sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Campanha eletrizante




“Quero dizer ao povo que é muito importante o direito
de votar e que tudo  está ocorrendo na maior tranquilidade.”
(Ministro José Antônio Dias Toffoli, presidente do Tribunal Superior Eleitoral)



Alinhamos abaixo lances marcantes dessa campanha eleitoral memorável, carregada de vibração, que nos acena neste momento com epilogo eletrizante.

Soberbo, magnifico, fabuloso! Qualquer desses vocábulos, bem como outros de tom equivalente, pode ser empregado com precisão para definir o desempenho da Justiça Eleitoral. O aparato institucional montado para a coleta de votos e a apuração em tempo recorde dos resultados da colossal consulta popular de cinco de outubro alça-nos a uma condição invejável no panorama internacional. Nenhum país do mundo realiza, em tempos de hoje, processo eleitoral comparável. Em que pese o escasso noticiário a respeito, representantes de numerosas nações acompanharam de perto o competente trabalho executado, recolhendo subsídios para a implantação de algo assemelhado.

Temos aqui outro bom motivo para exercitar nossa ufania: a sociedade brasileira deu, uma vez mais, no comparecimento tranquilo e ordeiro às seções eleitorais, provas exuberantes de fervor cívico e de vitalidade democrática.

A comoção nacional provocada pela retirada da disputa, de maneira trágica, do candidato Eduardo Campos deu origem, ao que tudo faz crer, à ascensão meteórica de Marina Silva nas intenções de votos. Não saberíamos dizer com convicção se o declínio na caminhada da candidata teve a ver com propostas consideradas inconsistentes, ou com ausência de um suporte partidário adequado. Apontada repetidamente como favorita a concorrer ao segundo turno, Marina acabou, na hora do “vamos ver” eleitoral, deslocada para terceiro lugar na tábua de classificação. Acumulou, apesar disso, votação expressiva.

Pela vontade soberana das urnas, a competição presidencial voltou a ficar polarizada entre PT e PSDB. Aécio Neves conseguiu, nos derradeiros instantes da primeira etapa da corrida, assenhorear-se de votos que pareciam destinados à candidata do PSB e da REDE.

O triunfo de Dilma Rousseff em termos nacionais foi significativo, com destaque para os números alcançados em Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Norte e Nordeste. Em São Paulo, Paraná, Distrito Federal, Espirito Santo, o desempenho de Aécio Neves foi também muito bom.

Para quem tem olhos pra enxergar e ouvidos pra escutar, não passa despercebida, a esta altura do campeonato, a opção da grande mídia pela candidatura oposicionista. O “Jornal das 10” e o “Manhattan Connection”, da “Globo News” no domingo da eleição traduziram emblematicamente essa tendência nas falas preconceituosas, crivadas de deboche e chacota, de parte dos comentaristas encarregados de  analisar a marcha das apurações. 

As falhas dos institutos de pesquisa recolocam a urgência de um debate em torno dos métodos de consulta tradicionalmente empregados nesse valioso trabalho informativo. Nenhum setor comprometido com o processo eleitoral pode mais se furtar a avaliações e reflexões concernentes ao momentoso tema.

São perfeitamente compreensíveis as especulações que partidários dos candidatos fazem, nesta reta final, a respeito de para quem convergirão, majoritariamente, os votos atribuídos no primeiro turno aos candidatos derrotados. Revela-se também bastante lógico o grande esforço que as forças promovem com vistas a atrair a simpatia dos que se abstiveram de votar no primeiro turno, 27 milhões em todo o país, 3  milhões só em Minas. Bem como dos 4,4 milhões (mais de 1 milhão em Minas), que votaram em branco; e dos 6,6 milhões (em Minas também acima de 1 milhão) que anularam o voto. São números pra sacudir qualquer eleição.    



Nesta fase final da campanha, a opinião pública não esconde o receio de que o passionalismo político possa alimentar uma indesejável onda de baixarias e de denuncismos inconsequentes. Como, aliás, já aconteceu em outras jornadas eleitorais. Mas, nada obstante, resoluta na sua aversão às interpretações pessimistas da realidade nacional, a mesma opinião pública conserva acesa a esperança de que as propostas, ideias e palavras de caráter construtivo acabem se sobrepondo, no frigir dos ovos, às ocasionais desavenças, de modo a orientarem a soberana decisão popular no dia 26. O que a Nação realmente almeja é assegurar-se de que o Brasil venha a incorporar, no futuro, mais avanços sociais, econômicos, educacionais, tecnológicos no cumprimento de seu indesviável destino de progresso.

Dados dignos de atenção


Os avanços são significativos,
mas há muitos avanços ainda por fazer.”
 (Antônio Luiz da Costa, professor).

Nem tanto a terra, nem tanto ao mar. O barco, na rota econômica, pode não estar navegando num mar de rosas. Mas, nem tampouco em águas encapeladas. Os “boletins meteorológicos” emitidos por manjados “catastrofistas de plantão” divulgam um mundaréu de informes equivocados e conclusões precipitadas. Dados abundantes apontam para realidade diferente.

O cientista politico e historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira andou coletando elementos que colocam em  realce aspectos sugestivos da atualidade social, econômica e cultural brasileira. As revelações se contrapõem ruidosamente a diagnósticos e analises costumeiramente publicados na grande mídia. As fontes utilizadas desfrutam de conceito técnico. Ei-las: ONU, OMS, UNCF, Banco Mundial, IBGE, Ministério da Educação, “Washington Post”, Índice de GIN.

O PIB brasileiro era em 2002 de R$1,48 trilhões. Saltou para R$ 4,84 trilhões em 2013. Tal avanço alçou-nos a sétima posição entre as economias nacionais mais pujantes. Já o PIB “per capita” pulou de R$7,6mil em 2002 para R$ 24,1 mil no ano passado. Em 2013, a dívida liquida do setor público correspondia a 34 por cento do PIB. Houve melhora acentuada também nesse item, uma vez que o valor da divida de 2002 equivalia a 60 por cento do PIB.

O Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, instituições oficiais com destacada participação no processo de desenvolvimento, elevaram expressivamente a lucratividade nos períodos cotejados (2002 e 2013). Aqui estão os resultados registrados nos balanços anuais de cada um deles: BB – R$ 2 bilhões e R$ 18,8 bilhões; Caixa Econômica Federal – R$ 1,1 bilhões e R$ 6,7 bilhões; BNDES – R$ 540 milhões e R$ 8,15 bilhões.

Mercado sempre atraente para investimentos estrangeiros diretos, o Brasil acusou em anos recentes extraordinário avanço nessa modalidade de captação de recursos. Em 2002, o dinheiro aplicado por investidores externos atingiu a cifra de 16,6 bilhões de dólares. Em 2013, o montante apurado foi de 64 bilhões de dólares. Também no tocante às reservas internacionais nossos indicadores são formidáveis. Chegaram, no final do ano passado, a 375,8 bilhões de dólares. É oportuno saber que tais números mostram-se superiores aos Produtos Internos Brutos de vários países importantes em diferentes continentes. É bom não perder de vista também que essas reservas giravam em torno de 37 bilhões de dólares há 12 anos. “O índice Bovespa”, volta e meia lembrado nas avaliações econômicas, fechou em 2013 com 51.507 pontos. A pontuação no final de 2002 era de 11.868. A dívida externa em relação às reservas, calculada em 557 por cento ante de 2003, é estimada agora em 81 por cento.

O volume da safra agrícola brasileira colhida em 2013 (180 milhões de toneladas) praticamente dobrou em relação à safra de 2002 (97 milhões de toneladas).

Em matéria de produção de veículos, atentemos para esses números: 1,8 milhões de unidades em 2002; 3,7 milhões de unidades em 2013.

Maior empresa do Brasil e da América Latina, a Petrobras alcançava em 2002 valores de mercado estimados em R$ 15,5 bilhões. As estimativas atuais colocam-na no patamar dos R$ 104,9 bilhões. De outra parte, o lucro médio anual auferido pela estatal petrolífera chegava até 2002 a R$ 4,2 bilhões. De lá pra cá passou a ser de R$ 25,6 bilhões.


