sábado, 24 de abril de 2021

 

A partícula de Deus (II)

 

Cesar Vanucci

 

“A ousadia dos cientistas pode abrir

clareiras de conhecimento em terreno espinhoso.”

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

Recapitulemos os fatos. No começo do século, cientistas da mais elevada qualificação juntaram conhecimento, criatividade e esforços numa experiência extremamente arrojada, a mais fantástica já levada a termo na história da civilização. Conceberam e implantaram num túnel subterrâneo de 27 quilômetros, entre a França e a Suíça, um superacelerador de partículas, dotado de prodigiosa capacidade para cálculos, com o inimaginável objetivo de desvendar os enigmas do universo. “Temos uma máquina para dar respostas a tudo”, assegurou, apoderado de desnorteante euforia, com forte acento utópico, o Nobel de Física Carlos Rúbio, um dos idealizadores do projeto. A experiência ficou conhecida como a busca da “Partícula de Deus”.

Na época, este escriba alinhou, numa série de artigos, algumas considerações a respeito da audaciosa iniciativa. Vários anos transcorreram sem que alguma revelação extraordinária emergisse do experimento científico. Partindo desse ponto, sublinhando que a expectativa quanto aos resultados das ações científicas em questão persistirá até que surja alguma resposta retumbante concernente às pesquisas encetadas, iniciamos, no comentário anterior, a reprodução das considerações há bom tempo aqui estampadas, levando em conta a circunstância de que continuam oferecendo frescor de atualidade.

A narrativa foi interrompida à hora em que informamos que o empreendimento recebeu contestações em alguns círculos científicos. Os contestadores alegam que o terreno palmilhado é inteiramente desconhecido, por isso, imprevisível. A energia gerada pela ebulição do equipamento poderia produzir “mini-buracos negros”, aterrorizante campo gravitacional capaz de sugar instantaneamente toda a matéria viva existente no planeta, com repercussões danosas até mesmo no sistema solar inteiro. O vaticínio catastrófico é negado veementemente pelos partidários do projeto, entre os quais o astrofísico Stephen Hawking, por muita gente considerado a maior cabeça pensante da ciência contemporânea desde Einstein, em que pesem suas notórias dificuldades para se expressar.

A colisão dos prótons, no interior da LHC, à velocidade da luz, irá desencadear tremenda onda energética, fazendo surgir partículas nunca dantes observadas e que só teriam existido, a se por fé no que garantem os cientistas, no início da formação do universo. Os 600 milhões de impactos por segundo revelariam a partícula inaugural do processo da criação, que alguns se aventuram denominar de “partícula de Deus”.

Os cientistas empenhados com fervoroso entusiasmo nessa desafiadora e complexa empreitada dizem que a tecnologia humana está sendo esticada, nesta hora, ao limite extremo. Alimentam a esperança de arrancar resposta global a questões fundamentais.

Esperar pra ver, né? A aventura humana é composta muito mais de perguntas do que de respostas. As grandes descobertas, mesmo significando triunfo sobre o que o conhecimento consolidado põe transitoriamente na conta de impossível, desencadeiam sempre novas questões, um turbilhão de interrogações, concitando os cérebros bem-dotados a redobrados exercícios de curiosidade sobre o sentido das coisas. Imagino, sem entender – confesso mais uma vez – bulhufas de física, que os resultados do experimento imporão a continuidade das buscas. Atrás de respostas. De mais respostas. Sempre mais.

Cientistas famosos andam apregoando que suas avançadas pesquisas pelas enigmáticas veredas da física quântica vêm permitindo aproximação cada vez maior da chamada “partícula de Deus”. Gabam-se mesmo de já haver encontrado pistas intrigantes da localização do “bóson de Higgs”, estrutura supostamente responsável pelas interações na Natureza. No entendimento dos doutos, embora hipotético, um elemento provido de massa que teria aparecido logo após o também hipotético “Big Bang”, apontado por círculos científicos como a primeira de todas as coisas dentro da linha conceitual adotada pra explicar a Criação.

 

A Partícula de Deus (III)

 

Cesar Vanucci

 

“A peça que falta para o quebra-cabeças.”

(Fernando Werkhaizer, físico)

 

Com o texto a ser lido na sequência concluo as considerações que fiz a respeito da experiência científica intitulada “Busca da partícula de Deus”. Conforme explicado nos dois artigos anteriores, estas reflexões foram redigidas e divulgadas há muitos anos. A pesquisa dos sábios ainda está em curso, mas dos resultados nada chegou ainda ao conhecimento público que possa ser traduzido como resposta grandiosa compatível com os objetivos propostos. Permanece inalterada a exclamação esperar pra ver!

Tal partícula seria responsável pela composição dos átomos. Advém dessa circunstância a denominação que se lhe foi dada de “partícula de Deus”.

