisa da ong britânica Oxfan. Foi apresentada aos “donos do mundo” no recente encontro das lideranças politicas e econômicas de Davos, Suíça. Trocada em miúdos, a pesquisa aponta entre outras absurdidades que a hiperconcentração da riqueza mundial só tem feito crescer. Paralelamente a isso, como fica fácil deduzir, a vergonhosa desigualdade social não para de aumentar.

Colho na “CartaCapital”, em trabalho assinado por Luiz Antônio Cintra, mais dados impactantes do referido estudo. Carlos Slim, magnata mexicano, considerado o cara mais rico do mundo, possuía em 2009 bens avaliados em 35 bilhões de dólares. Isso correspondia, a valores de hoje, a mais de 80 bilhões de reais. Importância comparável ao PIB do Uruguai em 2013. Já no ano passado, a fortuna de Slim escalava as altitudes everestianas dos 73 bilhões de dólares. Quase 200 bilhões de reais, algo próximo do PIB inteiro de Portugal ou do Peru.

Já o financista Warren Buffet, norte-americano, outro afortunado, detinha patrimônio de 40 bilhões de dólares antes da bolha imobiliária que tantos estragos promoveu justamente na área em que se especializou e em que construiu retumbante carreira. Isso não afetou seus guardados financeiros, sabe-se lá porque cargas d’água, nadica de nada. Contabilizando agora haveres de 59 bilhões de dólares, ele engrossa com essa dinheirama toda no bolso a lista dos 85 viventes premiados com a mega sena do Olimpo. Cidadãos que, juntos, repita-se, conseguiram amealhar patrimônio igual ou superior ao da metade da população deste planeta azul do bom Deus, onde o diabo aprecia fixar seus enclaves.

O estudo da ong inglesa acerca da hiperconcentração da riqueza mundial entrega à apreciação dos estudiosos em questões socioeconômicas muitos outros elementos desconcertantes. Por exemplo: em função do poderio das grandes corporações financeiras, 95 por cento do ganho de renda registrado nos Estados Unidos a partir de 2009 foram carreados para o contingente humano dos 1% mais abonados. Em 2012, de outra parte, enquanto o grupo dos 1% mais ricos lograva abiscoitar 22 por cento da renda do país, 0,01% deles, ainda mais afortunados (se é que seja possível imaginar algo assim), abocanhavam 11% do bolo. A lógica seguida no jogo do “mercado”, idêntica noutras paragens do atlas, foi a de garantir mais para quem tem mais, valha-nos Deus, Nossa Senhora!

Enquanto isso, anotando dados numéricos de uma das vertentes mais perversas dos problemas gerados pela concentração da riqueza nas mãos de poucos, chegamos a aterrorizante constatação. O desemprego, de acordo com a Organização Interamericana do Trabalho, cresce incessantemente em todos os continentes. Os “sem salários” os “sem carteiras assinadas” totalizavam, em 2013, 202 milhões de criaturas. Cinco milhões a mais do que em 2012.


De tudo quanto aqui colocado, indicadores candentes de uma questão momentosa de descomunal proporção, projeta-se inarredável certeza. Para que o mundo funcione melhor transformações substanciais terão que ser introduzidas na sistemática que rege as atividades econômicas. A economia há que ser vista como meio. Não como fim em si mesma. O dinheiro, como lembra o Papa Chico, existe para servir ao homem. Não para governá-lo.

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