Nossas exportações somavam, em 2002, 60,3 bilhões de dólares. Em 2013, os valores atingidos com exportações foram de 242 bilhões de dólares. A taxa SELIC era de 18,9 por cento em 2002. Ainda bastante elevada, é hoje de 10,90 por cento.

O notável incremento do transporte aéreo registrado no Brasil de alguns anos para cá, vem traduzido nestes números: 33 milhões de passagens aéreas vendidas em 2002; 100 milhões, em 2013.

No artigo vindouro, iremos nos reportar aos dados de inclusão social levantados no trabalho do cientista social acima mencionado.




Avanços sociais respeitáveis



“As politicas sociais (...) possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.” 
( Leonardo Boff, filosofo)



Carradas de razão assistem ao teólogo e filósofo Leonardo Boff num registro em artigo recente onde se reporta ao momento político, social e econômico. É quando assevera que se, por um lado, a sociedade não pode se privar de criticas ao governo por falhas cometidas, por outro lado, estaríamos todos nós omitindo a verdade caso não dispuséssemos reconhecer os avanços sociais significativos derivados da ação governamental nesses últimos anos. Suas as palavras: “A inclusão social realizada e as politicas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.”  

O trabalho do cientista social Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, mencionado em nosso artigo anterior, corrobora essa avaliação de Leonardo Boff, apontando dados eloquentes. Os indicadores sociais mostrados no estudo, tanto quanto os informes econômicos já divulgados, fazem jus a toda atenção. Pedem reflexão. São reveladores de uma conjugação poderosa de esforços que desembocou, auspiciosamente, em conquistas dignas de comemoração.

Segundo a ONU, o Brasil, por força de politicas sociais inclusivas, deixou recentemente de fazer parte do “Mapa da fome”. Milhões de patrícios ascenderam a patamares mais elevados na pirâmide social, passando a desfrutar de condições mais propícias ao acesso a bens de consumo. As estimativas são de que, num período de 12 anos, 42 milhões de pessoas saíram da miséria extrema. Boa parte delas passou a compor a chamada “classe C”. 

Os indicadores coletados no estudo com respeito à “taxa de extrema pobreza” dizem o seguinte: 2002 - 34 por cento; 2012 - 5,2 por cento.  Os “índices de desenvolvimento humano” oferecem os números abaixo alinhados: ano 2000 – 0,669; ano 2005 – 0,699; ano 2012 – 0,730.

A mortalidade infantil acusava antes de 2003 o índice de 25,3 para mil crianças nascidas. Em 2012, a proporção passou a ser de 12,9 por mil. Os gastos púbicos com a Saúde somaram 106 bilhões em 2013. Em 2002, eram de 28 bilhões. Com a Educação, os gastos públicos elevaram-se de 17 bilhões em 2002 para 94 bilhões em 2013.

Outra revelação interessante no estudo citado: até 2003 funcionavam no país 100 Varas da Justiça Federal. O numero de Varas em 2010 era 513.

O salário mínimo de hoje, de 724 reais corresponde ao valor de 2,24 cestas básicas. Antes de 2003, fixado em 200 reais, dava para adquirir 1,42 cestas básicas. O piso salarial de hoje corresponde a mais ou menos 300 dólares. Por volta de 2002 era de 86,21 dólares.

O programa “Minha Casa, Minha Vida” beneficiou, nos últimos anos, 1,5 milhões de famílias. O “Luz para Todos” favoreceu 8,5 milhões de pessoas, a um só tempo que a capacidade de produção energética do país elevou-se de 74.800 MW em 2001 para 122.900 MW em 2013.

O PRONATEC beneficiou 6 milhões de pessoas e o FIES garantiu em anos recentes financiamento universitário a 1,3 milhões de estudantes. O numero de estudantes matriculados no ensino superior, que era de 583.800 em 2003, chegou a 1.087.400 em 2012. Nos últimos 12 anos foram criadas 18 novas Universidades Federais e 214 novas Escolas Técnicas. Seja anotado que até o ano de 1994 funcionavam no Brasil 144 instituições semelhantes, e que, até 2002, foram implantadas outras 11. Enquanto isso, o programa “Ciência sem Fronteiras” proporcionou bolsas no exterior a 100 mil pessoas. O “PROUNI”, a seu turno, concedeu 1,2 milhões de bolsas. A implantação de creches, num projeto que prevê 6.427 unidades das quais mais de 2 mil já em operação, representa junto com o programa “Mais Médicos para o Brasil”, outro indicador positivo no plano das políticas sociais. A proposito desse último item, o Ministério da Saúde deslocou para áreas desprovidas de assistência médica 14 mil profissionais.  
Isso aí...

    







sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Desatinos racistas

Cesar Vanucci*

“Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas estorvam
e inundam as avenidas para fazer com que se demore duas horas para chegar em casa. E tudo para ver um macaco. Brasileiro, mas ainda macaco.” (Carlos Manuel Treviño Núñez, politico mexicano, em ofensa racista a Ronaldinho Gaúcho)


O racismo é praga daninha. Uma espécie de tiririca. Essa graminha manhosa descrita num saboroso poema roceiro magistralmente recitado pelo Rolando Boldrim. Lamentavelmente, não consigo guardar o nome do autor desse poema. Os versos, de singelo lirismo, falam que “a gente pode arrancar a grama tiririca, sacudi-la, virá-la de raiz pro ar, mas qua! – um fiapo escondido no torrão faz a peste vicejar...”.

O racismo contamina, produz devastadores estragos. Na escala dos defeitos humanos mais abjetos atinge topo everestiano. Quer dizer, situa-se acima, muito acima, da dose máxima de tolerância caridosamente suportável.   

O que o babaca mexicano acima citado andou dizendo, na boçal ofensa a Ronaldinho Gaúcho, referindo-se à aglomeração de torcedores na apresentação do jogador em seu novo clube, o Querétaro, é uma amostra loquaz da maneira abominável de ver as coisas demonstrada por indivíduos de maus bofes, com suas doentias regras discriminatórias.

Todos os dias, aqui e alhures, defrontamo-nos com ferozes manifestações de intolerância merecedoras de vigoroso repúdio. A constatação impele-nos a ir buscar no baú histórias já narradas anos atrás neste mesmo espaço. Servem elas para documentar a incômoda permanência da temática racista no rol das preocupações humanas mais angustiantes. Vamos principiar os relatos por um incidente estarrecedor ocorrido nos Estados Unidos.    

O autor do desatino, racista empedernido, milita seguramente numa das facções fundamentalistas que, volta e meia, tornam mais ostensivas suas interpretações radicais e preconceituosas da vida. Um pessoal da pesada que costuma povoar de sobressaltos as mentes de personagens que representam condignamente o pensamento liberal e as vivências democráticas estadunidenses. Ocupando cargo oficial relevante, o cara mencionado cismou de botar pra fora, tempos atrás, toda ferocidade de seu credo racista. A plenos pulmões bradou, com todas as letras, que os casos de aborto no seio da comunidade negra são a maneira mais eficaz de reduzir os índices da criminalidade no país. Minha Nossa Senhora da Abadia d’Água Suja! Como é que pode?

A extensão do desvario provocou, entre compreensíveis reações de indignação, uma manifestação burocraticamente comedida de censura da alta cúpula governamental, agarrada à inconsistente tese de que episódios do gênero constituiriam, em tempos de agora, ações isoladas no contexto comunitário. Uma tese, visto está, enganosa. Estrepitosamente desmentida na rotina cotidiana, como comprova o noticiário nosso de cada dia que relata confrontos de rua sangrentos produzidos constantemente pela virulência racista.

Às pessoas atentas não passa despercebido, por outro lado, o fato de que, em aeroportos dos EUA e Europa, guardas aduaneiros estabelecem pelo olhar carregado de desconfiança uma triagem prévia dos passageiros desembarcados. Em momentos de surto histérico, muitos viajantes são impedidos até de desembarcar. As pessoas claras desfrutam, de modo geral, nesses portais de chegada, de tratamento especial, com garantia de circulação ágil pelos guichês, direito a mesuras e acenos cordiais. Quando chega a vez do grupo dos amorenados, das pessoas de tez escura, pele amarela, aparência oriental, desvanece-se o sorriso cúmplice, substituído por polidez glacial, e por trique-triques que fazem a glória da rotina burocrática. Os semblantes crispados lembram os mal-humorados guardas russos e alemães de fronteira escalados para conferirem passaportes, revistar passageiros e bagagens dos antigos filmes de guerra e de espionagem. Não havia quem na poltrona do escurinho do cinema não sentisse, ao avistá-los, um baita calafrio na espinha.


