sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fotografia, invento brasileiro

Cesar Vanucci *

“Não disputarei descobertas a ninguém...”.
(Hércules Florence, num comunicado feito em Campinas, em 1834)


Na história das invenções não são raros casos assim. A um mesmo tempo, como se a idéia, antes de aflorada, estivesse a germinar no inconsciente coletivo, uma invenção, um processo de criação ou aperfeiçoamento técnico, que acabam tendo, adiante, paternidades diferentes, são anunciados em lugares distanciados entre si. Isso sem que os responsáveis pelas realizações se liguem por vínculos de qualquer ordem, como, para exemplificar, a uma pesquisa desenvolvida em comum. Aconteceu desse jeito, também, com a fotografia, esta infalível testemunha ocular da história, universalizada em proporções inimagináveis com os avanços eletrônicos destes tempos modernos.

A crônica do invento assinala que, praticamente à mesma época em que Daguerre (1893) maravilhava os franceses com a notável façanha de fazer imprimir aspectos da realidade cotidiana numa lâmina de metal, após rápida exposição à luz e alguns poucos minutos de manipulação numa câmara escura, um outro francês, imigrante radicado em Campinas, São Paulo, conseguia captar impressionantes imagens com a ajuda de câmara de fabricação caseira. Aliás, a bem da verdade, a proeza de Hércules Florence, o imigrante morador da Vila São Carlos (Campinas), pelo que se conclui da documentação histórica disponível, reproduzida esplendidamente em enciclopédia da Editora Abril, antecedeu em cerca de seis anos o lançamento do chamado daguerreótipo, denominação pelo qual ficou mundialmente popularizado o invento de Louis Jacques Mandé Daguerre.

As experiências a que Florence se consagrou, limitadas em suas repercussões ao ambiente provinciano de pequena faixa territorial de um país-continente, desprovido na época de estrutura de comunicação digna de nota, pouco difundido no plano internacional, chegaram ao conhecimento popular em 1833.

Nas pesquisas foram empregadas substâncias como nitrato de prata e o cloreto de ouro. A fixação de imagens em papel viabilizou-se com o auxílio de urina e amoníaco cáustico. Foi em 1834, janeiro, que Florence batizou sua descoberta, utilizando-se de construção idiomática muito ao sabor da época: photografie. Os jornais brasileiros, ao anunciarem o aparecimento do daguerreótipo, procuraram ouvir o imigrante inventor que morava em Campinas. No comunicado que distribuiu, Hércules Florence fixou uma posição que concorreria, no futuro, de algum modo, para que o seu nome se mantivesse encoberto pelas névoas do esquecimento público: “Não disputarei descobertas a ninguém, porque uma mesma idéia pode vir, ao mesmo tempo, a duas pessoas.”

A origem primeira da arte fotográfica, hoje tão poderosamente incorporada ao nosso trabalho, ao nosso lazer, a todas as atividades humanas, perde-se no fundo dos tempos. As primeiras notícias sobre um conhecimento rudimentar da matéria fizeram-se conhecidas no século IV A. C. Sabia-se, então, que a luz solar, penetrando em quarto escuro através de orifício, projeta nas paredes imagens do exterior. No século XI, os árabes empregaram, dentro de critérios práticos, para observação dos eclipses, esse método primitivo de se fazer imagens, já então conhecido pelo nome de câmara escura.

Depois de lapso de tempo relativamente amplo, em que esteve praticamente à margem de quaisquer cogitações científicas, o processo praticamente foi retomado, no século XVI, por Leonardo Da Vinci. O fenômeno da captação de imagens encontrou neste genial homem do mundo um sopro renovador.
“A imagem de um objeto iluminado pelo sol penetra num compartimento escuro através de um orifício. Se colocarmos um papel branco do lado de dentro do compartimento, a alguma distância do orifício, veremos sobre o papel a imagem com suas próprias cores, porém invertida, devido à intercessão dos raios solares.” Estabelecia-se, naquele momento, três séculos antes que surgisse a primeira fotografia de Hércules Florence aqui no Brasil, um princípio básico da máquina de tirar retratos.

Falaremos, na sequência, dos desdobramentos objetivos da descoberta de Da Vinci.




