sexta-feira, 11 de março de 2011

Um clangor de emoções

Cesar Vanucci *

“A Aquarela do Brasil se transformou,
na realidade, em símbolo do país.”
(Antonio Olinto, escritor)

Que a “Aquarela do Brasil” reboa por este mundo do bom Deus afora como uma espécie de símbolo vivo de nosso país é alguma coisa que, mexendo fundo com nossa ufania, todos sabemos de sobra. O clangor de emoções, repetindo expressão do próprio Ary Barroso, injetado na belíssima composição musical oferece um retrato sonoro impecável de um Brasil bem brasileiro. Um Brasil bem ao jeito do sentimento nacional que o incomparável musicista, personagem de presença marcante também na cena pública de seu tempo, procurou sempre manter aceso nos trabalhos realizados em diferentes áreas de atuação.

Retiro da estante um livro de saborosa leitura, do acadêmico Antonio Olinto, ubaense que nem o ilustre biografado, onde a história da paixão de Ary pela vida é magistral e didaticamente narrada. O leitor é brindado com um mundo de revelações surpreendentes, algumas confirmando essa condição simbólica adquirida pela melodia. Ali se conta, por exemplo, algo que quase ninguém – mesmo entre os admiradores fervorosos de todas as gerações desse gênio da raça – conhece a respeito de como foi concebida a “Aquarela”.

Olinto explica que tudo aconteceu na noite de 28 de fevereiro de 1939. “Chovia muito, não dava para sair e ir ao encontro de amigos.” A prosa com familiares, Ivone, a esposa entre eles, escorria de forma mansa. “De repente, Ary ficou silencioso, sem olhar para pessoa alguma na sala, interrompeu uma resposta que dava à mulher, levantou-se e foi ao piano.” O que rolou na sequência foi acompanhado do respeitoso silêncio dos circunstantes e do barulho externo da água caída do céu. Na base da “inspiração súbita, uma inspiração de apaixonado”, a “Aquarela do Brasil” foi tomando forma nos acordes e na voz de Ary, até nascer por inteiro, “música e letra de uma só vez.”

O escritor Antonio Olinto reproduz no relato biográfico um depoimento do compositor ao antigo “Diário de Notícias”, do Rio, sobre aquele mágico instante. Trecho do depoimento: “O ritmo original, diferente, cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído forte da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos (...) De dentro de minha alma, extravasava um samba que há muito desejava, um samba que, em sonoridades brilhantes e fortes, desenhasse a grandeza, a exuberância da terra promissora.”

Outro lance fantástico, igualmente do desconhecimento geral, vivido naquela memorável noite. Depois de ingerir um bom vinho, Ary retornou às teclas do piano e, novamente, em verdadeiro estado de graça, botou pra fora, com todo o imenso talento que Deus lhe deu, outra obra-prima de seu extraordinário repertório, composto de meio milhar de canções. Título da melodia: “Três lágrimas.”

Voltando à “Aquarela”. Ela foi consagrada, em votação nacional nos idos de 90 como a melhor música popular brasileira de todos os tempos. Virou símbolo. Um segundo hino nacional, mesmo!

O biógrafo de Ary Barroso recorre, a esse propósito, a uma cena emblemática da qual foi testemunha. Aconteceu em Londres, mais precisamente no departamento de literatura da Universidade. “Eu acabara de fazer uma conferência – relata – sobre a literatura brasileira contemporânea. (...) Um dos professores começou a comentar sobre qual seria o mais belo hino nacional do mundo e apresentou logo sua escolha: - É a “Marselhesa”.
- Nada disso, contestou outro. É a “Internacional” da Rússia.
Um inglês de vastos bigodes deu sua opinião: - É o inglês, sem a menor dúvida.

Um aluno de literatura (...) disse então com toda a convicção (...): - Vocês estão (...) enganados. O mais belo hino nacional do mundo é o brasileiro.”
Olinto mais do que depressa pediu explicação adicional ao autor da preciosa observação. A resposta do universitário foi de que não só achava o hino brasileiro o mais belo do mundo, como sabia cantá-lo de cor. E sapecou: “Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro...”

O escritor, felicíssimo com a inesperada manifestação, colocou o jovem e demais pessoas presentes a par de que aquela música era a “Aquarela do Brasil”, não o Hino Nacional Brasileiro. Um extraordinário samba feito por Ary Barroso.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

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