sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Cesar Vanucci *
“Os caminhos dos inventores são geralmente
inçados de incompreensões e frustrações.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)
Está aqui revelação que vai pegar muita gente de surpresa. Um brasileiro, o inventor da máquina de escrever. Não se trata de revelação brotada de uma interpretação chauvinista da história, com apelação para elementos emocionais mode suprir a carência de argumentos fatuais. Nada disso. Pesquisa envolvendo mais de um especialista proclama de maneira irrespondível que a paternidade da invenção pertence a um brasileiro ilustre, cujo nome é desconhecido da grande maioria de seus patrícios, o sacerdote paraibano Francisco João de Azevedo. O historiador Miguel Milano, no livro “Heróis brasileiros”, dá notícia pormenorizada de toda a história.
A trajetória deste sábio, em quem alguns identificam um símbolo permanentemente atual do inventor brasileiro, com sua obstinação criadora e pesada carga de frustrações, vai ser aqui contada. Valha o relato como contribuição para que se faça conhecida uma rica afirmação da inteligência humana, deploravelmente encoberta nas névoas de injusto esquecimento.
De origem humilde, Francisco João de Azevedo nasceu em Paraíba, mais tarde João Pessoa, a 4 de março de 1814. O pai, um marinheiro português, faleceu à época em que o filho completava 9 anos. Francisco tirou o melhor proveito do curso primário. Como não existisse curso secundário em sua terra natal, chegou à adolescência ocupado em trabalhos serviçais, de onde retirava recursos minguados para a subsistência. Em 1832, quando contava 17 anos, foi dos primeiros a matricular-se no primeiro curso secundário implantado na Paraíba. Numa visita pastoral do bispo da Diocese, Azevedo foi convencido de sua inclinação religiosa, obtendo matrícula no Seminário de Olinda. Em 1838 foi ordenado, transferindo-se para Recife, onde se consagrou a intensa atividade apostólica, ao magistério e às invenções.
Em 1841, fundou a Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais. A instituição seria, mais tarde, reconhecida de utilidade pública pelo Governo Imperial, atraindo ajuda oficial. O Imperador Pedro II visitou as instalações, doando à obra um conto de réis.
As atenções do sacerdote estavam voltadas, obsessivamente, à difusão de conhecimentos profissionais em todas as camadas da população, de modo a acabar com a aversão de muitos, notadamente nas classes mais abastadas, pelos trabalhos manuais. Nesse afã, o estabelecimento introduziu o ensaio das ciências aplicadas às artes, incentivando jovens que não possuíam vocação para as carreiras liberais e que para elas eram conduzidos por modismo, comodismo, vontade paterna, a que se ocupassem de adestramento profissional compatível com seus reais pendores. Procurou também colocar sob permanente foco de interesse a importância do trabalho mecânico, como instrumento de ajuda ao homem na conquista de conforto e bem estar.
Responsável, ele próprio, pelas cadeiras de geometria e desenho, Azevedo ministrava aulas práticas que lhe valeram, rapidamente, justo renome nos círculos estudantis, em que pese a glacial indiferença, quando não escancarada hostilidade, que a sua ação de educador provocava junto a setores ortodoxos do magistério e lideranças políticas.
A proposta de ensino que apresentava como alternativa aos moços de Pernambuco seria enriquecida, adiante, com aulas de mecânica que atraiam alunos de todas as classes. O padre foi também professor no Arsenal de Guerra de Pernambuco, no Ginásio Pernambucano e no Colégio das Artes, que funcionava anexo à Faculdade de Direito de Recife.
Ao tempo em que atuou no Arsenal de Guerra, revelou sua condição de inventor. O historiador Miguel Milano assinala que algumas das invenções foram consideradas, na época, notáveis feitos. Mas nem todos os inventos, lamentavelmente, chegaram inteiros ao conhecimento público. Existem referências vagas, com base em fragmentos de informações, a três realizações que exercitaram febrilmente a imaginação criadora do sacerdote: um veículo para o mar, “acionado pela força das ondas”. “Um veículo para a terra,” movido pelas correntes aéreas. Uma máquina para traçar elipses, que obteve medalha de prata na exposição provincial de 1876.
Na sequência, falaremos da principal invenção do Padre Azevedo, a máquina de escrever.
A história da máquina de escrever
“... chegou a fabricar não um,
mas diversos modelos da máquina.”
(Miguel Milano, historiador)
A história da invenção da máquina de escrever, atribuída a Padre Azevedo, um sacerdote paraibano, no século 19 (anos 60), é retomada aqui.
Com a palavra o historiador Miguel Milano. “Um único dos inventos de Padre Azevedo apresenta farta documentação, pacientemente coligida pelo dr. J.C. de Ataliba Nogueira, em seu livro “Um inventor brasileiro” – a máquina de escrever que tão grandes serviços presta hoje à humanidade.
Inspirou-o o receptor telegráfico de Hughes, construído em 1855, que não passa de uma máquina que escreve à distância. Estudioso da física, fixando-se no maravilhoso invento de Morse, aperfeiçoado por Hughes, o padre Azevedo concluiu ser possível aplicar os princípios contidos no invento do telégrafo elétrico na construção de uma máquina de escrever, até então inexistente (...). Idealizada a máquina, o padre Azevedo construiu, com suas próprias mãos, peça por peça, e, modificando-as, aperfeiçoando-as e introduzindo-lhes diversas inovações, chegou a fabricar não um, mas diversos modelos. Culto, jovial, modesto e cortês, todas estas qualidades eram constantemente comprometidas pelo acanhamento e timidez com que se apresentava às autoridades e ao público. Devem-se a isso a perda de quase todos os seus inventos e a sua quase apagada projeção no cenário dos grandes inventores. Não fosse a interferência de amigos, até o seu primado na máquina de escrever teria ficado sem qualquer comprovação”.
O Governo Imperial comprometeu-se com a Inglaterra a participar da Exposição Internacional de Londres de 1862. Preparatórias do grande evento, realizaram-se no Brasil várias exposições regionais, uma delas em Pernambuco. Entre os objetos exibidos figurou a máquina de escrever de Azevedo. O instrumental foi desde logo cercado da maior curiosidade popular. Os jornais foram profusos nos aplausos ao talentoso autor e seu engenhoso invento. O catálogo da exposição, de novembro de 1861, o “Jornal do Recife”, de 16 e 23 do mesmo mês e ano, o “Diário de Pernambuco”, de 25 de novembro, e o relatório do governo estadual, de 20 de março de 1862, comentam com riqueza de detalhes o acontecido.
A máquina concebida pelo padre foi parar na Exposição Nacional, que em dezembro de 1861 reuniu os melhores trabalhos exibidos nas mostras provinciais. Não deu outra: foi premiada com a medalha de ouro, pessoalmente entregue ao sacerdote por Pedro II. O relator da comissão julgadora, engenheiro Betencourt da Silva, ao definir-se pela premiação, salientou que “entre os objetos apresentados à apreciação pública na primeira exposição geral dos nossos produtos naturais, artísticos e industriais (...) cumpre-nos apresentar em primeiro lugar a máquina do senhor reverendo padre Francisco João de Azevedo, da província de Pernambuco, ao qual se conferiu, pela invenção, uma medalha de ouro”. E, mais adiante, depois de uma descrição técnica do aparelho: “Seja qual for o número de letras de que se compuser uma sílaba, será sempre possível formar todas elas de uma vez, com uma só posição instantânea, do mesmo modo porque, no piano, se produz um acorde, particularmente esta que, segundo assevera o autor, ministra o meio de escrever todas as palavras a um tempo igual àquele em que são elas pronunciadas”.
E na conclusão: “A prática se encarregará de provar as vantagens reais desta invenção, incontestavelmente digna do prêmio com que o júri a distinguiu”.
O que vem depois toca as raias do absurdo. Padre Azevedo experimenta amarga frustração. Apesar de aquinhoado com a medalha de ouro, o aparelho não é levado à Exposição Internacional. Os organizadores do mostruário brasileiro não se deram ao trabalho de levar sequer uma simples gravura, um desenho, um modelo reduzido da peça.
O padre Azevedo, por sua vez, não dispunha de recursos financeiros e não tinha como aperfeiçoar os trabalhos concebidos pelo seu cérebro privilegiado. A instâncias de amigos resolveu recorrer à Assembléia Provincial em busca de ajuda. A lei orçamentária nº 1.061, de 13 de junho de 1872, autorizou a concessão do auxílio postulado. O artigo 31 da lei dizia: “Fica o presidente da Província autorizado a mandar adiantar ao padre Francisco João de Azevedo a quantia de 3:000$000 mediante fiança, para o aperfeiçoamento e construção das máquinas de sua invenção; ficando obrigado, para indenizar este empréstimo, a apanhar os debates desta Assembléia, durante um ano (...)”.
O curioso auxílio, composto de cláusulas de difícil cumprimento, nunca se materializou. O inventor ganhou, mas não levou. Em 1873, na “Revista Ilustrada”, o jornalista Angelo Agostini, criticando a “ajuda oficial”, chegou mesmo a escrever: “Se o inventor da máquina de escrever pudesse dispor das fianças e garantias que a Assembléia de Pernambuco dele exigiu, então não precisava pedir-lhe auxílio.”
No terceiro e último artigo sobre Padre Azevedo relataremos as circunstâncias em que se forjou o esbulho que dele retirou a paternidade da portentosa invenção.
Como se deu o esbulho
“Vi-a funcionar.”
(Escritor Silvio Romero, falando da
máquina de escrever de Padre Azevedo)
Arrematamos, hoje, a história do inventor brasileiro Padre Azevedo e de sua fabulosa invenção, a máquina de escrever.