A primeira fotografia



“Uma imagem vale mais que mil palavras.”
(Ditado chinês)

Interrompemos nossa narrativa no capítulo passado assinalando que um experimento do genial Leonardo da Vinci, três séculos antes que surgisse aqui no Brasil a primeira fotografia de Hercules Florence, estabeleceu o princípio básico da máquina de tirar retrato. A descoberta de Da Vinci produziu efeitos em cascata. Projetistas e pintores usaram-na como método auxiliar, de imensa valia, em seus trabalhos de criação. Essencialmente, a operação consistia no seguinte: projetava-se a imagem numa folha de papel pendurada na parede. O artista, para registrá-la, desenhava-lhes os contornos.

Ainda no século XVI, Gerônimo Cardano, também italiano, idealizou os primeiros modelos portáteis de câmara escura. Configuremos a cena: uma sala com espaço suficiente para um homem dentro dela se locomover, transformada numa espécie de caixa. Num dos lados da caixa, uma placa de vidro fosco. No outro, um orifício de pequenas dimensões. Através da abertura a imagem do objeto iluminado pelo foco solar é lançada no vidro. A nitidez é tanto maior quanto maior for o grau de iluminação do objeto focalizado.

Outro italiano avançou nas ousadas experiências de Cardano. Chamava-se Giambattista Della Porta. Chegou, à custa de infindáveis buscas, à constatação de que as imagens poderiam ficar ainda mais límpidas, na hipótese de se poder encaixar uma lente na fenda da tal caixa. Definia-se aí ponto fundamental para a futura fabricação das câmaras de fotografia.

Outras contribuições, conforme dados divulgados pela Enciclopédia da “Abril”, permitiram a evolução do processo. Johann Schulze, em 1727, eliminou a certeza científica, que a todos dominava, de que os sais de prata empregados no processo, guardados por algum tempo, tornavam-se escuros por envelhecimento. Nada disso acontece, explicava ele. O envelhecimento é ocasionado pela luz. Fez juntada de provas. Misturou certa quantidade de nitrato de prata, com cal e ácido nítrico num recipiente. O resultado: um vermelho intenso, resultante da fusão, substituiu a brancura da solução.

Como a prova precisasse ser robustecida, Schulze avançou mais: preparou a mesma mistura e cobriu o recipiente com um papel desenhado. As partes alvas do papel favoreceram a infiltração de luz. As zonas correspondentes do líquido tingiram-se de vermelho. Em contraposição, as partes onde se viam traços desenhados impossibilitaram aos raios de luz atingissem o líquido. Esse manteve a cor branca nas áreas correspondentes aos traços. Resumindo tudo: o desenho ficava reproduzido em negativo na superfície do nitrato de prata.

Por ordem de entrada em cena, quem apareceu, logo em seguida, de acordo com os assentamentos históricos, foi Thomas Wedgewwood. Ele arrebatou a glória de ter sido o primeiro a tentar, por volta de 1790, compor uma foto. Num pedaço de papel impregnado de nitrato de prata, colocou o objeto que desejava gravar, uma folha de árvore. O pedaço de papel ficou exposto à claridade por algum tempo. O que adveio daí apontou o acerto da experiência. As partes da folha de papel submetidas à luminosidade transformaram-se em zonas escurecidas. As partes protegidas, equivalentes às regiões espessas da folha, ficaram mais claras. Tinha-se diante dos olhos o primeiro exemplar de um negativo. O que não se conseguiu foi a fixação duradoura da imagem impressa. Joseph Bicéphore Niepce acrescentou uma conquista a mais ao esforço criativo humano, que conduziu à implantação da arte fotográfica. Amparado pelos testes de Wedgwwood, usou uma placa de vidro como substituto do papel, envolvendo-a com betume. Procedeu dessa maneira a verificar que suas fotos saiam ao inverso isto é, onde devia ser preto era branco, e onde devia ser branco era preto.

Utilizando outros materiais, como óleo de lavanda e iodo, ele foi enriquecendo a pesquisa, até chegar, em 1822, a produzir o que é apontado como a mais antiga fotografia jamais feita – uma mesa num jardim. Contam os registros históricos, que fazem parte da enciclopédia da Abril, que a operação para se chegar à captura da imagem consumiu oito horas consecutivas de nervosa concentração.

Voltaremos, nesta recapitulação histórica acerca da invenção da “máquina de tirar retrato”, a falar do franco-brasileiro Hercules Florence.


Florence criou a “photografie”


“Hercules Florence conseguiu
resultados superiores aos de Daguerre...”
(“Wikipédia”, a enciclopédia livre)


Na recapitulação que vimos fazendo, estribados em dados extraídos da Enciclopédia da Editora “Abril”, sobre a história da arte fotográfica chegamos, finalmente, às pesquisas de Daguerre, na França e aos experimentos de Hercules Florence, no Brasil. O sistema de Niepce foi apurado, através de método de revelação de chapa mais eficaz. O francês ficou célebre como o descobridor do princípio da fixação, ao conseguir, com técnicas que soube desenvolver, provas positivas mais perfeitas do que as produzidas até então. Era o ponto de partida de uma viagem infindável. Dali para frente, as conquistas foram se acumulando.

