sexta-feira, 26 de julho de 2013

Papa Francisco

Cesar Vanucci *

“A mensagem da Igreja é a voz do amor contra o ódio, da justiça contra a exploração, da paz contra a violência, da esperança contra o desespero.”
(Alceu Amoroso Lima)

Muitas revelações preciosas a fazer a respeito do fascinante personagem que o Brasil acolhe com os braços abertos e o coração em festa. Chico e sua irradiante simpatia, seu irresistível carisma e jeito cativante, já começou a mostrar ao mundo, neste curto espaço de tempo de pontificado, a que veio.

Condenou explicitamente, sem que suas palavras lograssem encontrar, sabe-se lá porque cargas d’água, a repercussão desejada por parte da grande mídia internacional, a conjuntura econômica perversa, que sujeita multidões ao opróbrio da miséria extrema. Assumiu postura mais consentânea com os valores da mensagem espiritual de que a Igreja é fiel depositária, mensagem que chega do fundo e do alto dos tempos e que acena com o bem-estar social e a confraternização universal para os homens de todas as latitudes, crenças e raças.

Adotou hábitos de simplicidade nas rotinas da função exercida. Interveio com firmeza nos negócios nebulosos praticados por colaboradores infiéis no célebre Banco do Vaticano. Num ato de forte simbolismo, provocando manifestações raivosas de líderes europeus despojados de sensibilidade social e senso humanístico, criticou o que chamou de “globalização da indiferença”, ao deslocar-se para o porto marítimo de Lampedusa, em território italiano, e lamentar, com veemência, o tratamento iníquo dispensado aos imigrantes africanos que ali aportam. Confessando-se mortificado com o fato, recordou que na insegura travessia marítima dessas levas de párias escorraçados de seus pagos e que se atiram, mar afora, com a esperança vaga de chegar a um lugar que se lhes possa oferecer condição de vida um pouco melhor, 60 mil pessoas, aproximadamente, já perderam a vida. Vergastou procedimentos, no campo da moral e dos costumes, incompatíveis com a dignidade da função eclesial, praticados por dignitários da instituição que comanda.

O Papa Chico veio ao nosso País para participar com jovens de todos os lugares e idiomas, uma geração inteira apoderada de esperança na reconstrução das estruturas sociais humanas, de uma extensa vigília baseada no estudo e discussão das temáticas angustiantes destes conturbados tempos modernos.

É de se esperar que dos contatos havidos na Jornada Mundial da Juventude, muitas inspirações novas possam aflorar de modo a refazer os caminhos futuros da Igreja. De maneira a levar a nau de Pedro a compreender melhor as angústias do homem moderno, a libertá-lo de carcomidos preconceitos e mitos. A imprimir sentido prático ao ideal ecumênico, a inserir-se pra valer nas lutas contra os desníveis sociais, a favor da preservação do meio ambiente. A repensar posições a respeito de tabus gerados pela vontade humana e não por algum valor espiritual sagrado, como acontece, por exemplo, com relação ao celibato sacerdotal, a vedação do acesso da mulher ao ministério sacerdotal e por aí vai.

O Papa Francisco é possuidor das qualificações de liderança desejáveis na promoção da grande ação reformista, cristã, evangélica, ecumênica, humanitária, pela qual o mundo inteiro anseia.


A ignomínia da tortura


“A inocência dos rapazes é indiscutível”.
(OAB, do Paraná)

Qual vai ser mesmo o desfecho dessa mais recente atrocidade cometida por policiais truculentos e desalmados contra cidadãos inocentes barbaramente submetidos no Paraná a torturas inacreditáveis para confessar crime que não praticaram?

Recapitulando o que aconteceu: uma adolescente, Tayná Adriana da Silva, 14 anos, desapareceu. Foi vista pela última vez nas proximidades de um parque de diversões onde trabalhavam quatro rapazes, com idades entre 22 e 25 anos, apontados, mesmo sem provas ou testemunhas, como responsáveis pelo sumiço da garota.

O que aconteceu depois foi um show de horrores. Os policiais encarregados da investigação do caso, no afã de responder prontamente ao clamor da população por justiça, divulgaram os nomes e as fotos dos “suspeitos”, criando ambiente propicio para que populares indignados destruíssem o parque de diversões e tentassem linchar os “autores do crime”.

Os indiciados, debaixo de tortura, confessaram o crime. A polícia utilizou variadas “técnicas” para obter a “confissão”. Choques elétricos, pau de arara, sufocamento por sacos de lixo, introdução de cabos de vassouras no ânus, outras sevicias sexuais. Um dos acusados teve a cabeça enfiada num formigueiro. Se lhes tivesse sido exigido, confessariam até mesmo o assassinato de John kennedy, decifrando graças aos eficientes métodos policiais paranaenses um tormentoso enigma já com meio século de duração.

O “eficaz método” para a extração da confissão dos “suspeitos”, levou todos eles a “admitirem” haver estuprado em sequência a garota, cujo corpo foi encontrado num poço, nas imediações do parque. Laudo da perícia atestou, mais tarde, que a menor não apresentava sinais de abuso sexual. Estava com as roupas alinhadas, sem indícios de resistência. De outra parte, o material genético do sêmen recolhido em suas vestes íntimas não era compatível com o de nenhum dos acusados.

Começou a ser trabalhada, a partir dessas constatações, a hipótese de que teria ocorrido, anteriormente à morte da menor, uma relação consensual. Depois de 17 dias de prisão nas mãos do terrorismo policial, os quatro foram considerados inocentes, já aí com a intervenção da Comissão de Direitos Humanos da OAB paranaense.

A suprema gravidade dessa história de horror levou o Governo Federal a chamar a si o exame do caso, assegurando proteção aos rapazes. O processo, ao que se anunciou, será julgado pelo Superior Tribunal de Justiça. A OAB do Paraná em manifestação pela imprensa disse que a história “chocou pela natureza das agressões, pelo tempo que durou, pela participação de numerosas pessoas e pela indiscutível inocência dos rapazes.”

Renova-se a pergunta formulada na parte introdutória deste comentário: qual será o desfecho de tudo isso? O reconhecimento oficial da inocência dos acusados terá que ser acompanhado, evidentemente, de um justo ressarcimento pelos danos morais, físicos e psicológicos que a horrenda situação produziu. Mas como é que fica a situação dos torturadores? Que punição lhes será reservada?

Faz-se imprescindível, nesse particular, uma decisão que possa traduzir, com supremo rigor, a justa repulsa da sociedade a esse e a outros processos iníquos de violação dos direitos humanos, lamentavelmente praticados por aí, por despreparados agentes da lei. É preciso saber extrair dos acontecimentos uma lição com didáticos desdobramentos.


