segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Segundo turno

 Segundo turno

                                                                                                                     *Cesar Vanucci

“Politica não é coisa para amador”

(Domingos Justino Pinto, educador).

 

 O cidadão comum espanta-se, muitas vezes, com as trilhas sinuosas percorridas pelos políticos. Acontece que a política, numa parodia relativa aos versos de  melodia popular bastante conhecida, “tem razões que a própria razão desconhece; faz juras de amor e depois esquece.” E não apenas isso. Esquece também os agravos, as desavenças, os desentendimentos, as discordâncias, os entrechoques do passado, tidos nalgum momento, erroneamente, como insanáveis e definitivos.

 Aí estão como palpitante evidência desse estado de coisas predominante, não é de hoje nos arraiais políticos, os novos arranjos, os pactos, as negociações, as alianças firmadas com vistas ao segundo turno, numerosas delas inimagináveis até outro dia.

  O “presidenciável” Luiz Inácio Lula da Silva, empenhado na composição de uma “frente ampla” que possa garantir-lhe, tal qual ocorreu no primeiro turno, ganho de votos na rodada final da sucessão, tem agora como aliados Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckimin, José Serra, Simone Tebet, Ciro Gomes, ferrenhos adversários em inflamadas campanhas eleitorais, em diferentes épocas. Os Ministros Joaquim Barbosa e Celso de Melo, ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), críticos em dias não muito remotos da gestão lulista; Marina Silva ex-pretendente à chefia de governo em oposição a Dilma Rousseff, Pérsio Arida, André Lara Resende, Armínio Fraga, Henrique Meirelles, economistas que em dado instante adotaram posição contraria às diretrizes econômicas petistas são personagens que agora identificam em Lula o candidato que melhor encarna o sentimento democrático da Nação.

 Vejamos, em seguida, o que anda rolando no pedaço contrário. No rol dos apoiadores, para segundo turno, do candidato Jair Messias Bolsonaro, figuram, pela mesma forma nomes que, ainda outro dia se contrapunham, enfaticamente, à sua atuação. Caso frisante envolve o ex-Juiz Federal e ex-Ministro Sérgio Moro. Eleito Senador pelo Paraná, saiu no ano passado do Ministério Da Justiça em conflito aberto com o chefe do Executivo, acusando Bolsonaro de interferências desabridas na Policia Federal. Sua atitude motivou a abertura de um inquérito, ainda em curso na Alta Corte, para apuração de responsabilidades. Moro anunciou oficialmente sua adesão à campanha em prol da reeleição do Presidente. Em momento não muito recuado, o chamado “centrão” era apontado por Bolsonaro e companheiros de sigla como uma excrescência na vida política. E não é que a base de sustentação no plano parlamentar do atual ocupante do Palácio do Planalto está hoje confiada, justamente, ao “execrável” agrupamento?

 Assim, a política. Travessa, desconcertante, astuciosa, incoerente, atividade repleta de ardis e irreverência, que não se presta decididamente a manejos de amador. Mas, de qualquer forma, um instrumento valioso no debate das ideias e propostas que alicerçam o processo democrático.

 Essas composições de forças promovidas pelos contendores fazem parte de um jogo complexo que exerce certo fascínio no espírito popular. Subsidiam o eleitor com informações preciosas para a tomada de decisão em seu próximo retorno às urnas eletrônicas. Fica claro que as adesões obtidas por cada um dos aspirantes à presidência, por mais representativas que sejam não excluem a necessidade da apresentação de propostas que contemplem os anseios generosos da sociedade. Mais ainda: que representem cabalmente os clamores doridos da gente do povo marginalizada no desfrute de benefícios sociais que as leis, a cartilha de direitos humanos, o bom senso, a ética humanística estipulam para todos os indivíduos independentemente de sua crença, raça, sexo ou qualquer diversidade.

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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