domingo, 6 de novembro de 2022

Acontecências dos dias seguintes

 


                                                                                    *Cesar Vanucci

 

“O mundo estava com saudade do Brasil” (Celso Amorim)

 

1) Andaram dizendo que o mundo sentia saudades do Brasil. De nosso protagonismo nas mesas dos debates internacionais em torno de questões essenciais vinculadas à construção humana. Nem uma hora havia se passado do resultado do pleito e um verdadeiro “tsunami” de felicitações, mensagens de apoio, solidariedade, de convites para encontros importantes, provindos de todos os cantos do planeta congestionou as vias de comunicação do local onde se encontravam o Presidente e Vice-Presidente eleitos. O ex-chanceler Celso Amorim lembrou que, em 60 anos na diplomacia, nunca viu nada tão retumbante. Adicionem-se a isso o aplauso unanime dos órgãos internacionais que acompanharam, como qualificados observadores, a lisura da grande festa cívica do dia 30. Temos aí configurada outra exuberante demonstração do nível de maturidade democrática atingido, afortunadamente, pelo nosso país.

 

2) A secretária entra no gabinete, espavorida, interrompendo o papo do prócer político governista com assessores, para coloca-lo a par do bloqueio nas rodovias.

- “Sabe, chefe, eles colocaram caminhões atravessados nas pistas, impedindo o ir e vir das pessoas, entrega de alimentos nos supermercados, medicamentos nas farmácias, oxigênio nos hospitais. Não estão deixando passar ambulâncias com pacientes de hemodiálise e grávidas na hora de dar a luz...”

Uma voz de trovão:

- “Eu sabia que ia acontecer! Já tinha avisado a turma. Esses nossos satânicos inimigos sempre agem assim, traiçoeiramente, são uns baderneiros, desordeiros, vândalos, extremistas de uma figa.”

A secretaria achou por bem intervir.

-“ Pera aí chefe, o pessoal da bagunça  é do nosso time!”

 O prócer pigarreou, redarguindo triunfante. – “ Dona Matilde, a senhora deveria ter explicado isso logo de cara. A coisa assim muda de figura. Os nossos baderneiros, desordeiros, vândalos, satanistas , extremistas de uma figa são gente do bem, lutam por causas nobres.

O prócer nada mais disse, nem foi perguntado.

 

3) Minoria de ativistas fanatizados vem tentando com repulsivas manobras, bagunçar o coreto democrático, contrapondo-se a voz dos lares e das ruas. À ação terrorista de Roberto Jefferson e arruaças inacreditáveis na porta da Basílica de Aparecida se juntaram outros incidentes chocantes. Entre eles: a cena de filme policial de terceira categoria da Parlamentar de arma em punho acompanhada de guarda-costas armado correndo atrás um jornalista com quem se desentendeu.  Aconteceram também: a denuncia sem fundamento sobre inserções a menos de propagandas em uma dúzia  de estações de rádio, uma delas, por sinal, pertencente a familiares do denunciante; o atentado antidemocrático, economicamente muito lesivo aos interesses da sociedade, representado pelos bloqueios rodoviários; as aglomerações de grupos enfezados pedindo a derrubada das instituições, e fazendo, como se viu em imagens de Santa Catarina, a sinistra saudação dos  “camisas pardas” nazistas.

Essas pessoas carecem de entender que nas democracias eleição se define em cabine de votação, não em cabine de caminhão.

 

4) Mesmo tendo sido derrotado por Lula no páreo presidencial, Jair Bolsonaro conseguiu amealhar  patrimônio político de respeitável proporção. Afinal de contas, recebeu 58 milhões de votos, e correligionários seus conquistaram vários cargos executivos nos Estados e muitas cadeiras na Câmara e Senado. Segundo suas próprias palavras, “a direita surgiu de verdade”. Ele pode liderar, de forma duradoura, oposição confiável, desde que se disponha a fazer o jogo democrático dentro das “quatro linhas constitucionais”, sem atitudes ambíguas, pronunciamentos tardios e desconexos ,  negacionismo científico e impulsos raivosos.

