quinta-feira, 27 de outubro de 2011


Seguem-se, para conhecimento do leitor, o prefácio (Olavo Machado Junior, presidente da Fiemg) e a introdução do livro (Cesar Vanucci).


Prefácio

Zé Alencar, um grande brasileiro

Olavo Machado
Presidente da Federação das Indústrias
do Estado de Minas Gerais - FIEMG

Um dia, alguém perguntou ao Zé Alencar: – De onde o senhor é, onde é a sua terra? Com o seu jeitão despachado e bem humorado, ele respondeu: – Tenho muitas. Nasci em uma cidade, trabalhei em várias, casei em outra... Minhas terras são muitas.
É verdade, e tudo começou em um pequeno povoado de nome Itamuri, no município de Muriaé, na Zona da Mata Mineira, onde o nosso Zé nasceu. Aos sete anos, já ajudava o pai, na loja. Aos 15, deixou a casa
dos pais para trabalhar como balconista em Muriaé. Aos 17 ainda era balconista, mas noutra cidade, Caratinga. Aos 18, com 15 contos de réis emprestados pelo irmão mais velho, Geraldo – história que ele nunca se cansava de contar - e emancipado pelo pai, já era dono de loja - A Queimadeira -, uma campeã de preços baixos, em Caratinga.
De lá para cá, Zé Alencar não parou de fazer o que mais sabia – empreender, empreender e empreender sempre, como cidadão, empresário e líder político.
Como empresário, depois de começar como pequeno lojista criou e fez crescer a Coteminas, transformando-a, em poucos anos, em líder de um dos maiores grupos têxteis do Brasil e do mundo. Na política, sem nenhuma experiência e militância anteriores, chegou ao Senado e, em seguida, à Presidência da República – Zé Alencar foi o vice que por mais vezes e por mais tempo presidiu o País.
Nos últimos anos de sua vida, atacado por um câncer insidioso, lutou bravamente, com a altivez que sempre o caracterizou, doando-se como exemplo aos brasileiros, como fez, por exemplo, ao recomendar cuidados preventivos com a saúde e ao recomendar ao então ministro da Saúde, José Carlos Temporão, a instalação de equipamentos apropriados na rede do SUS. É a história deste homem corajoso, múltiplo e singular a um só tempo, que se conta em “José Alencar – Missão Cumprida”, de Cesar Vanucci.
Tive o privilégio de conviver e aprender muito com o “doutor Alencar”, especialmente na FIEMG, onde nos encontramos no começo dos anos 80. Como o leitor verá nas páginas de Missão Cumprida, na Casa da Indústria ele construiu uma grande obra, levando o SESI e o SENAI para as diversas regiões de Minas. Na vida política, foi, sempre, uma voz elevada na defesa da indústria nacional. Discreto, desempenhou missão de reconhecido protagonismo na última década do século 20 e na primeira do século 21.
Como os grandes homens, Zé Alencar era movido por sonhos e, do maior deles, tomei conhecimento em uma história contada por ele mesmo, entremeada por deliciosas gargalhadas: “Ainda vou ver o Brasil ter uma moeda estável. Irei a Paris, pedirei um Borgonha de boa safra e pagarei com o nosso Real. Terei o prazer de ouvir o garçom pedir desculpa, lamentar não ter uma moeda tão forte quanto a nossa e perguntar se poderia me dar o troco em dólar ou em franco”. Este sonho, Zé Alencar ajudou a tornar realidade.
Zé Alencar foi, sim, um homem de muitas terras e de muitas atividades. No entanto, umas e outras sempre convergiram para traduzir o que, de fato, ele foi: um grande brasileiro, dedicado e apaixonado pelo seu País. É assim que me lembro do Zé Alencar. É assim que reverencio sua memória.







Introdução


Missão cumprida

Cesar Vanucci

“Até a morte, tudo é vida.”
(Cervantes, “Dom Quixote”)

A vida humana é finita. Um tremeluzir de relâmpago na vastidão da eternidade. A gente principia a morrer quando nasce. Começa a arrumar a mochila da partida na própria hora da chegada. Richard Bach explica magistralmente o indesvendável e excitante mistério da aventura humana quando registra existir um jeito muito simples de saber se está cumprida a missão de alguém: se está vivo, não está.
No caso de José Alencar Gomes da Silva – o Vice-Presidente que nos conquistou com copiosos exemplos de apreço à causa pública e que nos emocionou com a bravura indômita demonstrada em atos inequívocos de seu dia a dia, mostrando-nos que a vida é um dom precioso a ser desfrutado e preservado – a missão foi cumprida. Esplendidamente cumprida.
É disso que se procura dar notícia no material de leitura da sequência.
Estão aqui enfeixados comentários que lancei, logo após a partida do grande brasileiro, em jornais e blogs, com os quais colaboro, com destaque especial para o “Diário do Comércio”, de Belo Horizonte, e artigos, também de minha autoria, divulgados em momentos anteriores à sua morte.
O livro abre espaço para manifestações de outros amigos e olaboradores do querido personagem. Rememora, ainda, momentos em que Lula e Alencar se enxergaram parceiros de épica empreitada. A empreitada
Que conduziu, numa proeza sem precedentes, dois representantes
da imensa legião dos Silvas brasileiros, ambos de origem humilde, desprovidos do verniz doutoral universitário, mas laureados nas ásperas refregas da escola da vida, por dois mandatos consecutivos, ao supremo comando da República. Mandatos esses transcorridos num período de
realizações incomparáveis que atraíram as atenções e a admiração do mundo inteiro para o esforço irrefreável de nosso povo na conquista do futuro.
A leitura destas páginas concorrerá, de algum modo, para que o leitor, inteirando-se de mais informações a respeito da obra de Alencar em sua peregrinação pela pátria terrena, conclua como ele certamente o fez, louvado em Cervantes (por sinal, autor de sua especial predileção), que “até a morte, tudo é vida.”

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Paralisação dos médicos (1)


Cesar Vanucci *


“O incremento financeiro dos Planos de Saúde foi de 129 por cento.”
(Informação do comando de greve)

 A paralisação, já por duas vezes, em caráter de advertência, nos serviços de atendimento do assim denominado Sistema de Medicina Complementar, pede reflexão serena, em sintonia naturalmente com os anseios populares. A decisão extrema dos profissionais de saúde encerra o mérito de desnudar uma situação que carece ser enfrentada com bom senso e determinação.

A política de remuneração insatisfatória à mão de obra especializada, arrastada a exageros insuportáveis por obra das operadoras dos Planos de Saúde, constitui, iniludivelmente, uma sonegação de direitos. Um acinte, de certo modo, à dignidade profissional. Tende a afetar a qualidade dos serviços prestados. Não há contestar. Os valores pagos pelos procedimentos médicos chegam a ser chocantes. Isso vem configurado nas denúncias trazidas a lume pelos representantes da categoria. O alerta foca a valorização do trabalho profissional, a valorização da assistência ofertada pelos Planos de Saúde. Os médicos confessam-se solidários aos usuários da rede, que sofrem com as glosas e as filas de espera. As indesejáveis situações são denunciadas pela Federação Nacional dos Médicos, Conselho Federal de Medicina, Associações e Sindicatos médicos.

As 1044 operadoras de Planos de Saúde que atuam no País movimentaram, em 2010, estimativamente, 70 bilhões de reais. O número de usuários envolvidos é de quase 46 milhões, o equivalente a 24 por cento da população. Os 160 mil médicos ligados ao esquema realizam 223 milhões de consultas, acompanhando quase 5 milhões de internações.

Entre 2000 e 2009, os reajustes autorizados aos Planos acumularam 133 por cento. O indicador corresponde a 23 pontos percentuais a mais que os 106 por cento registrados no mesmo período pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (INPCA).

No mesmo espaço de tempo, os Planos alcançaram incremento financeiro de 129 por cento. Sua receita global saltou de 28 bilhões para quase 66 bilhões de reais. De acordo com as avaliações dos organismos da representação médica, o valor da consulta, nesse período de expressivos avanços nas receitas e resultados, subiu apenas 44 por cento.