Passa bem ao largo das cogitações deste desajeitado escriba, com sua supina ignorância da temática cientifica, desdenhar ou mesmo contradizer diretamente os brilhantes físicos engajados nesse salutar propósito de descobrir, pelos atalhos das exaustivas investigações cientificas, explicações sobre como começou tudo quanto está posto aí. Mas que eu duvido possa esse bem-intencionado esforço desembocar, nos prazos estipulados, nas respostas tão desejadas pelo aluvião de interrogações nascidas da compreensível inquietação humana a respeito do princípio, sentido e destino da aventura da vida, ah, isso, eu duvido mesmo, sim senhores! Como se costumava dizer, noutros tempos, de forma bem descontraída em papos coloquiais, du-vi-de-o-do.

Tanto quanto o meu restrito entendimento leigo consegue alcançar dessa fascinante procura levada avante por alguns cérebros privilegiados, com o concurso de tecnologias assombrosas, o chamado “bóson de Higgs” seria assim como uma peça que estaria faltando pra fechar o quebra-cabeças da teoria do “Big-Bang”, ou seja da explosão nuclear que formou o Universo. Não passa, como já dito, de hipótese, sujeita ainda a comprovação, de acordo com a expectativa de eminentes sábios.

Os colisores de prótons, localizados em pontos estratégicos do mundo, empregados nessa busca infatigável já estariam, a esta altura, fornecendo indícios animadores (mais do que isso, talvez, convincentes) de que uma revelação concludente estaria prestes a ser anunciada. Mas, muitos cientistas, precavidamente, não descartam a possibilidade de que o processo possa não lograr atingir, por conta de fatores imponderáveis, os resultados ardentemente almejados. O modelo da investigação poderia ter sido composto com pressupostos equivocados. Se isso de fato, contrariando tantas esperanças, acontecer, ou seja, a descoberta da partícula não puder se consumar, outros caminhos haverão de ser, obviamente, desbravados pela ciência na tentativa de achar explicações consistentes para os mistérios que circundam a infinita vastidão cósmica.

Bem, e quanto às descrenças pessoais que, simploriamente, consciente do analfabetismo cientifico que carrego, entendi de externar quanto aos resultados das investigações em curso a respeito da “partícula de Deus”, no que, afinal de contas, se fundamentam? Em mera, pura e simples intuição. Nada mais do que isso. Seria rematado tolo não reconhecesse na ciência um excepcional instrumento de procura da verdade. Uma força poderosíssima em condições de movimentar ideias e ações que se entrelaçam com o futuro e o destino da humanidade. Mas, nada obstante os extraordinários feitos e conquistas proporcionados pela ciência, levando em conta de outra parte tantos problemas cruciais angustiantes, enfrentados pela sociedade humana destes nossos tempos – problemas cuja solução distante depende bastante das inovações tecnológicas –, penso, com meus botões, apoderado de certezas, ser ainda demasiadamente cedo, no atual estágio de desenvolvimento emocional e espiritual do ser humano, pra se conceber a possibilidade da decifração cabal do código da vida. O deslindamento dessa charada não é pra agora. Aposto e dou lambuja.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

 

Meu amigo Waldir Vieira

 

Cesar Vanucci

 

“As pessoas não morrem. Partem primeiro.”

(Camões)

 

Perdi um amigo querido. Amigo de fé, irmão, camarada, como na canção de Roberto Carlos. Os laços fraternais de vida inteira foram atados na meninice risonha e franca, em nossa Uberaba de inesgotáveis fascínios. Na irrequieta adolescência envolvemo-nos na busca das inalcançáveis respostas sobre os “porquês” das coisas. Na mocidade impetuosa assumimos definitivos compromissos culturais e sociais, embalados pela certeza de que o espírito humano é que nem o paraquedas, só funciona aberto. A escalada dos estágios da idade adulta, pontuada pela acumulação de experiências conduziu-nos, juntos, às amadurecidas reflexões que dominam o período outonal do intrincado jogo da vida. Frequentamos as mesmas salas de aula, do primário ao universitário. As rodas de conhecidos eram as mesmas. A casa de um era extensão da casa do outro. Mantivemo-nos próximos no lazer, nas lidas comunitárias, na escolha de obras literárias, fomentando, numa troca de ideias saudáveis, conceitos que influenciariam a jornada pessoal de cada um.

Tudo quanto dito serve como significativa ilustração do abalo emocional trazido, a mim e a muita gente mais, pela partida para outro plano existencial, de Waldir Vieira. Este homem de bem, dono de carisma e simpatia irradiantes, cultura haurida em autores que traçaram as linhas mestras do saber, foi um lutador obstinado. Deixou isso expresso nas causas abraçadas, bem como no enfrentamento da enfermidade. As marcas cintilantes de seu labor criativo e sensibilidade social ficaram gravadas nos lugares por onde andou. Nas funções que ocupou. No lar abençoado, inundado por espiritualidade, que constituiu com ajuda de Rosa, dedicada esposa. Na Promotoria, portou-se como um paladino da justiça, agindo com serena intrepidez no desfazimento de situações conflitantes com o sagrado interesse social. Pela conduta irrepreensível chegou, no consenso de seus pares e no apreço e admiração dos poderes governamentais, ao ápice da carreira. Foi um Procurador Geral inovador e operoso. Granjeou enorme respeito e fez por merecer louvações muito além dos limites estritos da área profissional sob sua fecunda liderança. Houve-se com brilhantismo invulgar noutros encargos que requisitaram seu poder empreendedor. No Sesiminas e no IEL afixou sinais de incomum dinamismo.

