sexta-feira, 24 de maio de 2019


Repensar a ordem econômica mundial

Cesar Vanucci

 "Todo pensamento que se limitar às combinações da economia,
será infalivelmente enganado nos grandes negócios humanos."
(Edgard Quinet, historiador francês, século XIX)


Que ordem econômica mundial mais escalafobética e frouxa é essa que entra em alucinante parafuso a um mero estalar de dedos de um especulador qualquer, envolvido em trapaça bursátil, refestelado em iate de luxo nas "cote d'azur" da vida?

Que mané globalização é essa a espalhar desassossego no espírito da gente do povo por causa de um parecer de um tecnocrata que ninguém conhece, de uma instituição que ninguém nunca antes ouviu falar, onde são atribuídas notas escolares aos países, como se nações inteiras pudessem ser tratadas que nem alunos de jardim de infância na cata das primeiras noções do aprendizado?

Que políticas econômicas desvairadas são essas que permitem aos "donos" dos negócios do mundo, colocados acima do bem e do mal, deitar e rolar por cima da vida, do patrimônio, da saúde, do emprego dos outros em latitudes geográficas economicamente desprotegidas? E a submeterem multidões à mercê das reações volúveis das bolsas de valores, instituições tão distanciadas da rotina amarga e da capacidade de percepção das camadas populares quanto a Constelação Zeta Reticuli?

Que situação aloprada é essa em que se convoca descerimoniosamente, para pagarem a conta de eventuais empreitadas mal sucedidas no jogo bursátil, pessoas que nunca aplicaram em ações e que das bolsas só conhecem aquela caricatural coreografia de um bando frenético, lembrando dançarinos engravatados de "rock pauleira", celulares ou mini-receptores colados aos ouvidos, berrando a plenos pulmões frases ininteligíveis e produzindo gestos ainda menos compreensíveis? Abra-se pausa, nesta sequência de interrogações, para relembrar, com o espírito acariciado pelo humor da cena, o genial Peter Sellers. Num filme antológico, em que vive personagem ingênuo, fissurado por televisão, vem-lo, todo sorrisos, no recinto da bolsa, a retribuir com gestos os acenos dos desatinados apostadores à volta. Extrai-se da divertida imagem a reação natural de perplexidade que o cidadão comum reserva a certos rituais cabalísticos mundanos criados pela comédia humana para diferenciar quem, supostamente, sabe das coisas, dos que nada sabem.

Mas que globalização, santo Deus, é essa que não consegue, depois de tanta malvadeza introduzida no cotidiano de todos, trazer uma promessa, um mero aceno sequer de benefício aos menos favorecidos? E que, pelo contrário, parece achar-se empenhada em só fazer crescer as desigualdades? E que costuma celebrar, como feito retumbante, a "habilidade gerencial" de administradores faltos de sensibilidade social que desconhecem outros processos para reduzir custos e melhorar resultados senão o desestimulo ao empreendedor, o desemprego aviltante e a rotatividade da mão-de-obra?

Que baita inversão de valores é essa que permite sejam assim ressuscitados, por conta da embromação e fajutice de minorias ousadas, conceitos da pré-história econômica, recauchutados para vigir em vastas porções territoriais onde seja baixo o poder das exigências sociais e apresentados como o supra-sumo do pensamento de vanguarda, como expressão pronta e definitiva de políticas sociais avançadas?

Esta enorme confusão econômica vende a ideia de que o mundo tem de oscilar entre a turbulência e a depressão. Nesse mundo só existiria atenção para as previsões desconcertantes e suspeitosas de ilustres desconhecidos. Em geral, PHDs. De preferência, estrangeiros. Se algum deles, numa overdose de autossuficiência, num instante de mau humor, nascido, quem sabe dizer? de uma intempériezinha doméstica, resolver largar falação e atribuir pontuação sobre os níveis de risco das economias emergentes, o melhor a fazer é sair de baixo. Tudo corre o risco de desmoronar. O pessoal com poder de decisões se mobiliza para enfrentar a “crise à vista”... Aí, então, alguma reforma periférica, envolvendo a comunidade, poderá vir a acontecer. Mas, se num cenário sério e respeitável, consentâneo com o legítimo sentimento humano, outra figura - PHD em espiritualidade e sabedoria, por exemplo, o Papa Francisco -, à mesma hora do ignoto luminar em economia, resolver concitar as lideranças que traçam os rumos das coisas a porem em andamento programas ousados de reformulação social, a repercussão será bem diversa. Ocorrerão, provavelmente, comedidos aplausos. Uma que outra louvação à “reconhecida clarividência da cátedra pontifícia”... Mas não se conhecerá, inapelavelmente, qualquer impulso consistente no sentido de se passar das generosas ideias suscitadas a ações práticas.

Encurtando razões: a ordem econômica mundial que aí está e que funciona de jeito tão irracional, injusto e perverso, tem mais é que ser repensada, refeita. A convivência humana reclama, ardentemente, por práticas fraternas, solidárias, por ações vigorosas de complementariedade econômica e social entre os países, de modo a desfazer as gritantes injustiças sociais esparramadas por tudo quanto é canto. Estes os autênticos valores em condições de tornar nosso planeta azul um lugar melhor.

Afinal de contas, que globalização é essa que não contempla o crescimento econômico e a ascensão social das pessoas de todos os países igualitariamente?

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