1.Em 1841, William Henry Fox Talbot substituiu a placa banhada em prata pelo papel. 2. O vidro voltou a ser temporariamente usado, em substituição ao papel, até que surgiu, em 1873, o celulóide. 3. Em 1882, George Eastman fabricou os primeiros modelos portáteis de aparelhos fotográficos. 4. Até 1887, só se obtinha fotografia com luz natural. Foi quando Gaedicke e Niethe apareceram com o chamado flash. Do estrondo produzido pela queima do pó de magnésio, até o clarão gerado eletronicamente, um bom caminho foi percorrido. 5. Em 1861, outro avanço: a primeira fotografia a cores. James Clerk Maxwell exibiu, orgulhoso, o fruto de pacientes investigações. Antes, o que havia, em matéria de imagem fixa policrômica eram as fotos em preto e branco, pintadas à mão por hábeis artesãos-fotógrafos, com retoques por vezes generosos, ao gosto do freguês retratado. 6. Em 1893, John July deu outro passo adiante. A foto a cores nascida de uma única projeção. No processo anterior de Maxwell eram necessárias três fotos para se elaborar a cena colorida desejada. A película a cores já seria conquista do século XX.

E depois? As passadas tornaram-se cada vez mais largas. As máquinas que permitem revelações instantâneas. As teleobjetivas. As microfotografias, os microfilmes, reduzindo ao tamanho de uma cabeça de alfinete, ou algo comparável, o conteúdo de milhares de livros. As fotos feitas pelos satélites, a milhares de quilômetros de altitude, captando detalhes que o próprio olhar humano não pode alcançar. Os registros fotográficos automáticos das naves que varam a imensidão cósmica e que remetem imagens desconcertantes obtidas a milhões e milhões de quilômetros. Os chips da mágica eletrônica moderna. As fotos colhidas com o manuseio de celulares. As câmeras sem filmes ainda não digitais. As câmeras digitais.Tudo isso e muita coisa portentosa, que a nossa inteligência talvez ainda não consiga imaginar em sua real proporção, representam o desdobramento prático das incipientes investigações daqueles momentos inaugurais da era fotográfica. Daquele esforço silencioso desenvolvido em laboratórios improvisados, dotados de toscos equipamentos, de homens como o franco-brasileiro Hércules Florence e o francês Louis Jacques Mandé Daguerre, autênticos contemporâneos do futuro, para quem as fronteiras do conhecimento estiveram sempre fixadas no infinito.

Sobre Antoine Hercules Romuald Florence, francês de nascimento, brasileiro de coração, residente em Campinas, onde se casou e teve, em duas uniões, vinte filhos, netos, bisnetos e, até, tataranetos, algumas coisas importantes restam ainda para ser contadas. O jornalista e professor Boris Kossoy, no livro “1833: A descoberta isolada da fotografia no Brasil”, editado em 1980 (editora “Duas Cidades”), fez exaustiva pesquisa sobre seu trabalho como inventor. Retirou-lhe o nome da penumbra do esquecimento, garantindo-lhe lugar de realce, ao lado de Daguerre, entre os personagens que disputam perante a história a paternidade da fotografia.

Florence nasceu em 1804, em Nice. Estudou artes plásticas. Veio para o Brasil em 1824. No Rio de Janeiro, trabalhou como caixeiro em casa comercial. Integrou, na condição de desenhista, expedição científica do naturalista russo Langsdorff. Em 1829, fixou-se em Campinas, São Paulo. Lançou ali um invento, a “Polygrafie”, criando seu próprio meio de impressão, já que não dispunha de um prelo. A partir desse invento, entregou-se a outros experimentos, chegando a um processo de gravação, por meio da luz, que batizou de “Photografie”. Isso, em 1832, três anos antes de Daguerre. Já em 1833, utilizava chapa de vidro em câmara escura. A imagem colhida era “capturada” em papel sensibilizado. O processo por ele bolado, considerado mais eficiente do que o de Daguerre, permaneceu oculto do conhecimento mundial por muitos anos. Mas, hoje, já existe algum reconhecimento internacional de seu papel como inventor. Para isso contribuíram muitíssimo a pesquisa e o livro de Kossoy.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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