“Vi-a funcionar, dando trechos de jornal para serem transcritos e ditando estrofes ou trechos orais quaisquer.” O depoimento é de ninguém nada mais nada menos que Silvio Romero. O grande escritor residiu em Pernambuco de 1868 a 1876. Atestou haver visto a máquina de escrever “admiravelmente feita de madeira, em casa do padre e exposta ao público.”
Outras personalidades ilustres registraram também para a história a impressão que lhes causou o invento. Caso do então presidente da Intendência do Rio de Janeiro, médico José Félix da Cunha Menezes, cujo depoimento é citado com destaque pelo historiador Miguel Milano.
Consuma-se, em seguida, o grande golpe que despoja Padre Azevedo de sua invenção. Entre os visitantes da exposição permanente que o Padre Azevedo armou em torno da máquina de escrever por ele inventada figurava um cidadão de nacionalidade estadunidense, que se confessou extasiado com o que viu.
O gringo resolveu fazer uma “tentadora” proposta ao inventor: levaria a máquina para os Estados Unidos ou Europa, encarregando-se de todas as despesas de viagem, fundição e construção. Garantir-lhe-ia, em troca, participação em todos os negócios comerciais que daí pudessem originar. Manifestou, interesse em conhecer a fundo o aparelho, inteirando-se do mecanismo e funcionamento.
Apesar de advertido por amigos, que não escondiam apreensões e desconfianças, o padre Azevedo permitiu ao dito cujo acesso às informações que pacientemente catalogara sobre o importante invento. Foi mais longe: movido por excessiva boa fé, atendeu ao pedido do visitante de que pudesse levar o modelo para os Estados Unidos, em absoluta confiança, sob o compromisso verbal de assegurar-lhe as devidas compensações.
Foi assim que o protótipo da máquina bolada por padre Azevedo saiu do país. O estrangeiro ousado deixou em poder do inventor um documento sem qualquer valor. Mais tarde, a máquina foi devolvida, desfalcada de peças fundamentais. O grande golpe acabou se consumando. Não demorou muito e a máquina de escrever explodiu como novidade no mercado. O inventor, um tal de Cristóvão Sholes, associado a uma outra pessoa, cedeu os direitos de “sua invenção” à firma E. Remington & Sons, em 1873.
O biógrafo Miguel Milano retoma a palavra: “O simples confronto entre as duas máquinas não deixou a menor dúvida de que se tratava de uma mesma máquina. Nem o pedal lhe foi suprimido, apesar de perfeitamente dispensável.” O “Comércio do Porto”, de Portugal, em notícia saída em 1876 sobre o lançamento da máquina de escrever, se encarregaria de tornar novamente manifesta a espoliação de que o sábio brasileiro se tornou vítima. A notícia, extraída de um impresso fornecido pelos fabricantes, não passou de uma reprodução literal do relatório da Exposição Nacional de 1861.
Miguel Milano, nos comentários sobre a usurpação de direitos de que foi vítima ingênua o padre Azevedo, faz questão de assinalar que, antes do inventor brasileiro, outras pessoas, em diferentes partes do mundo, se dedicaram à elaboração de instrumento que registrasse mecanicamente as palavras. Entre outros, Henry Mill, na Inglaterra; José Ravizza, na Itália; Pedro Focaut, no França; J.H. Cooper, nos Estados Unidos. Acontece, entretanto, que nenhum deles conseguiu chegar, nas tentativas efetuadas, ao modelo simples, funcional, prático, em reais condições econômicas de reprodução, idealizado pelo paraibano genial.
Paralelamente às decepções acumuladas na carreira de inventor, padre Azevedo experimentou, noutras áreas, amargos revezes. Membro da maçonaria, foi excomungado e suspenso das ordens religiosas por algum tempo. Em 1879, restituíram-lhe as ordens e levantou-se a excomunhão. Um ano depois, já de volta ao seu torrão natal, Padre Azevedo faleceu vítima de ataque de paralisia.
Os restos mortais do inventor foram recolhidos ao cemitério de Boa Esperança.
Comentário de seu já mencionado biógrafo: “Digno por todos os títulos de ser apontado ao reconhecimento da humanidade em geral e dos brasileiros em particular, nada se fez até hoje que perpetue a memória do grande paraibano”.
* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Fotografia, invento brasileiro
Cesar Vanucci *
“Não disputarei descobertas a ninguém...”.
(Hércules Florence, num comunicado feito em Campinas, em 1834)
Na história das invenções não são raros casos assim. A um mesmo tempo, como se a idéia, antes de aflorada, estivesse a germinar no inconsciente coletivo, uma invenção, um processo de criação ou aperfeiçoamento técnico, que acabam tendo, adiante, paternidades diferentes, são anunciados em lugares distanciados entre si. Isso sem que os responsáveis pelas realizações se liguem por vínculos de qualquer ordem, como, para exemplificar, a uma pesquisa desenvolvida em comum. Aconteceu desse jeito, também, com a fotografia, esta infalível testemunha ocular da história, universalizada em proporções inimagináveis com os avanços eletrônicos destes tempos modernos.
A crônica do invento assinala que, praticamente à mesma época em que Daguerre (1893) maravilhava os franceses com a notável façanha de fazer imprimir aspectos da realidade cotidiana numa lâmina de metal, após rápida exposição à luz e alguns poucos minutos de manipulação numa câmara escura, um outro francês, imigrante radicado em Campinas, São Paulo, conseguia captar impressionantes imagens com a ajuda de câmara de fabricação caseira. Aliás, a bem da verdade, a proeza de Hércules Florence, o imigrante morador da Vila São Carlos (Campinas), pelo que se conclui da documentação histórica disponível, reproduzida esplendidamente em enciclopédia da Editora Abril, antecedeu em cerca de seis anos o lançamento do chamado daguerreótipo, denominação pelo qual ficou mundialmente popularizado o invento de Louis Jacques Mandé Daguerre.
As experiências a que Florence se consagrou, limitadas em suas repercussões ao ambiente provinciano de pequena faixa territorial de um país-continente, desprovido na época de estrutura de comunicação digna de nota, pouco difundido no plano internacional, chegaram ao conhecimento popular em 1833.
Nas pesquisas foram empregadas substâncias como nitrato de prata e o cloreto de ouro. A fixação de imagens em papel viabilizou-se com o auxílio de urina e amoníaco cáustico. Foi em 1834, janeiro, que Florence batizou sua descoberta, utilizando-se de construção idiomática muito ao sabor da época: photografie. Os jornais brasileiros, ao anunciarem o aparecimento do daguerreótipo, procuraram ouvir o imigrante inventor que morava em Campinas. No comunicado que distribuiu, Hércules Florence fixou uma posição que concorreria, no futuro, de algum modo, para que o seu nome se mantivesse encoberto pelas névoas do esquecimento público: “Não disputarei descobertas a ninguém, porque uma mesma idéia pode vir, ao mesmo tempo, a duas pessoas.”
A origem primeira da arte fotográfica, hoje tão poderosamente incorporada ao nosso trabalho, ao nosso lazer, a todas as atividades humanas, perde-se no fundo dos tempos. As primeiras notícias sobre um conhecimento rudimentar da matéria fizeram-se conhecidas no século IV A. C. Sabia-se, então, que a luz solar, penetrando em quarto escuro através de orifício, projeta nas paredes imagens do exterior. No século XI, os árabes empregaram, dentro de critérios práticos, para observação dos eclipses, esse método primitivo de se fazer imagens, já então conhecido pelo nome de câmara escura.
Depois de lapso de tempo relativamente amplo, em que esteve praticamente à margem de quaisquer cogitações científicas, o processo praticamente foi retomado, no século XVI, por Leonardo Da Vinci. O fenômeno da captação de imagens encontrou neste genial homem do mundo um sopro renovador.
“A imagem de um objeto iluminado pelo sol penetra num compartimento escuro através de um orifício. Se colocarmos um papel branco do lado de dentro do compartimento, a alguma distância do orifício, veremos sobre o papel a imagem com suas próprias cores, porém invertida, devido à intercessão dos raios solares.” Estabelecia-se, naquele momento, três séculos antes que surgisse a primeira fotografia de Hércules Florence aqui no Brasil, um princípio básico da máquina de tirar retratos.
Falaremos, na sequência, dos desdobramentos objetivos da descoberta de Da Vinci.
A primeira fotografia
“Uma imagem vale mais que mil palavras.”
(Ditado chinês)
Interrompemos nossa narrativa no capítulo passado assinalando que um experimento do genial Leonardo da Vinci, três séculos antes que surgisse aqui no Brasil a primeira fotografia de Hercules Florence, estabeleceu o princípio básico da máquina de tirar retrato. A descoberta de Da Vinci produziu efeitos em cascata. Projetistas e pintores usaram-na como método auxiliar, de imensa valia, em seus trabalhos de criação. Essencialmente, a operação consistia no seguinte: projetava-se a imagem numa folha de papel pendurada na parede. O artista, para registrá-la, desenhava-lhes os contornos.
Ainda no século XVI, Gerônimo Cardano, também italiano, idealizou os primeiros modelos portáteis de câmara escura. Configuremos a cena: uma sala com espaço suficiente para um homem dentro dela se locomover, transformada numa espécie de caixa. Num dos lados da caixa, uma placa de vidro fosco. No outro, um orifício de pequenas dimensões. Através da abertura a imagem do objeto iluminado pelo foco solar é lançada no vidro. A nitidez é tanto maior quanto maior for o grau de iluminação do objeto focalizado.
Outro italiano avançou nas ousadas experiências de Cardano. Chamava-se Giambattista Della Porta. Chegou, à custa de infindáveis buscas, à constatação de que as imagens poderiam ficar ainda mais límpidas, na hipótese de se poder encaixar uma lente na fenda da tal caixa. Definia-se aí ponto fundamental para a futura fabricação das câmaras de fotografia.
