sexta-feira, 25 de janeiro de 2013






Efeito Xandico

Cesar Vanucci *

“A aplicação da justiça é regida
pelo respeito aos princípios basilares.”
(Domenico Rosa, professor)

Por “efeito Xandico” compreenda-se a postura altiva, isenta, de cidadão de conduta retilínea calcada na ética. Alguém que conserve apreço intransigente aos valores e princípios que conferem dignidade à aventura humana, quando da apreciação de atos que projetem incongruências, conveniências espúrias, pragmatismos perversos e outras mazelas do jogo mundano.

Xandico deriva de Alexandre. No caso, o Alexandre de que se fala é o inolvidável Arcebispo de Uberaba, Alexandre Gonçalves Amaral, falecido há uma década. Homem de sabedoria incomum, em vivência encharcada de apostolicidade. Dono de fala eletrizante, didática e bem humorada, sempre adequada ao momento, à platéia, à faixa etária, ao ambiente cultural. Cidadão que nutria apego apaixonante aos princípios. Bispo mais moço à época da sagração, foi o religioso com o maior tempo de presença eclesial no mundo inteiro na fase outonal da existência.

Xandico era o apelido carinhoso, ganho nos tempos da meninice, pelo qual se fez conhecido nas relações familiares e dos amigos chegados. As atitudes e decisões deste ser humano especial, de presença refulgente no cenário da inteligência e da cultura, deram origem à expressão que encima o comentário, definida linhas atrás em sua essência, que costumo empregar com alguma assiduidade.

Nas definições recentes do Supremo Tribunal Federal no tocante ao “mensalão” anotei sinais comportamentais, implicando em apreço aos princípios sobretudo do Ministro relator, hoje na presidência da Corte, que me fizeram lembrar posições assumidas por Xandico em momentos cruciais. Isso conduziu-me a compor possível cenário para outras manifestações a serem tomadas pela instituição em futuros julgamentos. Refiro-me de forma especial ao “mensalão” mineiro, apontado como modelo matricial do processo que acaba de ser julgado e que teve também como eficiente operador o publicitário Marcos Valério.

Narro aqui episódio demonstrativo do que chamo “efeito Xandico”. Na administração JK como governador de Minas, ocorreu, em dado momento, elevação substancial nas alíquotas de imposto. O pessoal da Receita abusou, apertando com excesso policialesco os cravelhos da fiscalização. A indignação dos contribuintes foi enorme. Acabou desembocando, deploravelmente, na depredação da Delegacia Regional da Secretaria da Fazenda em Uberaba. À reação colérica, obviamente condenada pelos mais sensatos, seguiu-se violenta repressão policial, alvejando, como sói acontecer nesses momentos, criaturas humildes. Alexandre já vinha se ocupando em incandescentes artigos do criticável desempenho dos agentes do Fisco. Profligou a irrefletida explosão popular, lastimando ao mesmo tempo que pessoas ingênuas estivessem sendo submetidas a maus tratos na cadeia. Sua palavra ressoou forte. As violências cessaram. O Secretário José Maria Alkmin procurou-o em nome do governo, para um entendimento. Ouviu do Bispo o que pode ser classificado como uma senhora descompostura. O episódio ganhou a mídia. Os artigos do Bispo, batendo duro e firme no governo pessedista de JK, foram reproduzidos, a mando da oposição udenista, toda jubilosa, nos principais jornais do país.

Na sequência, representantes da oposição, Milton Campos e Pedro Aleixo entre eles, encaminharam a Alexandre uma mensagem de aplausos pela posição assumida, acompanhada, ingênua e inadvertidamente, de pedido para que interferisse no sentido de convencer um de seus partidários a aceitar a candidatura a Prefeito de Uberaba.

O tsunami que o fato provocou, vou te contar! Alexandre disse poucas e boas aos autores da mensagem, repelindo com veemência a proposta para que se tornasse “cabo eleitoral” udenista. Foi a vez dos pessedistas cuidarem de reproduzir, nos maiores jornais, os artigos em que o Bispo espinafrou os udenistas. O que estivera posto em jogo o tempo todo e que o pragmatismo político dos dois lados encontrou dificuldades em entender era uma questão essencial, em conflito com suas conveniências. Uma questão de respeito a princípios.

Antevejo para breve um acontecimento especial, baseado também em questões de principio. Conservando-se fiel aos valores da equidade jurídica, da isenção e da ética, o STF não vai ter como deixar de colocar em pauta o processo do outro mensalão. O de Minas. Vem daí que os meios de comunicação, com certeza, não terão como se esquivar de concentrar microfones e refletores nas sessões de julgamento. Os votos dos Ministros ganharão, consequentemente, estardalhante divulgação, como já ocorreu no episódio passado. A opinião pública ficará acompanhando o desenrolar do julgamento com indormida atenção, naturalmente solidária com o Supremo em sua disposição saneadora.

Os políticos situacionistas diante do indiciamento e eventual condenação dos adversários cuidarão de promover, certeiramente, como os oposicionistas procederam num quadro inverso, ruidosas manifestações.

Olha aí o “efeito Xandico” em ação.


Boas falas

Cesar Vanucci*

“Quando é que alguém vai bolar no horário
nobre da tevê o jornal da Boa Noticia?”
(Agripina Cordeiro Leite, telespectadora)

Na tentativa de atenuar um tiquinho o fato inexorável de a gente pisar no ano novo com o gosto acre de cabo de guarda-chuva na boca, tantas as coisas negativas que andaram (e andam ainda, muitas delas) pintando no pedaço, azoretando a paciência dos desprotegidos cidadãos, achamos de bom alvitre, como era de costume dizer-se em tempos de antanho, listar neste espaço algumas iniciativas de cunho positivo colocadas em prática ultimamente, mas que não fizeram jus a registros à altura no noticiário nosso (habitualmente catastrófico) de cada dia.

˜ Quem utiliza amiúde avião de carreira nas viagens tem se confrontado, prazerosamente, com rigorosa pontualidade, dir-se-ia suíça, nas partidas e chegadas de voos. Não era bem assim que tudo rolava até outro dia. Sem estardalhaço, a situação sofreu alteração pra melhor. Claro, com intervenção bem sucedida dos organismos competentes, que conseguiram desfazer o cenário abagunçado das operações de navegação aérea que as imagens da televisão costumavam mostrar insistentemente num passado recente.

˜ Dizia-se, pouco tempo atrás, que o Brasil não estava se preparando adequadamente para a Copa Mundial de Futebol. A entrega para funcionamento pleno, nos prazos estipulados, de vários estádios que serão palco das partidas programadas - caso, por exemplo, do Mineirão - revela que as preocupações então trazidas a público não deixaram, de certo modo, de ser marcadas por toque um tanto quanto alarmista.

˜ Malgrado os juros bancários na boca do caixa, ou seja as taxas pagas pelo consumidor por empréstimos contraídos nos guichês das agências não tenham ainda chegado, em virtude da tradicional ganância (somada com caturrice) dos banqueiros, aos patamares preconizados na política econômica vigente, não se pode desconhecer que reduções significativas, puxadas sobretudo pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, estão ocorrendo nos custos financeiros. Taí situação que favorece em muito o sistema produtivo e o cidadão comum. Alvíssaras!

˜ A queda de 20 por cento nas taxas de energia elétrica, decretada meio na marra pelo governo, arrostando indisfarçável má vontade dos operadores do sistema, ávidos por lucros polpudos que remunerem à altura das expectativas seus acionistas, representa conquista econômica e social da maior relevância. Que o digam os setores beneficiados, ou seja, a Nação inteira! Pena não seja anotada com o destaque necessário, por motivos incompreensíveis (ou compreensíveis até demais) pela grande mídia.