 

                                                                      Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

Esperança em dias melhores


                                                                          *Cesar Vanucci

                  “Lutarei com todas as forças pela paz e harmonia da família brasileira”                                                                                       (Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente eleito).

É assim que funciona a democracia. O povo falou, está falado.  Os brasileiros estão confiando a Luiz Inácio Lula da Silva, pela terceira vez – feito inédito do candidato -, a grandiosa missão de conduzir os destinos administrativos e políticos da Nação. Eleição eletrizante, de impecável feitura, disputada palmo a palmo até os derradeiros instantes das apurações, provocando avassaladoras emoções entre participantes dos grupos contendores, atestou mais uma vez o nível de maturidade alcançado pela Democracia na vida Nacional.

  A fala do Presidente eleito, tão logo reconhecida oficialmente sua vitória, foi magistral, própria de estadista. Ele dedicou o trinfo à Democracia e ao povo, fazendo da esperança em dias melhores o mote da alocução. As expressões paz, harmonia, união, conciliação foram ouvidas repetidas vezes em contexto que realçou compromisso de governar para todos, sem distinção entre apoiadores e adversários. Proclamou enfaticamente que o Brasil precisa da colaboração de todos nos projetos que se fazem imprescindíveis na conquista do bem-estar coletivo. Salientou textualmente que “a maioria do povo brasileiro deixou bem claro que deseja mais, e não menos, democracia. Deseja mais, e não menos, inclusão social e oportunidade para todos” sublinhou:  “ O povo deseja mais, e não menos, respeito e entendimento entre os brasileiros. Deseja mais, e não menos, liberdade, igualdade, fraternidade em nosso país. O povo mostrou que deseja mais do que exercer o direito sagrado de escolher quem vai governar sua vida, ele quer participar ativamente das decisões do governo. O povo deseja mais do que direito de apenas protestar que está com fome, que não há emprego, que seu salário é insuficiente para viver com dignidade, que não tem acesso à saúde, à educação, que lhe falta um teto para viver e criar seus filhos com segurança, que não há nenhuma perspectiva de futuro. O povo brasileiro quer viver bem, quer comer bem, morar bem. Quer um emprego, um salário justo, reajustado sempre acima da inflação. Quer ter saúde, educação, políticas públicas de qualidade. Quer liberdade religiosa. Quer livros em vez de armas”. Assegurou que A roda da economia vai voltar a girar, com geração de empregos, valorização dos salários e renegociação das dívidas das famílias que perderam seu poder de compra. Disse, ainda, que o Brasil vai retomar o papel de protagonista no cenário internacional.

Lula deixou claro que vai estruturar sua equipe auxiliar com base nas forças representativas da “frente ampla” que o apoiou. No tocante à política ambiental garantiu que vai trabalhar pela “devastação florestal zero”.

 O pleito do domingo dia 30 de outubro, foi acompanhado com incomum interesse e atenção em diferentes partes do mundo, fazendo jus a vistosas manchetes de primeira página em jornais do exterior. Uma hora depois de anunciados os resultados, numerosos dirigentes de vários países cumprimentaram o eleito registrando desejo de cooperação mutua. Lideranças de diferentes setores públicos e privados, envolvendo mesmo adversários declarados, felicitaram Lula e Alckmin pelo trinfo obtido nas urnas augurando-lhes votos de sucesso na empreitada que os aguarda.

Duas menções, entre outras a fazer nesta hora: o magnífico desempenho da Justiça Eleitoral na organização no processo de votação e apuração; a robustez política do candidato derrotado, Jair Bolsonaro, mesmo sabendo do emprego abusivo da máquina estatal em prol da reeleição.

E, por ultimo, quão reconfortante é perceber a pujança assumida pela Democracia na terra pátria! 