Outras contribuições, conforme dados divulgados pela Enciclopédia da “Abril”, permitiram a evolução do processo. Johann Schulze, em 1727, eliminou a certeza científica, que a todos dominava, de que os sais de prata empregados no processo, guardados por algum tempo, tornavam-se escuros por envelhecimento. Nada disso acontece, explicava ele. O envelhecimento é ocasionado pela luz. Fez juntada de provas. Misturou certa quantidade de nitrato de prata, com cal e ácido nítrico num recipiente. O resultado: um vermelho intenso, resultante da fusão, substituiu a brancura da solução.
Como a prova precisasse ser robustecida, Schulze avançou mais: preparou a mesma mistura e cobriu o recipiente com um papel desenhado. As partes alvas do papel favoreceram a infiltração de luz. As zonas correspondentes do líquido tingiram-se de vermelho. Em contraposição, as partes onde se viam traços desenhados impossibilitaram aos raios de luz atingissem o líquido. Esse manteve a cor branca nas áreas correspondentes aos traços. Resumindo tudo: o desenho ficava reproduzido em negativo na superfície do nitrato de prata.
Por ordem de entrada em cena, quem apareceu, logo em seguida, de acordo com os assentamentos históricos, foi Thomas Wedgewwood. Ele arrebatou a glória de ter sido o primeiro a tentar, por volta de 1790, compor uma foto. Num pedaço de papel impregnado de nitrato de prata, colocou o objeto que desejava gravar, uma folha de árvore. O pedaço de papel ficou exposto à claridade por algum tempo. O que adveio daí apontou o acerto da experiência. As partes da folha de papel submetidas à luminosidade transformaram-se em zonas escurecidas. As partes protegidas, equivalentes às regiões espessas da folha, ficaram mais claras. Tinha-se diante dos olhos o primeiro exemplar de um negativo. O que não se conseguiu foi a fixação duradoura da imagem impressa. Joseph Bicéphore Niepce acrescentou uma conquista a mais ao esforço criativo humano, que conduziu à implantação da arte fotográfica. Amparado pelos testes de Wedgwwood, usou uma placa de vidro como substituto do papel, envolvendo-a com betume. Procedeu dessa maneira a verificar que suas fotos saiam ao inverso isto é, onde devia ser preto era branco, e onde devia ser branco era preto.
Utilizando outros materiais, como óleo de lavanda e iodo, ele foi enriquecendo a pesquisa, até chegar, em 1822, a produzir o que é apontado como a mais antiga fotografia jamais feita – uma mesa num jardim. Contam os registros históricos, que fazem parte da enciclopédia da Abril, que a operação para se chegar à captura da imagem consumiu oito horas consecutivas de nervosa concentração.
Voltaremos, nesta recapitulação histórica acerca da invenção da “máquina de tirar retrato”, a falar do franco-brasileiro Hercules Florence.
Florence criou a “photografie”
“Hercules Florence conseguiu
resultados superiores aos de Daguerre...”
(“Wikipédia”, a enciclopédia livre)
Na recapitulação que vimos fazendo, estribados em dados extraídos da Enciclopédia da Editora “Abril”, sobre a história da arte fotográfica chegamos, finalmente, às pesquisas de Daguerre, na França e aos experimentos de Hercules Florence, no Brasil. O sistema de Niepce foi apurado, através de método de revelação de chapa mais eficaz. O francês ficou célebre como o descobridor do princípio da fixação, ao conseguir, com técnicas que soube desenvolver, provas positivas mais perfeitas do que as produzidas até então. Era o ponto de partida de uma viagem infindável. Dali para frente, as conquistas foram se acumulando.
1.Em 1841, William Henry Fox Talbot substituiu a placa banhada em prata pelo papel. 2. O vidro voltou a ser temporariamente usado, em substituição ao papel, até que surgiu, em 1873, o celulóide. 3. Em 1882, George Eastman fabricou os primeiros modelos portáteis de aparelhos fotográficos. 4. Até 1887, só se obtinha fotografia com luz natural. Foi quando Gaedicke e Niethe apareceram com o chamado flash. Do estrondo produzido pela queima do pó de magnésio, até o clarão gerado eletronicamente, um bom caminho foi percorrido. 5. Em 1861, outro avanço: a primeira fotografia a cores. James Clerk Maxwell exibiu, orgulhoso, o fruto de pacientes investigações. Antes, o que havia, em matéria de imagem fixa policrômica eram as fotos em preto e branco, pintadas à mão por hábeis artesãos-fotógrafos, com retoques por vezes generosos, ao gosto do freguês retratado. 6. Em 1893, John July deu outro passo adiante. A foto a cores nascida de uma única projeção. No processo anterior de Maxwell eram necessárias três fotos para se elaborar a cena colorida desejada. A película a cores já seria conquista do século XX.
E depois? As passadas tornaram-se cada vez mais largas. As máquinas que permitem revelações instantâneas. As teleobjetivas. As microfotografias, os microfilmes, reduzindo ao tamanho de uma cabeça de alfinete, ou algo comparável, o conteúdo de milhares de livros. As fotos feitas pelos satélites, a milhares de quilômetros de altitude, captando detalhes que o próprio olhar humano não pode alcançar. Os registros fotográficos automáticos das naves que varam a imensidão cósmica e que remetem imagens desconcertantes obtidas a milhões e milhões de quilômetros. Os chips da mágica eletrônica moderna. As fotos colhidas com o manuseio de celulares. As câmeras sem filmes ainda não digitais. As câmeras digitais.Tudo isso e muita coisa portentosa, que a nossa inteligência talvez ainda não consiga imaginar em sua real proporção, representam o desdobramento prático das incipientes investigações daqueles momentos inaugurais da era fotográfica. Daquele esforço silencioso desenvolvido em laboratórios improvisados, dotados de toscos equipamentos, de homens como o franco-brasileiro Hércules Florence e o francês Louis Jacques Mandé Daguerre, autênticos contemporâneos do futuro, para quem as fronteiras do conhecimento estiveram sempre fixadas no infinito.
Sobre Antoine Hercules Romuald Florence, francês de nascimento, brasileiro de coração, residente em Campinas, onde se casou e teve, em duas uniões, vinte filhos, netos, bisnetos e, até, tataranetos, algumas coisas importantes restam ainda para ser contadas. O jornalista e professor Boris Kossoy, no livro “1833: A descoberta isolada da fotografia no Brasil”, editado em 1980 (editora “Duas Cidades”), fez exaustiva pesquisa sobre seu trabalho como inventor. Retirou-lhe o nome da penumbra do esquecimento, garantindo-lhe lugar de realce, ao lado de Daguerre, entre os personagens que disputam perante a história a paternidade da fotografia.
Florence nasceu em 1804, em Nice. Estudou artes plásticas. Veio para o Brasil em 1824. No Rio de Janeiro, trabalhou como caixeiro em casa comercial. Integrou, na condição de desenhista, expedição científica do naturalista russo Langsdorff. Em 1829, fixou-se em Campinas, São Paulo. Lançou ali um invento, a “Polygrafie”, criando seu próprio meio de impressão, já que não dispunha de um prelo. A partir desse invento, entregou-se a outros experimentos, chegando a um processo de gravação, por meio da luz, que batizou de “Photografie”. Isso, em 1832, três anos antes de Daguerre. Já em 1833, utilizava chapa de vidro em câmara escura. A imagem colhida era “capturada” em papel sensibilizado. O processo por ele bolado, considerado mais eficiente do que o de Daguerre, permaneceu oculto do conhecimento mundial por muitos anos. Mas, hoje, já existe algum reconhecimento internacional de seu papel como inventor. Para isso contribuíram muitíssimo a pesquisa e o livro de Kossoy.
* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Cesar Vanucci *
“Meu primeiro professor
de aeronáutica foi Júlio Verne”
(Alberto Santos Dumont)
“Meu primeiro professor de aeronáutica foi Júlio Verne, esse grande visionário.”
É Santos Dumont quem está falando. São declarações do maior valor histórico. Constam de entrevista dada, há 88 anos atrás, à revista francesa “Je Saus Tout”. O documento veio a lume graças a uma pesquisa do jornalista Romero Solha, que a incluiu em reportagem sobre o grande inventor brasileiro publicada no extinto “Diário da Tarde”, de Belo Horizonte, edição de 26 de outubro de 1982.
Vamos ver, com base na sugestiva reportagem, o que Santos Dumont conta de seus experimentos como inventor.
. Júlio Verne: “Meu primeiro professor de aeronáutica foi Júlio Verne, esse grande visionário. Desde 1888 até 1891 – época da minha primeira viagem a Europa – passava o tempo lendo as obras desse tão notável profeta, que concebeu a locomoção aérea e submarina. Já em minha mais tenra juventude estava convencido de que as idéias do romancista poderiam ser realizadas, com a condição, porém, de não se empregar o motor a vapor. Mas eu não conhecia senão o motor a vapor de nossa propriedade agrícola, bem como os tratores importados da Inglaterra para arrastar caminhões, no transporte do café.”
. Sobre o motor movido a petróleo. “Meu pai trouxe-me para a França, para Paris. Na véspera de nosso regresso ao Brasil, visitou comigo o Palácio da Indústria, onde havia uma exposição de máquinas. Qual não foi a minha surpresa ao ver, pela primeira vez, um motor a petróleo, muito leve, que tinha a força de um cavalo...”
Santos Dumont encomendou, numa oficina parisiense, a construção de um balão de cem metros cúbicos: “Tomaram-me por louco, mas, alguns meses depois, o “Brasil”, como uma bolha de sabão, atravessava Paris, surpreendendo todo mundo.”
. O genial inventor descreve o “Brasil”: “Media seis metros de diâmetro. Sua curvatura era de 113 metros quadrados de seda, com três quilos e meio. A seda envernizada pesava 14 quilos. Os fios e as cordas, juntos, um quilo e 800. A barquinha, seis quilos. Uma pequena âncora, três quilos. E o guide rope, cujo comprimento era de cem metros, oito quilos. Meus cálculos tinham sido exatos e pude subir com mais de um saco de lastro.”