Mais desatinos racistas

Cesar Vanucci*


“Há realmente raças humanas? (...) Não se trata de raças, senão
 da variedade de uma mesma raça, de uma mesma espécie.”
(Anatole France).


Voltamos a falar de preconceito racial, essa praga daninha difícil de ser extirpada.
Vamos deslocar agora o holofote das atenções para perturbadoras cenas de rua captadas por câmeras indiscretas. Elas foram mostradas num soberbo trabalho de investigação jornalística por uma tevê americana. Escancaram de modo inapelável faceta inimaginável de intolerância.

Interessados em apurar tendências do comportamento das ruas, experimentados repórteres postam-se numa movimentadíssima avenida de Nova Iorque. Na calçada, acompanhados em seus movimentos pelas câmeras, um negro e um branco disputam, aos berros, fazendo uso de toda a gesticulação e mímica a que têm direito, as atenções dos motoristas que trafegam pela via entupida de carros. A totalidade dos motoristas, entre eles alguns negros (atentem para o desconcertante pormenor), faz questão fechada de ignorar por completo a ruidosa encenação do cidadão de tez escura, posicionado alguns metros à frente do branco. Rendem-se, incondicionalmente, à opção de carregar o passageiro de cútis clara.

Os repórteres não se dão por satisfeitos. Partem para outro esquema. O cidadão branco é deslocado para a posição em que estava o cidadão negro e vice-versa. Os carros de praça (como é que fomos deixar expressão tão saborosa ser substituída pela feiosa denominação de táxi?) da leva seguinte não vacilam: atendem, pressurosos, todos eles, à chamada do cidadão claro. Fica evidenciado, de forma irrespondível, não se tratar, positivamente, de uma simples questão de melhor visibilidade ambiente à média distância.

Dispostos a avançar mais fundo no estudo comportamental abordado, os argutos repórteres bolam mais uma estratégia. Branco e negro retomam as posições do início da experiência. O negro é visto envergando um traje requintado. O branco aparece com roupas despojadas. Nem assim. Todos os veículos, sem exceção, passam ao largo do suplicante apelo do cidadão de cor para se deterem diante dos acenos, dessa vez mais comedidos, do outro. Na sequência, os participantes do teste são oficialmente apresentados ao público telespectador. O negro é um ator famoso, ganhador de “Oscar”. O branco, um traficante de drogas condenado pela Justiça.

É isso aí, gente boa. Recordam-se daquele empedernido racista do começo do papo no artigo passado? O imbecil que andou acenando com uma politica abortiva no seio da comunidade negra de modo a “estabelecer” um “processo eficaz” para reduzir os índices da criminalidade nos EUA?  É duro ter que admitir. Mas, desafortunadamente, ele não anda sozinho em sua sinistra empreitada. Constatação desoladora. Há muito mais trogloditas comprometidos com a paranoia racista, espalhados por este mundo velho de guerra sem porteira, do que jamais conseguirá imaginar nossa vã filosofia.
Nos artigos que se seguirão contaremos mais casos de intolerância registrados na área esportiva. Relataremos outros incidentes ocorridos em clubes apoderados de “complexo ariano”, refratários à ideia de abrir as portas a membros da comunidade negra.






sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Os “perniciosos” quadrinhos

 “Eles eram, despropositadamente, considerados atentado violento à moral e bons costumes!”(Antônio Luiz da Costa, educador, relembrando os tempos de rejeição inquisitorial aos gibis)



Tomo conhecimento, apoderado de nostálgica amargura, de que neste ano da graça de 2014 edições antigas de revistas em quadrinhos vêm sendo arrematadas em leilões, nos Estados Unidos, por uma nota preta. Uma simples historieta, narrando espetaculosa aventura do “Super Homem”, rendeu indoutrodia 6 milhões e 500 mil reais para o feliz proprietário do exemplar.

A sensação amarga embebida de saudosismo desloca-me para tempos de uma meninice até certo ponto risonha e franca. Naquele tempo, saibam todos, os quadrinhos já exerciam fascínio muito grande no espirito infantil. Mas uma avaliação educacional distorcida, obscurantista mesmo, equivocadíssima – insista-se – quanto ao verdadeiro significado cultural das revistinhas, apontava tal gênero de publicação como deletério à moral e aos bons costumes. Juizado de Menores, Inspetorias de Ensino, direções das escolas, muitos professores e alguns pais entenderam de firmar, num dado momento, consenso em torno do fato de que os gibis causavam danos irreparáveis à boa formação escolar. Lançando mão de expedientes inquisitoriais, resolveram por conta disso colocar o “malsinado” produto “fora da lei”. Diziam-se persuadidos de que com atitude tão saudável estariam preservando valores éticos e intelectuais muito caros à sociedade. Acenavam com severas punições para os alunos que, desavisadamente, ousassem transportar nas pastas os conteúdos impressos pecaminosos.

Os pertences da garotada eram alvo, na entrada da sala de aula, de sistemática e rigorosa revista. Ái do pobre coitado que fosse flagrado com a mercadoria proibida no meio dos cadernos e livros! As iras dos encarregados em zelar pelas boas regras disciplinares instituídas desabavam estrepitosamente sobre sua cabeça. Em tempos de palmatória, o menino podia ser convocado ao temido gabinete da diretoria para receber implacável castigo. Noutros momentos, poderia ser exemplarmente punido com milhares de “linhas” após o expediente escolar, ou ser impedido de deixar a sala de aula no recreio ou, ainda, até mesmo, ganhar uma suspensão. Adicionalmente, teria que enfrentar o vexame de avisar aos pais a respeito da intenção da diretora da escola de levar um papo legal com eles, para comentários críticos alusivos ao seu comportamento indisciplinado. O combate sem tréguas aos quadrinhos atingia seu ponto culminante quando a comunidade escolar, os pais convidados, o inspetor de ensino infalivelmente presente, era chamada a participar no pátio de um ato cívico reparador: a destruição pelo fogo do “material inconveniente”. Ou seja, os gibis apreendidos. As labaredas andaram consumindo preciosas historietas que o neto aqui de dona Carlota cuidava de colecionar. As historinhas narravam, tanto quanto me recordo, feitos assombrosos do “Super Homem”, do Flash Gordon e do Buck Rogers, pioneiros astronautas, do Tarzan, do “Sombra”, do Dick Tracy e de tantos outros “heróis”.
Inadvertidamente, na mais santa ingenuidade, deixei o valioso acervo, montado com capricho e sacrifício, parar um dia nas mãos dos implacáveis guardiões da conduta estudantil careta recomendada pelos ditames disciplinares vigentes. Recordo-me muitíssimo bem de que as lágrimas a escorrerem copiosas pela face não foram provocadas, jeito maneira, pela fumaça desprendida do fogaréu.

Nasce aqui uma interrogação. Se aqueles exemplares devorados pelas chamas houvessem sido conservados, como algumas outras publicações da infância ainda hoje existentes na biblioteca lá de casa, será que eles estariam figurando agora nessa relação de preciosidades que colecionadores apaixonados passaram a adquirir por somas elevadas? Dá pra manjar por aí o baita prejuízo que sofri por culpa do pessoal da escola primária que frequentei...

Mas, verdade dita, o prejuízo amargado em consequência daquele lance recuado da escola da meninice tinha conotações diferentes. Não se tratava de perda material. O que se esvaiu, como bolha de sabão, deixando marca de sofrimento na alma, foram sonhos. Sonhos maravilhosos inspirados nos desenhos e dizeres produzidos pela imaginação fecunda dos autores dos “abomináveis” quadrinhos, com suas propostas ousadas despertando fantasias, antecipando o futuro e alargando as fronteiras do conhecimento.