XIV ENCONTRO CULTURAL DA ACADEMIA

C O N V I T E

 


 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG



Arapongagem e consciência cívica

Cesar Vanucci*

“O Estado não pode ser o Grande Olho, o Grande Irmão,
aquele que sabe tudo das pessoas e inibe as pessoas.”
(Presidenta Dilma Rousseff)

Ninguém me contou. Fui eu que vi e ouvi, com esses olhos e ouvidos que a terra algum dia vai comer, só que, dependendo de minha vontade, daqui um bocado de tempo. O que vi na telinha, tomado de compreensível espanto, foram dois formadores de opinião, de diferentes prefixos, expendendo críticas num tom de quase deboche ao posicionamento do Governo e do Parlamento diante da gravíssima denúncia acerca do esquema de espionagem eletrônica implantado pelos Estados Unidos no território brasileiro, vasculhando segredos de Estado, coletando informações relevantes sobre nossas instituições oficiais, mundo empresarial e personagens políticos influentes. Nas reações críticas citadas, as atitudes oficiais de repúdio à conduta da Casa Branca foram classificadas de uma espécie de “jogo de cena para as arquibancadas”, um expediente maroto para desviar as atenções da opinião pública das momentosas questões sociais levantadas nas passeatas populares recentes.

Nessa inconcebível manifestação, subestimou-se levianamente a extrema seriedade do assunto tratado pelas autoridades brasileiras. Fingiu-se desconhecer, de forma indesculpável, que a questão do justo clamor público por reformas urgentes levado às ruas e a questão da operação da arapongagem detectada com escusos fitos comerciais e políticos representam pautas distintas, que exigem, todas elas, separadamente, procedimentos firmes e responsáveis da parte dos detentores do poder, em nome da dignidade da Nação.

Não há outro jeito de enxergar a coisa. Ridicularizar a atitude tomada pelo governo e parlamentares, por sua firme repulsa ao esquema denunciado, equivale a uma confissão pessoal de rematada indigência cívica, ausência de sentimento nacional, síndrome derrotista, ou, ainda, passionalismo político partidário exacerbado, ou de tudo isso misturado. Trata-se de reação que não enaltece, jeito maneira, a inteligência e o grau de percepção individual das prerrogativas de cidadania dos autores das críticas.

Os brasileiros estão aptos a tratar com lucidez e correto senso de medida as duas situações. De um lado, impulsionados por justo inconformismo, ávidos por mudanças que acelerem o processo de resgate das dívidas sociais acumuladas, não se mostram dispostos a abrir mão, a pretexto nenhum, da censura às ações (e omissões) dos dirigentes políticos e comunitários que venham retardar o desenvolvimento do país em termos de prosperidade e bem-estar social.

Doutra parte, conscientes de sua condição de cidadãos ciosos de seus direitos e deveres cívicos como habitantes de uma Nação democrática e soberana, sentem-se possuídos de desconforto e injuriados com as revelações vindas à tona a propósito dessa espionagem lesiva aos respeitáveis interesses nacionais. Continuarão cobrando providências nas duas frentes: na expectativa de que as reformas almejadas sejam executadas em ritmo mais veloz, no aguardo de que surtam efeito as deliberações tomadas contra essa invasão intolerável da privacidade alheia com a qual a Casa Branca parece haver pretendido fazer de bons e leais aliados simples vassalos.

Todos estamos persuadidos também de uma outra verdade: a alegação conformista, feita com o objetivo inocultável de minimizar o problema, de que a espionagem eletrônica é algo comum, bastante conhecido, sendo numerosos os países que a praticam em larga escala, não elide coisissima alguma a suprema seriedade da denúncia específica que nos diz respeito. A denúncia em questão descreve com detalhes perturbadores a implantação de uma base de bisbilhotice cibernética operacionalizada em Brasília durante certo período, por órgãos de inteligência estrangeiros. Um atentado a direitos insofismáveis devidamente configurado.

Nosso governo soube adotar, na hora certa, providências cabíveis, para exprimir o desagrado e mal-estar da Nação diante desse gesto gratuito de hostilidade cometido por um parceiro sempre acatado e prestigiado pelo Brasil. A proposta no sentido de que a questão da espionagem seja debatida em foros internacionais, de modo a se poder estabelecer um marco regulatório para a comunicação eletrônica destes tempos globalizados, afigura-se, assim, sensata e construtiva.

Ainda com respeito à candente questão, cabe, por derradeiro, anotar que a opinião pública brasileira espera de Brasília, na hipótese de confirmada a desleal participação na tramóia de empresas transnacionais ou nacionais de telecomunicações, a aplicação de punições severas, compatíveis com a gravidade do ato de banditismo perpetrado.


Brado de alerta

 “O imoral não pode ser tornado moral por meio de leis secretas.”
(Edward Snowden)

Os Estados Unidos aplicam-lhe a pecha de traidor. Snowden diz que a decisão de falar foi a coisa correta a fazer e que não se arrepende da posição assumida. A opinião pública mundial rodeia o ex-técnico da CIA e da Agência de Segurança Nacional (NSA) de uma crescente e irresistível onda de simpatia, num claro prenuncio, ao que tudo faz crer, do veredicto inapelável que a história vai emitir a respeito de sua desassombrada conduta. A alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, dá o tom das reações gerais: “O caso Snowden mostra a necessidade de proteger pessoas que expõem informações com implicações para os direitos humanos, assim como a importância de garantir o respeito ao direito à privacidade. O direito à privacidade, o direito ao acesso à informação e à liberdade de expressão acham-se estritamente ligados. O público tem o direito democrático de participar de assuntos públicos e esse direito não pode ser exercido apenas com base em informações autorizadas.”

As palavras do jovem destemido que resolveu denunciar a conspiração cibernética que estendeu seus tentáculos mundo afora, não poupando amigos e parceiros, dão o que pensar. A maquiavélica operação de espionagem teria sido arquitetada, de princípio, com o intuito de resguardar os interesses da grande potência norte-americana diante das ameaças terroristas de implacáveis inimigos. Mas acabou se transformando num instrumento incontrolável, insaciável, de violação dos direitos humanos, da soberania de outros paises, de invasão da intimidade das pessoas com fitos de estratégia política e comercial.

Foi por causa disso que irrompeu o brado de alerta que agora chama à reflexão toda a humanidade. Um desabafo que, além da denuncia acerca de malfeitos cometidos contra sagrados interesses alheios, reflete o inconformismo que grassa solto na atualidade, arrebatando corações e mentes, contra as imposturas e hipocrisias dominantes na convivência internacional. E que, via de consequência, projeta de maneira clara e insofismável, em nome do bom senso, a imperiosa necessidade das lideranças do mundo se agarrarem com empenho, antes que seja tarde demais, à construtiva tarefa de refazer os desvairados rumos trilhados pela civilização contemporânea.