˜ O ideal mesmo, não há duvidar, seria desmatamento nenhum. Mas essa queda acentuada nos índices de devastação da floresta amazônica é lance merecedor, sim, de alguma celebração. As últimas medições feitas por satélites no imenso oceano verde brasileiro são reveladoras de que a ação oficial concernente ao assunto vem se mostrando positiva.

˜ Tem-se como certo que nosso país executa presentemente o maior programa de implantação de moradias populares da história contemporânea. Essa grandiosa empreitada social é acompanhada com admiração e interesse em todas as partes do mundo. 2011 foi outro ano de recordes no setor de construções. Os valores dos financiamentos liberados pela Caixa são impressionantes.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Arapongagem em escala mundial

Cesar Vanucci *

“A prepotência das grandes nações tem gerado, ao longo
dos tempos, muitos infortúnios na convivência universal.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Contra o voto de alguns poucos parlamentares, o Congresso dos EUA acaba de revalidar lei dos tempos de Bush autorizando a escuta telefônica e o monitoramento de comunicação eletrônica, incluindo e-mails, com dispensa de autorização judicial, de qualquer cidadão, de qualquer nacionalidade, em qualquer ponto do mundo, por parte dos órgãos de segurança do país. A decisão é de jeito a trazer preocupações de bom tamanho à comunidade das nações. A missão atribuída aos serviços de inteligência estadunidenses, implicando em indisfarçável ato de prepotência, tende fatalmente a violentar a soberania de outros paises.

Uma indagação que não pode deixar de ser feita: como é que é processado o serviço de monitoramento da comunicação eletrônica e da escuta telefônica levado a efeito? A arapongagem eletrônica efetuada, representando invasão de privacidade de pessoas e organizações as mais diversificadas, se vale naturalmente de tecnologia avançadíssima mode que possa o trabalho atingir os resultados almejados. Tão óbvia constatação introduz no espírito popular a incômoda impressão - mais do que isso, talvez, a certeza - de que os Estados Unidos detêm um complexo sofisticado de coleta de informações que nas diligências executadas utiliza recursos à margem de normas, convenções e regulamentos consagrados oficialmente no relacionamento internacional.

A essa altura do enredo chame-se a atenção do distinto público para a presença em cena do famoso Echelon. Muita gente se recusa a aceitar a existência do “Echelon”. Acha que tudo não passaria de papo furado, história fantasiosa, “conto da carochinha”, estimulados por alguma “teoria conspiratória”. Mas um bocado de pessoas tem o “Echelon” na conta de coisa muito séria. O sistema funciona há anos. Sob múltiplos aspectos, mete baita medo. As operações promovidas materializam as sombrias previsões (ou serão predições?) de George Orwell no instigante “1984”. O livro descreve a atmosfera asfixiante de uma sociedade futurista, onde os cidadãos são alvo de feroz monitoramento. Fala de um sistema que vasculha permanentemente todas as engrenagens da comunicação humana, não poupando nem mesmo a intimidade dos lares. Ao “Grande Irmão” (Big Brother) é facultado o controle absoluto de tudo. Das mentes, dos corações e, até mesmo, das vidas. O cinema aproveitou o tema em fita estrelada por Richard Burton.

Os que crêem na existência do Echelon explicam que o esquema é servido por tecnologia altamente sofisticada. Suas atividades são centralizadas secretamente numa agência denominada NSA. Recorrendo a satélites aperfeiçoadissimos, os monitores têm acesso a todo som e imagem produzidos em qualquer parte do planeta e que estejam conectados às redes de alcance mundial, telefonia e internet incluídas. O Echelon trabalha no atacado com base em palavras-chave, não importando os idiomas. As palavras podem traduzir, teoricamente, intenções e procedimentos que justifiquem ações repressivas.

O acompanhamento desse incalculável volume de dados, de circulação incessante, é apontado como de significativa ajuda na identificação de situações que constituam ameaças. Caso, por exemplo, de eventuais ações terroristas. Mas como diz o ditado, madeira que dá em Chico, dá também em Francisco. O processo pode aprestar-se, ainda, a outras conveniências despojadas de nobreza. Enquadradas no “vale-tudo” do jogo geo-político-econômico. Revelam-se compreensíveis, à vista disso, os temores de que armações perversas possam ser articuladas, nesses monitoramentos, contra os interesses de Estados e organizações vulneráveis, alcançando até mesmo, quem sabe, lideranças regionais que se mostrem “suspeitosas” aos “olhares vigilantes” do Echelon. Ou seja, nessa nova versão da vida posta a imitar a arte, aos olhares do “Grande Irmão”.


Espionagem via eletrônica

 “A espionagem talvez fosse tolerável se pudesse ser
 exercida por pessoas decentes; mas a infâmia necessária
da pessoa pode fazer julgar da infâmia da coisa.”
(Montesquieu)

No comentário anterior, focalizando o ato de revalidação pelo Congresso dos EUA de uma lei dos tempos de Bush que autoriza a escuta telefônica e o monitoramento da comunicação eletrônica em escala mundial, falamos do Echelon, um sistema de arapongagem, operado pela Agência de Segurança Nacional (NSA) daquele país, cuja existência é negada e admitida por muitos e desconhecida da grande maioria.

O Echelon já foi objeto de avaliação crítica no Parlamento europeu e no próprio Congresso estadunidense. No Brasil, chegou a ser debatido, com discrição, na esfera parlamentar.

O respeitado jornalista Aldo Novak revelou, tempos atrás, em interessante trabalho, que por meio do Echelon a Agência de Segurança Nacional (NSA), dos Estados Unidos, está apta a acessar quaisquer transmissões de televisão, emissões de rádio, inclusive portáteis e de curta distância, e informações veiculadas por meio de faxes e correio eletrônico. Dois episódios apontados pelo jornalista ilustram os perigos embutidos no esquema. O Vaticano denunciou, algum tempo atrás, o que foi classificado por um porta-voz de violação da intimidade do então Papa João Paulo II. Todos os indícios de inominável devassamento dos domínios domésticos pontifícios apontaram na direção do “Projeto Echelon”.

Num outro incidente, também ocorrido há tempos, pacata família estadunidense teve a casa subitamente invadida por tropas de choque, à cata de terroristas e de bombas de alto poder destrutivo. Desfeito o mal-entendido, apurou-se que tudo brotara de inocente conversa telefônica, em que a palavra-chave “bomba” teria sido utilizada de forma perdulária. Decodificada pela parafernália eletrônica, a
conversa de duas pacatas comadres soou, aos ouvidos de zelosos agentes, especializados no combate a práticas terroristas, como tenebrosa conspiração. Acionar a Swat foi a ação recomendada por uma vigilância dominada pela paranóia.

As revelações acerca da avantajada xeretagem do Echelon foram corroboradas pelo famoso programa “60 minutos”. Os repórteres da CBS apuraram que a expressão Echelon corresponde a uma rede global de satélites e computadores estruturada com o fito de espionar tudo, em tudo quanto é canto do planeta. Controlada pela NSA, organização secretissima, dotada de poderes superiores aos da própria CIA, o dispositivo montado conta com sofisticadíssima rede de satélites em condições de fotografar, de grandes altitudes, com incrível nível de definição, cenas que ocorrem na superfície de qualquer recanto do globo. Está capacitado a captar, mediante parafernália eletrônica avançadíssima, dados de qualquer natureza, por mais protegidos que sejam, processados em computador. Pode, em suma, imiscuir-se na vida de qualquer pessoa.


A revalidação da lei da arapongagem eletrônica na escala preconizada pelo Congresso dos EUA só faz fortalecer a idéia da existência do Echelon. Isso recomenda a criação de regras jurídicas poderosas, por parte da comunidade das nações, que coloquem ao abrigo de sinistras maquinações a dignidade do ser humano. Sem o que estaremos todos contribuindo para que conquistas seculares, de conteúdo humanístico e espiritual, possam ser, de repente, arrastadas de roldão nas correntezas do obscurantismo e da insensatez, com fundamento em uma ciência e numa tecnologia que, volta e meia, a serviço da prepotência de governantes com vocação imperial, são flagradas em descompasso com os valores éticos que devem reger a aventura humana.

 * Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A pizza desejada por muitos

Cesar Vanucci *

“As conclusões aqui, são nada, um vazio.”
(Deputado Odair Cunha, relator da CPI)

˜ As fartas evidências de que o escândalo que tem como pivô o banqueiro de bicho Carlinhos Cachoeira suplanta em extensão e gravidade o próprio “mensalão” recentemente julgado pelo STF, não foram suficientes para impedir que a CPI sobre o assunto terminasse melancolicamente em pizza. Pizza brotinho, com disse alguém.
Gente de dentro e de fora do governo, políticos graduados da situação e da oposição, setores influentes da mídia somaram forças para impedir a conclusão do trabalho investigatório parlamentar nos termos adequados. As provas reunidas conduziam inapelavelmente à necessidade de indiciamentos que passaram, a partir de certa hora, a ser considerados inconvenientes tanto para a oposição, quanto para a situação. Bem como, também, deploravelmente, para certos órgãos da grande midia, embaraçados diante do envolvimento até a medula de alguns jornalistas nas maquiavélicas tramas criminosas de Carlinhos.
Os arranjos de bastidores resultaram num parecer conclusivo (do relator) vazio de conteúdo. Ficou fácil derrubá-lo na votação da Comissão. A substituição do texto por um raquítico memorando, elaborado a gosto na undécima hora, desprovido de um mínimo de respeito à natureza da investigação, deu-se com o indisfarçável intento de cavar uma sepultura bem funda para a CPI. Ninguém acabou sendo indiciado. Nem os mais manjados atores políticos do enredo mafioso, o ex-senador Demóstenes Torres e o governador de Goiás, Marconi Perillo. Nem tampouco a empreiteira utilizada como fachada para uma montoeira de negócios escusos. Apesar do acúmulo escandaloso de indícios acerca da mancomunação de todos com as ações ilícitas do perigoso contraventor. Este aí, por sua vez, posto novamente em liberdade, já anda anunciando a disposição de, seguindo o “meritório” exemplo de outro malfeitor, Marcos Valério, negociar penas mais brandas, caso isso se revele realmente necessário, em troca de uma “delação premiada”. Um artificiozinho que lhe assegure, talvez, o “sagrado” direito de zerar o prontuário e ganhar um atestado legal de “regeneração súbita”.

˜ A “síndrome de faroeste” sobrepaira ameaçadoramente sobre a vida estadunidense. O anunciado propósito do Presidente Obama, dando eco a clamor de ponderáveis parcelas da opinião pública, no sentido da adoção de medidas restritivas na venda de armas, vem provocando virulentas reações, por mais incrível que possa parecer. Grupos poderosos, contando inexplicavelmente com certo apoio popular e com algum apoio significativo da mídia, resistem em atmosfera de exacerbada indignação à idéia de se criar obstáculos à venda de armas nos termos em que a operação se processa atualmente. Querem que tudo permaneça como está em nome do sagrado “direito individual” de cada pessoa em possuir as armas que quiser e puder adquirir para se defender de ameaças que supostamente rondem o seu sossego. A prevalecer a tresloucada tese por eles sustentada, qualquer individuo continuará investido das condições de poder encomendar pelo telefone, para entrega domiciliar rápida, um rifle automático, ou mesmo uma bazuca, sem que se sinta na obrigação de explicar pra quem quer que seja as razões de seu procedimento. A arma – afiançam – é um produto de utilidade doméstica. Como geladeira, ou televisão. Impedir o cidadão de adquiri-la significa inadmissível invasão de privacidade, ora, veja, pois!
Obama vai se expor a nova saraivada de violências verbais, tal como aconteceu nas eleições, caso persista na louvável determinação de desarmar o país na tentativa de reduzir as tragédias amiúde provocadas por enlouquecidos atiradores solitários com acesso desembaraçado a verdadeiros arsenais bélicos.

 “Muito bom, fui longe sem sair do lugar.”
(Comentário da telespectadora Elenilda Trindade, ouvindo
a interpretação de Zé Renato e Renato Braz da melodia
“Desenredo”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro)

Vou usar uma expressão cunhada por ninguém mais, ninguém menos do que Ary Barroso, o mais genial compositor de música popular do século 20. Umas quinhentas composições na bagagem. Todas lindas. Nenhuma com defeito de fabricação.

Ary, de certa feita, definiu a “Aquarela do Brasil”, segundo hino nacional brasileiro, como um “clangor de emoções”. Tomo emprestadas as sugestivas palavras para caracterizar nosso prodigioso Brasil musical. Um verdadeiro clangor de emoções que as programações da televisão e rádio teimam, por pirracice ou outra razão menor qualquer, em não projetar, como deveriam fazer, na devida dimensão.

Em atrações como “Samba na Gamboa”, da TV Brasil, “Sarau”, da Globo News, “The Voice Brasil” (título pouco inspirado) e “Som Brasil”, da TV Globo, “Senhor Brasil”, da TV Cultura e em faixas musicais do Canal Brasil, a criatividade musical incomparável de compositores, intérpretes e instrumentistas brasileiros tem sido, de alguma maneira, realçada. Mas isso é ainda considerado muito pouco quando se tem em conta o volume da divulgação habitual reservada a ritmos estrangeiros.

E não se pode perder de vista que a música estrangeira intensamente propagada nos veículos de massa oferece, no mais das vezes, não importa o gênero, padrão de qualidade que deixa sempre muito a desejar. Culpa, certeiramente, da influência negativa que as gravadoras, ávidas por venderem seus bagulhos,  exercem no sistema de divulgação, sem falar da valiosa contribuição que é dada no caso por não poucos produtores e programadores, por meio da seleção de peças de mau gosto colocadas displicentemente no ar.

Dias atrás, no Canal Brasil, assisti empolgado a um espetáculo musical rico em brasilidade, com intérpretes magistrais. Não me recorda já haver visto qualquer um deles se apresentando noutro programa de televisão, embora todos eles revelem sobejas condições para, ao contrário do que ocorre com tantos artistas de duvidoso mérito, merecer a honra de escalação frequente em atrações de grande audiência na chamada tevê aberta. Esses intérpretes são Zé Renato e Renato Braz. O show mostrado foi impecável. “Desenredo”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, com o encaixe de um trecho do “Trem caipira”, de Vila Lobos, foi uma interpretação de tirar o fôlego. Eletrizante. Tenho zapeado, de lá pra cá, os prefixos na expectativa de reencontrar os artistas citados. Busca infrutífera. E não serão eles apenas, certeiramente, os únicos a experimentarem, neste momento, o amargor de se verem com sua arte bem brasileira mantidos à distância dos refletores, observando o espaço que, por mérito, deveria ser-lhes assegurado na programação, descerimoniosamente e obsessivamente ocupado por cantadores e cantorias estrangeiros.