 

Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

sábado, 29 de outubro de 2022

A hora da decisão

 A hora da decisão


*Cesar Vanucci

“Sou visceralmente democrata. Para mim, a liberdade é algo fundamental.” (Juscelino  Kubitschek de Oliveira, maior estadista brasileiro)


 O que terá a dizer o sentimento nacional neste instante decisório importantíssimo? Ocorre-nos registrar, como respostas apropriadas à indagação, as considerações alinhadas na sequencia. A Democracia é valor sagrado. Acha-se impregnada na alma das ruas. Garante o exercício pleno da cidadania, com seus benfazejos desdobramentos. Assegura a liberdade de expressão, resguarda os direitos fundamentais inerentes à condição humana. Utiliza o humanismo como trincheira de luta em favor de postulados nobres que dignificam a aventura da vida.

 Toda eleição representa marco precioso na caminhada democrática. A democracia tem, obviamente, defeitos, mas em nenhuma parte do mundo, ao longo dos tempos, testou-se regime que possa com ela se ombrear, que esteja apto a oferecer eficácia e eficiência comparáveis na condução dos destinos políticos e administrativos. Louvar as intuições democráticas, sem tergiversações é dever cívico de suprema significação. Respeitar seus ditames é imprescindível. Constitui prova de maturidade política e de elevação do espírito humano.

 Da parte do eleitor é legitimo esperar-se conscientização exata de tudo que esteja em jogo no processo eleitoral. É de a sua responsabilidade avaliar com serenidade, bom senso e espírito público as propostas e promessas colocadas pelos candidatos nas mesas de debate.  Bem como, também, analisar as posturas, dentro e fora do país,do pretendente às funções de dirigente da nação pelo próximo quatriênio. Dele, candidato, exige-se comprometimento decidido com os valores republicanos, com as instituições, com os clamores populares por medidas que proporcionem bem estar à comunidade.

O grau de sensibilidade social, nos procedimentos, atitudes e palavras do  “presidenciável” ,   há que ser devidamente sopesado. É justo, bastante compreensível aguardar de quem venha a desempenhar honrosa missão projetos e ações que promovam o desenvolvimento econômico sem ônus para as classes menos afortunadas, abra frente de trabalho para absorver as legiões de desempregados, mostre dedicação com afinco a iniciativas que eliminem os bolsões de pobreza detectados, deploravelmente, na paisagem urbana do país. Fica claro, pela mesma forma, que o voto consciente deve recair em candidato que saiba valorizar a cultura popular, respeitar as diversidades, enfrentar com destemor preconceitos aviltantes, preservar o meio ambiente, obedecer aos preceitos científicos e prestigiar os avanços da ciência.

É relevante para o eleitor, de maneira a que possa fazer um juízo adequado de valores, distinguir a verdade fatual das execráveis fake news. E não se deixar inocular pelo germe corrosivo da mentira espalhada em plataformas eleitoreiras descompromissadas com o bem comum e com a legislação democrática.

  A eleição de domingo, situada no radar das atenções mundiais, acompanhada naturalmente de enorme expectativa por toda nação brasileira, provocou oportuna manifestação do papa Francisco, gloriosamente reinante.  Saudando peregrinos brasileiros na Praça São Pedro, no Vaticano, Sua Santidade pediu a intersessão da Santa Padroeira, Nossa Senhora Aparecida, que livre nosso país do ódio, da intolerância e da violência.  A mensagem pontifícia interpreta com fidelidade os anseios da gente do povo em todos os lares brasileiros.

Que o pleito transcorra em clima de paz, sem quaisquer novas perturbações da ordem constituída, em estrita consonância com os generosos anseios da coletividade, para que a voz soberana das urnas eletrônicas se faça ouvir.

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Democracia alvejada

 

Democracia alvejada

*Cesar Vanucci

“Ato programado contra a Democracia .”( Fernando Abrucio, jornalista)

 Os impactantes acontecimentos protagonizados pelo ex-parlamentar Roberto Jefferson constituem uma demonstração cabal da força demolidora do fanatismo em quaisquer de suas variáveis políticas e religiosas. O desvairado aliado de Jair Bolsonaro, com atuação intensa desde a primeira hora e  na linha de frente na campanha sucessória, foi arrastado pelos atos afrontosos cometidos a uma inglória confrontação com as instituições democráticas, legislação penal e regras civilizatórias. Participando de articulações para tumultuar pra valer, com fitos antirrepublicanos, o segundo turno das eleições, confirmou sua condição de terrorista enfronhado em maquinações perversas que agrediram em cheio a consciência cívica nacional. Nos descaminhos percorridos acabou embarafustando em beco sem saída.