Vale a pena conhecer o que o moço estadunidense, que tão bem encarna hoje as melhores tradições democráticas e os mais autênticos valores da cidadania de sua gente, tem pra dizer:

“Olá. Meu nome é Ed Snowden. Há pouco mais de um mês, eu tinha família, um lar no paraíso, e vivia com grande conforto. Também tinha a possibilidade de, sem qualquer mandado, apreender e ler suas comunicações. As de qualquer um, a qualquer momento. Isso é o poder de mudar o destino das pessoas.
É também uma séria violação da lei. A 4ª e 5ª Emendas da Constituição do meu país, o Artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e numerosos estatutos e tratados proíbem sistemas de vigilância maciça. Apesar de a Constituição dos EUA considerar esses programas como ilegais, meu governo argumenta que decisões tomadas em tribunais  secretos, aos quais o mundo não tem acesso, de alguma forma legitimam uma conduta ilegal. (...) O imoral não pode ser tornado moral por meio de leis secretas.
Acredito no princípio declarado em Nuremberg em 1945: "Indivíduos têm deveres internacionais que transcendem as obrigações nacionais de obediência. Portanto, cidadãos têm o dever de violar leis nacionais para prevenir crimes contra a paz e a humanidade (...)"
Fiz o que acreditei ser certo e iniciei uma campanha para corrigir estes malfeitos. Não quis enriquecer. Não quis vender os segredos dos EUA. Não me aliei a nenhum governo estrangeiro para garantir minha segurança. Ao contrário, levei o que eu sabia para o público, para o que afeta a todos poder ser discutido por nós todos à luz do dia, e pedi ao mundo justiça.
A decisão moral de falar ao público sobre a espionagem que afeta a todos custou caro, mas foi a coisa certa a fazer e não me arrependo.
Anuncio a minha aceitação formal de todas as ofertas de apoio ou asilo que me fizeram, e a quaisquer outras que possam ser oferecidas a mim no futuro. (...) A disposição de Estados poderosos em agir fora da lei representa uma ameaça a todos, e seu sucesso não deve ser permitido. (...) Obrigado."

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Punição exemplar para os arruaceiros

Cesar Vanucci *

“Reforma, sim; bagunça, não!
(La reforme, oui; la chienlit, non!” – frase atribuída a de Gaulle,
 proferida em 19 de maio de 1968, segundo anotação de Paulo Rónai,
 em seu “Dicionário de Citações”.)

E os arruaceiros, essa insignificante minoria incendiaria, responsável por atos abominados por todos. Pelas imagens mostradas na televisão, informações coligidas nas redes sociais, ou flagrantes colhidos nas operações policiais será que já não dá para expô-los aos olhares da reprovação popular e enquadrá-los nos devidos conformes legais?

Esses repulsivos grupos de vândalos tiveram “motivações” variadas. Infiltraram-se nas passeatas com objetivos nebulosos, desvirtuando por completo o sentido pacífico e ordeiro das democráticas manifestações. Promoveram depredações, saquearam, agrediram, implantaram confusão, deixando rastro considerável de prejuízos ao patrimônio público e ao patrimônio privado. Deu para perceber que esse contingente numericamente inexpressivo era constituído, em parte, por bandidos com prontuário robusto. Pessoal que divisou nos deslocamentos populares a ensancha oportunosa (vá lá) de surrupiarem bens alheios. Agrupou, também, contumazes desordeiros sem causa com propensão para perturbar, por qualquer meio, o sossego comunitário. Esse contingente desagregador e pernicioso foi ainda integrado por indivíduos amargos, ressentidos, de mal permanente com a vida. Caso de um que outro estudante universitário desequilibrado, ou profissional liberal desajustado, surpreendidos, como andou acontecendo, com a “boca na botija”, a apedrejarem prédio público, a transportarem bens de consumo “expropriados” das lojas invadidas.

Mas não se pode ignorar a presença nessa horda de malfeitores, de outros elementos, maquiavélicos, de alta periculosidade, obstinados em promover desordem com o fito de exacerbar a níveis insuportáveis os ânimos. Fomentaram a confusão seguindo um método, uma estratégia, um nefando propósito. Não nos causará espanto se das averiguações procedidas pelos organismos de segurança, serviços de inteligência policial, resultar a constatação de que alguns bagunceiros agiram em função de palavras de ordem emitidas por núcleos radicais avessos aos postulados da vida democrática. Esses núcleos realmente existem, encontram dificuldades imensas em propagar seus conceitos deletérios no seio da opinião pública, mas não perdem ocasião de contaminarem com ações e idéias retrogradas o ambiente social, fieis ao “princípio” que norteia sua concepção fundamentalista da vida: “quanto pior, melhor”.

A sociedade brasileira quer a punição severa dessa corja. Sua identificação e indiciamento criminal representam saudável reação comunitária contra os desmandos.

Às autoridades compete, também, promover uma investigação em profundidade das obstruções ocorridas nas rodovias, alegadamente patrocinadas por caminhoneiros. As suspeitas de locaute carecem ser esclarecidas. Os responsáveis pelas malfeitorias precisam responder legalmente por seus gestos.

De outra parte, os poderes constituídos estão na obrigação de rever os contratos com os permissionários que exploram o sistema de pedágio nas rodovias, à vista da estarrecedora revelação de que eles, quase todos, se mostram inadimplentes nos compromissos contratuais assumidos com a União e os Estados.


Mais que paranóia, terrorismo


“O governo brasileiro recebeu com grave preocupação a notícia de que as comunicações eletrônicas e ligações telefônicas de cidadãos brasileiros estariam sendo objeto de espionagem por parte de órgãos da inteligência norte-americana.”
(Antônio Patriota, Ministro das Relações Exteriores do Brasil)

Os Estados Unidos veem se esfacelarem, sob olhares gerais de aturdimento e indignação, os vestígios dos comprometimentos éticos e morais assumidos com o exercício da liderança ostentada pelo país no cenário mundial. A descoberta da tentacular operação de espionagem eletrônica montada com a prestimosa ajuda de empresas transnacionais das áreas de telecomunicações, infraestrutura de rede, software e segurança deixa o império inteiramente desnudo.