Não poucas operadoras remuneram os médicos, atualmente, na base de 25 reais por consulta. A remuneração por outros procedimentos não deixa também de escandalizar. Por um cateterismo cardíaco, paga-se ao médico entre 149 reais e 305 reais. Uma cirurgia de ouvido é cotada entre 45 reais e 97 reais. Um eletrocardiograma entre 10 e 16 reais. Um ato ortopédico de imobilização de membros fica entre 6 reais e oito reais. E por aí vai...

Outro item de suma gravidade nesse relacionamento desarmonioso, conforme denunciam os médicos, diz respeito à aviltante bonificação oferecida pelos Planos de Saúde aos profissionais que se comprometam – ora, veja, pois! -  a não solicitar exames complementares nas consultas. A aceitação passiva desse inaceitável estado de coisas não pode mais perdurar em nome dos mais comezinhos princípios que regem o relacionamento profissional. Aguarda-se que, com a intervenção óbvia das autoridades responsáveis pela Saúde, o impasse gerado pela intransigência das operadoras dos Planos possa ser desfeito, sem delongas, por meio da celebração de acordos que contemplem tabelas remuneratórias em consonância com o tratamento respeitoso à dignidade profissional ao qual a classe médica faz jus.

A avaliação do que vem ocorrendo inspira também um outro tipo de reflexão, não menos importante.



Paralisação dos médicos (2)


“Uai! Mas os planos de saúde não são gerenciados pelos próprios médicos!”
(Thelma Garcia, usuária de Plano de Saúde)

No arremate das considerações feitas no artigo anterior acerca da paralisação dos médicos, em caráter de advertência, já por duas vezes, nos serviços de atendimento dos Planos de Saúde, chamamos a atenção do leitor para um aspecto essencial a ser debatido nessa questão enfocada pelos prestadores dos serviços médicos. Como é do conhecimento amplo, geral e irrestrito da sociedade, a maior operadora de planos de saúde no território nacional – a Unimed – nasceu de um trabalho de arregimentação promovido no seio da valorosa comunidade médica. Organizada louvavelmente com propósitos cooperativistas, essa instituição detém, no cenário nacional, a maior parcela de convênios na área da prestação de serviços atribuída ao chamado Sistema de Assistência Médica suplementar. A origem de outros Planos de Saúde assemelha-se à da Unimed.

Deplora-se na atuação desses organismos, nascidos sob saudável inspiração cooperativista, o caráter exageradamente mercantilista que, muitas vezes, rege suas ações, em flagrante dissonância com as nobres finalidades propostas em seus começos, objeto de aplausos por parte dos componentes da nobre categoria médica e da sociedade, de modo geral. A prevalência de critérios mercantilistas sobre outros respeitáveis valores tem sido de molde a afetar os interesses dos cooperados e também dos usuários.

Não pode passar sem reconhecimento, ainda, que a Unimed, de modo bastante especial, como outras organizações congêneres, costumeiramente geridas por colégios compostos de profissionais do segmento médico, dispõem de favoráveis condições para desempenhar papel moderador de relevância na política de preços cobrados aos usuários e de remuneração paga aos médicos pelos Planos. Faz sentido, sim, imaginar que a campanha dos médicos em favor de remuneração condigna pelos serviços prestados possa chegar de forma mais rápida aos objetivos almejados a partir do momento em que organizações responsáveis pelos Planos de Saúde, dirigidos por médicos, se compenetrem ser de seu dever alterar substancialmente as linhas da trajetória adotada no relacionamento com a classe que, afinal de contas, representam. A posição dessas instituições com relação ao palpitante assunto balizará infalivelmente a conduta de todo o importante Sistema da Saúde Complementar, criando um relacionamento bem mais positivo com a cadeia usuária.

Esse aspecto essencial no debate em tela não pode nem deve ser subestimado pelas pessoas realmente engajadas na busca de solução justa e equânime para esse  problema da depreciação constante dos valores remuneratórios dos encarregados de zelar, nos consultórios, nas clínicas e noutros pontos de atendimento, pela saúde dos usuários.


* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Celebração refulgente

Cesar Vanucci *

"Despertar nos corações o desejo de servir é missão de todo
 Leão e conduz a uma sociedade participativa responsavel... "
(Rosane T. Jahnke Vailatti)


Todos os anos, no mês de outubro, sempre circundada de refulgente brilho, acontece a celebração da “Semana Mundial do Serviço Leonistico”. Trata-se da promoção de maior relevo no calendário de comemorações do Movimento dos Lions Clubes em Minas Gerais. Patrocinada pela Governadoria do Distrito LC-4 de Lions, por clubes da circunscrição, e pela Academia Mineira de Leonismo, contando com o apoio da Assembléia Legislativa de Minas e Sistema Fiemg, a “Semana” de 2011, consagrada a uma reflexão sobre o papel da Mulher na sociedade contemporânea, abrangeu extensa programação. Os atos cívicos e culturais realizados foram acompanhados com vibração por públicos numerosos.

Reportando-nos aos principais eventos, merece destaque, primeiramente, a sessão festiva do dia 1º de outubro, no auditório da Federação das Indústrias. A Academia Mineira de Leonismo empossou, na ocasião, quatro novas Acadêmicas: Carmen Lúcia Camargos Redoan, Maria Celeste Martins, Sonia Maria Queiroga Ferreira e Vilma Raid Fernandes

A presidente da Junta Comercial de Minas, ex-Secretária de Estado Ângela Maria Pace Silva de Assis, proferiu aplaudida palestra sobre as lutas e conquistas da Mulher. A parte artística esteve a cargo da Professora de canto e cantora Renata Vanucci, que interpretou canções da MPB com nomes de mulheres nos títulos. Os trabalhos foram dirigidos por Sóter do Espírito Santo Baracho, presidente da Academia.

No dia 8 de outubro, pela manhã, outra assembléia festiva foi realizada, tendo por palco o majestoso Auditório JK, na Cidade Administrativa, que ficou com as dependências inteiramente tomadas. Autoridades, dirigentes de núcleos do leonismo em Minas e no Brasil, representantes de diversificados setores da comunidade, participaram de belo encontro de confraternização, que serviu para homenagear, de acordo com a temática da “Semana”, Mulheres de singular projeção nas atividades culturais, jurídicas, políticas e sociais.

Rosane T. Jahnke Vailatti, brasileira de Santa Catarina, ex-Diretora Internacional e primeira Mulher a se candidatar à Presidência Internacional do Lions, veio especialmente de Nova Iorque para receber a comenda “JK – Cultura, Desenvolvimento e Civismo”, conferida pela Academia Mineira de Leonismo. Discursou em nome de todas as personagens femininas agraciadas na cerimônia com o troféu “Lions – Solidariedade Social”. As homenageadas com o referido troféu foram Andréia Aparecida Silva Donadon leal, escritora; Ângela Maria Pace Silva de Assis, empresária e ex-Secretária de Estado; Ângela Togeiro Ferreira, escritora; Cely Maria Vilhena Falabella, escritora; Cláudia Brenke Diniz Vieira, dirigente de organizações sociais; Cleube de Freitas Pereira, desembargadora, vice-presidente do TRT; Consuelo Oliveira Schettini, coordenadora de ações sociais; Deli Maria Bianchetti dos Santos, dirigente de trabalhos sociais; Deoclécia Amorelli Dias, primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente num Tribunal em Minas; Emília Facchini, desembargadora, Vice-Presidente do TRT de Minas; Geny Gomes de Abreu Labanca, líder comunitária de Aglomerado; Helena Jobim, escritora; Hérica Soraya Albano Teixeira, médica, com trabalhos sociais;  Íris de Avelar Paiva, mentora de ações assistenciais; Ivana Eva Novais de Souza, dirigente de creche; Luzia Maria Ferreira, deputada estadual, primeira mulher a presidir a Câmara Municipal de Belo Horizonte; Macaé Evaristo, Secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte; Maria Aparecida Neves Thibau (Cecy Thibau), militante de instituições culturais e humanitárias; Maria Conceição A. Parreiras Abritta, presidente da Academia Feminina Mineira de Letras; Maria de Fátima da Silva Sanson, militante de organizações humanitárias; Maria de Nazareth G.Teixeira da Costa, dirigente de organizações sociais; Maria Edite Pereira Lopes (Didi), Secretária de Assistência Social em Pompeu; Maria José Lage Ottoni, dirigente de ongs voltadas para atividades sociais; Marisa Nogueira Souto Camargos, coordenadora de ações sociais; Maria Norma Moraes Silva, médica, com atuação em obras humanitárias; Rita Jardim Carnevalli, coordenadora da Pastoral da Criança na Arquidiocese de Belo Horizonte; Rosa do Menino de Jesus, dirigente comunitária; e Vera Lúcia Bernardo Teixeira, coordenadora de grupos sociais.