. Santos Dumont travou luta árdua contra os preconceitos. “A princípio não tive que lutar somente contra os elementos, mas também contra os preconceitos. A direção dos balões e o vôo do mais pesado que o ar eram considerados problemas insolúveis. Meus ensaios começaram em fins de 1898. Abandonei a forma alongada, impossível para os recursos de que dispunha nessa época, e construí o balão ovóide. Em minhas experiências, confesso, vi a morte de perto por várias vezes, mas não me deixei vencer. Com o meu nº 3 atravessei Paris, finalmente. Meus voos eram acompanhados com profunda emoção e começou-se a discutir sobre as possibilidade de viajar de determinado ponto a outro.”
. Reportando-se ao fato de que, à época dessas experiências, Henry Deutsch instituiu um prêmio de cem mil francos para o aeronauta que conseguisse, em trinta minutos de vôo, percorrer o trajeto entre Saint Cloud e a Torre Eifell, assim falou Dumont:
“Todos os anos, os juros desse dinheiro seriam dados ao aeronauta que obtivesse os melhores resultados. Imediatamente, passei a construir meu nº 4, em um hangar em Saint Cloud. Voltei ao balão fusiforme, para poder conseguir uma velocidade de 30 quilômetros por hora, impossível com um modelo ovóide. O motor mais leve que encontrei era maravilhoso: pesava cem quilos e tinha força de nove cavalos. Os resultados foram medíocres, mas ganhei o prêmio assim mesmo, porque o outro concorrente, M. Rose, não conseguiu se elevar.”
. As felicitações, depois de seu extraordinário feito, pipocaram do mundo inteiro. “No inverno, construí o balão nº 5. Com ele realizei experiências no parque Aeroclube da França. No dia 12 de junho de 1901, às três horas da madrugada, estava no hipódromo de Longchamp, pois queria passear nele sobre Puteux. Dias depois tentei a aventura da Torre Eifell. A viagem foi muito boa até o Trocadero, mas aí notei que o balão não mais me obedecia. O cabo, ligando a roda do comando ao leme, tinha partido. Desci sobre os jardins onde, àquela hora, havia pouca gente. Precisava de uma escada. Alguém me arranjou uma e pude logo emendar o cabo. Continuei, esperançoso, o voo. Rapidamente, alcancei a Torre Eifell e voltei a Longchamp. Minha demora preocupou o povo que passou a hipóteses as mais trágicas. Recebi felicitações do mundo inteiro.”
“Das mensagens que recebi, a que mais me comoveu e a que considero a mais preciosa foi a do maior inventor dos tempos modernos (Thomas Edson). Ele me mandou uma fotografia, com a seguinte dedicatória: À Santos Dumont, o conquistador dos ares, a homenagem de Edson.”
Volto ao depoimento de Santos Dumont na sequência.
De volta a Santos Dumont
“Queriam que eu desistisse (...)
porque seria inevitável uma desgraça.”
(Santos Dumont)
Recorremos, mais uma vez, ao sugestivo trabalho do jornalista Romero Solha (“Diário da Tarde”, edição de 26 de outubro de 1982) para registrar outros trechos do depoimento dado por Santos Dumont à revista francesa “Je Sans Tout”, onde são relatados novos aspectos de suas experiências na conquista dos ares.
Santos Dumont com a palavra: “Às 16h41m do dia 13 de julho de 1901, diante da comissão cientifica do Aero Clube ascendi à Torre Eifell e a rodeei sem nenhuma dificuldade. Na volta, entretanto, o vento forte, mas que não conseguia impedir o vôo de minha aeronave, obrigou-me a descer sobre as árvores do bonito parque do Barão de Rotschild. Tive que desmontar tudo. Com pressa e precaução, a fim de voltar ao balão e concorrer novamente ao premio. Nesse dia eu me levantei a uma hora da madrugada, para fiscalizar a produção do hidrogênio, fiel ao provérbio do meu país: Quem quer, vai; quem não quer, manda.”
“O dia acabava e eu, ali, firme, ao lado de meu balão, apesar da fome. Com alegria, vi que alguém se aproximava. Era um empregado da condessa d’Eu, vizinha do Barão de Rotschild. Ela estava me mandando um lanche delicioso, acompanhado de uma carta encantadora. (...) Mandou-me ainda uma medalhinha, que deveria colocar no punho, em minhas perigosas ascensões. Essa medalha nunca mais me abandonou.”
“Pronto o balão, voltei à experiência. (...) Contornei, mais uma vez, a Torre Eifell. Um segundo acidente aconteceu sobre o Trocadero: o aparelho, descendo rapidamente, chocou-se contra um prédio, ficando completamente destruído.” “De todas as partes, chegavam conselhos. Queriam que eu desistisse de minhas experiências, porque seria inevitável uma desgraça. Eu respondia apenas: - Daqui a três semanas.... recomeçarei.”
. “Logo construí outro balão, maior e com um motor mais possante. Era o nº 6. Ficou pronto em três semanas. No dia 19 de outubro, ao meio dia, contornei a Torre Eifell, a uma altura de 250 metros, sobre uma multidão entusiasmada, que me esperava no hipódromo d’Auteuil, onde havia corridas. A ovação chegou a ser delirante. Tinha previsto, para o percurso, 29 minutos e meio. A velocidade do aparelho foi tão grande, porém, que ultrapassei o ponto de chegada. Por esse motivo, aterrei 31 minutos depois da minha partida, pois não podia descer nem diminuir a velocidade da aeronave. Algumas pessoas queriam que esse fosse o tempo oficial gasto por mim. Seguiu-se forte polêmica, mas o julgamento me foi favorável. A comissão entregou-me o premio, que subiu a 120 mil francos. Dei 50 mil para meu mecânico e os operários que me haviam auxiliado e os restantes 70 mil a 1950 pobres de Paris, entregues pelo prefeito de polícia, M.Lépine. Tinha previsto cinco anos para chegar onde estava. Porém, só dois anos se passaram.”
. Sobre o surgimento do primeiro aeroplano, Dumont assim falou: “Fiquei dormindo, como se dizia, depois. Só reapareci três anos mais tarde, em julho de 1906, no campo de Bagatelle, com meu primeiro aeroplano. – Por que não o construí antes? – pode perguntar o leitor. – Porque o inventor progride lentamente.”
O genial inventor explica que se dedicara ao estudo do motor a gasolina. E registra a grande alegria que sentiu ao ser, novamente, convidado pelo Aero Clube para uma experiência de voo.
“Uma sensação. Meu aeroplano tinha dez metros de comprimento, 12 de envergadura, 80 de superfície total. Pesava 180 quilos e voava com um motor de 24 HP. Era um enorme biplano. A princípio, o aeroplano era suspenso por um balão, o último que construí, o nº 11. As manobras eram feitas na Bagatelle. Logo depois achei que podia dispensar esse conjunto híbrido, mas no primeiro vôo perdi a direção e cai. Alguns classificaram esse primeiro vôo de salto, por causa da queda...”
“Consertei o aparelho e nele fiz modificações, repetindo o treinamento de Bagatelle durante algumas semanas, até que, em 23 de outubro de 1906, perante a comissão cientifica do Aero Clube e uma impressionante multidão, consegui fazer um vôo de 250 metros. Esse vôo confirmou completamente a possibilidade de solução para o problema na navegação aérea.”
. Em seu histórico depoimento, Santos Dumond coloca nos justos termos a participação dos Irmãos Wright na conquista do espaço. “No ano seguinte, Farman realizou voos célebres. Depois dele, Bleriot. Somente dois anos mais tarde, os irmãos Wright fizeram experiências públicas.”
. Santos Dumont, no depoimento, acentua que o “Demoiselle”, foi a mais popular de suas aeronaves. “A Demoiselle, três vezes menor do que o 14-Bis, tinha 14 metros quadrados na superfície das asas. Voei nele todos os dias durante um ano e, por isso, ficou sendo o mais popular dos meus aparelhos.”
. O genial brasileiro alude à concretização de seus sonhos. “Trabalhei terrivelmente dez anos, até conseguir minha carta de piloto de monoplano. Possuía, assim, todos os diplomas concedidos pela Federação Aeronáutica Internacional. Mas estava cansado, muito cansado mesmo. Disse, então, aos meus amigos, minha intenção de encerrar minha carreira de homem do ar, mas tenho seguido, com a maior atenção, os progressos extraordinários da aeronáutica. É com grande ternura que os contemplo pois assisto à realização dos meus sonhos.”
* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Esses geniais inventores
Cesar Vanucci *
“Meu primeiro professor
de aeronáutica foi Júlio Verne...”
(Alberto Santos Dumont, o “Pai da aviação”)
Em sucessivos capítulos, vamos ocupar este espaço com lances da vida de inventores brasileiros. Alguns, menos conhecidos, mas muito criativos, ligados a descobertas que ajudaram a mudar os rumos da história. Casos do paraibano Padre Azevedo, inventor (espoliado) da máquina de escrever, e do franco-brasileiro Hercules Florence, radicado em Campinas, criador da primeira máquina de tirar fotografias, por ele próprio batizada de “photografie” no ano de 1833.
No começo vamos concentrar-nos em inventores brasileiros mais conhecidos. Aqueles que deram ao mundo fabulosas máquinas de voar.
Bartolomeu de Gusmão foi o primeiro. Ganhou o espaço num balão inflado de ar. Santos Dumont tornou-se, deles, o mais célebre. Seu nome ficou imperecivelmente associado à história da conquista espacial.