Em tudo quanto protagonizou na cena cotidiana, ditos e feitos, pareceres, conversas triviais, ficou projetado, bem nítido, seu perfil de humanista. Um humanista consciente dos deveres e prerrogativas da cidadania no Estado democrático e republicano. Waldir sabia das coisas. Foi alguém ciente de que os humanos somos seres de luz revestidos de indumentária física, a uma certa hora descartável.

Consagrou-se, na reclusão social a uma fruição intelectual enriquecedora. Lia muito, ouvia diariamente música erudita e usava o pincel, passatempo cultivado desde a infância, para retratar pessoas e paisagens. Uma dessas paisagens adorna, com carinhoso autógrafo do autor, minha tenda de trabalho.

Na semana anterior à sua passagem, como costumeiramente fazíamos, batemos um longo papo pelo telefone. O agradável colóquio foi pontilhado de reminiscências, de troca de informações sobre fatos do cotidiano e avaliações sobre a crise humanitária que assola o mundo. De suas sempre sensatas ponderações consegui anotar que, na contemplação dos problemas cruciais que nos rodeiam, as pessoas de boa vontade não podem perder jamais a fé e a esperança no destino superior do ser humano.

Ninguém morre, parte primeiro. A certeza do poeta coloca-se na linha da percepção espiritual de que, no itinerário a ser percorrido por todos existe, adiante, um ponto de parada para reencontros dos que partem primeiro com os que partem depois. É consolador saber disso!

 

 

Fora de controle

 

Cesar Vanucci

 

“O mais urgente, nesta hora, é a preservação da vida”.

(Pronunciamento da CNBB, ABI, SBPC, OAB e outras entidades)

 

Não resta a mais tênue dúvida. A pandemia ficou fora de controle. As macabras estatísticas trazidas a público pelo consórcio de órgãos de divulgação, colhidas em fontes oficiais, deixam esse fato em exuberante evidência. O mesmo há que dizer das atordoantes imagens do caos reinante nos postos de atendimento a pacientes. Está desafortunadamente confirmada a sombria previsão de colapso do sistema da assistência médico-hospitalar, feita de há muito por infectologistas, profissionais de políticas públicas, agentes de saúde da linha de frente do combate ao vírus.

 

Para que ocorresse esse desastrado estado de coisas contribuiu significativamente, não se pode negar, o ineficiente esquema de gestão adotado pelos governantes, a começar pela clamorosa falta de planejamento nas ações desencadeadas. Os setores investidos da responsabilidade institucional de conduzir o combate ao flagelo deram provas reiteradas de inação em momentos críticos, que clamavam por soluções imediatas. Fizeram-se frequentes os atos e manifestações impróprios, improducentes, na denominada linha negacionista, em colisão frontal com os conceitos, as recomendações do conhecimento científico consolidado, de reconhecimento universal.  A acumulação de desacertos nas estratégias aplicadas, a ausência de uma coordenação nacional firme e resoluta no enfrentamento da tormentosa questão, a falta de disposição para reformulação, a curto prazo, dos métodos equivocados de atuação, criou ambiência propicia para o inconformismo generalizado que se estabeleceu, à volta do perturbador assunto, nos diferentes segmentos da sociedade.

O “pacto pela vida e pelo Brasil”, recentemente lançado, reflete esse posicionamento crítico assumido pela opinião pública. No palpitante documento a Conferência Nacional dos Bispos de Brasil, a Sociedade Brasileira para o Progreso da Ciência, a Associação Brasileira de Imprensa, a Associação Brasileira de Ciências, a Ordem dos Advogado do Brasil e a Comunidade Cardeal Arns afirmam, de forma peremptória que o negacionismo mata, deixa sequelas em vítimas que sobrevivem à contaminação. Enfatizam que é notória a ineficácia do Governo no enfrentamento da tragédia que atravessamos e que isso exige alterações viscerais no complexo processo de confrontação da pandemia. Sustentam, ao mesmo tempo, o entendimento de que a preservação de vidas é o que há de mais urgente a ser feito na presente conjuntura.

Proclamam, por outro lado, que o vírus não será dissipado com discursos raivosos e frases ofensivas. Reivindicam, ainda, que todos os brasileiros sejam vacinados o quanto antes, que o Ministério da Saúde cumpra exemplarmente seu papel, atuando como indutor eficiente das políticas de saúde em nível nacional. Solicitam do Congresso que estabeleça prioridade absoluta ao assunto em sua agenda. Outro registro destacado no documento diz respeito à fixação de um “auxílio emergencial digno e pelo tempo que se faça necessário, para salvar vidas preciosas”.

No tocante a atividade jornalística, os signatários do pronunciamento exprimem o desejo de que as informações sejam transmitidas com plena liberdade e com absoluta confiabilidade, estribadas na orientação científica.   

No fecho, as entidades formulam ardente apelo à juventude brasileira para que assuma o seu protagonismo na defesa da vida esforçando-se ao máximo no atendimento às recomendações ditadas pela Ciência, inclusive no que concerne à desconstrução do negacionismo.