A governadora do Lions, Vilma Raid Fernandes, primeira mulher a exercer o cargo em Minas, explicou o sentido da celebração no discurso de abertura da festividade. Quem também discursou, enaltecendo a promoção, foi o presidente do Conselho de Governadores do Lions, Fábio de Oliveira. Coube a este escriba, como presidente da Comissão Organizadora, também discursar. O pronunciamento será publicado neste espaço na edição vindoura do jornal.

A parte artística da cerimônia, que contou como Mestres de Cerimônia com o jornalista Neymar Fernandes e a presidente do Sindicato dos Artistas de Minas, Magdalena Rodrigues, ficou entregue à magnífica Companhia de Danças do Sesiminas, dirigida pela consagrada coreógrafa Cristina Helena, e do excelente Coral da Assembléia Legislativa , regido pelo maestro Rodrigo Garcia.

Em tudo por tudo, a celebração encaixou-se nos anais do Lions como um momento de esplendor cívico e cultural, com realce para a expressiva homenagem, circundada de afeto, reconhecimento e gratidão, prestada pela instituição a conjunto valoroso de figuras femininas engajadas na construção de um mundo melhor.




Eco e Voz


“Deixei de ser eco. Passei a ser voz!”
(Elza Tamesi)

Este o pronunciamento que fiz, após as saudações protocolares, na celebração do “Dia Mundial do Serviço Leonistico” (8 de outubro), promovida pelo Distrito LC-4 e Academia Mineira de Leonismo, com o apoio da Assembléia Legislativa de Minas e do Sistema Fiemg.

“Saudamos Rosane Terezinha Jahnke Vailatti, tocados pela expectativa e esperança de vê-la galgar, em breve, na condição de primeira mulher a fazê-lo, o topo diretivo da maior organização de serviços do mundo. Recebemo-la aqui, caríssima Rosane, neste amorável encontro de confraternização, juntamente com as outras valorosas homenageadas e com nossa primeira governadora, Vilma, como um símbolo da Mulher deste século 21. Um ser humano na plenitude de suas prerrogativas, que soube sobrepujar penosos obstáculos em sua trajetória emancipacionista, erguidos por milenares despropósitos masculinizantes, nascidos de processos culturais despojados de humanismo e espiritualidade. Valho-me também da ocasião para registrar, com o mais intenso regozijo, o anúncio ontem feito da concessão do Premio Nobel da Paz deste ano, que contemplou três Mulheres valorosas. Da Libéria e do Iêmen, países um tanto quanto esquecidos do resto do mundo.


Minhas Senhoras e meus Senhores,
“Tirante a mulher, o resto é paisagem”. (Dante Milano, poeta)

A dolorida história da emancipação e promoção da mulher simboliza, melhor do que qualquer outro esforço humano de ascensão política, cultural, social, econômica, a história por inteiro das lutas pela conquista dos direitos da cidadania.
Nos óbices defrontados nessas lutas heróicas estão contundentemente inseridos abjetos preconceitos, aviltantes discriminações, asfixiantes camisas-de-força, dogmas esclerosados, presentes, a todo momento, na convivência humana. Frutos malsãos do obscurantismo, do machismo castrador, da insensibilidade para se compreender o sentimento do mundo, o sentido cósmico da vida.

Não é difícil detectar, em instantes de trevas, decretadas pelo preconceito e pela discriminação, que a mulher é invariavelmente penalizada em dobro, em relação ao homem. O racismo a alveja por ser negra, por ser cigana, por ser índia, por ser judia, ou por não ser negra, nem cigana, nem índia, nem judia, e por ser mulher. Ela paga o pato, por assim dizer, por pertencer à etnia errada, em lugares ou momentos errados, na concepção do radicalismo dominante em determinado cenário, e por ser mulher. Por pertencer à religião enjeitada, nas mesmas circunstâncias de ambiente e época, e por ser mulher. Assim por diante.

Comecinho da década de 50, uma cidade do Interior de Minas

Cena da infância, recolhida nas ladeiras da memória. Vejo desenhado ali o perfil da primeira líder feminista que provavelmente conheci. Uma moça de seus trinta anos, dona de semblante extremamente simpático e de corpo bem proporcionado. Trescalava obstinação pelos poros. Revejo-a descendo a ladeira que dava num campo de futebol improvisado, onde a molecada tocava suas peladas movidas a bola de pano, brigas inofensivas e um que outro palavrão ingênuo, às vezes punido com chinelada. A sensação passada era de que Verlaine teria descoberto naquele gracioso desfile vespertino - um gingado coreograficamente impecável - inspiração para seus versos: “Quando ela anda, eu diria que ela dança” (“Quand’elle marche, on dirait qu’elle dance”). Pontualidade, um atributo todinho seu. Podia-se acertar relógio à sua passagem. Naquele justo momento as janelas se fechavam estrepitosamente, em sinal de zanga malcontida. Olhares e murmurações recriminatórios acompanhavam-lhe a trajetória graciosa por detrás das venezianas, até que escapulisse por completo no raio de visão do falso puritanismo entocaiado. Tudo compunha clima de excitante e novelesco mistério. Mistério que aguçava demais da conta a cabeça da gente. Por que as coisas corriam daquela maneira? O que a nossa heroína andava aprontando?

Prepare-se a benevolente platéia para um baita impacto. A nossa personagem, apenas e simplesmente, foi a Mulher que primeiro ousou, naquela aprazível cidade do interior, a desfazer os laços indissolúveis e sagrados do casamento, por meio de proposta de ação de desquite, com um cidadão considerado de reputação ilibada no meio comunitário, ao se ver alvejada constantemente por atos de violência doméstica e pelo comportamento adúltero do parceiro. Ousou mais – “imaginem só o descaramento!” – foi a primeira mulher a desafiar a moral e os bons costumes da sociedade, ao sair vestida de calça comprida nas ruas. E o que é “pior”: às vezes, Santo Deus, fumava em público! Tais lembranças, até certo ponto hilárias, de simbólico surrealismo, chegam a propósito da temática que nos reúne neste amorável encontro de reflexão e confraternização.

Setembro de 2011, sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque

Pela primeira vez na historia da ONU, a Assembléia Geral das Nações Unidas é solenemente aberta com a fala de uma Mulher. Uma brasileira, a Presidenta Dilma Rousseff, Mulher torturada no cárcere, pelo terrorismo de Estado num instante trevoso da história, reconhece, sensatamente, que o Brasil, como os demais paises, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher, confessando-se orgulhosa de representar, naquele instante, todas as mulheres do mundo. As anônimas que passam fome, as que padecem de doenças, as que sofrem violência e são discriminadas, por exploração econômica, pelo farisaísmo encapuzado, por fanatismo religioso, em diferentes latitudes geográficas e culturais do planeta.

São significativos, é bem verdade, em nosso País sobretudo depois da Constituição Cidadã de 88, os avanços conquistas constatados no desenvolvimento pessoal da Mulher. A trajetória de vida de nossas homenageadas oferece, aliás, relato auspicioso dessas conquistas. Mas existe, ainda, forçoso reconhecer, um oceano inteiro de problemas a ser navegado na busca das soluções mais compatíveis, neste capitulo da aventura humana, com a dignidade das criaturas. De qualquer forma há que se celebrar a utilização, cada dia mais acentuada, do real potencial humano criador do antigamente e impropriamente chamado sexo frágil. Considerada por Heidegger, autêntica “clareira do ser”, a Mulher vem assumindo gloriosamente a palavra, como propõe Elza Tamesi ao apontar o rumo a ser seguido: “Fiz um salto na vida. Deixei de ser eco e passei a ser voz!”