Mas o que nem todo mundo sabe é da existência, ao longo do período que separa as realizações dos dois grandes inventores, de um número considerável de outros brasileiros empenhados na pesquisa e construção de engenhos que significaram propostas ousadas ligadas à aspiração humana, vinda do fundo dos tempos, de conquista do campo azul do céu. Falaremos deles adiante. Todos tiveram participação graduada em diferentes níveis de importância. Ajudaram de uma forma ou de outra a compor a saga da presença brasileira na história do domínio dos ares, elevada ao ponto culminante com o feito histórico, de ressonância universal, de Alberto Santos Dumont.
Foi aos 25 anos de idade que Santos Dumont, mineiro de Palmira, nascido em 20 de junho de 1873, um dos dez filhos de abastada família de fazendeiros, alcançou consagração como inventor. Em máquina que custou, a valores de agora, o equivalente a 76 mil reais, por ele totalmente concebida e construída, uma espécie de balão em forma de charuto, com controle de vôo manual, medindo vinte e cinco metros de comprimento, o inventor, diante de multidão extasiada, fez uma demonstração definitiva de que, contrariamente ao que, denotando ceticismo e despreparo, imaginavam alguns setores científicos apegados a valores ultrapassados, ao homem não estava vedada a capacidade de locomover-se no espaço. A mesma Paris que o aplaudiu, euforicamente, quando das evoluções precursoras do “Santos Dumont nº 1”, voltou a festejá-lo, num sem número de ocasiões, ao alçarem voo os outros numerosos engenhos que se sucederam ao primeiro teste aéreo.
O momento mais exitoso na vida deste homem, um dos mais fecundos inventores da história, aconteceu em 12 de novembro de 1906. O mundo tomou conhecimento, assombrado, sem capacidade para inferir desde logo as infindáveis perspectivas que se abriam, a partir daquele momento, à conquista do progresso e bem estar, que um brasileiro estava a realizar em Paris os primeiros vôos oficialmente controlados da história.
A utilização do mais pesado que o ar impunha-se como realidade tecnológica. Os monoplanos, lançados após a memorável experiência, consolidaram a reputação de Dumont como cientista. Num desses aparelhos, em 1909, voando a pouca altura sobre sebes e copas de árvores, conseguiu alcançar novo recorde de velocidade, desenvolvendo média de noventa e cinco quilômetros por hora, inconcebível nas concepções científicas dominantes.
No resto, a história de Santos Dumont é bem conhecida. Como Nobel, o grande brasileiro estava convencido de que os seus inventos viriam contribuir para afastar o espectro das guerras, já que notório o poder destruidor de que se revestiriam as máquinas voadoras, se empregadas em planos bélicos. A primeira Guerra Mundial trouxe-lhe malogro e sofrimento. Dumont percebeu que, a exemplo do que doloridamente acontecia com os objetivos em terra, suas convicções estavam sendo também submetidas, na prática, a devastadores bombardeios. As crises de neurastenia que costumavam acometê-lo se aguçaram, na volta ao Brasil, quando da revolução de 32. Nos céus de sua pátria, a máquina projetada para encurtar distâncias e aproximar os homens vinha sendo utilizada como instrumento de destruição.
Drama inexorável abateu-se sobre o espírito sensível do homem que deu asas ao semelhante e que ganhou consagração na memória mundial por força de seu idealismo, de seu gênio e grandeza d’alma.
Se vivo estivesse, ele poderia contemplar, décadas depois, outras facetas, estas de cunho positivo, da fabulosa conquista que proporcionou à humanidade. A navegação aérea intensa, estreitando caminhos e aproximando criaturas; os vôos tripulados além da atmosfera terrestre; os foguetes que deixam a Terra em busca do fascinante desconhecido sideral.
E imaginar que tudo isso começou mesmo, pra valer, naquele 12 de novembro de 1906, em Paris!
A seguir, um apanhado das glórias e desventuras vividas por Bartolomeu de Gusmão.
Glórias e desventuras de Gusmão
“Com que engenho te atreves, brasileiro...”
(Versos satíricos da imprensa portuguesa, criticando a ação vanguardeira de Bartolomeu de Gusmão na conquista do espaço)
O itinerário de Bartolomeu de Gusmão foi marcado por vivências doridas. Conheceu a glória. Foi impiedosamente alvejado pelo ódio, nascido do obscurantismo cultural e científico.
Ao reconhecerem-lhe o mérito criador, rodearam-no de honrarias. Essa convivência aconchegada com a celebridade durou pouco. O brilho ofuscante de sua inteligência incomodava figuras poderosas da Corte portuguesa.
O êxito de suas experiências só fez açular o ódio e a inveja. E a tal ponto, que não foi difícil a deflagração de campanhas difamatórias, onde a figura do inventor era equiparada à de feiticeiro, de pessoa comprometida com artes demoníacas.
Perseguido, coberto de escárnios, em dado instante despojado da proteção que Dom João V lhe assegurara de início, enfrentou as iras detonadas pela ignorância e incompetência. Seu nome entrou para um círculo de sombra, numa longa noite de silêncio e de trevas, estendida até a morte, no exílio em terras de Espanha, onde, paupérrimo, dilacerado pela ingratidão, foi acolhido pela compaixão de um irmão de hábito.
Amostra eloquente da ofensiva belicosa movida ao sábio brasileiro que ofereceu a Portugal um invento destinado a mudar a fisionomia do mundo, pode ser retirada dos versos satíricos com os quais a imprensa lisboeta o mimoseou, a propósito da seqüência de seus testes vitoriosos com balões.
“Com que engenho te atreves, brasileiro, / A voares no ar, sendo rasteiro./
Desejando ave ser, sem ser gaivota? / Melhor te fora, na região remota /
Onde nasceste, estar com siso inteiro!”
A “região remota” em que nasceu Bartolomeu (1585) era Santos. Seis dos irmãos se inclinaram também para a vida religiosa.
Homem de vasta cultura, tribuno consagrado, dominava vários idiomas. Dotado de sólida formação científica, chegou a capelão fidalgo na casa real. Paralelamente ao ministério sacerdotal, dedicou-se em Coimbra a experiências e construção de aparelhos e máquinas. Publicou inúmeros trabalhos científicos. Um deles continha explicações sobre os vários modos de esgotar sem gente os navios alagados. Em petição a Dom João V, abril de 1709, solicitando auxílio para o seu engenho voador, acenou com as possibilidades que se descortinavam à chegada da era dos vôos. Abaixo, trechos dessa petição.
“Diz o licenciado Bartolomeu Lourenço que ele tem descoberto um instrumento para andar pelo ar da mesma sorte que pela terra e pelo mar, com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia, no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e terras mais remotas, quase ao mesmo tempo em que se resolvem: o que interessa a Vossa Majestade muito mais que a todos os outros príncipes, pela maior distância dos seus domínios; evitando-se, desta sorte, os desgovernos das conquistas, que provêm em grande parte de chegar tarde a notícia deles.
Além do que, poderá Vossa Majestade mandar vir todo o preciso delas mais brevemente e mais seguro; poderão os homens de negócio passar letras e cabedais a todas as praças sitiadas; poderão estas ser socorridas tanto de gente como de víveres e munições a todo o tempo, e tirarem-se delas as pessoas que quiserem, sem que o inimigo o possa impedir. Descobrir-se-ão as regiões mais vizinhas aos pólos do mundo, sendo da Nação portuguesa a glória deste descobrimento. Além das infinitas conveniências que mostrará o tempo.”
Ajuda concedida, em oito de agosto do mesmo ano, uma multidão presenciou e aplaudiu a elevação suave do aeróstato, a partir do pátio do castelo de São Jorge, o inventor a bordo. O engenho pousou, pouco depois, no Terreiro do Paço. Segundo o historiador Miguel Milano, a forma do aparelho correspondia à de um grande saco tetraédrico alongado numa das extremidades. Na parte inferior, suspensa, uma barquinha. Dali, o aeronauta manobrava um leme, do formato de pá. O balão era propelido por ar quente, ou um gás mais leve que o ar, possivelmente hidrogênio, embora o inventor, objetivando proteger a invenção, alegasse tratar-se de energia eletromagnética.
O infalível processo de revisão da história, confiado à posteridade, recolocou Bartolomeu de Gusmão em lugar de realce na galeria dos grandes nomes que, com a sua ação pioneira, ajudaram a construir a aventura humana.
Lápide afixada na Praça de Armas do Castelo São Jorge, em Lisboa, numa rua que traz o nome do inventor, estampa depoimento que consagra sua obra vanguardeira:
“A Bartolomeu Lourenço de Gusmão, ao sábio português ilustre, que primeiro que nenhum, realizou em 1709, a genial idéia do aero-navegar, elevando-se em balão na Praça de Armas do Castelo de São Jorge: - Honra, Renome, Glória.”
Vanguardeiros e anônimos
“Muitos brasileiros, no anonimato,
se preocuparam com os problemas da navegação aérea.”
(Roberto Pereira de Andrade, pesquisador e escritor)
A conquista dos ares, vista de enfoque exclusivamente brasileiro, aponta no período que medeia as presenças em cena do “Padre Voador” e do “Pai da Aviação” uma lista surpreendentemente extensa de idealistas que, acreditando na possibilidade do voo por meio de engenho aeronáutico, colocaram as habilidades técnicas que Deus lhes deu em favor da materialização dessa fascinante empreitada. O jornalista Romero Solha, no antigo “Diário da Tarde” de 26 de outubro de 1982, publicou sugestiva reportagem a respeito.
O escritor Roberto Pereira de Andrade, autor de trabalho considerado no gênero o mais completo já apresentado, introduz-nos por meio do livro “A construção aeronáutica no Brasil –1910/1976” no conhecimento de uma realidade para muita gente insuspeitada. Na esplêndida pesquisa é mostrado que o vôo humano tem ligação umbilical com a construção aeronáutica, embora esta última haja sido vista, na fase inaugural da aviação, como excêntrico artesanato. Na seqüência, alguns dos inventores listados no trabalho.