Ainda bem que o tempo – senhor eterno da razão – se encarregou de desfazer o monumental equívoco contido nas restrições apostas naquela época a essa modalidade de expressão cultural tão pujante.



A semântica das urnas

“Descubra como separar o joio do trigo – ou entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral.”(Nirlando Beirão)



Nirlando Beirão, titular absoluto no escrete do jornalismo de qualidade comprometido com o sentimento nacional, herdou do pai (dirigente empresarial de saudosa lembrança), além do nome, a inteligência arguta e a verve faiscante. Deixa isso evidenciado num saboroso texto publicado na “CartaCapital”. Intitulado “Dicionário Eleitoral (para ingênuos)”, o trabalho fornece dicas que ajudam a decifrar a semântica das urnas, ou, conforme frisa, “entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral”.

Abaixo, de forma adaptada e resumida por este desajeitado escriba, alguns “verbetes” do divertido “dicionário”. 1)Alternância de Poder – só é essencial à democracia quando o nosso adversário está no poder. 2) Aparelhamento do Estado – os adversários nomeiam apaniguados. Nós, os melhores quadros técnicos. 3) Corrupção. Os outros a praticam de forma perene. Nossos aliados cometem apenas pequenos deslizes. 4) Visão de Deus. Todos os candidatos dizem ter fé. Os mais fervorosos são aqueles que não acreditam. 5) Delação premiada. Ela só tem valor se vazada para atingir o concorrente. Se no meio do lamaçal, surgir o nome de um aliado, o correto é dizer que as denúncias são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento da delação premiada constituir também crime (...), bem esqueça.” Cenário internacional. Se uma administração aliada vai mal, a culpa é do cenário externo. Inverte-se a lógica no caso dos adversários. Se a gestão inimiga vai bem, as condições internacionais a favoreceram. 7) Marquetagem. Se o adversário sobe nas pesquisas isso se deve a ação mistificadora dos marqueteiros. Sem essa de lembrar que o nosso candidato igualmente possui um exército de especialistas em marquetagem. 8) Ano eleitoral. As ações do adversário não passam de medidas eleitoreiras. As nossas ações são decisões de governante seriamente comprometido com suas funções. 9) Velha política. Só os adversários a praticam. 10) Coligações. Promovidas por nós, deixam estampada aguda sensibilidade política, negociação de fino trato. Promovida pelos outros, denotam falta de escrúpulos, atroz barganha de princípios por conveniências.
Tamos falados.
· Dinheirama desviada para “paraísos”.
Anotem a cifra: 77 bilhões e 500 milhões de reais. Segundo a “Global Financial Integrity”, tal valor representa estimativa confiável do dinheiro ilicitamente amealhado (evasão de impostos, emissão ilegal de divisas para o exterior, atividades negociais clandestinas, corrupção e por aí vai) desviado pela bandidagem que opera no Brasil para os assim denominados “paraísos fiscais”. Com destaque especial, evidentemente, para o sistema bancário suíço, reconhecidamente um refúgio de “altíssima confiabilidade”, ao longo dos tempos, para fortunas adquiridas em inimagináveis patifarias. Essa dinheirama toda circulante fora dos controles legais equivale, presumivelmente, a 1,5% da produção econômica brasileira. Ajuda a “explicar”, no entendimento de muita gente, o motivo pelo qual o CPMF foi tão ferozmente combatido até a extinção.


Tolerância zero

“Nenhuma qualidade humana é maisintolerável na vida comum (...) que a intolerância.”(Leopardi)



Incidentes de teor antidemocrático, indicativos de gestos repudiáveis de intolerância, criaram ainda recentemente ensancha oportunosa, como diziam os antigos, para saudáveis lições de cidadania.

A suprema boçalidade de um grupo numeroso de torcedores presentes ao estádio do Grêmio, em Porto Alegre, no jogo com o Santos, desencadeou reações contra o racismo que poderão perfeitamente, daqui pra frente, desestimular a prática asquerosa da ofensa a atletas negros, tão disseminada por aí. Sabe-se que a punição aplicada pela Justiça Esportiva, implicando na exclusão do clube da Taça Brasil, foi encarada em respeitáveis ambientes jurídicos como demasiadamente severa. Mas, cá pra nós, não se pode negar à decisão o mérito de haver fixado uma advertência clara no sentido de que acaba de ser instituída a “tolerância zero” mode interromper a sequência de atos racistas em nossas arenas futebolísticas. De outro lado, a fulminante ação da polícia, identificando os responsáveis pelas agressões verbais ao atleta Aranha, também merece ser reconhecida como elemento pedagógico com relação às deploráveis manifestações racistas de intolerância em competições esportivas.

Anotamos adiante outro episódio desagradável com desfecho bastante positivo. Referimo-nos à pronta reação da Casa Civil da Presidência da República ao instaurar sindicância e apontar, sem titubeios, o autor daquelas alterações feitas, com intuitos indesculpáveis, por meio da utilização de equipamentos públicos, dos perfis de jornalistas na Wikipédia. Assim que levantada a questão, rodeada de compreensível repercussão, o Governo Federal determinou a constituição de um grupo de investigação, estipulando prazo para parecer final. O grupo atuou com rapidez, trazendo ao conhecimento da opinião pública a identidade do responsável pelo delituoso procedimento. Nota da Casa Civil esclareceu também que o servidor, afastado do cargo comissionado, responde a processo administrativo disciplinar, o que pode levar à sua demissão do serviço público.

Há mais caso a registrar, dentro dessa linha reveladora do salutar inconformismo expresso pela sociedade diante das atitudes radicais de pessoas e grupos lesivas à boa convivência humana. Numa carta aberta à Presidenta da República, estampada na primeira página dos jornais, o Grupo Santa Casa de Belo Horizonte apresentou pedido formal de desculpas por “lamentável ato de sabotagem ocorrido na Clínica de Olhos da instituição”. A sabotagem consistiu na ampla divulgação de um refrão de cunho político pejorativo à figura de Dilma Rousseff, distribuído a pacientes em material impresso com o timbre da instituição. A veemente reação provocada por esse ato radical constitui também louvável gesto de exaltação da cidadania. Pelo teor do pronunciamento, percebe-se, que os dirigentes da Santa Casa se dispõem a transmitir à opinião pública informações complementares concernentes ao detestável incidente, tão logo encerrada a sindicância aberta para a apuração dos fatos e identificação do responsável pelo malfeito.

Isso aí. A construção democrática exige das lúcidas lideranças da sociedade posicionamentos, a exemplo dos mencionados, que denotem inarredável compromisso com o sentimento nacional. O sentimento das ruas rejeita posturas radicais de toda e qualquer origem.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Fervor democrático

“A democracia é boa, principalmente
porque os outros sistemas são piores.”
(Nehru, estadista indiano)