Não tenho dúvida alguma em proclamar, alto e bom som, que a produção musical brasileira é, incontestavelmente, melhor do que a estrangeira. Mais uma prova dos nove fora disso tivemo-la, indoutrodia, naquele badalado espetáculo que atraiu meio milhão de pessoas à praia de Copacabana. Apresentaram-se ali Gilberto Gil e o americano Steve Wonder. A primeira parte do show, a cargo do brasileiro, foi infinitamente superior em qualidade. Mesmo não vivendo um de seus momentos mais inspirados, o autor do antológico “Aquele abraço” arrancou mais aplausos de que seu parceiro, reconhecido como celebridade mundial. Acompanhei, pela televisão, com entusiasmo, a performance de Gil. Não consegui, jeito maneira, acompanhar até o final o outro interprete. Lá pela quarta musica, danei a bocejar, entediado. Outros conhecidos confidenciaram-me haver experimentado idêntica sensação.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Por falar em delação premiada

Cesar Vanucci *

“Esperemos com resignação pela lei que trocará o nome da cidade
mineira de Tiradentes para Joaquim Silvério dos Reis, um delator bem premiado.”
(Nilo Batista, penalista)

Delação premiada é invenção de moda que aborrece, apoquenta o regime democrático. Este artifício pseudo-legal recende a autoritarismo. Evoca lembranças arrepiantes vividas no auge do bolchevismo e do nazismo. Tempos em que se costumava festejar os feitos patrióticos de adolescentes babacas que denunciassem pais por desvios ideológicos, e de indivíduos medíocres empenhados, com frenético “ardor cívico”, em apontar às autoridades competentes, para exemplares corretivos, vizinhos suspeitos de infidelidade aos idolatrados detentores do poder constituído, salve, salve...

Mergulhando mais fundo no passado, dá também para identificar o “oficio da delação” como atividade altamente meritória do ponto de vista dos algozes da Inquisição, nos momentos mais sombrios da Idade Média. Bancar o dedo-duro, exercendo a missão com altivez e convicção do dever cumprido, já rendeu também, noutros trevosos períodos do giro do mundo, aclamações e recompensas. Os exemplos de Judas Escariotes e Joaquim Silvério dos Reis, à frente de uma chusma de alcaguetes que deixaram registros históricos de suas façanhas nesse execrável mister, ilustram admiravelmente bem o que está sendo dito.

Lanço no papel estas considerações, ao dar-me conta, tomado de perplexidade, do grau elevado de credibilidade subitamente atribuído por algumas autoridades, alguns líderes políticos e certos portavozes da chamada grande mídia, a um elemento recentemente julgado pelo STF, como principal operador do chamado “mensalão”. Tal elemento estaria disposto, segundo “informações vazadas” (como?) de importante órgão do Poder Judiciário, a contar coisas que “não teria tido chance de revelar” no longo curso do inquérito, desde que lhe fossem garantidos os questionáveis “benefícios” do famigerado instituto da “delação premiada”.

Consulto os botões de meu pijama e chego rápido à conclusão de que essa manobra aloprada de se tentar alvejar, a qualquer custo, o ex-Presidente Luiz Ignácio Lula da Silva por meio do operador-mor do “mensalão”, além de extemporânea, ultrapassa os limites do ridículo, da falta de ética. Configura oportunismo político rasteiro. E por conta disso não vai, seguramente, conseguir prosperar. Um exame mais lúcido e ponderado dos fatos apontará inexoravelmente no sentido de que a solerte manobra projetada seja interrompida! Quer pela falta de consistência de argumentos, quer pelo risco que já se pode vislumbrar em avaliações políticas insuspeitas, de que o tiro que alguns, insensatamente, se dispõem a dar, apostando todas as fichas nessa situação surreal, pode sair pela culatra.

Se Marcos Valério tivesse algo mais a dizer sobre as ações fraudulentas de que participou neste mensalão em posição de realce, a oportunidade de fazê-lo foi deixada para traz. Não fica bem para as autoridades competentes conceder-lhe crédito para, depois de julgado e condenado, em troca de suposta redução de pena, sair por ai assacando contra a dignidade alheia, como parte de um complô armado com base na politiquice que outra coisa não objetiva senão desqualificar um líder político da envergadura de Lula, com uma “proposta” de disputa inesperada extra-campo, já que nas quatro linhas parece meio difícil, por ora, desbancá-lo.

Se o operador do mensalão anda mesmo disposto a revelar coisas que sabe sobre mensalões, consideradas importantes para o conhecimento da opinião pública, a hora é mais do que propicia a que comece explicar tintim por tintim tudo que aconteceu nos desdobramentos da primeira das supra-citadas tramóias. Ou seja, o famoso modelo experimental dos mensalões, praticado aqui mesmo em nossas Minas Gerais. Fontes abonadas vêm assegurando que o STF cogita dispensar a essa outra maracutaia contrária ao patrimônio público a mesma atenção que consagrou ao caso que acaba de julgar. Estando isso em vias de acontecer, a ensancha de Marcos Valério poder usar pertinentemente do verbo é mais do que oportunosa.


Era uma vez Hollywood


“Sexo ou violência. Impasse ou degradação duma arte que deu um Chaplin.”
(Paulo Mendes Campos, num registro feito décadas atrás, quando a arte cinematográfica ainda não havia atingido o grau de inconveniências observado nos dias de hoje)

Estou convencidíssimo de uma coisa e não aceito que me venham dizer que tudo não passa de saudosice piegas: Hollywood já não faz mais filmes como antigamente. Bastou trazer, para distração, num fim de semana, algumas produções dos anos 50 e 60 da Metro e Warner e chegar fácil a essa constatação, que se aplica inapelavelmente a comédias, musicais, filmes policiais, de faroeste e de aventuras. Sem esquecer as superproduções, bem melhores no passado. Os artifícios tecnológicos de hoje não conseguem, jeito maneira, estabelecer um diferencial favorável. O conteúdo pobre anula os efeitos. As cenas de violência estabelecidas amiúde num grau de paroxismo inimaginável preponderam. Numa semana inteira de filmes da era moderna mata-se mais do que em todas as guerras juntas. Assim, “não há tatu que guente!”, como é costume dizer lá nas bandas do Triângulo.

Outro ponto a considerar: a requintada indumentária que reveste as imagens de crueldade. Com adendo intrigante: as classificações etárias benevolentes atribuídas aos filmes que estampam manifestações de gosto tão duvidoso. Curioso também é perceber que essas cenas de violência incomum parecem não tocar em nada algumas organizações empenhadas, com bons propósitos, em campanhas educativas. Nunca as surpreendemos esbravejando com a mesma intensidade, frequência e veemência que reservam a autores, atores e obras brasileiras, considerados a seu juízo impróprios, quando a produção traz a marca dos estúdios de Los Angeles. E olha que o confronto, pelos critérios convencionais de avaliação, inspirados na moral e bons costumes, deixa novelas e filmes brasileiros, eventualmente apontados como picantes ou exagerados, em situação iniludivelmente vantajosa. O que não falta na atual safra de filmes da Meca do cinema são imagens horripilantes de violência, com escancarados ou subliminares estímulos ao uso de drogas e outras tantas mazelas.

Mas do que queremos mesmo falar, em suma, nestas maldigitadas, é que Hollywood já não faz filmes como antigamente. Cadê aqueles musicais fabulosos com Gene Kelly, Fred Astaire, Leslie Caron e Cyd Charisse? E os dramas com diálogos inteligentes entre o Spencer Tracy e a Katharine Hepburn? Entre Clark Gable e Vivien Leigh? O Henry Fonda e Bette Davis? Cadê aqueles enredos passados em salões de júri (“Doze homens e uma sentença”), e aqueles lances arrebatadores da conquista do oeste (“O homem que matou o facínora”), com aquelas histórias empolgantes, tão ricas em colorido humano?