Existissem, como acontece (suspeitosamente, diga-se de passagem) no campo da economia, agências de risco para avaliação periódica do comportamento político dos países, a nota de classificação correta a ser atribuída neste preciso momento ao Tio Sam não poderia ser outra senão um sonoro zero. Com as estarrecedoras revelações vindas à tona, graças à coragem do jovem Edward Snowden, ex-colaborador da CIA, o autor do grave delito foi inapelavelmente flagrado em ação. Foi pego com a boca na botija, como era de costume dizer-se em tempos de antigamente. A expressão paranóia é insuficiente para explicar o que aconteceu. Terrorismo se apresta melhor como definição para esse ato de banditismo internacional. Um ato que desacredita a Casa Branca em sua cantilena retórica de bom mocismo. Subestima e procura humilhar as demais nações, sobretudo aliadas, e violenta estridentemente princípios basilares consagrados na convivência humana.

Fica claro que a complexidade das relações internacionais leva os países, de uma maneira geral, a desenvolverem atividades que os obriguem a colocar sob proteção atividades relacionadas com a sua segurança. Mas chegar-se, a partir daí, à idéia de espalhar esquemas de arapongagem eletrônica por tudo quanto é canto, vasculhando a intimidade doméstica de pacatos cidadãos dentro e fora do país, levantando clandestinamente informações sobre o que pensam e fazem parceiros e aliados, significa um indesculpável extravasamento de limites éticos. A indignação mundial aumenta diante das evidências de que esse monitoramento na linha assustadora dos métodos do “Grande Irmão” foi também utilizado, certeiramente, para a obtenção de vantagens desleais em negociações comerciais.

“Grampear amigos é inaceitável”, registrou Ângela Merkel, da Alemanha. “Não aceitamos esse comportamento”, repicou François Hollande, traduzindo o mal-estar francês. Essas manifestações de desagrado e inconformismo, somadas a tantas outras, abrirá fatalmente uma brecha de desconfiança duradoura no relacionamento dos Estados Unidos com tradicionais aliados. Alguns deles poderão até, como aconteceu no vergonhoso episódio da interceptação do avião presidencial boliviano – um espetáculo constrangedor de hipocrisia e covardia, por sinal repudiado com veemência pelo bloco das nações latino-americanas –, se sujeitarem bovinamente à vontade e conveniências da desacreditada liderança estadunidense. Mas, no íntimo, se conservarão ressentidos e magoados com o “amigo” infiel, que trata com menoscabo o relacionamento entre eles. Feridas assim permanecem abertas por muito tempo. Demoram a cicatrizar.

A posição do governo de nosso país, face aos atordoantes acontecimentos, tendo em vista a constatação de que Brasília abrigou, consoante denúncia de “O Globo”, base de espionagem por satélite operada por equipes das agências NSA e CIA voltadas para levantamento de dados por e-mails e telefonemas de cidadãos, empresas e repartições brasileiros, está sendo rigorosamente correta. Além do imprescindível pedido de esclarecimentos ao governo estadunidense, estabelece medidas importantes em três outras frentes. São elas: a abertura de investigação concernente à provável participação no esquema de “bisbilhotagem eletrônica” das empresas de telecomunicações sediadas no Brasil; o estudo urgente de novas regras legislativas capazes de garantir sigilo de dados na internet: e a atuação diplomática na esfera internacional mode que assegurar a segurança nas atividades cibernéticas.

Repita-se. Essa história está mais pra terrorismo do que pra paranóia desvairada.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O que se espera dos governantes

Cesar Vanucci *

“Feliz do povo que pode vaiar seus governantes.”
(Frase atribuída ao inolvidável Presidente JK)

Botar tento nos recados copiosos passados pelas ruas. Manter permanentemente ligados os aparelhos pessoais de percepção social. Separar o joio do trigo. Noutras palavras, distinguir com clareza e exatidão as manifestações populares genuínas, brotadas de justo inconformismo, das ações provocadas por um insignificante (numericamente falando) bando de vândalos sem causa, adeptos da anárquica tese do “quanto pior, melhor”. Mostrar-se compreensivo com relação às forças sociais que acionam pacificamente os protestos, convocando-as a participação ativa, por meio de diálogo e exposição transparente de fatos, na busca das soluções almejadas.

Agir com severidade, inteligência e bom senso, na contenção dos abusos praticados pelos baderneiros, enquadrando-os exemplarmente nos devidos conformes legais. Passar por peneiragem as imagens das câmeras que andaram captando as malfeitorias perpetradas contra o patrimônio público e privado por esses bandidos infiltrados nas passeatas, chamando-os às falas na Justiça por formação de quadrilha e outros delitos graves capitulados no Código Penal. Fazer também a polícia entender que a repressão na base do gás lacrimogêneo, pata de cavalo e ponta de baioneta não passa de resquício indesejável de tempos sombrios que a consciência cívica da Nação rechaça com veemência. Nunca, jamais, reação legítima de uma ordem constitucional democrática empenhada em garantir a ordem, a paz e a tranquilidade públicas sem concessões a abusos e violações a direitos de qualquer gênero.

Manter acesa a fé nas potencialidades do país e nas virtualidades da gente do povo, mesmo que, eventualmente, à sua volta colaboradores, assessores e conselheiros despreparados hajam perdido essa fé. Não ceder jeito maneira, no exercício das funções de gerenciamento superior, à tentação que, às vezes, acomete dirigentes desprevenidos, embriagados pelo ópio da autossuficiência, em classificar as coisas sumariamente, rotulando-as impropriamente, antes de entendê-las suficientemente. Procurar interpretar com argúcia social e serenidade, o “porquê” dessa vibração contaminatória que tomou conta, de uma hora para outra, das praças, aparentemente contra tudo e contra todos.

Arrolar, de modo a que sejam objeto de apreciação por parte dos grupos de trabalho encarregados de aprimorar as políticas públicas em execução, de forma a atender aos clamores trazidos a lume, itens já enunciados como prioritários nas manifestações. Oportuno relembrar alguns deles: melhoria na assistência à saúde, no ensino, na segurança pública, no transporte coletivo dos grandes centros; combate cada vez mais intensivo à corrupção; fixação de critérios mais rígidos na aplicação dos recursos públicos, enfatizando-se prioridades e evitando-se desperdícios. No tocante ao transporte urbano, cogitar-se de sua imprescindível melhoria e, até mesmo, da possibilidade – por que não? – de subsidio total ou algo que chegue próximo disso de modo a facilitar as coisas para o povão, que ele merece. Abra-se parênteses para esclarecer que a fórmula extrema do subsidio total, ou do chamado “passe livre”, nada tem de mirabolante ou utópica. Tem sido adotada com êxito em vários lugares do mundo, inclusive em cidades estadunidenses, ancorando-se em alterações na forma de aplicação dos recursos do Erário. Estimulou contingentes apreciáveis de pessoas a utilizarem nos deslocamentos ônibus no lugar de veículos particulares.