Os que não botam fé pra valer na pujança democrática brasileira e que procuram, continuamente, azedar com atos e palpites histéricos a convivência entre contrários no campo das ideias e dos posicionamentos políticos, não estão se dando  conta dos avanços extraordinários que se operam no Brasil, a cada momento, no tocante ao aprimoramento institucional. O país vai abrindo, com firmeza, ininterruptamente, como poderoso navio quebra-gelo desbravando regiões glaciais, os caminhos que conduzem à consolidação plena do sistema de procedimentos e regras políticos pelos quais a sociedade de há muito optou.
Já os setores mais lúcidos da sociedade se regozijam com as conquistas institucionais. Mas existe também, entre os bem intencionados, gente que não percebe, ainda, como se estivesse a compartilhar das teses derrotistas dos irremovíveis céticos de plantão, que essa assimilação de normas democráticas e republicanas em nossa realidade política, feita de forma razoavelmente remansosa, sem turbulências insanáveis, confere-nos hoje lugar de invejável proeminência no plano internacional. Nem todos os países, inclua-se na relação os mais desenvolvidos, mostram-se, na verdade, capacitados a articular um processo eleitoral tão transparente, com tamanha eficiência, com cronograma executado impecavelmente, prestes a ser acompanhado de apurações velozes e inquestionáveis, como esse que a Nação brasileira vive nestes dias em atmosfera de justificável euforia. Nas manchetes do mundo inteiro as eleições brasileiras são sempre – e agora acontece outra vez - saudadas como um momento de especial grandeza cívica. Prova mais que provada do amadurecimento político da brava gente brasileira. Da força imbatível das instituições democráticas que, mercê de Deus, nos regem.
Em tempos deixados pra traz o andar das coisas não era bem esse. As eleições costumavam ser marcadas por tremores sísmicos variáveis. E nem é o caso de relembrar abalos de maiores proporções que implicaram em graves perturbações à ordem constituída. A tranquilidade comunitária ficava afetada. A economia punha-se receosa face a suposições acerca de eventuais alterações futuras de rumo. As taxas de inflação e o câmbio exprimiam expectativas nervosas. Mas isso virou passado. O cenário de agora é outro, quão diferente! Os resultados das urnas, quaisquer que sejam, são acolhidos, por todos, vencedores e perdedores, como fruto de um jogo democrático modelar e como uma projeção legítima do verdadeiro sentimento das ruas. Pela voz dos eleitores o que o pleito expressa, de forma peremptória e definitiva, é uma manifestação da própria consciência cívica nacional. Não há contestá-la. Nem questioná-la. As opções tomadas nascem da soberana vontade popular.
O regime democrático possui, a exemplo das doutrinas religiosas, seus cânones sagrados. Mesmo quando as escolhas nascidas da vontade popular possam parecer insatisfatórias a nível de meras avaliações pessoais, não se pode perder de vista que um processo político, como qualquer outra ação humana, reflete o jeito de ser humano, com seus inerentes méritos e imperfeições. A democracia absorve os traços paradoxais do comportamento humano. Não deixa de ser boa por causa disso. Até mesmo porque – relembrando Nehru e Churchill, que disseram coisas muitíssimo parecidas em momentos diferentes –, em que pesem os notórios defeitos da sistemática política, tocada pela falibilidade de seus militantes, ela sobrepuja iniludivelmente, em termos de apreço à dignidade humana e de respeito aos direitos fundamentais, todos os demais sistemas até aqui inventados com o propósito de conduzir os destinos político-administrativos da espécie.
Em suma, o processo eleitoral de agora descortina-se como marco refulgente na história republicana brasileira. Estampa, novamente, o grau elevado de sensibilidade política e o amadurecimento democrático alcançado por este nosso Brasil brasileiro. Um país na rota indesviável do progresso. Hoje, mais do que nunca, face às grandes conquistas sociais e econômicas acumuladas, preparadíssimo para a invasão do futuro.


A semântica das urnas

 “Descubra como separar o joio do trigo – ou entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral.”
(Nirlando Beirão)

Nirlando Beirão, titular absoluto no escrete do jornalismo de qualidade comprometido com o sentimento nacional, herdou do pai (dirigente empresarial de saudosa lembrança), além do nome, a inteligência arguta e a verve faiscante. Deixa isso evidenciado num saboroso texto publicado na “CartaCapital”. Intitulado “Dicionário Eleitoral (para ingênuos)”, o trabalho fornece dicas que ajudam a decifrar a semântica das urnas, ou, conforme frisa, “entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral”.
Abaixo, de forma adaptada e resumida por este desajeitado escriba, alguns “verbetes” do divertido “dicionário”. 1)Alternância de Poder – só é essencial à democracia quando o nosso adversário está no poder. 2) Aparelhamento do Estado – os adversários nomeiam apaniguados. Nós, os melhores quadros técnicos. 3) Corrupção. Os outros a praticam de forma perene. Nossos aliados cometem apenas pequenos deslizes. 4) Visão de Deus. Todos os candidatos dizem ter fé. Os mais fervorosos são aqueles que não acreditam. 5) Delação premiada. Ela só tem valor se vazada para atingir o concorrente. Se no meio do lamaçal, surgir o nome de um aliado, o correto é dizer que as denúncias são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento da delação premiada constituir também crime (...), bem esqueça.” Cenário internacional. Se uma administração aliada vai mal, a culpa é do cenário externo. Inverte-se a lógica no caso dos adversários. Se a gestão inimiga vai bem, as condições internacionais a favoreceram. 7) Marquetagem. Se o adversário sobe nas pesquisas isso se deve a ação mistificadora dos marqueteiros. Sem essa de lembrar que o nosso candidato igualmente possui um exército de especialistas em marquetagem. 8) Ano eleitoral. As ações do adversário não passam de medidas eleitoreiras. As nossas ações são decisões de governante seriamente comprometido com suas funções. 9) Velha política. Só os adversários a praticam. 10) Coligações. Promovidas por nós, deixam estampada aguda sensibilidade política, negociação de fino trato. Promovida pelos outros, denotam falta de escrúpulos, atroz barganha de princípios por conveniências.
Tamos falados.

· Dinheirama desviada para “paraísos”.
Anotem a cifra: 77 bilhões e 500 milhões de reais. Segundo a “Global Financial Integrity”, tal valor representa estimativa confiável do dinheiro ilicitamente amealhado (evasão de impostos, emissão ilegal de divisas para o exterior, atividades negociais clandestinas, corrupção e por aí vai) desviado pela bandidagem que opera no Brasil para os assim denominados “paraísos fiscais”. Com destaque especial, evidentemente, para o sistema bancário suíço, reconhecidamente um refúgio de “altíssima confiabilidade”, ao longo dos tempos, para fortunas adquiridas em inimagináveis patifarias. Essa dinheirama toda circulante fora dos controles legais equivale, presumivelmente, a 1,5% da produção econômica brasileira. Ajuda a “explicar”, no entendimento de muita gente, o motivo pelo qual o ICMF foi tão ferozmente combatido até a extinção.

Dose de cautela


 “O réu da “delação premiada” respondeu dezoito vezes “não” às perguntas dos Senadores e Deputados.”
(Dos jornais)

Num relato bem objetivo, a história trazida ao conhecimento público pode ser assim resumida: ex-executivo da Petrobras, réu confesso em crime de corrupção, optou pelo polêmico dispositivo da “delação premiada”, no processo em que se acha incurso, mirando a eventualidade de redução de pena pelos malfeitos cometidos.
Em declaração prestada sob sigilo de Justiça teria apontado, segundo a mídia, dezenas de destacados militantes políticos como enredados num suposto pagamento de propinas na estatal petrolífera. Foram citados os nomes de um Ministro de Estado, vários Governadores (entre eles, o ex-candidato à Presidência falecido no acidente aéreo que comoveu a Nação), dezenas de Parlamentares e empresários. Horas depois do depoimento secreto (pelo que se sabe, ainda inconcluso), criptografado e guardado a sete chaves por determinação judicial, as televisões, os jornais e rádios começaram a divulgar uma lista dos “personagens denunciados”, acrescida de outros mais nos dias posteriores. Foi dito que a lista teria sido passada à Justiça pelo réu. A divulgação, procedida com estardalhaço, centrou-se na indicação de nomes. Não foram reveladas as fontes das informações, nem tampouco foi fornecido qualquer dado capaz de embasar a denúncia alusiva ao propagado esquema de corrupção nas entranhas da mais importante empresa da América Latina. Chegadas as coisas a esse ponto, a CPI mista do Congresso (integrada por Senadores e Deputados), incumbida de examinar possíveis atividades irregulares na Petrobras, sentiu-se obviamente no direito e no dever de convocar o antigo executivo da empresa para dele colher um esclarecimento cabal a respeito dos candentes fatos. Convocou sessão específica para o registro de seu pronunciamento. O réu, todavia, recusou-se obstinadamente a responder às perguntas formuladas pelos Senadores e Deputados dos diferentes partidos na reunião aberta, com vasta e irrestrita cobertura da imprensa, com o fito de ouvi-lo. Disse um “não” categórico (dezoito vezes seguidas) aos representantes de um dos Poderes constituídos do país. Deixou claríssimo também que se manteria, pela mesma forma, mudo e quedo que nem penedo, caso os parlamentares deliberassem imprimir caráter secreto aos trabalhos de averiguação. Não pode permanecer sem registro nestas anotações um outro lance. Pouco tempo atrás, ouvido noutra sessão do Parlamento, que mereceu também farta cobertura midiática, o mesmíssimo réu negou enfaticamente as acusações feitas, durante horas seguidas, a respeito de procedimentos ilícitos porventura ocorridos, a qualquer tempo, no âmbito da empresa a cujos quadros pertence.
Esses, devidamente sopesados e medidos, os fatos objetivos relativos à perturbadora questão. Obvias as constatações a extrair disso tudo. Paira no ar, por conta de ações sorrateiras de bastidores, a sensação de que o intuito de semear confusão é maior do que o propósito de elucidar as coisas. Não há como ignorar também a circunstância de que o “vazamento” das noticias pertinentes ao tal “depoimento sigiloso” estão vindo a furo em instante de efervescência política. Na véspera de importantíssimo pleito eleitoral. Isso remete a uma inapelável conclusão: as pessoas que abominam a corrupção e outras mazelas da vida pública devem manter os olhares e ouvidos atentos, mas também, com toda serenidade, uma dose razoável de cautela e desconfiança quanto ao assunto. São tantos os ingredientes nebulosos dessa história, que o melhor a fazer, na linha de compreensível prudência, é aguardar do Poder Judiciário uma palavra esclarecedora que, em hora oportuna, coloque tudo em pratos limpos. A opinião pública tem todo o direito de alimentar forte expectativa em relação ao esclarecimento oficial que as autoridades competentes estão no dever de prestar.