No final dessa última semana vimos um musical dos bons tempos. Frank Sinatra cantou peças lindíssimas do melódico americano, o segundo estilo de música mais bonito do mundo, depois naturalmente do samba e da bossa nova. Junto com ele, alindando as cenas, lá estava a deslumbrante Rita Hayworth, cuja beleza física levou, certo dia, o célebre Cardeal Spellman a comentar, piedosamente, ter diante dos olhos prova exuberante da existência de Deus.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

E o mundo não acabou

Cesar Vanucci *

“Creio que não se deva julgar o bom Deus por este
 mundo, pois é apenas um esboço que não deu certo.”
(Van Gogh, pintor)

Anunciaram que o mundo ia se acabar. Disseram que um tsunami de proporções inimagináveis, com ondas de 1.5 quilômetros, iria riscar do mapa todas as cidades litorâneas, avançando devastadoramente terra adentro, fazendo o sertão virar mar. Uma outra teoria catastrófica, dentre as muitas aventadas, dizia que um corpo celeste descomunal surgiria, inopinadamente, do nada colidindo estrondosamente com este nosso planeta azul. Do impacto resultaria a eliminação de toda e qualquer manifestação de vida. Falou-se também na hipótese de uma brusca inversão da rotação da Terra, com efeitos obviamente calamitosos. A inversão súbita dos eixos magnéticos, com os polos sul e norte trocando de lugar, foi uma outra possibilidade aterrorizante levantada nas profecias sobre o final dos tempos.

Não faltou ainda na lista das previsões assustadoras a “mãe de todas as hecatombes bélicas”, a guerra nuclear. Andaram dizendo que um conflito mundial iria eclodir, desencadeado a partir das desavenças (sem solução à vista por conta de excessos de estupidez) no Oriente Médio. Tempestade solar avassaladora foi outra modalidade de destruição global anotada. Como todas as demais, fadada a não deixar sobrar ninguém pra contar história...

Pandemia provocada por vírus misterioso, proveniente do espaço sideral, ou confeccionado por aqui mesmo num dos laboratórios secretos mantidos pela paranóia da “guerra bacteriológica”, contra a qual não exista tratamento eficaz, perturbações gravitacionais na órbita percorrida pelo planeta na vastidão cósmica fizeram parte também do repertorio de desgraças composto nas pesquisas dos “profetas do Apocalipse”. A confiança dos autores dos prenuncios em suas intuições ganhou tal força que, na interpretação de textos sagrados de origens variadas, chegou-se até mesmo a indicar a data terminal fatídica: alguma hora entre 21 e 22 de dezembro do ano da graça de 2012.

Aconteceu, entretanto, que este mundo velho de guerra sem porteira não só “não se acabou”, como continuou o mesmo de sempre. Prossegue em seu giro interminável pelo oceano cósmico (repleto de inexplicabilidades) sem fim, com suas ziquiziras e cacoetes intoleráveis. Uma projeção aflitiva, afinal de contas, do jogo de contradições predominante na maneira de ser da fauna pensante que o povoa e que faz de um tudo no sentido de manter permanentemente subjugadas à sua insanável parvoíce a natureza e a vida. Isso vai, certamente, prevalecer até o dia, ardentemente aguardado, em que as lideranças da sociedade em condições de influírem no rumo das coisas deste mundo se revelarem dispostas a acolher, ajuizadamente, as propostas humanísticas, encharcadas de autêntica espiritualidade, propagadas por homens e mulheres de boa vontade, de diferentes culturas e regiões geográficas, empenhados na sacrossanta missão de acabar não com o mundo, mas com as situações perversas nele implantadas. Com as iniqüidades sociais, políticas e econômicas nascidas da intolerância, do egoísmo, da prepotência, da arrogância, que enodoando a convivência, se contrapõem aos valores que asseguram respeito à dignidade humana.


Sinto muito

As criaturas estão no caminho entre o Nada e o Tudo.
Encontram o que está acima de todos (...) pela via da oração.”
(Alceu Amoroso Lima)

Ouvi a oração numa representação teatral. Anotei na memória velha de guerra as idéias básicas contidas no sugestivo recitativo. Resolvi aqui reproduzi-lo. Não tenho dúvida quanto à fidelidade aos conceitos. Mas, não consigo garantir o mesmo quanto à qualidade da reprodução. Peço a todos, por isso, que levem em conta a (boa) intenção.

Estou falando de uma mensagem havaiana de cunho religioso. Lembra a arrebatante Oração de Francisco de Assis, na parte em que exorta as pessoas ao exercício do perdão. Perdão, numa e noutra prece, concebido – claro está - dentro da perspectiva da humildade, “base e fundamento de todas as virtudes”, sem a qual “não há nenhuma virtude que o seja”, como atesta Cervantes.

Por atravessarmos no calendário momento propicio a reflexões a respeito do sentido da vida, considerei de oportunidade repassar essa oração aos leitores, ao desejar-lhes votos sinceros de um Feliz Natal, seguido de uma passagem de ano repleta de venturas.

O texto que dei conta de rememorar diz (mais ou menos) o que vem alinhado na sequência. “Sinto muito, muito mesmo, por tudo aquilo que, partindo de mim, haja provocado, em qualquer época e qualquer lugar, sofrimento, decepção, frustração, ira, desalento, perturbação, contrariedade em pessoas de meu ambiente familiar; em pessoas de meu círculo afetivo; em pessoas de minhas ligações profissionais; em homens e mulheres, adultos e jovens, conhecidos ou desconhecidos, que cruzaram meus caminhos no curso desta caminhada pela pátria terrena. Sinto muito, sinceramente, por tudo aquilo que, em decorrência de atos ou palavras de minha autoria, possa ter dado causa a reações de pessoas de minha roda familiar, de minha esfera afetiva, nas minhas vinculações profissionais e comunitárias, que despertassem em mim rancor, tristeza, inconformismo, irritação, desejos de vingança. Rogo da Suprema Divindade que transmute todas essas emoções negativas em energias positivas. Energias que tenham o mérito de comunicar sensações de bem-estar e conforto a todos e que possam contribuir para a construção de relacionamentos humanos harmoniosos, fraternais e duradouros.

Eu sinto muito por tudo isso. Peço, humildemente, perdão por todas as reações desagradáveis que, consciente ou inconscientemente, ajudei a fomentar na convivência com os semelhantes.

Escancaro o coração à prática do amor, da fraternidade, da solidariedade e agradeço, reverentemente, por esta chance de poder lamentar, pedir perdão e exprimir o avassalador sentimento de mundo que me invade a alma.”

Não resisto, por último, à tentação de pedir a atenção dos leitores para algo que, certamente, não lhes passa desapercebido todas as vezes em que tomam conhecimento, como agora no caso desta oração do Havai, de uma forma de diálogo com o Absoluto nascida de concepção cultural da vida diferenciada da nossa. No fundo, independentemente de tempo e lugar, o que dá pra perceber é que a linguagem é sempre igual. Os cânticos de louvor ao Altíssimo alcançam sempre o entendimento universal. Brotam dos mais generosos impulsos da alma humana. Revelam que os homens, não importam a etnia, o idioma, o lugar em que vivem, os hábitos, são na essência tremendamente parecidos.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Certidão de nascimento

Cesar Vanucci *

“É a nossa certidão de nascimento.”
(Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina)

A decisão veio com respeitável atraso. Mas não deixou de constituir, verdade seja dita, um razoável avanço em direção ao rumo que, mais dia menos dia, terá que ser tomado na solução de um problemaço que vem se arrastando penosamente por décadas inteiras. Por conseguinte, houve justificativa para celebrações quando a Assembléia Geral das Nações Unidas, com alguns votos contrários – o dos Estados Unidos recebido como o mais desconcertante deles, tendo em vista as grandes responsabilidades derivadas da liderança exercida no cenário mundial – concordou, finalmente, em conceder uma “certidão de nascimento” à Palestina.

A condição de “Estado Observador” abre aos palestinos acesso a importantes agências da ONU e ao Tribunal Penal Internacional. Implica no reconhecimento de que a Palestina não vai poder continuar sendo tratada como um grupamento de pessoas de uma mesma nacionalidade, aglutinadas num mesmo espaço territorial, irremediavelmente condenado, para todo sempre, à marginalização política e jurídica no contexto internacional. Há que passar a ser vista, isso sim, como uma pátria na acepção completa do termo, uma terra regida por leis consagradas no Direito Internacional, detentora de plenos direitos e obrigações. Tanto quanto centenas de outras pátrias localizadas em todos os cantos deste planeta azul. A começar, aliás, pelo vizinho mais próximo, o Israel, um Estado que abriga nação pujante que amargou, no passado, as consequências funestas das demenciais práticas racistas do nazismo, sob os olhares complacentes e, exatamente por isso, cúmplices de um sem número de países com presença realçante no palco mundial.