É relevante anotar que o mesmo curso de raciocínio vem norteando outros numerosos pronunciamentos na dramática hora presente. Cientistas, empresários, economistas, líderes classistas, dirigentes religiosos, jornalistas compõem em coro retumbante de vozes que representa, esplendidamente, a consciência cívica da Nação.

 


Célia Laborne             

O segundo americano provou o gosto do espaço. Comeu nuvens e bebeu imponderabilidade, rompeu barreiras num pegador estratosférico capaz de desafiar qualquer perseguidor e ganhar um pique entre as estrelas. O apetite astral aumenta.

Não se pode evitar uma sensação de vertigem ao situar-se os astronautas na escuridão de um cosmo sem vida ou aeroporto aparente.  Não se pode evitar um tremor de expectativa.

E cada vez eles sobem mais. E, cada vez mais, abraçam um céu sem medida e sem portos: vazio, preto, indefinido.

A humanidade sente que por mais que o medo de alguns cresça ante as portas do infinito, jamais forçadas, outros estarão a postos, rompendo fronteiras a caminho da Lua, de Marte, sabe Deus onde ainda.

Quanto mais eles sobem, mais nos curvamos sobre esta Terra, hoje papável grão de areia nesse universo de estrelas.

Sobem russos e sobem americanos. Trazem filmes, ruídos, medidas e condições atmosféricas.  Só não trouxeram ainda o que está acima, abaixo e em todas as rotas por onde têm andado.   A presença daquele que vai dentro e fora dos foguetes; a verdade, a mansidão e a paz que flutuam além de todas as metas humanas.

Um passeio à Lua não devia ser um escotismo celeste ou uma viagem de turismo, mas o caminho de meditação e compreensão de uma grandeza maior do que as atômicas descobertas; um sentimento de humanidade mais proveitoso e profundo do que tratados feitos e desfeitos, uma fonte de amor mais intensa do que a propalada boa-vontade das grandes nações.

Afinal, se o homem resolveu dessecar o universo, que seja esta, ao menos, uma operação de AMOR.

(Texto extraído do livro de crônicas de Célia Laborne, LUZ SOBRE O MAR, editado em 1969)

 Visite: http://vidaemplenitude.blogspot.com.br


 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

 

A crise humanitária que nos assola

 

Cesar Vanucci

 

“Os óbitos poderão chegar a 500, 600 mil”.

(Vaticínio da médica Ludhmila Hajjar, que se recusou assumir a pasta da Saúde)

 

Flagrantes lúgubres da atualidade brasileira.  330 mil óbitos provocados pela pandemia. Esse número pode subir, em curto espaço de tempo, para 500, ou mesmo 600 mil, vaticina a médica Ludhmila Hajjar, que recusou convite para assumir a pasta da Saúde.

A funesta previsão é compartilhada por cientistas e médicos conceituados. No mundo, ocupamos o segundo lugar em casos fatais e contaminações. Somam mais de 13 milhões as pessoas infectadas no território nacional. A “gripezinha de nada” que, consoante o alto escalão negacionista, deu vaza a “mimimis de maricas”, vem acumulando em nossas plagas recordes mundiais diários de sepultamentos, cremações e hospitalizações. O colapso do sistema hospitalar assumiu proporções de extrema dramaticidade. Faltam leitos nas UTIs e enfermarias. Muitas UPAs, abarrotadas de pacientes, foram transformadas em precários “hospitais de campanha”. Nos postos de atendimento há filas pra tudo. Até para preenchimento de ficha de consulta. Os estoques das casas de saúde acusam atordoantes carências de medicamentos e equipamentos essenciais. Corpos sem vida jazem empilhados em locais impróprios, aguardando sepultamento. Em cemitérios constata-se a abertura de covas extras como consequência da demanda intensificada. Seja frisado que aos familiares é vedado prantear entes queridos, conforme sagrados e tradicionais ritos, na hora dolorida do adeus.

Assinala-se sobrecarga de atendimentos, gerando também filas, nos cartórios encarregados de registros de falecimentos. Com as atividades econômicas prejudicadas, o desemprego e o subemprego assumem descomunal proporção. Fica evidente que, em circunstâncias assim, o relacionamento cotidiano é afetado nos planos familiar, profissional, social.

O desemprego em massa eleva os índices de miséria absoluta. As enfermidades inesperadas oriundas do confinamento fazem-se frequentes.

Já quanto à almejada e indispensável vacinação em massa, o que se vê, espantosa e deploravelmente, é uma lentidão que lembra, como se propala nos papos de rua, caminhar de tartaruga. Dois meses passados e a aplicação da primeira dose não atingiu nem 8 por cento do público alvo.  Estimativa de órgão oficial dá conta de que, mantida a marcha atual da carruagem, a aplicação da primeira dose da imunização só estará concluída em meados de 2023. Seja acrescentado que, várias vezes, as aplicações tiveram que ser bruscamente interrompidas, por falta de insumo básico...