E, por derradeiro, como fruto de inquietação do espírito – consciente de que o espírito humano é que nem o páraquedas: só funciona aberto, como lembra Louis Pauwells  -; e, por derradeiro, repito, trago aqui à reflexão, por parte dos que trabalham incansavelmente em favor da construção de um mundo melhor, mas também dos que, por ignorância ou  miopia social, perseveram na pratica de atos que empobrecem e aviltam a dignidade feminina, uma singela interrogação.

Interrogação que pode parecer um tanto quanto  instigante. E se, de repente, no dia do Juízo final, na hora crucial e decisiva da prestação de contas dos atos praticados em nossa peregrinação pela pátria dos homens, cara a cara com a Suprema Divindade, carregando bem nítida a imagem que do Criador de todas as coisas conservamos em razão de amadurecidas convicções religiosas pessoais, e se nessa hora precisa, a gente descobrir, embargados pela emoção, muitos até tomados de santa estupefação, que Deus é mulher?
E negra?
“Negra – evocando belíssimo poema de Langston Hughes, decorado na adolescência distante -, negra  como a noite é negra.
Negra como as profundezas d’África.”     Palavra de Leão!”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Atentado à dignidade humana

Cesar Vanucci *


“Um crime contra a humanidade!”
(Presidente Álvaro Colom, presidente da Guatemala)

Colho num canto de página de jornal, um desses espaços reservados para o despejo de calhaus, como se diz no jargão jornalístico, informação estarrecedora. Apoquenta-me bastante a forma indesculpavelmente “discreta” adotada pela mídia para divulgá-la. Os feitos narrados tiveram impactos extremamente perversos na vida de inocentes de comunidades comprovadamente desprotegidas. Gente arrolada, pela arrogância e prepotência dos “senhores do mundo”, como cidadãos de terceira classe. Alvejados impiedosamente em sua dignidade humana.

Mas de que notícia se está mesmo a falar? Desta aqui: Comissão especial constituída pelo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou a chocante conclusão de que pelo menos 83 cidadãos foram mortos em experiências médicas secretas, promovidas por órgãos governamentais norte-americanos na Guatemala. Aconteceu na década de 40. O relatório a respeito explica que, aproximadamente, 5.500 guatemaltecos foram submetidos a exames e, desses, um total de 1.300 acabaram sendo infectados deliberadamente com doenças venéreas no curso de um programa de cunho alegadamente “cientifico”, elaborado e coordenado pelo “National Institute of Health”, agência vinculada ao Departamento de Saúde estadunidense.

O programa teve desdobramentos entre os anos 1946 e 1948. Os “pesquisadores” norte-americanos, chefiados por um “cientista” de nome John Cutler, usaram cobaias humanas, vários deles portadores de doenças mentais, para apurar se a penicilina, recém descoberta, poderia ser empregada na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. A ação “científica” consistia na inoculação de bactérias de blenorragia e sífilis nos elementos “selecionados”, na maioria, prostitutas. As “cobaias” foram estimuladas a manter relações sexuais com soldados, detentos, doentes mentais, por ai. Os “pesquisadores” acompanharam cuidadosamente a “evolução” dos experimentos, com vistas a compor um alentado acervo de “informações úteis” que pudessem vir a orientar ações terapêuticas futuras em ambientes sociais “mais refinados”, povoados obviamente por cidadãos de primeira classe.

O Presidente Obama, dias atrás, apresentou um pedido formal de desculpas ao Presidente da Guatemala, Álvaro Colom. Este, por sua vez, depois de classificar o apavorante incidente de “crime contra a humanidade”, ordenou fosse feita por cientistas guatemaltecos uma outra investigação.

Fica difícil, pacas, entender o comportamento indiferente, distante, da mídia com relação a assunto tão sério. A desnorteante história lança, também, no ar uma pergunta repleta de sombrios pressentimentos: a experiência levada a cabo pelos “cientistas malucos” teria ficado adstrita única e exclusivamente ao território da Guatemala, ou acabou se estendendo também a outras paragens, igualmente desguarnecidas na época (só naquela época?), do vasto “quintal” latino-americano?





Crise econômica e política


“O problema tem componentes políticos fortes.”
(Paul Krugman, Nobel de Economia, sobre a crise estadunidense)

Muitos consideraram inusitada a afirmação da Presidenta Dilma Rousseff classificando o rebaixamento da avaliação de risco dos Estados Unidos da categoria AAA para AA+ de “precipitado e incorreto”. O rebaixamento em questão, feito pela agência de risco “Standard & Poor’s”, equivale a dizer que o país, em termos financeiros, deixou de ser 100% confiável.

Mas Dilma não está sozinha nesse posicionamento crítico ao diagnóstico da agência. O Presidente Barack Obama, como é compreensível imaginar, foi o primeiro a rebater a reclassificação. “Nós sempre fomos e sempre seremos uma Nação AAA. Apesar de todas as crises, temos as melhores universidades, as melhores empresas e os mais inventivos empreendedores”, jactou-se. E não sem poderosos motivos, forçoso reconhecer.

As agências de risco, para muitos uma excrescência criada com intuitos sombrios a serviço da mega-especulação, costumam cometer equívocos terríveis. O Brasil que o diga. Essa aí mesmo, a “Standard & Poor’s”, ostenta em seu currículo, seguramente sem qualquer laivo de orgulho, a anotação de haver contribuído, de forma enfática, para a turbulência financeira que estremeceu o mundo a partir de 2006, com a assim denominada “crise da subprime”. Essa crise, como se recorda, produzindo reações em cadeia em diversas partes do planeta, lançou os Estados Unidos nos braços da recessão. A recessão se fez mais aguda nesse país com as ameaças de concordata, em 2008, de 274 poderosas instituições financeiras. Todas tiveram que ser socorridas pelo Tesouro, em controvertido processo de ajuda, de modo a conseguirem sobreviver. O “valioso contributo” da mencionada agência à formação da bolha que resultou na quebradeira generalizada consistiu no respaldo proporcionado a organizações que se achavam à beira do colapso total. A essas organizações, a agência não titubeou, na véspera da hecatombe, em atribuir, irresponsavelmente, notas de risco generosas.

Da mesma certeza externada pela nossa Presidenta quanto à inconveniência da reclassificação de risco do EUA partilham outros governantes e figuras exponenciais do mundo das finanças. Paul Krugman, detentor de um Prêmio Nobel de Economia, faz parte do time dos que condenam a atitude da agência. Crítico constante da política econômica de Obama, não deixa por menos: chama a “Standard” de “cara de pau”. Vai mais longe. Sustenta que o problema de seu país, neste momento, não se confina apenas ao jogo financeiro. É um embate declaradamente político. “Nossos problemas – assegura – são causados por um único lado. Mais especificamente pela ascensão de uma direita extremista que prefere criar crises a ceder um único centímetro em suas exigências.”

O que Krugman – volte-se a registrar, crítico veemente da ação política de Barack Obama – tenta passar é a idéia de que o problema que ora atormenta a maior economia do mundo tem componentes políticos fortes. Não se reveste das proporções que se lhe estão sendo dadas.

No Brasil, os ex-Ministros Delfim Neto e Luiz Carlos Bresser, entre outros personagens de destaque na vida econômica, estão também persuadidos de que a decisão da agência revelou-se errônea.

E como fica, afinal de contas, nessa encrenca toda, em cenário tão conturbado, a situação brasileira? É pergunta que se ouve com constância. “O Brasil está hoje mais bem preparado do que no passado para suportar um agravamento da crise mundial” – afiança o Ministro da Fazenda Guido Mantega.

Ele está com a razão.  Falaremos disso na sequência.