Há precisamente 65 anos, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a criação, no Oriente Médio, dos Estados de Israel e da Palestina. O primeiro dos dois Estados foi devidamente estruturado. Tornou-se, em curto espaço de tempo, pelo labor de sua gente, uma potência próspera, ostentando agora índices de desenvolvimento bem acima dos outros países da região. Já no que tange à implantação em completude do Estado da Palestina, a Resolução da ONU gorou. Não saiu, até aqui, deploravelmente, do papel.

A (falta de) razão para que isso esteja acontecendo se deve a fatores os mais variados e despropositados. Destaque especial cabe na avaliação dos fatos à condição ininterrupta de beligerância reinante no pedaço. Com toda certeza, o mais conturbado pedaço de chão destes dias atuais. Essa beligerância é insuflada, o tempo todo, por radicais e xenófobos de diferentes tendências, pertencentes a trincheiras adversárias, alinhados com forças políticas e econômicas retrogradas, envolvidos, todos eles, todos, em um jogo confuso de egoísticas e espúrias conveniências. Com tanto tempo já transcorrido, o que já deveria estar sendo objeto de celebração seria o ingresso da Palestina como Estado Membro da ONU, senhora de direitos e deveres como qualquer outro país. Não o seu ingresso no órgão como mero Estado Observador. Afinal de contas, o X da tormentosa questão, que coloca o mundo em permanente sobressalto diante das coisas que costumam rolar naquele trecho sagrado do Atlas - fonte matricial de três importantes correntes religiosas monoteístas - consiste nessa demora infindável de se botar na prática aquilo que já foi decretado de longa data: a constituição do Estado da Palestina. E se isso até agora não se corporificou é porque muita gente poderosa, valendo-se de toda sorte de sofismas, lançados na mídia como valores fundamentais, dos quais não se pode abrir mão, não quer simplesmente que a Palestina exista como Estado.

Os grupos radicais que tanto influenciam as deliberações do governo de Telavive têm uma cota de responsabilidade de considerável peso nesse gigantesco esforço da turma do contra. Essa turma do contra é, por sua vez, minoritária, como tantas vezes já comprovado em reuniões da ONU, mas na verdade detém as cartas principais no embaralhado jogo das definições.

A postura do gabinete presidido por Benjamin Netanyahu, visto como aliado incômodo pela própria Casa Branca, não deixa margem alguma para dúvidas quanto à disposição dominante na esfera oficial israelita de deixar as coisas permanecerem como estão, indefinidamente. Mesmo que o cenário onde as coisas rolam seja considerado um barril de pólvora. Desrespeitar resoluções da ONU é com ele mesmo. Por conta disso, uma réplica do “muro de Berlim” foi plantada no explosivo território. Os assentamentos de colônias residenciais prosseguem. O país opõe-se terminantemente a abrir informações sobre seu programa nuclear à Agência Internacional que cuida do assunto. E por aí vai.

Sentindo-se, de certa forma, blindado pelo apoio recebido dos Estados Unidos, Israel nega-se a dialogar, repele a decisão da ONU, aprovada em votação maciça, em conceder à Autoridade Palestina participação na instituição como membro observador. Parece pouco se importar, por exemplo, com as manifestações de países com os quais mantém cordiais relações que se viram obrigados a se reposicionar, diante das decisões impertinentes que assume, ao convocarem os embaixadores israelenses para ouvir declarações formais de protesto contra os assentamentos indevidos das áreas ocupadas na Cisjordânia e Jerusalém Oriental.


A profecia que deu certo

“Está na vida o mistério.”
(Henriqueta Lisboa)

Tanto quanto a morte, a vida é recheada de mistérios imperscrutáveis. É como, aliás, sublinha Henriqueta Lisboa, em sugestivo registro poético: “Não na morte. Está na vida o mistério. Em cada palavra ou abstinência.” Fatos desconcertantes e enigmáticos, inexplicáveis sob as luzes mais profusas do conhecimento consolidado, deixam gravada na memória e na emoção da gente, por vezes, uma interrogação que nos acompanha pela existência inteira. Ao longo de extensa caminhada como repórter e como estudioso de fenômenos transcendentes, pude reunir expressivo acervo de casos instigantes que, pelo tradicional enfoque da lógica racional, não passam de tremendas charadas de interpretação impossível.

Tenho, com alguma constância, relatado algumas dessas histórias neste trecho de página frequentado habitualmente pelos meus 25 benevolentes leitores. Já que há tanta profecia solta no ar, animo-me hoje a contar a historieta de uma incrível profecia que deu certo.

Abril de 1952. Eu deixava a redação do “Diário do Triângulo”, localizada na avenida Leopoldino de Oliveira, centro da cidade de Uberaba, para uma reportagem. Naquele tempo o córrego das Lajes deslizava, como sugestivo adorno, por toda a extensão da avenida. Não havia ainda sido enclausurado nas entranhas da terra, em nome de uma questionável modernice urbanística. O jornal era dirigido por Souza Junior, filho de Nicanor de Souza, pioneiro no jornalismo diário na região do Triângulo Mineiro.

Procurava um transporte, quando avistei, estacionando nas imediações o jipe de um grande amigo, o então pracista de produtos farmacêuticos José Marcus Cherém. Ele ofereceu-me carona e, atraído pelo assunto da pauta que iria cumprir, dispôs-se a acompanhar-me pelo tempo necessário na coleta dos dados.

É hora, a esta altura, de explicar que o meu deslocamento, naquela manhã, a uma casa modesta, de cinco cômodos, na região da Abadia, prendia-se à intrigante revelação de que no local vinha ocorrendo uma sucessão de fenômenos sobrenaturais que mantinham moradores e vizinhos em estado de sobressalto. Objetos se movimentavam de um lugar pra outro como se mãos invisíveis os empurrassem. Escritos a carvão eram impressos, de repente, nas paredes, ao mesmo tempo que pequenos focos de incêndio irrompiam, brusca e assustadoramente, num ou noutro ponto do lugar. Tinha-se ali bem configurado o que especialistas em parapsicologia costumam denominar de “polstergeit”, expressão vinda do alemão. Cabe, agora, esclarecer que muitos especialistas na matéria costumam estabelecer uma estranha conexão entre o fenômeno e a presença nas moradias em que ocorre tal tipo de manifestação de adolescente em fase inicial de menstruação. Para o pessoal da redondeza a casa era mal assombrada, regida por forças demoníacas.

Seguindo com máxima atenção o que vinha rolando, depois de providenciar a limpeza das paredes da sala onde a escrita a carvão era misteriosamente produzida, tranquei a porta que dava acesso à dependência por uns poucos minutos. Ao reabrir a porta, o inacreditável explodiu diante de nossos olhos. Paredes, teto e piso estavam coalhados de dizeres. A frase mais saliente, espalhada por tudo quanto é canto, anunciava: “Cherém, futuro deputado!” Tomados de assombro, pudemos testemunhar que os registros caligráficos, nos termos descritos, se repetiram por mais de uma vez, até o fenômeno, passados alguns dias, se extinguir, tão subitamente quanto começou.