Paralelamente a tudo isso e a outras mazelas vividas pela sociedade, aqui não listadas, adquirem contorno, no cenário nacional, ampliando o leque das aflições comunitárias, deletérias manifestações batizadas popularmente como negacionistas. Têm por procedência núcleos raivosos do fundamentalismo político e religioso, exímios propagadores de absurdidades nas redes sociais. Empenham-se em alvejar valores civilizatórios contrapondo-se, às vezes dissimuladamente, outras vezes escancaradamente, às instituições democráticas e republicanas. Muitas dessas ações trazem à lembrança dos observadores políticos imagens dos sinistros “camisas pardas” ...

A opinião pública, traduzindo o sentimento das ruas, vem expressando seu inconformismo com relação aos fatos estarrecedores narrados. Cobra providências dos setores competentes lamentando a inépcia evidenciada na gestão dos tormentosos problemas que penalizam indistintamente todas as camadas da população, onerando de forma mais contundente os despossuídos sociais. Critica acerbamente a falta de planejamento, a ausência de coordenação competente na condução das medidas de combate à crise humanitária que sacode o país.

 

 Leitores do "Blog do Vanucci" 

comentam os artigos publicados

● O peregrino da paz

 

 

 

 

Alice Spíndola,

Cesar Vanucci, estimado jornalista, 07 de abril é o Dia do Jornalista. Pensei em você o dia todo. Você escreve dentro de bela espiritualidade. Que você seja feliz em seu ofício, em sua casa, junto a amigos, e no seu caminho pelo mundo. Muita felicidade, cordialidade, paz e renovados êxitos. De coração, Alice Spíndola


Edelvais Campos



Dr.Vanucci, maravilhoso seu texto sobre a ida do papa Francisco ao Iraque. É para ler, reler e decorar. Edelvais

Orlando Almeida


Boa tarde amigo e mestre Cesar, O Peregrino da Paz retratou muito bem a histórica viagem do Papa Francisco ao Iraque. Acompanhei pela TV vários dos eventos de sua visita, incluindo a solene e belíssima missa no estádio de futebol, com um público de milhares de pessoas autorizadas a participar. Este Homem de Deus está sempre surpreendendo o mundo, sedento de paz e que enfrenta a tragédia de uma pandemia que só no Brasil já fez mais de 325 mil mortos. Que seus gestos sensibilizem os governos de todo o mundo para que, cada vez mais, adotem medidas concretas para um relacionamento onde a paz e o amor prevaleçam sobre o ódio e as guerras. Um abraço e uma Feliz Páscoa em Cristo. Orlando de Almeida



Mario Salvador

Alô. Cesar; Belo blog. Obrigado. Feliz Semana Santa. Mário


Ica, mensagem do passado

Titicaca, o mar dos Andes 

● Nazca, uma charada



Alice Spíndola


Cesar Vanucci, caro escritor, prezado amigo, você é um adivinho. Os Andes me perseguem. A cada dia, que passa, a pesquisa fica mais difícil. Nazca e Ica estão no roteiro. Você tem material para um ótimo livro de ficção. Um romance. Gratíssima pelo tema. Algo diferente. Notícias de um Tempo que nos concede eternidades. Existe o respeito pela Arte. O espanto pelo muito raro. Ica é raridade. Imensidão de águas. O Titicaca. Cordialíssimo abraço, Alice Spíndola


Orlando Almeida

Boa noite amigo e mestre Cesar, impressionante o mundo de Ica que resumistes em seus destaques no ultimo blog. Vou tentar adquirir o livro que mencionastes, depois que tudo isso passar. Até lá continuarei me transportando até a fantástica região dos Andes por meio de seus textos.

Boa tarde caro mestre e amigo Cesar, Sua descrição minuciosa sobre as maravilhas encontradas na cordilheira andina, do Peru e da Bolívia me transportaram virtualmente para todas regiões mencionadas, principalmente para o Lago Titicaca. Como gostaria de visitar todas as regiões mencionadas nos seus dois últimos blogs. Nunca é tarde para aprender e saber mais sobre as antigas civilizações com todos os seus mistérios. Obrigado pela aula. Abraço. Orlando


Alice Spíndola

Cesar Vanucci, estimado jornalista, querido amigo, Estou estudando o Peru e o Equador, a cada dia que passa descubro mais coisas. É incrível a riqueza de mitos, lendas. A literatura é muito rica.

Poetas do Equador estudam em Paris, vezes muitas são mais conhecidos na França, como é o caso de Alfredo de Gangotena. Nasca fará parte deste estudo. Um ótimo fim de semana para você,

Bom dia, Cesar Vanucci, você trabalha o texto com propriedade e muito domínio, não importa o assunto, mas sempre o mais atual possível. Talvez você esteja no auge de seu virtuosismo jornalístico. Eu o leio com entusiasmo e aprendendo muito. Com fraternal abraço, Alice Spíndola

 · Mulheres no Comando

 


Edelvais Campos


Dr. César, excelente seu tento "mulheres no comando" principalmente no que fala sobre a abertura para a participação das mulheres na Igreja Católica. Sonho ver a extinção do celibato obrigatório para os padres. Faria bem aos fiéis que o padre passasse pelas mesmas experiências na vida do dia a dia, do homem casado, com filhos, com salário. Além do saber e da fé ele se identificaria melhor com os fiéis.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

 

O peregrino da paz

 

Cesar Vanucci

 

“Implorei do Senhor perdão e reconciliação”.