ËËËËËËËËËË




POEMA DO ACADÊMICO UBIRAJARA FRANCO

Recebemos, com satisfação, esta colaboração do Acadêmico Ubirajara Franco, da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Poema extraído do livro de sua autoria “O Grito da Terra”:


O CANTO DO UIRAPURU


De repente era um lamento...

Dentro da mata gigante,
como também no deserto,
qualquer barulho incerto,
é enredado pelo vento...

Da velha árvore imponente,
pela cruel serra abatida,
era o clamor inocente
de uma triste despedida.

De estalo em estalo tombando,
num triste adeus à floresta,
a silhueta  de seus galhos
eram mãos postas rezando.  

Os pássaros assustados,
seus ninhos abandonados,
partiam todos gritando...
E também a bicharada,
fugia em debandada,
a todos atropelando!...

E aquela virgem floresta,
que ficava bem à beira
do grande Rio Madeira,
viu quando o IRAPURU
-  pássaro sagrado  -
diante dessa malvadez,
partiu, voando de vez...

E aquela parte da mata,
ficou vazia de animais,
de pássaros e de aves,
que foram pra nunca mais...

E o que das árvores resta,
já não se chama floresta.
Quase todo santo dia,
por maldade, por ambição,
alguma daquelas velhas árvores
é morta sem compaixão!

Nunca mais do lobo o uivar,
naquelas noites de lua,
ou da pantera o rosnar,
que sua força acentua...
Não mais o tamanduá  as formigas devorando;
não mais fétido gambá,
seu predador espantando...
Também falantes araras,
enfeitando o azul do céu,
e o bando de capivaras,
nadando no brejo ao léu...
Ou o lamento do sofrê, o grito do gavião;
os arrulhos das juritis, o assobio do azulão.
Não mais aquela mina, a escorregar cristalina,
e também a cachoeira,
colorindo a mata inteira!...

E naquele santuário, fez-se pista clandestina,
onde pousam aviões, transportando  cocaína!
E o canto do UIRAPURU,
desde então entristeceu,
e, cada vez, mais baixinho,
EM SEU PEITO EMUDECEU...

 
                               

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

C O N V I T E

DIA MUNDIAL DO SERVIÇO LEONISTICO

Dia 8 (oito) de outubro, sábado, 9h30m (nove horas e trinta minutos), no Auditório JK na Cidade Administrativa, homenagem da Governadoria, Clubes e Academia Mineira de Leonismo, do Distrito LC-4, a Mulheres de destaque na sociedade mineira.
Os frequentadores deste Blog são convidados a participar.

 *****************




Outros infortúnios à vista


Cesar Vanucci *

“O mundo árabe continua em um estado fluido,
no qual mesmo imprevistos de menor porte podem ter desdobramentos imprevisíveis e incontroláveis.”
(Antônio Luiz M. C. Costa, jornalista)


As coisas lá pras bandas árabes continuam danadas de confusas. Não poucos observadores dos acontecimentos registrados nas convulsionadas paragens se acham apoderados de dúvidas e temores com relação a eventuais desvios de rumo no percurso da assim chamada “primavera árabe”, um movimento popular acolhido com enormes esperança e simpatia.

O sintomático emudecimento das agências noticiosas sobre o que passou a rolar no Egito, no Iêmen, Tunísia, Jordânia, Bahrein, até certo ponto, também, Síria, depois das passeatas e comícios que sacudiram as ruas, na maior parte dos casos, reprimidos com ferocidade pelas forças de segurança, deixa um bocado de gente com a pulga atrás da orelha.

As confabulações em torno da implantação de regras democráticas no jogo político avançaram? A livre expressão de idéias vem sendo garantida nesses territórios? As vozes de todos os grupos étnicos e de todas as correntes políticas e religiosas vêm se fazendo ouvir em aglomerações públicas, nos recintos fechados ou ao ar livre? Foram efetivamente banidas do pedaço as restrições, as censuras, as penalizações severas aos que assumam posições divergentes das versões dos fatos trazidas ao conhecimento público pelos detentores do poder? São perguntas que cruzam os ares à cata de respostas em meio a uma enxurrada de procederes contraditórios detectados em reações assumidas por protagonistas de dentro e de fora dos preocupantes eventos. Das armações engendradas nas estratégias das grandes potências, interessadas em não perderem o poder de influência na região, não importa as facções que se apossem do timão político, já temos dado algumas informações aqui neste espaço. Seria oportuno falar, agora, então, dos grupos que estão preenchendo os vazios de comando criados com a retirada de cena dos déspotas destronados. O caso, por exemplo, de Muamar Kaddafi, também conhecido por conta da truculência bárbara e extravagâncias administrativas por “cachorro louco”. O chefe do governo provisório instalado na Líbia ainda parcialmente conturbada, Mustafá Abdul Jalil, ex-ministro do tirano deposto, numa das primeiras decisões, já deixou evidenciada a linha retrograda, de puro maniqueísmo fundamentalista, que seu governo cogita implantar nos domínios recém conquistados. Articulado, percebe-se logo, com religiosos radicais, anunciou, pra estupefação geral, que a “sharia”, ou seja, uma abusiva interpretação da lei islâmica, constituirá o novo fundamento jurídico do Estado libio. Pelo édito lançado, prevalecerão no país, para mulheres, as mesmas regras repulsivas vigorantes na assustadora rotina mundana da Arábia Saudita e Afeganistão, para só falar de dois países imersos em concepção feudalica medieval, dominados por fanáticos religiosos. Na coibição de crimes contra o patrimônio e os bons costumes, se apelará também para “castigos exemplares”, sob forma de apedrejamento e amputação. Que a misericórdia de Alá se compadeça da sofrida população líbia, protegendo-a dessa nova onda de insânias e infortúnios à vista!



Fala de estadista


“O desemprego golpeia as famílias,
tira a esperança e deixa a violência e a dor.”
(Dilma Rousseff, Presidenta da República)

Indoutrodia definiram-na como uma das personagens femininas mais representativas do mundo contemporâneo. Após a fala de Dilma, a primeira de uma mulher na abertura oficial da Assembléia Geral das Nações Unidas, a admiração universal pela conduta da Presidenta brasileira só fez, com toda certeza, crescer.

Pronunciamento de estadista. Sob numerosos aspectos, de conteúdo nitidamente superior ao de outros mandatários brasileiros convocados, como reza a tradição desde a criação da ONU, a proferirem anualmente a alocução inaugural nas assembléias gerais da instituição. Contundente, sem se afastar do toque diplomático ajustável às circunstâncias, o discurso da Presidenta confere realce, com clareza e objetividade, a itens candentes de nossa realidade política, social e econômica. Entre os pontos enfocados, ao jeito de uma bronca mais do que compreensível, como reconheceram qualificados observadores, Dilma Rousseff cobrou enfaticamente das grandes potências uma solução coletiva para a crise mundial. Lembrou que “essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países”. Propôs, então, debaixo de aplausos, “um novo tipo de cooperação, entre países emergentes” – caso do Brasil e demais integrantes dos chamados BRICs – “e países desenvolvidos”. Uma proposta interpretada naturalmente, pelas lideranças mais lúcidas da opinião pública mundial, como esplêndida “oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais”, como acentuado na vibrante fala.

Interrompida repetidas vezes pelas manifestações calorosas da platéia, Dilma deixou registrado não ser por falta de recursos financeiros que os líderes das grandes potências ainda não souberam encontrar soluções para os problemas que angustiam a humanidade. Explicou, com precisão, o motivo das coisas não funcionarem a contento: “É, permita-me dizer, por falta de recursos políticos e de clareza de idéias.” Reportando-se ao aflitivo problema do desemprego, lembrou que “enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise, o desemprego, se amplia.” Trata-se de drama – pontuou – que “golpeia as famílias, tira a esperança e deixa a violência e a dor.”

Defendendo a presença permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, a chefe do governo brasileiro assinalou que a legitimidade do órgão se subordina, cada dia mais, à necessidade de sua reformulação. Um debate, afinal de contas, que já se espicha por décadas e que, no ver da comunidade internacional, não pode ser protelado indefinidamente. Louvando o ingresso do Sudão do Sul como novo integrante das Nações Unidas, lastimou, com toda razão, não poder, naquela mesma hora, saudar também a chegada à ONU da Palestina, com o desfrute em plenitude dos direitos de um Estado soberano associado.