sábado, 20 de setembro de 2014

Certeza eleitoral


“O impecável cumprimento do calendário eleitoral é amostra loquaz da pujança democrática brasileira.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Um desses manjados “profetas do catastrofismo” que enxameiam a rede midiática anotava, indoutrodia, na tevê, os “motivos” de seu mórbido ceticismo com relação ao Brasil: a “incerteza eleitoral” e os “humores” da Bolsa. Fiz-me várias vezes a pergunta: mas a que “incerteza eleitoral” estaria mesmo o cara se reportando?

A realização do pleito para Presidente da República, Governadores de Estado, Senadores, Deputados, previsto no calendário traçado pelo TSE em consonância com os ditames do regime democrático que, mercê de Deus, rege nossos soberanos destinos políticos, com data certíssima para acontecer, estará sendo por acaso ameaçada de adiamento ou cancelamento por algum motivo de força maior? A resposta categórica é não!

Paira no ar, porventura, alguma tênue dúvida quanto ao cumprimento rigoroso das diversas etapas do saudável processo eleitoral em desdobramento? Vamos conferir quais são essas etapas. Campanha em clima de vibração nas ruas, nos veículos de comunicação e nas redes sociais; votação eletrônica por escrutínio secreto, seguida da apuração instantânea dos votos, procedida de acordo com invejável esquema tecnológico criado por brasileiros, sem nada no gênero equiparável no resto do mundo; anúncio oficial dos resultados, com programação de um segundo turno para cargos majoritários se necessário; ao depois, proclamação dos eleitos, posse dos escolhidos, tudo, tudo devidamente desenhado em rigorosa conformidade com um calendário pré-definido e com regras legais amplamente consolidadas.

Se a “incerteza” deriva da circunstância de ainda não se saber, a esta altura da campanha, de modo certeiro, os nomes das pessoas que a vontade soberana das urnas indicará para conduzir os rumos deste país, seria o caso, então, de reavivar, com todo cuidado didático, para algum cidadão “tomado de dúvida”, uma informaçãozinha essencial. É assim mesmo, desse exato jeito, que as coisas rolam costumeiramente nos regimes democráticos. O cidadão, na democracia, pode intuir, pode torcer, pode apostar firme nos candidatos de sua predileção. Mas a escolha definitiva dos governantes, dos parlamentares nos devidos trinques legais, só se processa realmente com as apurações encerradas. Nos regimes totalitários o cenário é diferente. Não existe incerteza eleitoral alguma. As “eleições” são de araque. Só pra efeito público externo. Os “vencedores” são bem antes do pleito “escalados” para exercer, “naturalmente, com patriotismo e espírito públicos acendrados”, suas nobilitantes funções.

Então, vamos lá. Se os acontecimentos políticos brasileiros, nesses momentos que antecedem a grande festa cívico-eleitoral de cinco de outubro se desenrolam de maneira impecável, demonstrativa da pujança democrática da Nação, cabe retrucar: mas que diabo de incerteza eleitoral é essa que tanto apoquenta os “plantonistas do desalento”?

Temos algo também a acentuar quanto aos “humores da Bolsa”, outro item objeto de preocupação dos pregoeiros do pessimismo. São constatações que ajudam na dissipação desses infundados temores suscitados a propósito da realidade brasileira. Neste ano de 2014, até meados de setembro, o registro de alta nas operações roçava os 14 por cento. Tal pontuação é considerada, mesmo por analistas ranhetas, bastante satisfatória em termos globais.

Tem mais: quem se der ao trabalho de consultar os números que falam das chamadas operações bursáteis vai se deparar, indesviavelmente, com a informação de que os resultados positivos acumulados, pelas mais de duzentas e cinquenta empresas de capital aberto que operam na Bovespa, alcançaram de janeiro até aqui, índice (nada desprezível) superior a 50 por cento. E aí José?

Vamos resumir, então, a ópera: malgrado o insosso papo dos incorrigíveis “céticos de plantão”, do ponto de vista institucional democrático não existe “incerteza eleitoral” alguma a deplorar. Apenas certeza eleitoral a festejar.



Fla-Flu político-econômico

“Graças a Deus ainda estamos quase no pleno emprego e não vemos, como em outros países, uma juventude desesperançada.”
(Murilo Ferreira, presidente da Vale)

O presidente da Vale, mineiro de Uberaba Murilo Ferreira, concedeu à “Folha de São Paulo” entrevista em que traça lúcido diagnóstico da conjuntura política e econômica brasileira. Diz coisas que se colocam, tanto quando se percebe pelo tom rotineiro do noticiário nosso de cada dia, em contraposição com os registros e vaticínios de desalento e pessimismo propagados, com enervante frequência, por não poucos personagens influentes do empresariado e jornalismo.

Convido o leitor a conhecer algumas das partes mais frisantes do interessante depoimento.

“Folha: O Brasil está crescendo pouco por falta de investimentos. Por que as empresas não investem?
Murilo Ferreira – Não concordo com essa afirmação. A Vale está fazendo o projeto mais intensivo em capital de sua história, em Carajás, São US$ 19,5 bilhões.

Os números da Vale são sempre superlativos. No geral, as empresas brasileiras não estão investindo.
No Brasil, não prestamos atenção ao mercado internacional. O crescimento mundial está muito abaixo do esperado. O problema se tornou mais agudo depois da crise europeia de 2011. O México e o Chile vêm avançando menos. Até 2016, não haverá mais indústria automobilística na Austrália. Mesmo na Ásia, só sinto um certo ânimo no Japão. Vivemos um período muito diferente daquele em que a economia mundial crescia 4,4% e todos comiam o mamão com açúcar da globalização. Agora chegou a vez das frutas amargas. No Brasil, as pessoas não querem enxergar isso por conta da disputa eleitoral.

O senhor acha que a disputa eleitoral aumenta o pessimismo?
Claramente. Graças a Deus ainda estamos quase no pleno emprego e não vemos, como em outros países, uma juventude desesperançada. O agronegócio é show de bola e tem uma produtividade superior à americana. Mineração e serviços são pontos fora da curva. A amargura está concentrada no setor industrial. Lamento muito, mas é São Paulo que está pagando uma conta mais alta do que outros lugares do Brasil.

Mas os empresários não reclamam da crise global. Eles dizem que a culpa é do governo.
Certamente eles são capazes de justificar suas queixas do governo e devem ter razão em muitos pontos. Mas existem alguns setores – não gostaria de polemizar citando um ou outro – em que falta tecnologia e inovação.