(Papa Francisco, na visita ao Iraque)

 

A espessa camada de nuvens carrancudas que paira no ar impediu que a maioria das pessoas percebesse o alentador sinal. Mesmo assim, o clarão refulgente da histórica iniciativa, impregnada de amor ecumênico, pôde ser avistado no horizonte, com olhar esperançoso, por uma maioria de corações fervorosos espalhada por todas as latitudes.

Francisco, o Papa providencial, da mão estendida e das ações transformadoras, fez a história avançar extraordinariamente com a visita ao Iraque. Rompeu barreiras que muitos supunham inamovíveis. Quebrou paradigmas engessados no tempo pela acumulação de estéreis e cruéis conflitos, nascidos de interpretações farisaicas e fanáticas da história. Coisas que, à luz do bom-senso, visão humanista e espiritualizada, destoam do real significado da vida. O Pontífice associou sua condição de dirigente supremo de uma poderosa corrente religiosa à missão de estadista, provavelmente o mais bem preparado estadista da presente conjuntura internacional. Um cidadão do mundo, provido de singulares dons, que sabe colocar adequadamente o carisma, a inteligência e a sensibilidade a serviço da edificação de uma ordem mundial harmoniosa e solidária receptiva aos clamores sociais. Numa frase emblemática Francisco explicou o sentido de sua visita a um país que guarda vestígios preciosos dos primórdios da civilização, de predominância islâmica, dilacerado, desde muito tempo, por conflitos apavorantes de motivações econômicas, tribais e religiosas. “Os homens são irmãos por religião e iguais por criação”: foi o que disse. A frase, de conotação ecumênica, resume as falas e atos do Papa na enriquecedora jornada empreendida. Das andanças do timoneiro da Igreja Católica pelo maltratado território iraquiano ficou, como registro duradouro, uma sequência de fortes emoções. Francisco visitou lugares sagrados na devoção religiosa maometana. Manteve conversações com integrantes da cúpula islamita. Esteve na região em que o patriarca Abraão, venerado pelas diversas crenças monoteístas, nasceu e viveu. Celebrou atos litúrgicos. Reuniu-se com grupos de várias religiões, dedicando atenção especial, naturalmente, a membros da comunidade cristã, alvo de violenta perseguição em passado recente, episódio doloroso que provocou a debandada de milhares de pessoas. Uma porção significativa de cristãos, permanece ainda hoje no exílio. Francisco caminhou por logradouros onde são visíveis os escombros das conflagrações bélicas, de diversificados momentos, ainda próximos dos dias de hoje. Viu, bem de perto, o rastro apavorante deixado pela beligerância insana. Em Mossul, cidade que por algum tempo centralizou o comando do sinistro Isis - o Estado Islâmico, manteve contatos com moradores que sobreviveram à mortandade. Em todos os lugares por onde caminhou transmitiu mensagens de consolo, de esperança, de fraternidade ardente. Deixou explicito que “a fraternidade é mais poderosa que o fratricídio, a esperança é mais possante que o ódio, a paz é mais poderosa que a guerra”. Classificou de imensamente cruel o fato de que “este país, berço da civilização, tenha sido atingido por um golpe tão bárbaro, como a destruição de locais de devoção ancestrais.” Falou da dor produzida pelo massacre de mulheres, homens, crianças, muçulmanos, cristãos e yazidis, lembrando que muitos foram forçados a deixar seus lares para não serem aniquilados.

Em suas manifestações, proclamou-se “peregrino da paz, mendigo da fraternidade, para implorar do Senhor perdão e reconciliação depois destes anos de guerra e terrorismo, pedindo a Deus a consolação dos corações e a cura das feridas”.

Encurtando razões: o que fez Francisco no Iraque foi esclarecer que a fraternidade não é uma exclamação retórica, oca, vazia de conteúdo. É, sim, uma proclamação solene de fidelidade aos valores que recobrem de dignidade a vida.

sexta-feira, 26 de março de 2021

 

Ica, mensagem do passado

 

 Cesar Vanucci

 

“Os vestígios estão aí. (...) Um desses incríveis e misteriosos vestígios surgiu em um deserto peruano (...) nos arredores de Ica.”

(J.J.Benitez, jornalista e escritor espanhol)

 

Falei, pratazmente, de Nazca, Titicaca e Thiunaco, referências assombrosas da cultura e paisagem andinas. Chega, agora, a vez de falar de Ica.

O Peru é um espanto. E Ica, lugar rodeado pelas areias brancas e pedregosas do deserto de Ocucaje, merece ser apontada como um espanto dentro do espanto maior. A região adquiriu notoriedade mundial com descobertas assombrosas, que ficaram conhecidas como “as pedras gravadas de Ica”, uma espécie de “biblioteca na pedra”.

A capacidade investigativa e a perseverança à toda prova de um professor chamado Javier Cabrera Darquea, peruano de inquebrantável vontade, colocaram a humanidade inteirada de achado fantástico. Um achado que desafia a argúcia de pesquisadores experimentados e coloca em xeque teorias e teses científicas pacificamente assimiladas no conhecimento consolidado dos homens. Está claro que sobrou para o desassombrado professor uma carga bastante pesada, de incompreensões e doestos, como decorrência dos arrojados conceitos que ousou estabelecer à volta das descobertas.