Propagar, por todos os meios, sensatamente, que a democracia pujante dos sonhos gerais é um processo contínuo de paciente construção. Implica em transformações graduais, em rotas alternativas de mudanças, com o uso constante da inteligência e criatividade na superação dos obstáculos.

Entender que as sinalizações de agora podem levar a alvissareiras descobertas. Quanto mais cedo se consegue interpretar os sinais emitidos pela vida, mais cedo pode se chegar às soluções dos problemas. O poeta Robert Frost, dos Estados Unidos menciona o fato de que Newton intuiu a “lei da gravidade” depois de entender os sinais reveladores dos frutos pendurados que despencavam das macieiras sobre a cabeça das pessoas; que Franklin concebeu o para-raio depois de compreender a sinalização dos trovões.

Em suma, absorver bem a idéia de que uma mensagem propondo avanços sociais paira, neste momento, no ar. E, também, a idéia de que as ruas, conforme anda dizendo interessante jingle muito badalado nos intervalos comerciais destes dias de Copa, são as arquibancadas do país. Arquibancadas com voz, que vaiam e aplaudem. Isso é democracia pura.


Acelerar os avanços sociais

“Eu quero dizer a vocês que foram pacificamente às ruas: eu estou ouvindo vocês!”
(Compromisso da Presidenta Dilma em discurso à Nação)

Não desperdice, Presidenta Dilma, por favor, a chance histórica que a pujante democracia brasileira depositou em suas mãos de modo a que se sinta à vontade para imprimir maior celeridade ao processo dos avanços sociais das esperanças gerais da Nação. Faça-se voz do clamor das ruas. Intérprete dos sentimentos populares. Utilize com propriedade os créditos de sua inconteste popularidade no esforço de queimar novas e decisivas etapas, no resgate da colossal dívida contraída com as camadas mais humildes, ao longo de decênios de nossa vida republicana.

Ponha pressa, muita, na anunciada convocação das forças vivas da Nação, representativas de todas as correntes de idéias, para o debate amplo, geral e irrestrito acerca dos novos rumos que carecem ser trilhados nas conquistas do amanhã, vislumbrados na predestinação de grandeza do País. Não deixe os temas consistentes das agendas pontuadas nas reivindicações esfriarem. Cair no fosso da indiferença e frieza burocráticas.

Dialogue com firmeza, sem vacilações, com a sociedade, começando com representantes dos ativistas de cara pintada. Estique nos justos limites ditados pelo bom senso as negociações, as consultas, os estudos. Mas não permita que o papo espiche indefinidamente, ao gosto dos radicais interessados em bagunçar o coreto. Empenhados, alguns, em exigências descabidas, outros em garantir incólumes iníquos privilégios nascidos do imobilismo social abominado pela Nação. Uns e outros supostamente desejosos em promover alguma reforma com o fito de não fazer reforma alguma.

Defina com os demais Poderes, com os dirigentes maiores da vida política, sem se esquecer de pedir o apoio da própria oposição, planos de emergência que possam trazer respostas ágeis aos anseios populares em questões primordiais. Questões como a melhoria das condições de transporte público. Não perca de vista algo primordial: a concessão de subsídios maiores para o setor da mobilidade urbana não é nenhum bicho de sete cabeças. Contam-se numerosas as cidades do mundo, até mesmo no Brasil, ao que já se sabe, que optaram por modelos mais concessivos de subsídios com sucesso. Expeça convites aos grandes conglomerados financeiros, grandes corporações, parceiros do governo em grandes empreitadas do PAC e concessões de serviços, como os dos diversificados ramos do transporte, exploração de jazidas petrolíferas e outros mais para que, conscientes de suas responsabilidades no contexto, se disponham a uma participação mais ativa, com aportes de recursos, nos projetos de inclusão social. Exija das estruturas governamentais, em todos os níveis, ações eficazes de combate a desperdícios. Transparência solar nos procedimentos cotidianos.

Faça ver a todos, sobretudo aos dirigentes políticos, que o povão em suas postulações não pode ser subestimado. Exemplos de procedimentos desastrados, como os do despreparado governador de São Paulo e do deslumbrado prefeito da Capital bandeirante no iniciozinho da onda de protestos, precisam ser evitados a todo custo. Autossuficiência embriagante, arrogância, intransigência enfraquecem a autoridade.

Assuma, Presidenta Dilma, a condução do processo de construção de um novo pacto federativo, que preveja a implantação em prazos razoáveis das reformas básicas. A política, a tributária, a agrária, assim por diante. Chame a si a coordenação da renegociação das dívidas públicas dos demais entes federados com o poder central. Essas dívidas, todos sabemos, foram feitas em outros momentos da vida administrativa brasileira, nem sempre atendendo estritamente aos postulados corretos do interesse público, como não será difícil demonstrar por meio de auditagens. Mas, seja como for, a “batata quente” caiu em suas mãos para ser descascada. A alteração nos cálculos exorbitantes vigentes é de molde a liberar recursos significativos a serem direcionados aos serviços públicos essenciais, melhorando as condições de vida da população.

Estabeleça, Dilma, canal regular de comunicação para prestação de contas das iniciativas levadas avante e decisões tomadas dentro desse propósito, consoante com as legítimas aspirações populares, de acelerar as soluções dos problemas candentes deste momento.

Utilize, com sabedoria, seus dons de liderança neste instante preciso em que a democracia brasileira projeta de maneira tão nítida sua invejável vitalidade.

Brasil brasileiro

 “A juventude brasileira quer discutir as
causas polêmicas. A sociedade tem de debatê-las.”
(Virginia Barros, presidente da União Nacional dos Estudantes)

A perplexidade é a tônica dos comentários, das conversas. Projeta-se nos semblantes e nas interrogações que todos se fazem. Dirigentes políticos, lideres comunitários, antropólogos, sociólogos, jornalistas, estudiosos da realidade brasileira dedicados à instigante tarefa de interpretá-la não conseguem explicar adequadamente, até aqui, o que andou acontecendo. Alguns animam-se a fazer exercícios especulativos na busca do modelo padrão que teria servido de inspiração para essa pororoca de manifestações que sacode ruas e praças.

A chamada “primavera árabe”, sob tantos aspectos frustrante por conta de resultados no geral pífios, é apontada, aqui e acolá, como referencia para o que rolou. Comparação destituída de qualquer sentido. Em comum, as duas modalidades de protestos só conservam um liame: o emprego massivo no esforço de arregimentação popular dos formidáveis recursos das redes sociais. Quanto ao resto, tudo difere. As motivações são outras. O foco do movimento árabe concentrou-se na tentativa de uma ruptura definitiva com as estruturas de poderes despóticos. Já aqui, por estas bandas, foi a pujança invejável do regime democrático que assegurou o suporte valioso que os manifestantes dispuseram para propagar suas postulações.