Os dizeres a carvão tiveram força de presságio. Alguns anos mais tarde, José Marcus Cherém, optando pela carreira política, foi eleito, sucessivamente, vereador, presidente da Câmara de Uberaba, vice-prefeito, deputado estadual, vindo a exercer o cargo de Secretário de Estado. Bem provavelmente, teria chegado, por força de talento, simpatia e méritos, ao Congresso Nacional, caso não houvesse sido arrebatado prematuramente de nosso convívio por enfermidade cardíaca. Lembro-me bem: na semana que antecedeu sua partida, visitando-o no hospital, consagramos, os dois, um bom pedaço do papo fraternal entre amigos de longos anos à rememoração daquela incrível profecia, anunciada de modo tão perturbador e enigmático, numa manhã de abril do ano de 1952, no bairro da Abadia, em Uberaba.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br

sábado, 15 de dezembro de 2012

Belô, 115 anos

Cesar Vanucci *

"Mas que Belo Horizonte!"
(João Paulo II, na Praça do Papa)

As cidades são que nem gente. Possuem aura, esse mágico envoltório da matéria física, com as cores do arco-íris, intuído nas concepções místicas antes de ser aceito na experimentação científica de Kirlian.

As cidades exprimem na silhueta áurica que as envolve o estado d’alma da coletividade. O invólucro de Belô, com sua impressionante concentração demográfica para a juventude histórica ostentada, oferece as cambiantes típicas das tendências, sentimentos, emoções, inclinações, expectativas, crenças e vontades agasalhados em seu território. O tom amarronzado surpreendido aqui e ali denuncia vestígios de pobreza, alojados em morros mal vestidos, onde a ação pela inclusão social do Poder Público e da comunidade tenta se fazer presente, a cada dia de modo mais abrangente.

Azul com matiz de onda de mar

Vê-se, então, que esse tom amarronzado do desenho áurico da cidade não é capaz, o suficiente, de obscurecer o azul com matiz de ondas de mar em dia claro que traduz a contagiante generosidade praticada pela sociedade, como resposta aos perturbadores desafios largados à sua porta na tormentosa questão social.

A cidade apresenta-se, assim, para os que a conhecem, em suas realizações e imperfeições humanas, em seus instantes de glória e horas de frustração, mas que também a amam enternecidamente, com aspecto reluzente, entre o prateado e dourado, indicativos de uma aura positiva, reveladora de boa condição para se viver. Vá lá: o amor costuma turbar um pouco a visão dos fatos. Mas, se a condição de vida da cidade não é de todo a ideal, não deixa de ser, no mínimo, bem razoável, comparativamente com outros lugares importantes deste nosso conturbado mundo.

O amor é um sentimento poliglota

Quando despertou em mim o grande e incondicional afeto que sinto por Belo Horizonte, cidade que me acolheu como filho por obra e arte do ex-vereador José Domingos, aprendi valiosas lições. Uma delas: fiquei sabendo que o amor é um sentimento poliglota, exprimindo-se em diversos idiomas e dialetos. E que, também, no catálogo das vedações morais e éticas, não há lugar para condenações à "poligamia geográfica". O que sinto por Belô é forte e vigoroso, como fogo que arde sem se ver, na lírica imagem camoniana. Mas não é algo que possa subtrair ou empobrecer – e aí reside a beleza da relação – o que sinto pela minha terra natal, ou por recantos outros onde tenha pendurado meigas lembranças de um passado que armazena referências primordiais de minha preparação para o jogo da vida. Amo BH em sua vocação para a ação humanística e social, de marcante influência em meu destino espiritual e profissional. Amo Belô em seu apreço à liberdade e em seu grave senso de respeito democrático, que dela fazem centro de excelência do pensamento político nacional. Amo Belo Horizonte na manifestação soberba de sua cultura e arte erudita e popular. No seu colorido, no rompante de voz, na expressão corporal tão ricos em mineiridade e brasilidade. Amo Belo Horizonte na fraternidade da fala e gestos de seu povo que atingem, completamente, de forma apreciável, os espaços carentes que o esforço oficial não consegue ou não pode alcançar, o tempo todo, com a eficiência desejável. Amo Belo Horizonte, pelo que ela representa como cidade síntese da cultura e do humanismo de Minas e do Brasil. Amo Belô como mulher bela que é. Cheia de graça, "espanta melancolia e consola mágoas de amor", na definição tomada por empréstimo ao Livro dos Cantares.

Jeitão desconfiado da cidade

Quando cheguei a Belo Horizonte, na década de 60, vindo do interior, intrigou-me aquele ar de donzelice ciosa de castas prerrogativas, substituído, em ocasiões inesperadas, por lances de incandescência profana os mais singulares. Encabulava-me o jeitão desconfiado da cidade na acolhida ao forasteiro. Sobretudo o forasteiro das plagas triangulinas. O estado de espírito de Belô parecia-me chegado ao egocentrismo. Algo assim como de alguém que se deixasse extasiar pelo próprio umbigo, elegendo-o centro do mundo, numa overdose de autossuficiência.

Silêncio de tumba etrusca

Minhas avaliações repousavam em conceitos culturais trazidos da origem. Não conseguia, por isso, entender a dificuldade da cidade, caixa de ressonância natural das ocorrências do Estado inteiro, para assimilar os êxitos pessoais de valores que emergiram para a notoriedade nacional, valendo-se de conexões diretas com o Rio e São Paulo, sem passar por estágio belorizontino. Era assim que eu via as coisas com relação a empresários de Uberlândia e Uberaba e seus empreendimentos vitoriosos, solenemente ignorados na divulgação e no apreço da Capital. Recorrendo a alguns poucos exemplos: as pessoas, de modo geral, recebiam com um misto de surpresa e incredulidade revelações do tipo de que em Uberlândia estava plantado o mais importante polo do comércio atacadista do país. Era o caso, também, na literatura, da meteórica ascensão de Mário Palmério às altitudes acadêmicas sem que tivesse obtido o prévio reconhecimento de seu talento pelas respeitáveis elites da inteligência local. Era o caso, ainda, no campo da arte e comunicação, da vertiginosa escalada de sucessos de Augusto Cesar Vanucci não registrada com o destaque próprio por ocasião dos sucessivos títulos ganhos, primeiro no Teatro do Estudante, depois como ator de cinema e teatro, produtor de televisão, com "Emys" e "Ondas" no amplo acervo dos troféus arrebatados internacionalmente, ou como um dos criadores do famoso padrão global de qualidade. Afligia-me também, de princípio, o silêncio de túmulo etrusco estabelecido à volta da portentosa obra de pensadores da altura de Alexandre Gonçalves Amaral e de Juvenal Arduini.

Algum tempo passado, passei a perceber melhor tudo: Belo Horizonte, como toda cidade, é um estado de alma. Coisa de gente. Exprime sentimentos e emoções humanos da coletividade que abriga. Não sentimentos e emoções de deuses ou de anjos. De qualquer modo, aliás, se nos valermos das anotações sagradas e mitológicas, deuses e anjos deixam muitas vezes explodir reações que lembram bastante personagens humanos.

No caso, o sentimento da cidade traduzia melhor as características de outras partes das Gerais. Destas Minas Gerais muitas, na definição do nunca assaz louvado Guimarães Rosa. Das várias Minas, o pedaço correspondente ao Triângulo Mineiro era à época – e foi assim no curso de muitos anos – o de menor peso no conjunto das tendências e variáveis culturais, políticas e econômicas a influírem na formação do pensamento coletivo belorizontino.

Quando o amor irrompeu...

Quando irrompeu, o amor fincou raízes, encorpou-se, espalhou ramagens, adquiriu a feição pronta e acabada de uma empreitada bem sucedida. O processo foi todo repleto de perguntas silenciosas e de avaliações também mudas. As respostas brotavam à medida que eu conseguia penetrar a envolvente matreirice mineira da cidade. Entendê-la em seu jeito de ser tão paradoxal. De um lado, a abertura, diria escancarada para o universal, o holístico. De outro, o recolhimento puritano, provinciano, suburbano até.

Foi assim, desse modo, que me amarrei, afetivamente, à Capital dos 115 anos.