A explicação trazida para os milhares de seixos gravados, de tamanhos diferenciados, que Cabrera conseguiu resgatar, de datação antiquíssima, consideravelmente distante dos tempos conhecidos (há quem fale até em milhões de anos), é desnorteante. Tudo aquilo nada mais significaria senão uma espécie de documentação deixada por civilização tecnologicamente avançada, que pretendeu passar para os pósteros a essência de suas experiências de vida.

E aí, como é que ficam as coisas? As pedras estampam cenas inacreditáveis do ponto de vista científico. Registram realizações inteligentes produzidas por alguém que dominava saberes incomuns nas áreas da astronomia, da astronáutica, da medicina. Falam das relações desse “alguém” com o meio ambiente, com a terra que povoava, com sua fauna e flora. Divididas em séries, ou capítulos, as pedras gravadas de Ica, no Peru, estão recolhidas em dois museus. Um deles pertencente ao Estado. Outro, mais bem provido de peças, organizado pelo próprio professor Cabrera.

Ao contemplarem os enigmáticos registros, as pessoas experimentam emoções fortes, que vão do deslumbramento à perplexidade. As revelações mexem com a cabeça. Revolvem conceitos solidamente enraizados na mente coletiva. Deixam os observadores comovidos. Por mais espantoso que possa parecer, entre as informações assombrosas transmitidas nos seixos existem descrições pormenorizadas acerca de transplantes de órgãos; sobre o código genético; sobre espaçonaves utilizadas em deslocamentos pelo campo azul infinito do céu.

Como é que haveremos de nos comportar diante desse recado fabuloso, provavelmente deixado por uma civilização que tomou rumo ignorado, após passagem por este nosso planeta azul? Um dos “capítulos” do documentário das pedras gravadas de Ica alude a uma viagem cósmica de colossais proporções. Seres desconhecidos, à maneira de um êxodo, provocado talvez pela proximidade de grande cataclisma, “anunciam” sua partida com o destino de um ponto qualquer na constelação das Plêiades.

O professor Javier Cabrera Darquea, num livro precioso, intitulado “As mensagens gravadas de Ica”, considera que os seixos “explicam, racionalmente, muito mais do que, até o momento, a humanidade atual tem considerado enigmas e fantasias em torno da existência passada do homem.”  Vale a pena ler o livro. Vale a pena visitar Ica.

 

A oitava maravilha do mundo

 

 Cesar Vanucci

 

“Um grande mistério petrificado.”

(Jacques de Lacretelli)

 

De volta ao Peru. É lá mesmo que os investigadores de fenômenos insólitos tropeçam, a cada passo, com alguns dos enigmas mais instigantes deste nosso planeta azul. O foco de nossas atenções é, agora, Machu Picchu, “oitava maravilha do mundo”.

Estamos falando de um prodigioso complexo arquitetônico, erguido por toda a extensão, das fraldas à cumeeira, de imponente maciço rochoso da deslumbrante Cordilheira dos Andes.  Ninguém consegue explicar quais os recursos técnicos utilizados nas gigantescas edificações. Para chegar a Machu Picchu a maioria dos turistas vale-se do transporte ferroviário. Mas são numerosas as pessoas, de espírito aventureiro e com bom preparo físico, que se embrenham pelas chamadas trilhas sagradas na direção da “cidade perdida dos Incas”.

O trem pego em Cuzco serpenteia por paisagens de lindeza estonteante. A viagem dura umas seis horas. Os caminhantes, com pendores para montanhismo levam de 4 a 6 dias para cobrir a jornada, extenuante, mas repleta de fascínios. Uns e outros vão acumulando emoções inesquecíveis na contemplação de cenários magníficos, defrontando-se  no final do trajeto com espetáculo difícil de descrever apenas com palavras. Machu Picchu esmaga. Extasia. Costuma arrancar lágrimas, quando não soluços. Não há como resistir ao seu encantamento.

Alcança-se o topo da montanha, depois de percorrer-se plataformas com incríveis muralhas e áreas presumivelmente dedicadas, em tempos imemoriais, a cultivo agrícola. Ao redor avista-se um conjunto soberbo de montanhas, várias recobertas de neve. O olhar alcança, também, lá embaixo, quase ao nível da gare ferroviária do sopé da montanha, um fio prateado que avança por interminável desfiladeiro. É o célebre rio Urubamba, que nasce no alto dos Andes, atravessa o Vale dos Reis, onde engenheiros de tempos antiquíssimos represaram-no de forma impecável, de molde a causar espanto e deixar maravilhados seus colegas de profissão dos tempos de agora, indo despejar suas águas, centenas de quilômetros adiante, no nosso Amazonas.

Do que está sendo retratado parece emanar um convite indeclinável à genuflexão. O impacto é muito forte. A mente é tomada por fervilhantes reflexões. As interrogações jorram. O que vem a ser, afinal de contas, tudo isso? Quem foram os construtores desse portento de engenharia, dir-se-á sobre-humana? Quem habitou Machu Picchu? Quando? Quais – voltamos a perguntar - os recursos tecnológicos empregados na ciclópica empreitada?