Por que a indústria perdeu competitividade?
Temos que fazer uma análise rigorosa. Será que o empresariado de São Paulo tem o mesmo entusiasmo do pessoal do cerrado? Será que a nova geração tem o mesmo entusiasmo para investir em tecnologia e inovação? Quando chego ao Japão e à Coreia, fico preocupado porque se estabeleceu um “gap” muito grande em relação ao Brasil. Não sei se os empresários não se atualizaram ou não estão motivados, mas essa é a realidade.

O relacionamento entre Dilma e o empresariado hoje é ruim. Se ela for reeleita, como refazer essa ponte?
Os dois lados precisam procurar o interesse do Brasil. Não podemos continuar esse Fla-Flu politico, que é estimulado por São Paulo, de onde vêm os partidos que disputam a eleição, PT e PSDB. A politica em São Paulo está muito rancorosa. É importante restabelecer as pontes para governar depois. Adversários têm ideias diferentes, mas não são inimigos.

O PT diz que o mercado financeiro faz terrorismo ao derrubar a Bolsa quando a presidente sobe nas pesquisas. O que o senhor acha?
De novo, isso é fruto da cultura política de São Paulo. Esse Fla-Flu permanente é irradiado da Faria Lima (avenida da capital paulista onde estão os grandes bancos de investimento)”.

Estas declarações do presidente da Vale, segunda maior empresa brasileira, no ramo da mineração a maior do mundo, oferecem um retrato da realidade social e econômica brasileira totalmente diferenciado daquele que insistentemente nos tem sido mostrado, sobretudo nestes momentos pré-eleitorais, pelos “profetas do desalento” e “cartomantes do pessimismo”. Esses aí, apoderados de considerável espaço midiático, “garantem” que o Brasil vem rolando, de há muito, ribanceira abaixo. O bom senso aconselha a ficar com o ponto de vista do Murilo e não abrir.


Um espetáculo memorável

“O público aplaudiu, de pé, os artistas, por vários minutos seguidos, uma coisa impressionante.”
(Registro da espectadora Mariângela Palmeira, na saída do teatro)

Os apreciadores de jazz foram presenteados, dias atrás, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, com um espetáculo arrebatante. As aclamações do público que lotou as dependências do majestoso teatro, ao final da bela apresentação vocal e instrumental produzida pelo “Caffeinne Trio” e a “Big Band”, foram de intensidade tal que os artistas não tiveram como não acrescentar mais três interpretações ao programa anunciado. E, a tomar por base a disposição dos espectadores que, de pé, os aplaudiam, outros números teriam sido executados dentro do mesmo clima de entusiasmo caso não houvesse uma limitação regimental de tempo para a apresentação. O “Caffeinne Trio”, integrado por três esplêndidas cantoras – Sylvia Klein, Renata Vanucci e Carô Rennó – mostrou novamente, como já havia feito na “Virada Cultural”,  a pujança e riqueza de sua arte, revelando-se capacitado para voos mais ousados em sua trajetória que já consigna uma série de recitais exitosos no exterior, meses atrás na Alemanha. O “Big Band Palácio das Artes”, comandado pelo consagrado maestro e arranjador Nestor Lombida, ex-regente da Orquestra de Câmara da Televisão Cubana, professor de Arranjo e Improvisação no Centro de Formação Artística da Fundação Clovis Salgado, é composto de instrumentistas do melhor quilate. Os sons são produzidos por piano, trompetes, contrabaixo, trombones, bateria, guitarra, percussão e saxofones. A junção dos dois grupos se fez em torno de um belíssimo concerto que combinou o estilo dos trios femininos famosos das décadas de 30 a 50 com o jazz e musica instrumental, que são marcas da banda. O repertório utilizado trouxe peças de famosos compositores de jazz. Inteirei-me, após o espetáculo, do propósito dos artistas de montarem, brevemente, um recital para turnê internacional. Pelo que foi mostrado, não fica difícil vaticinar sucesso estrondoso à vista.

Mais espaço para cultural nacional. A Lei 12.485, em vigor desde 2011, estabeleceu marco regulatório para a televisão, criando a obrigatoriedade da veiculação diária de 3 horas e 30 minutos de conteúdo nacional nas programações. A medida representou estimulante apoio à expansão da produção artística voltada para o setor. Especialistas na matéria, empenhados em fazer da televisão um instrumento mais bem identificado com a cultura e o sentimento nacional, defendem a ampliação do espaço mínimo estipulado para os conteúdos audiovisuais brasileiros. Por que não 50 por cento?  - perguntam. Existe talento e criatividade de sobra na praça para tocar vitoriosamente um esquema assim.  Noutros países do mundo desenvolvido vigoram há tempos exigências de veiculação de produções nacionais nessa base do meio a meio.


Um senhor entrevistador. A Rede Globo de Televisão dispõe em suas competentes fileiras o cara certo para desfazer a desfavorável impressão deixada pelas entrevistas feitas no “Jornal Nacional” com os presidenciáveis. O nome dele é Roberto D’Ávila que, semanalmente, na “Globo News”, dá lições magistrais sobre como extrair de um entrevistado, com serenidade e segurança profissionais, revelações e informações  que ao espectador interessa saber.

Interpretações eletrizantes de clássicos brasileiros

Amigos diletos encaminharam-me um vídeo contendo preciosidades musicais que tenho o prazer de compartilhar com os leitores deste blog. Trata-se de uma sequencia de clássicos de nossa MPB, com destaque para criações de Tom Jobim e Ary Barroso, interpretados pelo "Perpetuum Jazzile", um coral esloveno do melhor nível. Deleitem-se com o "Vou te contar" e "Aquarela do Brasil" e as outras melodias interpretadas pelo grupo.




sábado, 13 de setembro de 2014

Horror demais



Cesar Vanucci *

“Dizei-me vós, Senhor Deus, se é mentira ou verdade tanto horror perante os céus.”
(Extraído de um poema de Castro Alves)

A sandice humana não para de adicionar às aflições cotidianas da coletividade informações contundentes e cruéis. O noticiário nosso de cada dia é um difusor eficientíssimo da banalização da violência. Dá pra perceber que, neste mundo de Deus onde o diabo costuma fincar enclaves, os extraordinários avanços tecnológicos euforicamente celebrados de nada têm servido para conter os atos de barbárie praticados em circunstâncias as mais impensáveis. Existe algo sempre aterrorizante a nos espreitar. E os limites da ferocidade são continuamente ultrapassados.

Nos últimos dias, deparamo-nos com três cenas de difícil comparação consideradas outras situações indesejáveis já vividas, pelas características inusitadamente brutais de que se revestiram. Assistimos, primeiramente, na tevê aquelas brutais imagens de uma rebelião de presidiários em Cascavel, Paraná, onde aparecem os amotinados degolando desafetos entre desditosos companheiros de reclusão.

Logo em seguida, vimo-nos colocados diante daquele tétrico vídeo distribuído por extremistas do tal califado islamita que se apoderou de porções territoriais da Síria e Iraque. Nele, criminoso encapuzado, pertencente a grupo que a própria Al Qaeda considera, pra estupefação geral, exageradamente radical, exibindo ameaçadora adaga, decreta o veredicto de morte por decapitação de um jornalista tomado como refém. E anuncia que as “represálias” selvagens não vão parar por aí.

Pouco depois, nos confins da África esquecida dos homens e, ao que parece, também de Deus, na Libéria, epicentro da epidemia de ebola, acompanhamos, perplexos, caçada impiedosa a uma “fera” acuada numa feira de alimentos. A presa, Deus do céu, era um ser humano com o desespero claramente estampado na face. Um fugitivo do campo de concentração em que vêm sendo confinados, sem qualquer espécie de ajuda humanitária, pra morte certa, indefesas vítimas da pertinaz doença. O infeliz, com um pedaço de madeira na mão, utilizado para defender-se, procurava, angustiado, de tenda em tenda, alimentos para sobreviver. Ao redor uma multidão ululante, tomada pelo pânico, esperava ansiosa pela providencial chegada da equipe incumbida de laçá-lo e devolvê-lo ao local de seu degredo. Junto com o turbilhão de emoções levantado pelo incidente, perguntas inevitáveis afloraram, com toda certeza, na mente dos milhões de espectadores que, traumatizados, testemunharam o desenrolar dos fatos.