Acionada pelo escritor, a roda do tempo traz, em primeiro lugar, a figura do paraibano Marcos Barbosa. Suas experiências, com máquina que lembrava um planador, ocorreram em fins do século XIX. O inventor efetuou voos, planando pelas encostas das colinas, com a ajuda de asas de tela e de madeira.
A obstinação do alferes Paulino José de Almeida Nuro levou-o a projetar (em 1899) um monoplano, o “Jaburu voador”. Nem no Brasil, nem na França, encontrou receptividade. Comissão militar que avaliou o projeto concluiu pela sua inviabilidade.
Carlos Rostaing (1880-1941), outro obstinado. Patenteou no Rio, Paris e São Petersburgo a planta de um dirigível. O engenho foi descrito em janeiro de 1902 pela revista francesa “L Aerophile”.
Quem poderia imaginar o líder abolicionista José do Patrocínio (1853-1905) envolvido, também, em meio às tormentas políticas, com o ofício de inventor? Pois é justamente ele, com colaboração de um engenheiro chamado Tiret, que projeta em 1900 um modelo de balão dirigível, batizado “Santa Cruz”. Isso em Paris, naquela ocasião, mais do que nunca, centro mundial da cultura. A morte do parceiro traz Patrocínio de volta ao Brasil sem que o experimento pudesse ser efetivado. O belo sonho que alimentou durante bom pedaço de sua existência esboroou-se. Por ocasião de seu falecimento a máquina – uma estrutura de alumínio, recoberta de tela – estava quase concluída. Seus herdeiros desmontaram-na.
Carlos Euler, carioca, nascido em 1863, engenheiro, diplomado em Zurique, publicou em 1903, no Rio, uma monografia expondo interessantes “Considerações sobre o voo mecânico”. Sua participação em inventos ficou confinada ao campo teórico.
Quem também assinalou presença nas tentativas das conquistas aéreas foi o amazonense João Autto de Magalhães Castro (1861/1926). Suas pesquisas tiveram caráter predominantemente teórico. Coube-lhe o mérito de haver projetado instrumentos de concepção avançada para a época. Entre eles, um dirigível provido de asas.
Paulista, Gastão Galhardo Madeira (1869/1942) obteve patente em 1880 de um projeto de dirigível e de um sistema de estabilizadores para monoplanos. Despertou a atenção dos construtores franceses Farman e Regy. O projeto veio a ser absorvido pela indústria Rotmanoff & Cia.
Júlio Cesar Ribeiro de Souza (1843-1887) paranaense, construiu, na Europa, três balões dirigíveis de formato alongado. O “Victoria”, o “Santa Maria de Belém” e o “Cruzeiro”. Multidões assistiram às muitas evoluções dos balões nos céus da capital francesa.
Leopoldo Ferreira da Silva, mineiro, nasceu em 1849. Em 1890, registrou na Alemanha patente para a construção de um dirigível de passageiros. No Rio, estruturou empresa com o propósito de explorar comercialmente o invento. Denominada “Cruzeiro do Sul”, a aeronave estava para ser lançada quando do falecimento do inventor. O projeto foi interrompido.
Cearense, Domingos José Nogueira (1848/1926) é outro dos brasileiros que, no anonimato, “se preocuparam com os problemas da navegação aérea”, conforme o escritor Pereira de Andrade. Estudos teóricos sobre a dirigibilidade dos balões garantem-lhe a citação do nome.
Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, outro pioneiro, perdeu a vida numa experiência aérea. Em 1894, construiu o balão “Bartolomeu de Gusmão”, em seus primeiros testes de navegação. Mais tarde, na França, empenhou-se na construção do dirigível “Pax”. Na manhã de 12 de maio de 1902, acompanhado do mecânico, ergueu vôo testando a estabilidade do aparelho. Uma fagulha de motor alcançou a carga de hidrogênio. A aeronave precipitou-se em chamas num logradouro parisiense.
* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Cesar Vanucci*
“Saudade é ser, depois de ter.”
(Guimarães Rosa)
O “Programa Infantil” da PRE-5 era produzido, dirigido e apresentado por Altiva Glória Fonseca, uma mulher charmosa e inteligente, de presença destacada nas atividades culturais e assistenciais de Uberaba. Levado ao ar nas manhãs de domingo, com participação animada de público fiel, que lotava o assim chamado “salão grená” da emissora, atraia (nos anos 40) uma legião considerável de ouvintes. As atrações artísticas, garotos e garotas com inclinação para canto, declamação, esquetes, galvanizavam vibrantes torcidas, os orgulhosos pais da gurizada em plano de realce. Augusto Cesar Vanucci, Pedrinho Ricciopo, Neuza Papini, Nancy Pagano, Irmalda Dorça, Vicente de Paula Oliveira, Joel Andrade Loes, Walia Vieira, Zilma Buggiato Faria, este desajeitado locutor que vos fala eram, entre outros, integrantes do “elenco permanente” do programa. Os ensaios para as apresentações ocorriam nas tardes de sábado. O Regional da estação de rádio, dirigido pelo maestro João Tomé, artista de mão cheia, capaz de arrancar sons de tudo quanto era instrumento apesar da cegueira de nascença, cuidava com esmero do acompanhamento dos intérpretes, fazendo, se preciso, fundo para declamações. O conjunto compunha-se de piano, violão, cavaquinho, flauta, bateria e pandeiro.
As imagens de borbulhante júbilo daqueles anos dourados da meninice acodem-me com constância à memória velha de guerra. Indoutrodia, por ocasião da bela sessão solene que assinalou, no Auditório JK, na Cidade Administrativa, o momento culminante de celebração da “Semana Mundial do Serviço Leonístico”, neste ano de 2011, fui buscar no baú uma lembrança danada de terna do “Programa Infantil da E-5”. No pronunciamento que fiz na solenidade em questão citei versos de um poeta norte americano, Langston Hughes, assinalando que eles faziam parte de poema decorado na infância. Recuperei na hora meiga cena. A Altiva Glória Fonseca a passar-me uma tarefa, nas proximidades de um dia 13 de maio. O programa da semana seria todo voltado para manifestações lítero - musicais com foco temático na abolição da escravatura. A encomenda que recebi foi a de decorar o poema “Sou negro”, do poeta citado. Sob a zelosa supervisão de minha saudosa mãe Tonica, decorei pra nunca mais esquecer os versos recomendados, de suave sopro lírico e de dardejante conteúdo social. Bate-me forte, aqui e agora, a tentação de reproduzi-los para deleite dos leitores. Vai lá:
“Eu sou negro: / Negro como a noite é negra, / Negro como as profundezas d’África.
Fui escravo: / Cesar me disse para manter os degraus da sua porta limpos. / Eu engraxei as botas de Washington.
Fui operário: / Sob minhas mãos as pirâmides se ergueram. / Eu fiz a argamassa para a fábrica de algodão.
Fui cantor: / Durante todo o caminho da África até a Geórgia / Carreguei minhas canções de dor. / Criei o ragtime.
Fui vítima: / Os belgas cortaram minhas mãos no Congo. / Eles me lincham até hoje no Mississipi.
Eu sou Negro: / Negro como a noite é negra / Negro como as profundezas da minha África.”
Do poeta, nascido em 1º de fevereiro de 1902 e falecido em 22 de maio de 1967, fiquei sabendo mais tarde tratar-se de um inovador da arte literária, cioso de sua ancestralidade negra. Ativista social, romancista, dramaturgo, acabou firmando conceito como o mais importante poeta negro estadunidense. Um homem que soube transpor para a palavra os ritmos e a cadência da música de sua gente, notadamente o blues.
E quanto ao programa da E-5? Ele é capítulo de dias idos. Da aurora da vida, da infância querida, que os anos não trazem mais, de que fala Casimiro de Abreu. Converteu-se em saudade. Ou seja passou “a ser, depois de ter”, como diz Guimarães Rosa.
Verso e reverso
Cesar Vanucci*
“As ideologias radicais, não importa sua coloração, nem suas supostas e inflamadas discordâncias, são verso e reverso de uma mesma moeda”
(Antônio Luiz da Costa, professor)
O fundamentalismo ultraconservador apavora tanto quanto o extremismo terrorista. Pode-se dizer mesmo que um e outro representam, na verdade, verso e reverso de uma mesma moeda. São expressões incendiárias de uma visão distorcida da realidade humana. Uma contrafação do sentido verdadeiro da vida. Agridem a consciência social. Alvejam os direitos elementares. Desprezam os sentimentos e emoções puros e espontâneos que regem a boa convivência comunitária. Geram deuses e ícones falsos. Abominam o diálogo entre contrários, instrumento de convergência que ajuda na construção de mundo melhor. Alimentam preconceitos aviltantes, racismo impiedoso, idiossincrasias incuráveis, ódios fratricidas, totalitarismos ferozes.
Espicham a tal ponto sua interpretação arcaica das coisas que passam a enxergar as conquistas do espírito, os avanços da ciência como blasfêmias heréticas. Chegam, não poucas vezes, a identificar riscos funestos à paz, à harmonia cotidiana, como agora acontece nos Estados Unidos, por obra e graça do chamado “Tea Party”, num simples anúncio de um atendimento de saúde universalizado; ou como ocorre, também neste justo instante, em certos países do mundo árabe intoxicados pelo radicalismo religioso, na mera aspiração das mulheres de desfrutarem do direito de acesso a uma carteira de habilitação de motorista.
Esse pessoal desvairado, pelos males que se revela capaz de aprontar, enche o mundo de medo. Ou seja, mesmo constituindo parcelas, embora aguerridas e atuantes, flagrantemente minoritárias no conjunto da sociedade, têm o “dom” de espalhar freneticamente por onde atuam o mais amaldiçoado dos instintos rasteiros, a nos valermos da definição do medo cunhada por Shakespeare.