Admitamos, para argumentar apenas, sejam procedentes as informações de alguns historiadores, que insistem em apresentar os incas dos tempos da colonização como os construtores da cidade. Como entender, a partir daí, que esses mesmos nativos, que somavam, de acordo com historiadores, milhões à época da invasão espanhola, executada por uma legião numericamente insignificante de militares-aventureiros, se revelassem tão despreparados, militarmente, para enfrentar os conquistadores de suas cidades, terras e riquezas?

Foi em julho de 1911 que Hiram Bingham, apontado nos compêndios como “descobridor” dessa maravilha arquitetônica, seguindo roteiro traçado por peruanos sabedores da existência do misterioso recanto incrustado na montanha conhecida por Machu Picchu, divulgou para o mundo, além das fronteiras daquele país andino, as colossais edificações. Nascia ali uma prodigiosa saga, vastamente explorada pelos estudiosos de civilizações desaparecidas, que crivaram o fabuloso achado arqueológico de interpretações as mais variadas e imaginosas, numa disputa que se arrasta até os dias de hoje. Jacques de Lacretelli resume a lendária história de Machu Picchu numa frase: “Um grande mistério petrificado.”

sexta-feira, 19 de março de 2021

 

Titicaca, o mar dos Andes

 

Cesar Vanucci

 

“Os Andes abrigam maravilhas e enigmas fabulosos.”

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

Uma coisa puxa outra. Já que falei pratrazmente em Nazca, animo-me a falar agora do Titicaca, outro deslumbrante enigma.

O lago Titicaca não é bem um lago. É mais uma porção de mar, de grandes proporções, que um colossal deslocamento dos elementos naturais inseriu, em tempos imemoriais, na deslumbrante geografia andina. A flora e fauna são típicas de água salgada. Pontilhado de ilhotas, o “lago” abriga vestígios de civilizações desaparecidas. As típicas fortificações atribuídas aos incas aparecem em profusão. O estilo arquitetônico é o mesmo de numerosos sítios arqueológicos dos altiplanos bolivianos e peruanos. Navios turísticos percorrem o trajeto entre um porto boliviano, próximo a La Paz, e o porto peruano de Copacabana, em oito horas. Tempo razoável para que se possa admirar cenário soberbo cravejado de lendas e enigmas.

Um dos enigmas, talvez o mais desnorteante, diz respeito ao nome do “mar suspenso”. No idioma aymara, falado pela gente do lugar, “titicaca” significa “salto do jaguar”. Pois bem, nos anos 60, satélites colheram, a grande altitude, imagens do misterioso lago. As fotos deixaram cientistas perplexos. A configuração do Titicaca é, inacreditavelmente, a de um jaguar saltando. A indagação irrompe inevitável: como é que o povo aymara teve acesso a revelação tão estonteante? De quais recursos tecnológicos se teriam valido seus ancestrais para estabelecer essa inimaginável conexão entre o desenho geográfico, captado do alto, e a realidade prosaica de uma cena extraída de seu cotidiano como caçadores?

Perto dali existe um “museu antropológico” de priscas eras. Tiahaunaco, a uns 30 quilômetros de La Paz, é um estupendo registro arqueológico. Menos procurado do que outros sítios famosos dos Andes, como Machu Picchu e todo o conjunto portentoso de muralhas das imediações de Cuzco, como Sacsuyaman, Pizac, Ollantaytambo, oferece grandiosidade equivalente a todas elas. No entender de reputados pesquisadores, a construção de Tiahaunaco se situa em época que antecede aos outros monumentos megalíticos bolivianos e peruanos. Acham até que as grandiosas edificações teriam surgido antes das pirâmides do Egito e do México.

O magnífico “portal do Sol”, com incríveis frisos e imagens, focalizado em numerosas obras dedicadas à arqueologia e ao estudo de fenômenos transcendentes, é uma das manifestações arquitetônicas impactantes do lugar. Das escavações emergiu também uma cidadela impressionante. Com a dimensão de quarteirão urbano amplo, é constituída de pátios espaçosos e rodeada de colunatas. Na parte externa, esculpidas na rocha, aparecem incontáveis efígies com características anatômicas humanas. Entre uma efígie e outra há sempre uma diferenciação morfológica. Um rosto achatado ali, um nariz pontiagudo aqui, uma orelha abanada adiante, um terceiro olho na testa noutro desenho, tudo trabalhado com requinte artístico. Na interpretação de alguns arqueólogos, o que vem projetado é um culto de povos primitivos aos seus deuses... Já as lendas aymaras falam de coisa bem diferente. A cidadela seria uma espécie de museu antropológico. As imagens retratariam seres representativos de civilizações que, em tempos recuados da história, povoaram aquelas bandas misteriosas de nosso planeta.

Tem mais: os monumentos de Tiahuanaco pertenceriam, por suas características, a um instante da arquitetura diverso de outros monumentos, nos Andes, atribuídos ao engenho e arte da decantada civilização inca.

 

 

 

A SAGA LANDELL MOURA

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