Recebeu verdadeira ovação ao dizer estas palavras: “Assim como a maioria dos países nesta Assembléia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.” Acrescentou, com firmeza e sensatez: “Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender os legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional.” Nada mais exato, convenhamos, na análise da problemática da turbulenta região.

Os Direitos Humanos, tão vilipendiados em tantas partes deste planeta, mereceram também de Dilma, no histórico discurso, um registro significativo. Ela expressou veemente repudio às repressões brutais que vitimam populações civis, sublinhando, com amargura, que o mundo vê-se às voltas, hoje, com as pungentes consequências de intervenções que só se aprestam a agravar os conflitos, além de possibilitar “a infiltração do terrorismo onde ele não existia.” Disso advêm novos ciclos de violência, com a multiplicação assustadora de vítimas civis.



Declarações memoráveis


“O desarmamento nuclear é fundamental para a
segurança pilar do Tratado de não Proliferação.”
(Presidenta Dilma Rousseff)

A fala incisiva da Presidenta Rousseff, acolhida com manifesta simpatia pelos representantes dos países presentes à sessão inaugural da Assembléia Geral da ONU, contemplou vários outros temas palpitantes, além dos focalizados em nosso último artigo. O papel da mulher no mundo contemporâneo, assunto por ela tratado com ênfase na campanha eleitoral passada, em meio a borrascas de incompreensões ditadas por uma mídia hostil e por adversários raivosos, ocupou largo espaço no aplaudido pronunciamento.

Dilma reportou-se a atuação fundamental das mulheres brasileiras na superação das desigualdades sociais. Lembrou que “nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central”, por serem elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos. Reconheceu sensatamente que o Brasil, como os demais países, “ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher”. Confessou-se orgulhosa de representar, além das mulheres brasileiras, “todas as mulheres do mundo: as anônimas que passam fome, aquelas que padecem de doenças, as que sofrem violência e são discriminadas, aquelas cujo trabalho no lar cria gerações futuras.” No arremate dessa edificante linha de considerações, registrou: “Junto minha voz à voz das mulheres que ousaram lutar e participar da vida profissional e política e conquistaram espaço de poder.”

O momento do discurso que parece haver provocado o mais forte impacto emocional na atenta platéia foi aquele em que Dilma Rousseff, assegurando que o governo brasileiro irá, até o final de sua gestão, erradicar a pobreza extrema, asseverou que a melhor política de desenvolvimento “é o combate à pobreza”, convidando todos os países a participarem da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável programada, em 2012, para o Rio de Janeiro.

Logo na sequência, a voz compreensivelmente embargada, fez questão de reafirmar as crenças humanísticas que constituem seu ideal de vida: “Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da Democracia, da Justiça, dos Direitos Humanos e da Liberdade. É com esperança de que esses valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra e iniciar o debate desta Assembléia.”

Horas depois do histórico discurso proferido na abertura solene da Assembléia Geral, a Presidenta Dilma Rousseff reocupou as atenções dos representantes dos países membros da ONU com outro memorável pronunciamento em que conclamou o mundo a abolir as armas nucleares. As agências noticiosas classificaram a declaração como a mais peremptória já ouvida na ONU, por parte de um chefe de Estado, sobre o sempre momentoso tema, debatido com extrema hipocrisia, como é notório, pelas grandes potências. “O desarmamento nuclear é fundamental para a segurança pilar do Tratado de não Proliferação, cuja observância as potências nucleares devem ao mundo”, afirmou.

Disse mais: “A segurança desse acervo militar nuclear merece tanta consideração quanto a dos materiais utilizados para fins pacíficos. Seria, sem dúvida, necessário para fins de segurança fiscalizar ambos. É imperativo ter no horizonte previsível a eliminação completa e irreversível das armas nucleares. A ONU deve preocupar-se com isso.”

Outra fala da Presidenta, sem sombra de dúvida, memorável.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)



sábado, 24 de setembro de 2011

Só mesmo Nonô!

Cesar Vanucci *

“Mestra Julia me deu (...) o dom de oferecer
sem orgulho e de receber com humildade.”
(Juscelino Kubitschek de Oliveira)


Focalizando em comentário recente a excepcional performance governamental do Presidente Lula, aludimos ao extraordinário trabalho executado, no século passado, por um outro Presidente que deixou marcas indeléveis na crônica política brasileira. Ele mesmo, JK. Fomos interpelados, na sequência, por universitária nascida nos anos 80, admiradora confessa de Lula, que demonstrou interesse em conhecer alguma coisa a mais sobre o construtor de Brasília, nascido em 12 de setembro de 1902 e falecido em circunstâncias trágicas, em 22 de agosto de 1976.

Com o propósito de satisfazer a curiosidade da pessoa mencionada, confiados ainda que entre os benevolentes leitores muitos possam também se interessar por informações concernentes a Juscelino, resolvemos a partir de hoje contar neste espaço histórias de Nonô, o mineiro de Diamantina. Um governante que, tal qual Lula, soube entrelaçar o espírito desenvolvimentista, o sentimento de brasilidade e a sensibilidade social nas metas de trabalho. Um cidadão que, por causa disso mesmo, como se repetiria depois com Lula, enfrentou borrascas de incompreensões urdidas por adversários raiventos, inconformados com sua liderança carismática.

“Só mesmo Nonô para fazer tudo isso!” A sugestiva frase foi dita por Dona Júlia Kubitschek, mãe de Juscelino, ao contemplar Brasília de uma janela do Alvorada. É citada em “JK, o Artista do Impossível”, livro de Cláudio Bojunga. Um esplêndido documentário da vida e obra do grande estadista, onde colhemos várias informações que permeiam estes comentários.

Olhando Brasília, não temos como não reverenciar, em clima de exultação cívica, o personagem mais fascinante da História brasileira do século XX. Natural de Diamantina, JK conquistou lugar de realce entre os estadistas que deixaram impressa sua marca na construção de um mundo melhor.

Diamantina, região mineradora, é um monumento barroco de extraordinária beleza. Um centro de efervescente cultura, genuinamente brasileira. Num ensaio magistral sobre a formação do povo mineiro, Paulo Pinheiro Chagas lembra que a mineração foi um desdobramento natural das bandeiras. E que a cultura dominante nas zonas mineradoras apontou sempre na direção da democracia e da indústria. O autor comprova o acerto da tese nos exemplos de insubmissão cívica de Felipe dos Santos, Tiradentes e Teófilo Otoni que sonharam com uma política de industrialização para o país. É legítimo extrair-se desse encadeamento de conceitos que Juscelino, “provindo da região das lavras, se formou ao calor dessas tradições. Ouviu, no recolhimento dos serões domésticos, a história dramática do nosso destino. Desse modo, o natal de sua imaginação haveria de impregnar-se de elementos definitivos”, como registra Pinheiro Chagas.

Em atmosfera cultural tão propícia, os dons naturais do futuro líder afloraram com impetuosidade. Sua inquietação cívica, sentimento de nacionalidade e visão transcendente da vida ganharam constantes estímulos e força. Assim modelou-se sua personalidade, rica em virtudes humanísticas. O ambiente familiar influiu poderosamente na formação do caráter de JK. Ele mal conheceu o pai, falecido quando não havia ainda chegado aos três anos de idade. Seu tio-avô, João Nepomuceno, atuou na política e se fez também conhecido pelos pendores literários. Dona Júlia, professora, era carinhosamente chamada pelo filho de “anjo protetor”. Seu enorme carinho pela mãe retrata-se nestas palavras: “Mestra Júlia me deu o bem da vida (...) o dom do exemplo, o de madrugar e o de trabalhar; o de persistir no esforço e na dignidade sem esperar compreensão e tolerância; o de oferecer sem orgulho e o de receber com humildade; o de amar a justiça e exaltar a coragem.” Era também afeiçoado à irmã, Maria da Conceição, Naná, figura de exponencial importância em sua preparação para a vida. Na esposa, Sara, companheira dos bons e dos maus momentos, encontrou ajuda inestimável.