Martelo de novo, com carradas de razão, a tecla. Só no primeiro semestre deste ano, os quatro maiores bancos do País obtiveram, somados, lucros da ordem de R$ 22 bilhões e 900 milhões. Tais números, como de praxe, nessa espiral ascendente ininterrupta de resultados excepcionais que pontilha a trajetória do sistema bancário em nosso País, revelaram-se superiores aos do mesmo período do ano anterior, ficando assim distribuídos pelas organizações: Itaú, R$ 7.1 bi; Banco do Brasil, R$ 6.3 bi; Bradesco, R$ 5.4 bi; Santander, R$ 4.1 bi. A proverbial lucratividade do nosso operoso complexo bancário, incomparável com relação a qualquer outro país, traduzida nessa amostra de números correspondentes a apenas quatro instituições, suscita inapelavelmente uma indagação. À vista de toda essa dinheirama, não é o caso de se imaginar a instituição, por iniciativa do Governo, de um fundo para programas sociais relevantes com recursos derivados de tributação que incida sobre a lucratividade excessiva desse e de outros setores escandalosamente favorecidos pela política econômica vigente? Uma decisão dessas, corretíssima do ponto de vista político e social, não representaria uma forma de reforçar o caixa para a expansão de serviços essenciais nas áreas da saúde e educação?
* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Confusão das arábias
Cesar Vanucci*
“A confusão era geral!”
(Relembrando dito famoso de Machado de Assis, em “Dom Casmurro”)
Depois dos primeiros e justificáveis instantes de euforia deu para perceber nitidamente no ar alguns sinais inquietantes de que a assim chamada “Primavera árabe”, confrontando reações domesticas e externas consideravelmente poderosas, tendia a perder fôlego. Esforços virulentos em favor da preservação de abomináveis hegemonias oligárquicas no plano doméstico, misturados com as costumeiras manipulações de bastidores engendradas pelos interesses geopolíticos e econômicos de sempre, começaram a colocar em xeque as propostas políticas liberalizantes despejadas nas ruas e praças pelo clamor popular.
As férreas reações às mudanças, mais ferozes numa região do que em outra, mas de qualquer maneira doridamente reais, trabalham obstinadamente no sentido de que o processo não possa avançar nos termos almejados pelas multidões. Chegam a ocasionar nalgumas paragens frustrantes retrocessos.
A Junta no Egito, composta de militares que ocuparam desde sempre postos chave no governo deposto, não parece mesmo disposta a abrir mão de sedimentados privilégios. Os impasses por aquelas bandas só fazem aprofundar. Os integrantes do comando militar empenham-se em assegurar prerrogativas que, de forma alguma, os resultados das recentes eleições admitem referendar. Muito antes, pelo contrario. E olhem que as eleições em pauta foram realizadas debaixo do rígido controle da Junta, com regras, como sabido, não totalmente amoldadas ao tradicional figurino democrático. Num clima atulhado de tensões, com a repressão policial arrastada ao auge, no melhor estilo da era Mubarak, os egípcios fardados não escondem o propósito de se perpetuarem como condestáveis tutores do regime. Propõem-se magnanimamente a exercer “poder moderador” paralelo no processo político. Nesse afã, indiferentes à mensagem das urnas, que apontam os verdadeiros dirigentes do país desejados pela sociedade, cuidam no momento de “designar” um “colégio de notáveis”, escolhidos a dedo para aconselhá-los em suas “patrióticas decisões” sobre questões de valor transcendental. Os crescentes temores acerca do que vem pintando no pedaço egípcio avolumam-se mais quando se tem presente a barbárie extremista, encorajada oficialmente, cometida contra minorias indefesas, como aconteceu no caso dos cristãos chacinados. Um caso que, estranhavelmente, não encontrou a ressonância apropriada por parte da grande mídia ocidental.
Na Síria, as coisas continuam postas daquele jeito que o diabo tanto aprecia. Matança bestial, já contabilizando mais de 5 mil vitimas, deixa escancarada a determinação insana da ditadura de Damasco em não ceder terreno, bem como a existência de uma implacável guerra civil de imprevisíveis consequências. A conflagração síria gera especulações de toda ordem. Não poucos estudiosos de política árabe crêem na possibilidade de que uma eventual sucessão do tirano Assad, tal qual ocorreu noutros paises árabes, possa não significar avanço qualquer em termos de conquistas democráticas.
A Líbia, inexplicavelmente ausente das primeiras páginas depois do trágico defenestramento do tristemente celebre Kadafi, já está sendo vista como mais uma encrenca emblemática. Os grupos heterogêneos que ascenderam ao comando andam até trocando tiros pelas ruas. A repressão aos adversários continua tão violenta quanto no passado. O precário governo instalado é partidário – Alá que cuide de proteger os humanistas e as mulheres árabes! - da inserção da “Sharia” na Constituição em preparo. Pra muita gente que conhece os meandros da enigmática política árabe, os inimigos de Kadafi, agora desempenhando papeis centrais no teatro dos acontecimentos, têm deixado à mostra, com os desvarios praticados, incontrolável pendor para manter íntegro seu legado de terror.
A confusão que varre os domínios árabes não fica confinada obviamente aos fatos comentados. Tema pra novo papo.
Bota confusão nisso
“Confusão: mistura desordenada de seres ou coisas;
mixórdia, misturada (...), bagunça.”
(Definição constante do Dicionário Houaiss)
As ambições insopitáveis das oligarquias enquistadas no poder e as ações tresloucadas dos grupos religiosos fanatizados explicam em grande parte a razão do mundo árabe viver em permanente e furibunda ebulição. Mas outros fatores de relevância, nem um tiquinho subestimáveis, têm também peso no rumo das coisas. Rumo e coisas sempre enigmáticos e imprevisíveis, em se tratando dos lugares de que se está a falar.
A política ambígua dos Estados Unidos na região, tão ambígua agora quanto foi na era Bush pra desalento dos que acreditaram no sopro renovador esperançosamente acenado na pregação do candidato Obama, é um desses fatores perturbantes. A política de manifesta intolerância do governo israelita, sempre sensível às pressões do grupo ortodoxo radical integrante da coalizão de forças que comanda o pais, é outro complicador realçante no conturbado cenário.
Os dois paises contrapõem-se de forma insensata ao ponto de vista da grande maioria das nações com assento na ONU. Deram-se as mãos, valendo-se de expedientes os mais ridículos, para obstaculizar o reconhecimento do Estado da Palestina. Uma resolução política corretíssima, aguardada há décadas. E não apenas, compreensivelmente, pelos cidadãos palestinos, mas por toda a opinião pública mundial. Por homens e mulheres de boa vontade apoderados da lúcida certeza de que a conquista da paz ardentemente almejada no conflituoso território passa, obrigatoriamente, em primeiro lugar, por essa histórica decisão. E como se não bastassem os pronunciamentos descabidos, vociferados na tribuna, as chancelarias de ambos paises anunciam, pirracentamente, a disposição de retirar apoio financeiro às atividades da Unesco pela “insultuosa“ acolhida dada a uma representação palestina.
Enquanto tais posicionamentos despropositados são adotados, Tel Aviv autoriza, na marra, a construção de novos núcleos de moradias destinadas a grupos israelenses em áreas pertencentes à futura pátria palestina. Desrespeita, novamente, pactos internacionais, fazendo ouvidos moucos aos protestos universais suscitados pelas apropriações indébitas das terras. Confia, obviamente, pela undécima vez, nas “costas quentes” garantidas pelo poderoso aliado americano. Não liga a mínima à circunstância de seus atos agregarem um complicador a mais nos entendimentos em prol da paz no Oriente Médio. Paz essa, mencione-se de passagem, já “celebrada” um punhado de vezes, com concessão até de Prêmio Nobel aos que a “promoveram”, como o distinto leitor haverá de se lembrar ...
E eis que surge agora um outro episódio emblemático, envolvendo governantes israelenses, no bojo de informação trazida ao conhecimento público pela grande mídia, mas sem pormenores explicativos essenciais. Em troca da libertação de um jovem soldado em poder de extremistas árabes, mais de mil, entre 5 mil palestinos encarcerados e tidos como inimigos do Estado do Israel, deixaram a prisão. As negociações para a libertação foram processadas diretamente com o “Hamas”, sem qualquer interferência da Autoridade Palestina. E isso aconteceu, sintomaticamente, no justo momento em que os dirigentes da “Al Fatah”, base da sustentação legal do governo palestino, compareciam à ONU, pleiteando um assento permanente para a Palestina na organização. Muita gente não conseguiu entender as razões das conversações havidas envolverem apenas o pessoal do “Hamas”. Afinal de contas, esse pessoal tem sido volta e meia apontado, pelo Israel e pelos EUA, como virulento grupo terrorista, vinculado à sinistra “Al Qaeda”. É visto, também, como adversário passional da “Al Fatah”. À conta desse suspeitoso currículo tem sido considerado um interlocutor ilegítimo em quaisquer discussões ligadas às candentes questões do Oriente Médio. Por que, cargas d’água, então, resolveram chamar o “Hamas” para negociar troca de prisioneiros? Observadores qualificados perceberam nesse inusitado procedimento uma jogada maquiavélica urdida com o intuito de desqualificar as ações da Autoridade Palestina em sua busca de reconhecimento universal.