Por qual razão a comunidade das nações não desvia, imediatamente, para aqueles confundós da África acossada pelo ebola, parte mínima dos enormes contingentes humanos e dos fabulosos recursos concentrados em esforços bélicos, espalhados por tantos cantos, para enfrentar o drama dessa avassaladora epidemia? Se já sabida a existência de vacina capaz de debelar o mal pela raiz, vacina essa aplicada com êxito em pacientes levados de volta das regiões afetadas para seus pagos natais, por que cargas d’água, então, santo Deus, em nome da solidariedade humana e dos valores éticos e morais, não se cogitar, com a urgência exigida, da pronta produção e remessa ágil dos quantitativos necessários do medicamento aos países atingidos pela impiedosa enfermidade? E como uma tragédia acaba sempre puxando a lembrança de outras tragédias, por qual motivo os clamores do secular sofrimento africano não são nunca acolhidos com presteza e boa vontade pela comunidade internacional?


Tópicos do momento eleitoral

“As insinuações publicadas de forma genérica e sem apresentar evidências (...)
não podem ser tomadas como denúncia formal nem fundamentada”.
(Deputado Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara)

Seguinte: réu confesso em caso de corrupção sob investigação judicial resolve, de repente, na véspera eleitoral, utilizar o controvertido instrumento da “delação premiada”. Aciona o gatilho de sua metralhadora giratória, passando a alvejar personagens influentes - Ministro de Estado, Governadores, parlamentares, empreiteiros -, com ênfase para elementos ligados às duas candidaturas presidenciais mais bem posicionadas nas pesquisas. Parte da grande mídia ocupa-se do episódio de forma estardalhante. Mas não se dá ao trabalho de fornecer, como seria de se esperar, maiores detalhes dos acontecimentos. Deixa de arrolar documentos probatórios, de revelar as fontes de informação e de indicar os valores das alegadas propinas que teriam sido destinadas às dezenas de pessoas da lista de nomes apontadas nas manchetes. O noticiário diz que o depoimento do réu foi tomado em segredo de justiça, devidamente criptografado e guardado a sete chaves. Em momento algum, contudo, é esclarecido como, apesar de tantas cautelas, ocorreu o vazamento da relação de nomes clandestinamente entregue, para maciça divulgação, aos órgãos de comunicação social. Registra-se, ao mesmo tempo, estapafúrdia declaração, atribuída ao réu delator. As “denuncias” seriam de maneira – ora, veja, pois! – a impedir a realização das eleições. Isto tudo posto, o que o bom senso e a prudência recomendam ao cidadão comum, naturalmente ávido por ações de combate eficaz à corrupção e, também, à demagogia, levadas em conta as circunstâncias assinaladas, é que se esforce por manter devidamente sintonizados, no acompanhamento atento dos fatos, os aparelhos de percepção pessoal. Sem deixar de ligar bem ligado, por via das dúvidas, o “desconfiômetro”.

A candidata Marina. Marina Silva tem carisma. Obstinada, irradia simpatia. Lembra, de certo modo, em não poucos momentos, Lula no apogeu da popularidade. Tal associação de imagens serve para consolidar e até mesmo expandir seu poder de sedução eleitoral. Mas, de outra parte, noutros instantes, Marina lembra também um pouco Jânio Quadros, com aquela sua célebre retórica oca e dilacerantes contradições que marcaram efêmera e improdutiva passagem pelo governo. Recorda, um pouco também, Fernando Collor, em sua farsesca postura de “bom mocismo” naquela fase governamental em que a Nação se traumatizou com uma penca de projetos e propostas de araque, pretensamente vanguardeiros em matéria de gestão publica. Seja como for, uma coisa parece certa: a candidata do PSB e da Rede está firme no páreo presidencial.

 “Manchetômetro”. Marcos Coimbra, dirigente da “Vox Poppuli”, oferece dica intrigante em sua coluna na “CartaCapital”. Reporta-se a uma ferramenta indicativa do papel da mídia na campanha eleitoral. O Instituto de Estudos Sociais da Universidade do Rio de Janeiro botou no ar algo apelidado de “manchetômetro”. Um site que acompanha a cobertura da eleição procedida pela chamada “grande mídia”, assim compreendidos jornais de grande circulação no Rio e em São Paulo e o “Jornal Nacional” na televisão. Os dados divulgados são bastante curiosos. Do inicio do ano até meados de agosto, 275 “reportagens de capa” foram dedicadas aos principais candidatos à presidência. Delas, 210 alusivas a Dilma, 15 “favoráveis” e 195 “desfavoráveis”, ou seja, 93 por cento de abordagens negativas. Para os demais candidatos sobraram 65 textos (38 para Aécio e 27 para Campos). No caso do candidato tucano, os textos com foco positivo e foco negativo foram pau a pau. No caso do ex-governador pernambucano, prematuramente afastado da disputa, não houve menção a percentuais “pro” e “contra”.

Tópicos do momento eleitoral (II)

“Votar em Adelmo é votar na decência e no fim da corrupção”.
(Frei Beto)

“Fosse eu eleitor em Minas, votaria de novo em Adelmo Leão para deputado federal. Ele é ético, combativo, comprometido com os direitos dos mais pobres. Votar em Adelmo é votar na decência e no fim da corrupção na política.” Sabem de quem a autoria da frase? De ninguém mais, ninguém menos do que Frei Betto, titular do primeiro time na cena cultural brasileira, nome que dispensa qualquer tipo de apresentação. Comungando da opinião do grande pensador, passo ainda aos distintos leitores a informação que Adelmo Leão, médico, decano do Parlamento Mineiro (seis legislaturas consecutivas) é candidato a deputado federal nas próximas eleições. Vale a pena conhecer seu cintilante currículo.

As oscilações da Bolsa. A esmagadora maioria das pessoas – poupadores das camadas populares – recusa-se a fazer aplicações no mercado de ações pelo fato, primeiramente, de intuir que o jogo de manipulação promovido pelos megaespeculadores é bastante pesado. E, “segundamente”, por considerar despropositadas, simplesmente ridículas, as alegações amiúde registradas pelos “especialistas” quando se referem às causas das oscilações nos valores dos papéis. Como poderá alguém, provido de razoável discernimento e bom senso, levar a sério a babaquice extremada de pretensos analistas de negócios, como, por exemplo, ficou evidenciado nas explicações dadas sobre recuo no pregão ocorrido no dia 5 de setembro passado?
Um cara, com panca de porta – voz do esquema, deitou falação sobre o acontecido, proclamando com embriagante convicção que “os investidores se frustraram com a divulgação de pesquisas eleitorais indicativas da recuperação” de uma das candidatas à Presidência. E que, face a isso, “os resultados dos levantamentos abriram brecha para que o mercado vendesse ações e embolsasse os lucros acumulados nas últimas semanas.” Onde já se viu? Fica difícil desgarrar esses “especialistas” em operações bursáteis da imagem de galhofeiros deslumbrados. Gente que se diverte à pamparra com as explicações fajutas que inventam para a patuleia ignara. Patuleia essa, por sinal, que da Bolsa, prevenidamente, por essas e por outras, gosta de manter sempre considerável distanciamento.

A entrevista. Com Marina Silva aconteceu o mesmo. Os entrevistadores do “Jornal Nacional”, como já ocorrera com os outros presidenciáveis, comportaram-se (em entrevista com duração de 15 minutos) como se fossem agentes policiais inquirindo suspeito de atos ilícitos. Um desrespeito ao entrevistado e aos telespectadores!  Fica claro que, numa entrevista, o autor da pergunta desfrute, no exercício profissional, de todo direito de pedir explicações sobre questões de interesse público, mesmo que o assunto focado possa, eventualmente, desagradar o entrevistado.
 Mas nada justifica perguntas formuladas em tom inquisitorial carregado de suspeição, passando a impressão de que os entrevistados, nos casos específicos comentados, pretendentes ao mais elevado cargo da Nação, estejam ali, supostamente, como réus. Concluindo: as quatro entrevistas, feitas dentro de tão despropositados moldes, nada contribuíram para que o público ficasse inteirado, um tiquinho que seja, das plataformas de governo de cada candidato.

A SAGA LANDELL MOURA

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