Juscelino frequentou o Seminário na terra natal. Aprendeu o gosto pela leitura. Experimentou, “por juvenil curiosidade”, como confessou, o alfabeto Morse. Substituía telegrafistas, a cinco tostões por hora, quando estes deixavam a tenda de trabalho para um cafezinho. Fez concurso e passou para telegrafista. Registrou, a propósito: “Batendo o Morse e o Baudot – ligeiro e certo, de meia noite às seis da manhã – ao longo de oito anos, pude oferecer à Mestra Júlia a minha vocação: o médico que decidira ser.”

José Maria Alkimin, amigo nas futuras andanças políticas, fazia parte da turma de telegrafistas. Em 1927, tendo como companheiros Odilon Bherens e Pedro Nava, JK colou grau como médico. Tornou-se sócio do cunhado, Júlio Soares, médico conceituado, de influência preponderante nos rumos assumidos em sua trajetória pública.

Depois de especialização profissional na Europa, veio a ser nomeado chefe do Serviço de Urologia da Polícia Militar, recebendo divisas de capitão. Chegaria, mais tarde, ao posto de coronel médico. Benedito Valadares nomeou-o chefe de gabinete, incluindo-o, em 1934, na chapa para deputado federal. Foi o mais votado entre os candidatos mineiros à Câmara dos Deputados. Alguns amigos figuraram também entre os eleitos: José Maria Alkimin, Pedro Aleixo, Negrão de Lima, Gabriel Passos, seu concunhado e, mais tarde, seu oponente ao governo de Minas.



Estilo juscelinista de administrar


“JK era alegre como uma janela aberta.”
(Paulo Pinheiro Chagas)


O golpe dado por Vargas em 10 de novembro abalou os “devaneios democráticos de Juscelino”, segundo o biógrafo Cláudio Bojunga. O Estado Novo era um regime híbrido, sem ideologia, acentuava ele.

Por volta de 1940, Valadares convocou Juscelino de volta à política. Convidou-o a ocupar a Prefeitura de BH. O convite foi a princípio recusado. JK escudou-se em sua notória aversão às ditaduras. Consta que Valadares, no afã de quebrar-lhe a resistência, garantiu que a redemocratização estava a caminho. Recebendo acerbas críticas por aceitar o cargo, Juscelino tomou posse. O Brasil começou a conhecer, a partir dali, arrojado empreendedor público, o mais criativo tocador de obras governamentais de sua história. Anunciando que ia administrar na rua, e não fechado no gabinete, ele promoveu, em curtíssimo tempo, verdadeira revolução urbana. Uma antecipação, em dimensões provincianas, do que viria a fazer mais tarde na vastidão territorial do Brasil. A audácia administrativa deixou os belorizontinos boquiabertos. Eles estavam habituados a ritmos menos trepidantes na esfera do serviço público. O primeiro trator empregado em obra urbana levou às ruas milhares de curiosos. Juscelino revolveu a fisionomia arquitetônica de Belô. Num lance administrativo ousado para a época, criou a Pampulha. Introduziu nessa parte da Capital referenciais arquitetônicos de vanguarda, nascidos de suas agudas percepções e de sua vocação conquistadora do futuro. E, também, dos traços geniais, carregados de beleza, de Oscar Niemeyer. O arquiteto, que se tornaria mundialmente famoso, iria acompanhá-lo, anos afora, em outras viagens grandiosas pelos caminhos do desbravamento territorial e da integração cultural. Em um ano, a área pavimentada urbana já equivalia a mais de 1/3 de todo o calçamento feito desde a inauguração da Capital.

A ação indormida, fecunda em frutos, do revolucionário Prefeito polarizou no Nonô, de Diamantina, as atenções dos mineiros de outras regiões. Após a queda da ditadura Vargas, candidato a deputado federal, Juscelino obteve a segunda maior votação em Belo Horizonte, superado apenas pelos votos dados a Getúlio, que mesmo afastado do poder conseguiu se eleger, nos termos da legislação eleitoral vigente, senador (por dois Estados) e deputado (por sete).

Em 1950, pregando democracia e anunciando hidrelétricas, industrialização, escolas, rodovias, incentivos à cultura e artes, ensino técnico, JK chegou ao Palácio da Liberdade. Sua campanha eletrizou o eleitorado. Cruzou os céus, num pequeno avião, descendo em todos os lugares que dispunham de campos de pouso. Houve dias em que participou, com sua palavra empolgante, de dez comícios. O binômio “Energia e Transportes” sacudiu o Estado. Virou marca do governo mais operoso da história. Acabou significando, como testemunha Pinheiro Chagas, “um provérbio das aspirações de Minas”. O mesmo historiador faz do JK governador instigante descrição: “Ele era alegre como uma janela aberta!” Uma historieta lapidar que dá a medida do “estilo juscelinista” de administrar. Tristão da Cunha, Secretário da Agricultura, solicitou autorização para a compra de 40 mil enxadas. Envolvendo-o num abraço, Juscelino pediu-lhe não o levasse a mal, mas do que gostaria mesmo era de poder assinar uma autorização para a compra de 40 mil tratores. Disse isso e explodiu numa ruidosa gargalhada, conta seu biógrafo Cláudio Bojunga.

A morte trágica de Getúlio, em agosto de 54, no desdobramento de uma crise político-militar de proporções, surpreendeu-o candidato à Presidência. JK contava com a simpatia de Getúlio, que já o havia apoiado na campanha em Minas. O governador mineiro acolheu o então Presidente com todas as honras e envolvente calor humano, na última viagem que fez antes do desfecho fatídico da crise que o retirou de cena. Juscelino foi o único governador presente no velório de Vargas.

Com destemor e altivez, JK venceu as virulentas resistências à sua candidatura. Adversários ardilosos se esmeravam em inçar-lhe de obstáculos difíceis o percurso em direção ao Catete. Lançavam mão de manobras as mais solertes e de casuísmos os mais despudorados. Nessa quadra da vida brasileira, agigantou-se aos olhos da Nação a figura do líder corajoso, a quem Deus despojara do sentimento do medo, conforme tantas vezes proclamou. As urnas consagraram-lhe o nome.


50 anos em 5



“Denunciei o FMI como um instrumento de retrocesso.”
(Juscelino Kubitschek de Oliveira)


Com habilidade, desassombro cívico, conduzindo-se exemplarmente dentro dos postulados da democracia, Juscelino superou as resistências e até mesmo complôs militares contra sua posse. Enfrentou de peito aberto os inimigos, venceu-os e perdoou-os, num gesto de magnanimidade que deixou estampada sua autoridade moral e grandeza d’alma.

Seu programa de metas, consubstanciado em um novo “provérbio”, entusiasticamente assimilado na consciência das ruas – “50 anos em 5” – conquistou mentes e corações. Aos 54 anos, ele colocava a serviço do Brasil e de sua gente uma imagem de energia, determinação e doação pessoal arrebatadora. Ao assumir o governo, nosso Produto Interno Bruto era de pouca expressão. Nossa renda “per capita” não passava de 230 dólares. Os avanços industriais eram considerados tímidos.


Rapidamente, as coisas começaram a mudar. Para melhor. A industrialização ganhou impulso notável. O sistema rodoviário foi consideravelmente ampliado. A capacidade de geração de energia quase duplicou. O asfalto rasgou, em nova versão do bandeirantismo, regiões potencialmente ricas, de rarefeita povoação. Surgiram novas refinarias. A implantação da indústria automobilística espalhou empregos e progresso por todos os lados. A produção de cimento, celulose, alumínio, álcalis, entre outros itens, expandiu. A indústria naval redimensionou a capacidade produtiva. O país ingressou na era da tecnologia de ponta. Conquistou mercados. Implantou indústrias de base. Não houve setor algum da produção nacional que não recebesse os estímulos da “varinha de condão”, propondo crescimento, emprego e progresso, acionada pelo Nonô, de Diamantina. O homem providencial fez o brasileiro acreditar no Brasil e ensinou o estrangeiro a encarar nosso país com admiração. Em meados do século XX, com metas ousadas, Juscelino preparou a entrada do país no futuro.