O episódio oferece mais dados instigantes. Cuidemos de anotá-los. O coordenador pelo “Hamas” dos entendimentos com as autoridades de Israel, um clérigo de nome Yussef, encontrava-se até recentemente na prisão. Foi colocado em liberdade com o fito de conduzir as conversações. Repórteres da televisão portuguesa, conforme mostrado em interessante reportagem no “Globo News”, descobriram que o filho mais velho desse clérigo, de nome Mussab, agia no interior da organização terrorista comandada pelo pai como um agente do serviço secreto israelense. Por causa disso, teve que recorrer a asilo político nos Estados Unidos. Em minhas leituras assíduas de jornais e acompanhamento de boletins televisivos nada havia lido, visto ou escutado a respeito desses itens antes de tomar conhecimento da surpreendente reportagem. Vamos, venhamos e convenhamos: não há como deixar de classificar, no mínimo, de estranho o silêncio da grande mídia com relação ao assunto.
No artigo passado – lembra-se o leitor? – falamos de confusões das arábias. Bota confusão nisso.
* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Cesar Vanucci*
“Não faltará rigor nessa apuração!”
(Ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, a propósito
do vazamento de óleo da plataforma da “Chevron”)
Houve-se bem o Governo Brasileiro em ordenar sejam interrompidas, por tempo indeterminado, as operações da Chevron no Brasil. A quarta maior petroleira do mundo pisou feio na bola no episódio do vazamento de óleo no Campo do Frade, na Bacia de Campos. Recorreu a trapaças inimagináveis na construção de sua interpretação dos fatos. Foi longe demais da conta na marota tentativa de engazopamento da opinião pública em que se lançou, começando pelo Parlamento e órgãos de fiscalização.
Favorecida pelo incompreensível e, pode-se dizer mesmo, cúmplice comedimento de parte influente da mídia na divulgação da grave ocorrência ambiental, a empresa norte-americana fez de tudo para ocultar as verdadeiras proporções do incidente. Tratava-se, garantiu, de vazamento provocado por “uma rachadura no solo do oceano”. Um “fenômeno perfeitamente natural”, ousou afirmar. A versão pinoquiana foi reduzida a estilhaços em curto espaço de tempo. A alegação, constatou-se, não passava de embuste, deboche puro.
As informações liberadas a respeito de colossal mobilização de recursos extraordinários que estaria promovendo, objetivando conter o vazamento foram desmentidas, uma a uma. A petroleira sustentou haver requisitado, de imediato, 17 embarcações para as operações de emergência. Mentira. Naquela fase dos trabalhos, deslocou para o local do desastre um único navio. Ao anunciar um plano emergencial de abandono do poço que vinha sendo perfurado, sonegou outro dado fundamental: não dispunha dos equipamentos necessários à execução do plano com a rapidez exigida. O equipamento teve que ser trazido de fora. Só entrou em funcionamento algum tempo depois, sem que os órgãos competentes tivessem sido devidamente notificados de sua chegada. Disso resultou o retardamento de providencias consideradas essenciais. As tapeações da Chevron chegaram ao ápice do atrevimento quando mandou confeccionar um vídeo com imagens adulteradas do incidente. A intenção de, uma vez mais, ludibriar a boa fé alheia ficou manifesta. As cenas editadas “provavam” que a dimensão do desastre ambiental havia sido sensivelmente menor.
Coube a diligentes oficiais da Policia Federal deixar exposta ainda mais a arrogância e impertinência da empresa. A ação policial comprovou a utilização na área pesquisada, na Bacia de Campos, de uma sonda com capacidade para perfurações além de sete mil metros. O fato evidenciou que a petroleira infringiu também, clamorosamente, regras pactuadas quanto às suas atribuições na prospecção que lhe foi confiada. Na verdade, as camadas de petróleo na região explorada podem ser alcançadas a profundidades que tornam dispensáveis sondas desse porte. A ação levada a termo escondia o propósito de facilitar à Chevron acesso, de forma ilegal, clandestina, à camada de pré-sal. Acesso esse não cogitado na outorga de prospecção concedida.
Não há, pois, usando de franqueza, como calar a estranheza diante da tonitruante constatação de que essas coisas todas, de suma gravidade, não conseguiram, apesar dos sinais e indícios abundantes e pertubadores, atrair com a intensidade desejável as atenções da grande mídia. Pergunta-se, então, com certa inquietação quanto a natureza das respostas que possam ser colhidas: e se no lugar ocupado pela estrangeira Chevron, como ré que é de crime bem configurado contra o interesse público, contra o interesse nacional, estivesse colocada a brasileiríssima Petrobras? A cobertura das ocorrências gravíssimas na bacia de Campos teria sido tão controlada, tão parcimoniosa, quanto a que foi dada, no tocante à candente questão, por quase todos os nossos grandes veículos de comunicação? Hein?
Ano aziago para o futebol
“Os últimos serão os mineiros!”
(Gracejo, com jeito de prognóstico, posto a circular nas redes
sociais, a propósito do desempenho do futebol de Minas)
Vexame geral, roçando a tragédia. Um dos três clubes despencou logo de cara ribanceira abaixo. Os demais – sabe lá Deus como – escaparam por um triz do rebaixamento. A coisa andou tão feia por período exageradamente prolongado que muita gente passou a aceitar, resignadamente, como prognostico irremovível um dito em tom de gracejo posto a circular nas redes sociais: “os últimos serão os mineiros” ...
Para os torcedores do América o sofrimento estendeu-se praticamente por todas as rodadas. Os torcedores do Atlético “curtiram” sufoco a maior parte do tempo. A angustia dos cruzeirenses só se desfez, de forma inesperada, na vigésima quinta hora. A goleada implacável aplicada no arquiinimigo, na derradeira e decisiva disputa, rendeu compensações, mas não ocultou jeito maneira a mediocridade da campanha encetada. A expressão mediocridade cai, também, como luva para definir o desempenho do Atlético. Aliás, a posição na tabela dos dois principais clubes do Estado diz tudo e mais alguma coisa. Distanciados um do outro por apenas dois pontos, “desfrutaram”, ambos, a amarga sensação de figurar, com méritos irretorquíveis, na rabeira dos 16 classificados.
Que o futebol praticado pelos atletas em campo situou-se abaixo da critica ninguém põe em duvida. Mas manda a verdade dizer que a responsabilidade por tão assustadores desacertos não pode ser largada a débito exclusivo dos jogadores. Pegue-se o caso do Cruzeiro como exemplo. O time, no principio da temporada, era apontado por todo mundo como real candidato ao titulo. Vindo de espetacular campanha na “Libertadores”, quando a perda do titulo na final só aconteceu por um desses caprichosos acasos brotados, de quando em vez, ao arrepio da lógica, nos excitantes e inextricáveis domínios do “esporte de multidões”, lançou-se de repente, para espanto geral, num processo de desconstrução perversa de tudo aquilo que estava montado e vinha dando certo. Já no meio do primeiro turno todo mundo se perguntava sobre o que estava a suceder com um time que a crônica esportiva chegara a apontar como o único no mundo em condições de se nivelar em brilho técnico com o Barcelona, de Leonel Messi. Ficou claro, de forma avassaladora, que houve um incompreensível desgaste técnico da equipe, provocado por fatores extra-campo.
O Atlético, a seu turno, em que pese a ebulição permanente produzida pelas dispendiosas contratações de técnicos e craques, continuou a desempenhar o papel a que, resignadamente, se afeiçoou de tempos pra cá, no palco dos espetáculos. O papel de despretensioso coadjuvante, em desacordo, gritantemente, com os feitos esportivos doutros tempos.
O desempenho pífio dos times em campo não esgota, tá claro, as explicações a respeito da lastimável circunstância de o ano de 2011 haver sido o pior pro futebol mineiro na era pós Mineirão. Nossos clubes carecem hoje – está na cara – de administrações mais competentes. Reclamam lideranças com maior capacidade de ação e poder de voz na política do futebol. Omissões deploráveis, renúncia inaceitável de direitos, acomodações diante de fatos injustificáveis acarretaram – como não? - danos pesados à credibilidade do futebol mineiro. Isso tem sido a razão de parte ponderável da torcida estar sendo arrastada, a contragosto, ao desalento. Muita coisa relevante que rolou fora do campo influiu marcantemente na desastrada performance dentro de campo. Uma conjugação de variados fatos compôs o contexto negativo em que o futebol mineiro se inseriu. Planejamentos inadequados no que concerne às obras do Mineirão, relativas à Copa de 2014, e do estádio do Sete, sem relação com a Copa, atacadas simultaneamente, privaram os clubes e a torcida de arena apropriada para sediar as competições na Capital, por considerável espaço de tempo. Inequívocos, os prejuízos. Uma outra medida que concorreu fortemente para arrefecer o entusiasmo popular quanto ás disputas foi a incrível decisão de se impor “torcida única” nos estádios distantes que passaram a acolher os clássicos. O saudoso Stanislau Ponte Preta dificilmente deixaria de arrolar essa decisão no seu famoso Febeapá. A “contribuição” da emissora que detém o controle das transmissões por televisão dos jogos, para o descrédito do futebol mineiro foi também “preciosa”. Essa de vedar, por interesse comercial, o acesso do telespectador, nos canais abertos, aos jogos dos times de sua predileção, substituindo-os por partidas, até do exterior, sem qualquer poder de atração para o torcedor, vamos e convenhamos, é de lascar o cano... Não é assim mesmo que como se costumava dizer em tempos de antigamente? Nada de surpresas, por conseguinte, distinto leitor, tendo em vista essa fase atual de descrédito do futebol mineiro, quanto a um outro desconcertante episódio registrado na última rodada do Brasileirão. Para os dez clássicos regionais disputados, nenhum árbitro mineiro foi escalado. Nem mesmo como gandula, ora, veja, pois ...
*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
A SAGA LANDELL MOURA
Javier Milei, o trapalhão
Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...
-
*Cesar Vanucci “Queremos resolver o problema o mais rápido possível” (Vice-Presidente Alckmin) Avaliada pelo prisma Ju...
-
Cesar Vanucci * “Coragem é a dignidade colocada sob pressão” (John Kennedy) O relato a seguir foi feito em reunião evocativa do Dia da M...