O que se tem, de conseguinte, pra dizer, sem medo de errar na avaliação, a respeito dos acontecimentos vividos, que viraram de cabeça pra baixo tanta coisa, é que este brado retumbante das ruas brasileiras teve o toque único e irrepetivel do jeitinho brasileiro de fazer as coisas. Algo que foge por inteiro a estereótipos e paradigmas absorvidos noutras culturas e que é apontado, não poucas vezes equivocadamente, como traço pejorativo do comportamento humano.

As manifestações que levaram tanta gente boa a proclamar não estar entendendo bulhufas do que vem sucedendo é decorrência natural desse jeitinho especial que os brasileiros temos de vivenciar contradições e mesmo harmonizá-las.

Digam aí: em que outro canto deste planeta entregue à peregrinação do ser humano conseguirá alguém, algum dia, captar, simultaneamente, separadas umas das outras por curta distância, cenas como as que foram vistas recentemente neste nosso fascinante e desconcertante Brasil? Em estádios regurgitantes, cheios de colorido e calor humano, multidões a vibrarem com os jogos eletrizantes de uma competição sob o foco das atenções gerais. Em milhões de lares, bares, restaurantes, diante das telas de televisão, o mesmo contagiante clima e incomum entusiasmo. Em locais reservados a concentrações festivas, montadas pelo Poder Público em diferentes pontos das cidades, contingentes expressivos de apreciadores do esporte paixão nacional a exprimirem emoções com características de apelo à confraternidade. E, juntamente com tudo isso, precisamente no mesmo momento em que tudo isso ocorre, as passeatas reivindicatórias, envolvendo jovens, adultos, famílias inteiras, pondo a circular nas ruas das capitais e outras importantes cidade clamores por mudanças indispensáveis no trato das coisas públicas, compreensível inconformismo diante das perturbadoras desigualdades de vida do cenário brasileiro, desejos ardentes de que as conquistas sociais que tantos já estão a desfrutar possam se processar em ritmo mais veloz. Repito: em que outro lugar isso tudo pode ocorrer, ao mesmo tempo, com toda essa exuberância criativa popular?

Resta dizer alguma coisa sobre os distúrbios. Os atos de vandalismo. Os atentados cometidos contra bens públicos e privados. Ficou bem documentado que a Nação inteira repele essas demonstrações de selvageria. O apoio unânime conferido às causas agitadas nas passeatas ordeiras e pacíficas, processadas em termos rigorosamente democráticos, tem sido acompanhado de total indignação com relação ao comportamento bestial de uma minoria de malfeitores, composta, em parte menor de radicais amalucados, sem vínculos com a alma popular, e noutra parte por bandidos com prontuários repletos de passagens delituosas. Esses aí não têm nada a ver com o resto. São casos, esses, sim, pra polícia resolver com o rigor recomendado pela lei.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Fábrica de moleque malcriado

Cesar Vanucci*

“Nenhum taverneiro poderá vender
farinha em cuia, que é ladroeira..."
 (Edital de 1868)

Na reorganização recente de minha biblioteca, meti a mão no fundo do baú, desencavando algumas preciosidades em matéria de livros e textos soltos. Foi assim que andei redescobrindo um exemplar do “Elixir do Pagé”, sobre o qual João Dornas Filho assim se expressa: “Um injustiçado pudor sempre dificultou a leitura do que eu considero os melhores versos de Bernardo Guimarães, os seus poemas eróticos. Sugeri, por mais de uma vez, a inclusão desses versos numa antologia galante, que contivesse outras jóias líricas da nossa poesia e continuo a pensar que constituiriam um escrínio precioso da nossa poética”.

Uma outra publicação rara, ofertada pelo próprio autor, a pessoa de meu apreço pessoal por ocasião de visita que lhe fez, na década de 30, em sua fazenda em Ponte Nova, é o livro que contém o desassombrado pronunciamento nacionalista de Arthur Bernardes, na sessão de 18 de junho de 1937, na Câmara dos Deputados, sobre a Itabira Iron.

Sem que me veja em condições de poder explicar em detalhes, recorrendo apenasmente à memória, como foram parar em meus “arquivos implacáveis”, deparei-me, também, nessa mexida, com documentos de nítido caráter picaresco que me disponho, aqui e agora, pelo seu sabor hilário, a trazer ao conhecimento dos preclaros leitores. O que chega aí é a transcrição de uma portaria editada pela Câmara Municipal de Catimbau, Província de Minas Gerais, no ano de 1868. Foi encontrada nos arquivos do INPM.
“Antônio Pires de Noronha Franco, fiscal aprovado pela Câmara desta Vila de Catimbau Minas Gerais:
Faço saber aos povos desta vara que no dia 1° do mês que vem sairei em triunfo de correção aferindo os pesos de todos, bem como as respectivas.
Art. 1°- Ficam proibidos os regos. Aqueles que não mandarem tapar os que tiverem, bem como todos buracos, serão multados em 20$000 cobre.
Art. 2°- Nenhum animal de ordem das cabras poderá roer pelo vizindário.
Art. 3°- Nenhum negociante ou taverneiro, ainda mesmo Coronel da Guarda Nacional, poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira.
Art. 4°- Negro sem bilhete, tarde da noite na rua, é ladrão. Multa no senhor de 6$000.
Art. 5°- Português de braço dado com negra cativa, alta noite, é fábrica de moleque malcriado e sem-vergonha. Cadeia nos dois, um em cada xadrez, para evitar dúvidas.
Art. 6°- Boi ou vaca deitado na rua de noite, sem lamparina no chifre, do modo que os andantes não o vejam bem, multa de 5$000.
E para que não digam que não sabiam mando afixar este edital e mais outro na porta de frente e de trás do boticário, que é o lugar onde se fala da vida alheia.
Em 4 de março de 1868.”

Proponho-me a oferecer na sequência, a transcrição de uma decisão distribuída ao Juiz de Direito da comarca de Porto de Folha, Bahia, datada de 15 de outubro de 1833.