Febricitante conjunto de obras, espalhando progresso e criando riquezas, mostrava uma face entusiasmante da postura governamental. Mas, como se já não lhe bastasse esta condição inigualável de fazedor de obras Juscelino oferecia ainda, ao Brasil e ao mundo, outras facetas admiráveis como ser humano vocacionado. Assumiu inconteste liderança continental, ao desenvolver, precursoramente, um esquema de integração regional latino-americana através da Operação Pan-americana. Reagiu, com santa indignação e bravura cívica, às impertinentes exigências do Fundo Monetário Internacional.

“Decidi romper as negociações e denunciei o Fundo Monetário Internacional como um instrumento de retrocesso e do atraso internacional”, anotou nas memórias. Com carisma, palavra convincente e irradiante simpatia conquistou multidões. Era aclamado entre celebridades da cultura, da arte e do esporte, junto às lideranças operárias e empresariais, nas classes mais abastadas, na classe média e junto ao povão, como o governante “bossa nova”. O título carinhoso brotou da gratidão das ruas. O povo não ocultava o orgulho pela oportunidade que JK deu aos compatriotas de poderem exercitar sua cidadania e de exibir ao resto do mundo, em termos pujantes, sua identidade nacional.

Brasília, erguida do nada, foi meta-síntese. “Um monumento à vida”, dizia. Jamais o mundo viu coisa igual. Em pouco mais de três anos, o Planalto Central, grande “vazio demográfico” no país-continente, viu irromper das entranhas da terra, por força da obstinação e crenças do grande estadista, a Capital da Esperança. Brasília significou tudo isto: a grande marcha para o oeste. Uma invasão do futuro. Um instante precioso, inigualável, de integração nacional e interiorização do desenvolvimento.

Em que pese seu significado para o País, a implantação da Capital, prevista na Constituição e sonhada profeticamente por Dom Bosco, atiçou a ira de empedernidos adversários e provocou inacreditáveis e belicosas manifestações. Nesses núcleos inconformados, dominados por cega e doentia paixão, Brasília era apontada como uma ode ao desperdício, refletindo inconsequência administrativa.

De certa feita, em Nova Iorque, com o manifesto intuito de provocação, indagaram de Juscelino quais os motivos que o haviam levado a construir Brasília. Numa resposta estupenda, ele resumiu o sentido de sua missão: “Os mesmos motivos pelos quais vocês, americanos, estão construindo uma estrada para a Lua.”



JK, símbolo de muita coisa



“Sua aventura vital foi extraordinária.”
(Afonso Arinos, adversário político, descrevendo JK)


Na Presidência e, depois, na extenuante e dolorida jornada do exílio, Nonô estabeleceu ligações de convivência fraternal com personalidades mundiais de todos os continentes. Nas palestras para as quais era frequentemente convidado, em diferentes partes do mundo, reservava sempre uma palavra otimista à sua terra natal.

Converteu em amigos rancorosos inimigos. O caso mais famoso é o de Carlos Lacerda, que veio a ser seu companheiro na chamada “Frente Ampla”, uma tentativa das lideranças políticas de expressão, banidas do jogo político pela ditadura de 64, de devolverem o Brasil à democracia. Estas palavras, um retrato perfeito, sem retoque, de JK, pertencem a Lacerda: “Esse homem de paz era um combatente. Porque era um verdadeiro renovador, era também generoso. No horror à vingança, à mesquinharia, à mediocridade, fundou sua atitude diante da vida.”

JK recebeu, de certa feita, a visita de John Foster Dulles, Secretário de Estado americano, expoente da assim chamada “linha dura”. Tinha dificuldades para entender os latinos e direcionava obsessivamente suas ações para o combate, conforme fazia questão de sublinhar, ao “comunismo ateu”. Cláudio Bojunga conta como foi o encontro. Depois de bom tempo de conversação, Juscelino revelou a assessores que Dulles já havia proposto nove fórmulas, todas recusadas pelo Presidente brasileiro, para uma declaração conjunta. O norte-americano insistia num documento que utilizasse surrados jargões anticomunistas. Juscelino considerava as ponderações fora de propósito. O documento, insistia, deveria conter, essencialmente, um compromisso com o desenvolvimento e a prosperidade social. A nota final não incluiu as propostas do Secretário. JK reagiu ainda à arrogância de Dulles, que queria porque queria, assinar a declaração, mesmo sendo funcionário de escalão inferior, juntamente com o Presidente do Brasil. Isso não impediu Dulles de registrar, em depoimento público, que “o Presidente do Brasil trata o desenvolvimento com a fé dos místicos.”

Desfrutando de enorme simpatia popular, JK foi instado por lideranças influentes a promover uma reforma constitucional que lhe garantisse novo mandato presidencial. Desfez, de forma categórica, essa possibilidade. Deixou o governo aureolado pelo respeito e gratidão da Nação.

Sua eleição para futuro mandato era tida como líquida e certa. Os acontecimentos político-militares posteriores, com graves desdobramentos, retiraram o Brasil dos trilhos da democracia, mergulhando-o no regime de exceção. JK foi alvejado impiedosamente. Cassaram-lhe injustamente o mandato quando representava Goiás no Senado. O último discurso que proferiu, como parlamentar, é uma obra prima de afirmação democrática e de crença nos valores nacionais. Injuriaram-no, impuseram-lhe humilhações. Fizeram de um tudo para calar-lhe a voz, numa tentativa de diminuir a importância de seu incomparável papel no teatro da história. Tudo embalde. “De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos. Juscelino estará na memória das gerações porque sua aventura vital foi extraordinária.”  Palavras de um adversário em tempos idos, Afonso Arinos.

Sua morte, num acidente automobilístico, que suscitou questionamentos ainda não de todo esclarecidos, enlutou a Nação. O Brasil parou para o adeus ao Nonô de Diamantina, filho de Da. Júlia, político bom de voto e bom de obras. Foi um predestinado. “Deus pegou um século e pôs a maior parte dele no colo do Nonô de Diamantina”, registra, liricamente, o jornalista David  Nasser, no artigo em que se despede de Juscelino. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sintetiza, em depoimento, o pensamento da gente brasileira sobre o grande personagem: “Acho que o melhor presidente que o Brasil já teve foi Juscelino. Não acredito em quem não tem objetivos, não tem projetos, não sonha alto. Eu acredito em gente como Juscelino.” Lula fala por todos nós. O Presidente do sorriso franco e aberto deixou-nos, como herança, obras definitivas, exemplos vitais, idéias que não morrem, inspirações para as lutas em favor das transformações que a sociedade brasileira ardentemente almeja.

JK é, no sentimento das ruas, símbolo de muita coisa. Símbolo de progresso. De desenvolvimento. De empregos, justiça social, diálogo e concórdia. De intransigência na defesa da soberania nacional. De projetos arrojados na construção humana. De democracia interpretada como instrumento insubstituível nas ações econômicas e sociais. De insubmissão cívica e de nacionalismo autêntico. Por isso suas idéias são, ao mesmo tempo, a inspiração e o fanal de um Brasil que não aceita recessão nem desemprego; que repele a intromissão estrangeira em seus negócios internos; que exige fervoroso respeito no trato da coisa pública e que repudia as fórmulas discricionárias no exercício do poder.

Em suas memórias, uma cartilha de orientação cívica que deveria ser levada às salas de aula onde são preparadas as gerações futuras, JK deixa-nos lições de brasilidade: “Olhai para o mapa do Brasil. É o mapa de um país jovem, a preparar-se para assumir o papel de grande potência que lhe está reservado no mundo.”

Dona Júlia tinha razão ao dizer aquelas palavras: “Só mesmo o Nonô para fazer tudo isso!”

(E, por último, aos que se interessem conhecer a fundo a saga de Juscelino, recomendo com ênfase a magnífica obra de Cláudio Bojunga, “JK, o artista do impossível”).


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

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