sexta-feira, 19 de março de 2021

 

Titicaca, o mar dos Andes

 

Cesar Vanucci

 

“Os Andes abrigam maravilhas e enigmas fabulosos.”

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

Uma coisa puxa outra. Já que falei pratrazmente em Nazca, animo-me a falar agora do Titicaca, outro deslumbrante enigma.

O lago Titicaca não é bem um lago. É mais uma porção de mar, de grandes proporções, que um colossal deslocamento dos elementos naturais inseriu, em tempos imemoriais, na deslumbrante geografia andina. A flora e fauna são típicas de água salgada. Pontilhado de ilhotas, o “lago” abriga vestígios de civilizações desaparecidas. As típicas fortificações atribuídas aos incas aparecem em profusão. O estilo arquitetônico é o mesmo de numerosos sítios arqueológicos dos altiplanos bolivianos e peruanos. Navios turísticos percorrem o trajeto entre um porto boliviano, próximo a La Paz, e o porto peruano de Copacabana, em oito horas. Tempo razoável para que se possa admirar cenário soberbo cravejado de lendas e enigmas.

Um dos enigmas, talvez o mais desnorteante, diz respeito ao nome do “mar suspenso”. No idioma aymara, falado pela gente do lugar, “titicaca” significa “salto do jaguar”. Pois bem, nos anos 60, satélites colheram, a grande altitude, imagens do misterioso lago. As fotos deixaram cientistas perplexos. A configuração do Titicaca é, inacreditavelmente, a de um jaguar saltando. A indagação irrompe inevitável: como é que o povo aymara teve acesso a revelação tão estonteante? De quais recursos tecnológicos se teriam valido seus ancestrais para estabelecer essa inimaginável conexão entre o desenho geográfico, captado do alto, e a realidade prosaica de uma cena extraída de seu cotidiano como caçadores?

Perto dali existe um “museu antropológico” de priscas eras. Tiahaunaco, a uns 30 quilômetros de La Paz, é um estupendo registro arqueológico. Menos procurado do que outros sítios famosos dos Andes, como Machu Picchu e todo o conjunto portentoso de muralhas das imediações de Cuzco, como Sacsuyaman, Pizac, Ollantaytambo, oferece grandiosidade equivalente a todas elas. No entender de reputados pesquisadores, a construção de Tiahaunaco se situa em época que antecede aos outros monumentos megalíticos bolivianos e peruanos. Acham até que as grandiosas edificações teriam surgido antes das pirâmides do Egito e do México.

O magnífico “portal do Sol”, com incríveis frisos e imagens, focalizado em numerosas obras dedicadas à arqueologia e ao estudo de fenômenos transcendentes, é uma das manifestações arquitetônicas impactantes do lugar. Das escavações emergiu também uma cidadela impressionante. Com a dimensão de quarteirão urbano amplo, é constituída de pátios espaçosos e rodeada de colunatas. Na parte externa, esculpidas na rocha, aparecem incontáveis efígies com características anatômicas humanas. Entre uma efígie e outra há sempre uma diferenciação morfológica. Um rosto achatado ali, um nariz pontiagudo aqui, uma orelha abanada adiante, um terceiro olho na testa noutro desenho, tudo trabalhado com requinte artístico. Na interpretação de alguns arqueólogos, o que vem projetado é um culto de povos primitivos aos seus deuses... Já as lendas aymaras falam de coisa bem diferente. A cidadela seria uma espécie de museu antropológico. As imagens retratariam seres representativos de civilizações que, em tempos recuados da história, povoaram aquelas bandas misteriosas de nosso planeta.

Tem mais: os monumentos de Tiahuanaco pertenceriam, por suas características, a um instante da arquitetura diverso de outros monumentos, nos Andes, atribuídos ao engenho e arte da decantada civilização inca.

 

 

 

Um comentário:

Orlando de Almeida disse...

Boa tarde caro mestre e amigo Cesar


Sua descrição minuciosa sobre as maravilhas encontradas na cordilheira andina, do Peru e da Bolivia me transportaram virtualmente para todas regiões mencionadas, principalmente para o Lago Titicaca.Como gostaria de visitar todas as regiões mencionadas nos seus dois últimos blogs.Nunca é tarde para aprender e saber mais sobre as antigas civilizações com todos os seus mistérios. Obrigado pela aula. Abraço.
Orlando

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