sexta-feira, 19 de julho de 2019


O sumiço das sandálias

 Cesar Vanucci


“Cadê minhas sandálias?”
(Brado angustiado de dona Lavínia, ao ver-se descalça na chegada à convenção)

A conversão de João Alameda fez história na crônica mundana da pacata cidade do recôncavo onde ele veio a radicar-se. Viajante comercial anos a fio na região, boa praça, cortês com as pessoas, vendedor experimentado, ele granjeou amizades sem conta em todas as rodas. Junto com isso, em função de constantes incursões noturnas pelos ambientes boêmios das praças frequentadas profissionalmente, adquiriu fama de mulherengo e de cervejeiro.

As pessoas mais chegadas a João Alameda passaram a perceber radicais mudanças no comportamento do moço quando seu namoro com Cidinha engatou, começando a sinalizar caminho que levava à pretoria e ao templo onde o pai da moça exercia, com reconhecido zelo apostolar, as funções de reverendo. A metamorfose foi recebida com inocultável júbilo pela comunidade de fiéis liderada pelo respeitado pastor José Luiz, mais conhecido por Zeca do Quirino, alcunha carinhosa tomada do sobrenome paterno. É tempo de revelar, a esta altura, que dona Lavínia, esposa de Zeca do Quirino, mulher de espírito forte, atitudes enérgicas, viu com muito gosto a união de João Alameda com a filha única, Cidinha. Teve, aliás, papel preponderante no convencimento do marido, que se mostrava a princípio relutante, quanto a aceitação do pedido de casamento formulado por Alameda seis meses depois do início do namoro. Escusado acrescentar que o pretendente à mão de Cidinha abriu o coração num papo reservoso com os futuros sogros, confessando-se regenerado das vivências boêmias do passado.

Dois anos transcorridos do ditoso enlace, pai de lindos gêmeos, fazendo sempre questão fechada em declarar-se homem temente a Deus, cônscio das responsabilidades maritais, João Alameda foi convidado pelo reverendo e patroa para acompanhá-los numa convenção de caráter religioso em Brasília. Não cabendo em si com a honrosa designação, ficou incumbido de dirigir o veículo do sogro. Já na capital, no dia da abertura do conclave, rodou, por horas, sozinho, fazendo contatos, mode que matar saudade, com pessoas conhecidas lá da terrinha. Na residência de casal amigo topou, inesperadamente, com Landinha, valorosa parceira de folguedos incandescentes de outros carnavais. Sobrou-lhe a tarefa de levar a moça, também de visita ao casal, ao apartamento, noutro bairro. Pra encurtar razões: no caminho, o diabo “atentou”. Alameda não teve como resistir aos encantos provocativos de Landinha. Carregou, na volta pro hotel, a preocupação de esconder a forte emoção de que se achava obviamente possuído. Aguentou-se firme nos arreios ao responder, esforçando-se por demonstrar naturalidade, perguntas acerca dos pormenores das visitas aos amigos.

Mais tarde, conduziu o grupo familiar, todo trajado a rigor, rumo à aguardada cerimônia. Na poltrona da frente do carro, ao seu lado, alojou-se dona Lavínia. O pastor Zeca do Quirino e Cidinha ocuparam o banco traseiro. Já próximos ao destino, Alameda deu-se conta de algo que o deixou transtornado. Avistou, de repente, não mais que de repente, um par de sandálias douradas soltas no chão, à frente da poltrona da sogra. Apavorado, sem conseguir entender direito, de momento, a razão da atitude descuidada e comprometedora de Landinha, “a estouvada de sempre”, desceu, em gesto automático, o vidro da porta ao lado do volante. Chamou, depois, quase aos berros, numa reação pra lá de estranha, a atenção dos passageiros para imenso painel de luzes multicoloridas da fachada de edifício à margem da pista. E, mais do que depressa, valendo-se da distração dos demais, apoderou-se das malditas sandálias, arremessando-as fora. A manobra passou, afortunadamente, desapercebida, embora a sogra comentasse, intrigada, não ter visto nada de extraordinário no painel apontado com descabido alvoroço pelo genro.

Alameda, coração aos saltos, procurava ainda refazer-se do susto ao chegar ao pátio de estacionamento do prédio da convenção. Os passageiros preparavam-se pra se juntar às centenas de convencionais que circulavam pelo pátio em direção do auditório, quando dona Lavínia soltou no ar um berro angustiado e assustador: - “Cadê minhas sandálias?” Um deus-nos-acuda! O carro foi vasculhado por inteiro, em meio a imprecações, invocações a forças protetoras divinas e copiosas lágrimas, mas nada das sandálias milagrosamente ressurgirem. O sumiço acabou virando mistério inescrutável. Alameda, a esposa e a sogra, dominados por forte tensão, deixando o reverendo, contrafeito, no local, tiveram que se bater em retirada, de retorno ao hotel e amargar horas insones, numa tremenda aflição.

Até hoje, ninguém conseguiu explicar como as sandálias da virtuosa cara-metade do pastor evaporaram no trajeto entre o hotel e o centro de convenção, naquela estranhíssima noite em Brasília. Entre os que vieram a saber da inusitada ocorrência, ninguém também teve a malícia de estabelecer nexo de causa e efeito entre o fato e o mal súbito, de natureza coronária, reclamando internamento, que acometeu horas depois o prestimoso João Alameda.

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