Amor amadurecido, encharcado de compreensão, onde entram todas as cambiantes e entonações dos laços e entrelaçamentos humanos feitos para durar. Mais até: para permanecer. Amor feito de doces e irreveláveis segredos, mistérios e fascínios, como bem se ajusta às ligações que se pretendem eternas.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Cada qual na sua

Cesar Vanucci *

“Não queiram os representantes do Judiciário
 trasladar para a legislação (...) a sua bela atividade de julgar.”
(Alexandre Gonçalves Amaral, saudoso Arcebispo)


Retiro do baú um texto preciosíssimo, de refulgente atualidade. O autor é ninguém mais, ninguém menos do que Alexandre Gonçalves Amaral, primeiro Arcebispo de Uberaba, falecido em 2002, ao seu tempo de pleno vigor físico e intelectual considerado “o maior orador sacro do Episcopado brasileiro” na opinião de outro Prelado ilustre, Dom Benedito de Ulhoa Vieira.

O texto em referência, intitulado “Encantadora harmonia de poderes diferenciados”, divulgado em 1970, encerra uma ode à democracia e projeta, com suprema clareza e sabedoria, o que vem a ser, na verdade, a decantada autonomia dos Poderes. Deixa para os exercentes da vida pública lições lapidares.

Reveste-se de singular importância e oportunidade neste momento da vida brasileira em que assistimos pela imprensa uma polêmica envolvendo representantes do Judiciário e do Legislativo acerca de suas competências institucionais no que concerne à cassação dos mandatos de parlamentares condenados em ações judiciais.

Alexandre, autor de mais de cinco mil artigos de rico conteúdo humanístico e espiritual à espera de uma editora que se interesse pela propagação de ensinamentos que resistem à voragem dos tempos, explica no trabalho que “a harmonia vital, no conjunto orgânico, depende de que cada órgão vivo se desempenhe de toda a sua missão que lhe é assinalada, mas somente dela.” Lembra que “assim é também no organismo social”, recomendando depois aos detentores dos Poderes Públicos roteiros impecáveis de atuação.

Pontua magistralmente: “Não pretendam os legisladores imiscuir-se em questões atinentes ao Poder Executivo. Não pretendam os Agentes Executivos invadir o campo da legislação. Não queiram os representantes do Poder Judiciário trasladar para a legislação ou para a execução a sua bela atividade de julgar. Não queiram as Forças Armadas decidir questões dos outros três Poderes.”

E mais adiante: “Cada qual, na sua esfera de atividade, sem invasões indébitas de responsabilidades alheias e sem fugas covardes às próprias responsabilidades, concorrerá, serena e eficazmente, para a harmonia do organismo social.”

O artigo se alonga em considerações exemplares sobre a conduta ideal que os cidadãos têm o direito de esperar de seus representantes. Assinala, por exemplo, que “a missão de um legislador é bem mais elevada do que a remoção de funcionários públicos, que, muitas vezes pertencem a entidades que deveriam purificar-se de certas ingerências indébitas, dotadas que são de certa autonomia, no campo específico das suas atividades.” Lembra, também, que “muitas vezes, até elementos destacados da comunidade social exigem dos nossos legisladores coisas que não são propriamente da sua alçada”, acrescentando não ser raro “que sejam elogiados os nossos legisladores por realizações marginais à sua nobre função, muito mais do que pelo desempenho discreto de sua nobilitante missão.”

A leitura do trabalho de Alexandre fortaleceu bastante a opinião que tenho ajuizada a respeito do debate ora aflorado na mídia sobre a quem ficará afeta, na queda de braço dos Ministros do Supremo com os Parlamentares, a atribuição de avaliar a conveniência de cassação dos mandatos.

A competência legal, constitucional, não há fugir dessa interpretação, pertence à Câmara de Deputados. O Poder Legislativo, a seu turno, não poderá, de maneira alguma, diante de insofismável imposição moral, ignorar na apreciação do assunto, observados todos os procedimentos regimentares aplicáveis, a suprema gravidade das decisões judiciais condenatórias envolvendo alguns de seus pares. Que cada Poder assuma a parte que lhe diz respeito em sua importante missão institucional. É assim que a democracia funciona.


Recados brasileiros

“Imagino um Judiciário sem firulas, sem floreios e sem rapapés”.
(Ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF)

A qualificação profissional e a condição ilibada do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, que ganhou notoriedade nacional graças ao estilo independente e altivo de sua atuação na relatoria do “mensalão”, respaldam naturalmente a indicação de seu nome para o exercício das importantes funções. Mas as circunstâncias de ser o primeiro patrício negro a assumir o cargo confere uma dimensão extraordinária, de significado histórico todo especial, à escolha.
A democracia brasileira continua a dar provas de sua pujança. Já fez no passado de um ex-pau-de-arara, operário, um Presidente da República. Elegeu Presidente uma mulher. Coloca, agora, no comando da mais alta corte do país um negro. Que belo recado, de sentido humanístico, transmitido a um mundo que, de modo geral, confronta ainda barreiras de difícil transposição para assimilar as diversidades ideológicas, sociais, raciais, culturais, religiosas e se desvencilhar de preconceitos e intolerâncias seculares que costumam, em tantos lugares, tornar a convivência comunitária insuportável!

Na cúpula ibero-americana, em Cadiz, Espanha, a Presidenta Dilma Rousseff fixou, com bastante lucidez, a posição brasileira diante de questões momentosas que afligem a humanidade. Exortou os europeus a combaterem a crise recessiva com medidas de estímulo ao crescimento econômico e social, e não com arrochos fiscais insuportáveis e penalizações severas aos assalariados. Acenou com o exemplo brasileiro, explicitando que a política aqui executada, conferindo primazia ao social, produziu frutos compensadores.
Outra manifestação de Dilma que deixou vigorosa impressão na platéia que a aplaudiu disse respeito à postura diplomática de nosso país com relação aos acontecimentos permanentemente turbulentos do Oriente Médio. Favorável à implantação do Estado da Palestina, inexplicavelmente procrastinada há décadas, desejosos de que israelitas e palestinos consigam estabelecer as bases de uma convivência harmoniosa, os brasileiros repudiam as ações radicais de que a região é palco, desaprovando também a desproporcionalidade no emprego da força militar do Estado do Israel nas retaliações a agressões praticadas por seus opositores.
Fala de verdadeira estadista. Pena que por aqui os grandes veículos de comunicação não dispensaram aos pronunciamentos a atenção que fizeram por merecer.

Na grande mídia nacional, exceção feita à “CartaCapital”, de onde extraio as desconcertantes revelações, nada tenho visto a respeito dos danos irreparáveis causados à saúde pelo amianto. Fico sabendo, numa entrevista dada pelo promotor italiano Raffaele Guariniello, que conseguiu a condenação a 16 anos de prisão dos empresários Stephan Sclmidheny, suíço, dono da empresa “Eternit”, e Jean Louis Marie, da “Marchienne”, que “a história do amianto é um pouco da história da estupidez humana.” Segundo o procurador, “o julgamento na Itália (sobre o assunto do amianto) foi um marco histórico.” “Os dados são inequívocos – garante, adicionando alarmante informação: o amianto causa mesotelioma, um câncer mortal, mesmo para quem aspire pequena quantidade do produto.
Outro dado inquietante, liberado pelos órgãos técnicos da ONU: o amianto mata anualmente cerca de 110 mil indivíduos em todo o mundo.
Estas declarações incisivas, estranhavelmente omitidas ao grande público, ganham enorme significado diante da constatação de que, neste preciso momento, no STF (Supremo Tribunal Federal), vem sendo discutido, obviamente sem alarde, o “uso controlado” do amianto, como desejam as empresas do ramo que operam no Brasil.
No ver do promotor italiano, no interesse da vida humana, o Brasil deveria, adotando política semelhante à que se adotou na Itália e em outros países, proibir definitivamente o emprego do produto.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...