Manoel Duda, “homine debochado”

“A capadura deverá ser a macete."
 (Decisão judicial de 1833)

No documento abaixo transcrito, que desencavei do fundo do baú, conta-se como o cabra da peste Manoel Duda, por causa de malefícios praticados contra a mulher de Xico Bento, foi condenado à capação a macete, nos idos de 1833, na comarca de Porto de Folha. Já na súmula da decisão, é sublinhado que “comete pecado mortal o indivíduo que (...) faz coças de suas victimas desejando a mulher do próximo para (...) suas chumbregâncias”.
A decisão do Juiz Municipal, acolhendo representação da Promotoria, é abaixo reproduzida, respeitada a ortografia original, inclusive com a expressão xumbregância grafada com ch.
“VISTOS, ETC.
O adjunto de Promotor Público, representa contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’anna, quando a mulher do Xico Bento ia para fonte, o supracito cabra que estava de tocaia em uma moita de mato sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher (...), para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recusasse, o dito cabra abrafolou-se ella, (...) deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimonio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Clementos Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante, e pediu a condenação delle como incruso nas penas de tentativas de matrimonio proibido (...). As testemunhas, duas são de vista porque chegaram no flagrante e bisparam a perversidade do cabra (...). Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer nauvrágio do sucesso faz prova (...):
CONSIDERO – que o cabra Manoel Duda, agrediu a mulher do Xico Bento por quem roia a brocha, para conxambrar, com ella, coisas que só o marido della, competia eonxambrar, porque eram casados pelo regime da Santa Igreja Catholica Romana; - que o cabra deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas conxambranças, viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver; - que a paciente estava peijada e que em conseqüência do sucedido, deu à luz de um menino macho que nasceu morto; - que o cabra é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias, tanto que quis também fazer comxumbranças com a Quitéria e Clarinha, que são moças donzellas, e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia;- que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma causa que atalhe a perigança delle, amanhã está metendo medo até nos homens por vias das suas patifarias e deboxes; - que Manoel Duda está em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar a mulher do próximo (...); - que sua Majestade Imperial (...) precisa ficar livre do cabra Manoel Duda para secula, seculorum amém, arrefem dos deboxes e semveregonhesas por elle praticados.
POSTO QUE:
Condeno o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez a mulher do Xico Bento (...) a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.
A execução deverá ser feita na cadeia desta Villa, Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação depos de 30 dias o mesmo Carcereiro solte o cujo cabra para que se vá em paz. O nosso prior aconselha – Homine debochado eboxatus mulherorum inovocabus est sententias quibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pete.
Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares publicos. Apelo ex oficio desta sentença para o Dr. Juiz de Direito desta Comarca.
Porto de Folha, 15 de outubro de 1833  a)   Manoel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício.”


Um subversivo de nome Dionísio

“Em minha humilde opinião, ele deve
ser enforcado e ficar na forca até feder."
(Trecho da correspondência do Juiz de Paz
de um lugarejo baiano a Dom Pedro II)

Transcrevo abaixo mais um texto solto, que indoutrodia retirei do baú.
Incomodado com a presença, no lugarejo em que pontificava como representante da lei e da ordem, de um tal Dionísio, pelo visto republicano bagunceiro e anti-clerical incorrigível, Antônio Pires de Oliveira, também conhecido por Tonico Paçoca, no exercício de suas elevadas funções de Juiz de Paz, resolveu manter em cativeiro o “perigosíssimo anarquista”, aplicando-lhe severos corretivos. Entendeu também de seu indeclinável dever dar conta a Sua Alteza, o Imperador Dom Pedro II, dos malfeitos provocados em seus bem protegidos pagos pelo indigitado subversivo. A inusitada ocorrência, registrada no Arraial de Sapecado, Província da Bahia, no ano da graça de mil oitocentos e setenta e cinco, vem relatada com pormenores em pitoresco ofício. O texto do Tonico Paçoca foi reproduzido, alguns anos atrás, numa revista da capital da Bahia, “Mensageiro da fé”.

Protestante, maçom e republicano, o tal de Dionísio passou maus bocados nas mãos do zeloso guardião dos valores imperiais, morais e cristãos, pelo que se deduz da missiva. Conservamos na reprodução aqui trazida, a ortografia utilizada na correspondência do zeloso Tonico Paçoca ao Imperador.
“Ilmo. Sr. Imperadô,
Antônio Pires de Oliveira, vurgamente conhecido por Tonico Paçoca, moradô no arraiá do Sapecado e juis de pais do mesmo mencionado arraiá, vem por meio da presente adeclará para voça ecelentícima o que abaixo vai dizê: Appareceu por aqui “um tar de Diunizo” que intentô virá o povo na lei do protestante, maçono e arrepublicano, adeclarando que voça Sinhoria é um bobo que faz de nóis pau de amarrá égua. Eu, im vista das formação que tive por quexa do spetor, prendi em sufragante o referido Diunizo que se acha amarrado legalmente dos péis e das mãos, em corda, pur não havê argema, e purtanto eu peço a voça Sinhoria que me arresponda o que qué que eu faça do bicho, o quar eu tenho martratado pior du que um caxoro.
Na minha mirde opinião ele deve sê enforcado e ficá na forca até fedê, porque não é brinquedo a bobage que ele bota em voça Sinhoria de todo nome feio e eu já quiz dá nelle promorde as injurias que esse tranca diz a seu respeito.
Espero a sua resposta pra meu gunvernu.
No mais pro sê.
Seu amigo e defensô perpetu.
(a) Antonio Pires de Oliveira
-- Dado e paçado no arraiá do Sapecado no dia 28 de fevereiro do anno que estamos n’ele”.

Ignora-se qual tenha sido o desdobramento do caso. Se as autoridades superiores da Corte Imperial ficaram inteiradas do que aconteceu no “Arraiá do Sapecado”.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

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Assim falou Delfim Neto

Cesar Vanucci

“Num único dia, a Petrobras captou 11 bilhões de
dólares no mercado da dívida internacional, a maior
 já realizada por um país emergente em qualquer tempo.”
(Delfim Neto)

Ao tempo em que serviu como Ministro na área da Fazenda no regime militar, Antônio Delfim Neto tinha os feitos cantados em verso e prosa pelos apreciadores da política econômica então vigente.

Ele já se comunicava com intensidade e regularidade na ocasião, expendendo conceitos acatados pelos doutos em economia, dirigentes políticos, articulistas e outros setores, jubilosos todos de modo geral, com os rumos seguidos pelo país. Suas avaliações ressoavam nesses redutos como verdadeiros dogmas de fé. Os artigos, sempre bem redigidos, pautaram anos a fio a linha editorial e noticiosa de influentes veículos de comunicação. Criaram à volta de sua atuação jornalística a imagem de um autêntico mito.

A redemocratização brasileira encontrou Delfim na efervescência intelectual costumeira, alvo de muitos aplausos em variados setores da opinião pública. Mas a nova ordem de coisas foi acumulando evidências de que sua palavra vigorosa não mais encontrava a mesma acolhedora simpatia por parte de certos setores comprometidos com o imobilismo no campo das idéias econômicas.

Sua fala dardejante parece, de certo modo, não ser mais tão desejada quanto o foi no passado, em círculos intelectuais politicamente alinhados com interpretações maniqueístas da atividade econômica. Delfim vem contrariando um bocado de gente poderosa, que na grande mídia insiste em posicionar-se hostilmente com relação às atitudes assumidas pelo Brasil em suas políticas econômicas. Posições essas reveladoras de acertos inquestionáveis.

Vejamos uma amostra recente, bem elucidativa, em artigo de Delfim, desses acertos. A partir deste momento a palavra está com o ex-Ministro:
“1. O sucesso da 11ª licitação de blocos exploratórios de petróleo e gás, realizada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), permitirá ao Tesouro arrecadar 2,8 bilhões de reais em bônus de assinatura relativos aos 142 blocos licitados em uma área de 100 mil quilômetros quadrados. Como conciliar a resistência, apontada na mídia estrangeira, com essa manifestação concreta do apetite do capital externo quando, das 30 empresas de 11 países participantes da licitação (que ganharam os blocos), nada menos do que 18 são estrangeiras, com um ágio médio de mais de 700%?
2. Em segundo lugar, quem comprou as ações do Banco do Brasil no lançamento mundial da abertura do capital do BB Seguridade? Foi uma operação que captou 11,4 bilhões de reais de investidores, no maior IPO do mercado internacional no último semestre.
3. Em terceiro, o resultado do lançamento no exterior de Bônus da República que captou 759 milhões de dólares com vencimento em 2023 e taxa de risco pela primeira vez abaixo dos 100 pontos-base em relação ao título de dez anos do Tesouro americano.
4. Em maio deste ano, em um único dia, a Petrobras captou nada menos do que 11 bilhões de dólares no mercado da dívida internacional, a maior realizada por uma empresa de país emergente em qualquer tempo. Um tremendo sucesso obtido justamente pela Petrobras (cujas ações estavam sendo estigmatizadas no mercado), construindo praticamente uma “curva de juros”.
O governo tem obtido sucesso ao enfrentar os problemas estruturais, com dificuldades ainda nos gargalos dos transportes terrestres e nas administrações aeroportuárias, mas ganha agora um alento com a aprovação da MP capaz de incentivar o investimento privado para modernizar a atividade dos portos marítimos.”
Assim falou Delfim.



Trotes de ontem e de hoje

 “... abusos, com requintes maldosos,
praticados por desordeiros contumazes.”
(Trecho de editorial dos anos 40, falando dos trotes telefônicos)

Trago bem nítido na cachola o momento em que o sistema de telefonia automática foi implantado. A comunidade vibrou com a histórica conquista. Tratava-se de um precioso indício a mais do vertiginoso progresso que sacudia a cidade, como euforicamente registrado, em editorial de primeira página, no jornal local. De princípio foram instalados mil aparelhos. Um despropósito, quantidade exagerada: é o que asseveravam pessoas importantes do lugar. Ledo engano. Em curtíssimo espaço de tempo, todas as linhas foram adquiridas. A possibilidade de expansão da rede começou a ser aventada. “Ninguém segura o ímpeto desenvolvimentista de nossa metrópole”, proclamou, ufanísticamente, outro editorial.

Os aparelhos telefônicos automáticos representavam baita novidade. Podiam ser conectados, com razoável rapidez, ao simples teclar de quatro números. Barbaridade! Exclamava, cofiando o espesso bigode, o gaúcho Rodrigo, dono de empório na rua do Comércio. Na imaginação de muitos, adolescentes e adultos, começaram a ganhar consistência algumas idéias marotas, quanto ao uso do aparelho. Nasciam, assim, os trotes. Não passavam, vistos agora de uma perspectiva histórica ampla, de brincadeiras assaz inofensivas. Mas quebravam, de certo modo, alguns preceitos de inocência que regiam o relacionamento bem comportado.

O telefone tilintava. Pedia-se o número. Número dado, a voz dizia: - Desculpe, é engano. Ou, então, perguntava: “É da funerária?” Não, não era. “Queira, por favor, desculpar”. Nalgum trote mais “ousado” trocava-se, na pergunta, a “funerária” pelo nome da dona de uma manjada casa de tolerância localizada no famoso Bacolerê. Mas esse tipo de provocação era raro. As reações aos trotes telefônicos podiam assumir características turbulentas. Como aconteceu com dona Balbina, veneranda dama da sociedade, apontada tradicionalmente na prestigiada coluna social do jornal, em sua data natalícia, como “portadora de peregrinas virtudes morais e cristãs”. No caso em questão, madame queimou no golpe com a intensidade das chamadas. Confessou-se injuriada em carta ao jornal. Pediu providências na delegacia de polícia, mode conter os desmandos e apurar responsabilidades. O delegado chegou a fazer apêlo público por uma pista que conduzisse à identificação dos indivíduos inescrupulosos que estavam provocando desassossego em lares honrados. Mas ninguém denunciou dos malfeitos o autor. Num editorial inflamado, o jornal conclamou os homens e mulheres decentes, afeitos à convivência fraternal, a se manterem alertas “contra os abusos praticados, com requintes maldosos, em trotes telefônicos, por desordeiros contumazes.” O tempo rolou e essa modalidade de trote deixou de constituir problema.

Essas lembranças prosaicas da infância estão sendo reavivadas por conta dos trotes de agora. Manifestação contundente de tempos endoidecidos. Mudando as palavras, por conta dos processos perversos hoje utilizados na comunicação telefônica. A partir de centros de operação montados – pasmo dos pasmos! – em presídios, o chamado “crime organizado” vem se ocupando, rotineiramente, do “trote do terror”. De posse de dados da vida do cidadão, obtidos sabe-se lá por quais escusos meios, promove ligações com fitos de extorsão. Em modalidade menos agressiva no contato telefônico, acena, para pessoas desprevenidas, com prêmios imaginários, a “serem entregues” mediante uma contrapartida em depósito bancário. Na forma mais assustadora de contato, os bandidos fazem crer que um ente querido da família foi alvo de “sequestro relâmpago”. Sua libertação depende do pagamento imediato de determinada soma.

Olhando, com justificável temor, os trotes de hoje, que ocorrem num momento, sem dúvida, eletrizante na história dos avanços eletrônicos na comunicação, a gente não resiste à tentação de compará-los com os trotes das antigas angústias de dona Balbina, naquela fase risonha da infância, contemporânea da chegada dos primeiros aparelhos  automáticos. A comparação desemboca em comovente conclusão.

Tempos diferentes, bem diferentes, na verdade, aqueles. Éramos, todos, uns baitas ingênuos, despreocupados e inocentes. Só que não sabíamos.

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...