 Numa investigação aprofundada que a opinião pública exige seja promovida, o talibanista de Comendador Levy Gasparian, se verá, certeiramente,  obrigado a explicar, tintim por tintim, a tresloucada enrascada em que se meteu. Terá que esclarecer se agiu solitariamente ou solidariamente com extremistas de seu naipe.

 Recolido à residência, em prisão domiciliar ocasionada por alegados problemas de saúde, Jefferson usou e abusou da prerrogativa que lhe foi concedida. Descumpriu todas as medidas cautelares estabelecidas. Frequentou febricitantemente as redes sócias para insultos, sublevações e apelos a copinchas, tão coléricos quanto ele, para saírem armados às ruas  e invadir dependências do Poder Judiciário. Desferiu, com torpeza inaudita, ataques injuriosos a Ministros do Supremo e outras personalidades. Deixou-se fotografar empunhando armas de auto calibre, em manifestações hostis a autoridades e lideranças.

 No domingo 23 de outubro, faltando uma semana para a definição das eleições, ao ser chamado às falas pela Justiça, reagiu de forma calculada e extrema ferocidade à ação da policia federal encarregada de conduzi-lo de volta à prisão. Entrincheirado em sua mansão disparou 50 projeteis com fuzil provido de mira telescópica e arremessou 3 granadas na direção dos agentes que ali estavam cumprindo ordem superiores, ferindo dois deles, danificando uma viatura oficial, por pouco não provocando uma tragédia de proporções mais avultadas.

 O que aconteceu em seguida, gerando atmosfera de filme de suspense, foi bastante preocupante. O governo anunciou a ida do Ministro da Justiça ao local para provável e descabida negociação com o ex- parlamentar sedicioso, que postou mensagem dizendo que não se renderia aos policiais. O contato do Ministro com o dito cujo, se ocorreu, terá sido apenas por telefone. A polícia Federal teve comportamento diferenciado e comedido, até que a prisão fosse consumada. Algumas pessoas de proa da mesma corrente política de Jefferson deram realce nas redes a sua belicosa conduta, enaltecendo a “façanha”. Chegou-se  ao cumulo de convocar simpatizantes para postarem-se à volta da residência cercada pela lei, com o objetivo de impedir sua detenção. Jornalistas que cobriam o fato foram intimidados e agredidos. Um irresponsável deputado federal extrapolou todos os limites, anunciando, espalhafatosa e falsamente que tropa do exercito seria deslocada para Levy Gasparian, a fim de resguardar o autor da inominável balbúrdia.  Até o autodenominado padre kelman, personagem sem votos (inclusive sacerdotais, como dito repetidamente na imprensa) que andou bagunçando  debate importante para a vida brasileira, apareceu diante dos holofotes da tevê posando de negociador.

Chamou a atenção dos observadores a circunstancia de que no epilogo da trama os apoios da patota de Roberto Jefferson foram minguando, cedendo lugar a versões surreais e desconexas do acontecido.

 Esse chocante capítulo da historia política brasileira terá, obviamente muitos desdobramentos. Ficará para sempre reconhecido como uma tentativa insidiosa de alvejar a Democracia.

 

Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

sábado, 22 de outubro de 2022

A eleição que continua

 

A eleição que continua

                                                                                                          *Cesar Vanucci        

                         "A desinformação é tanta que até a imprensa tradicional repete fake news.”                                                                                                                            (Ministro Alexandre de Moraes)

1) Plano 3D

Devido provavelmente a um descuido – já que manifesta a inconveniência para a candidatura situacionista, neste momento pré-eleitoral, de divulgação desse teor -, fontes do ministério da economia deixaram vazar noticia alusiva ao propósito governamental de adotar, ainda no presente exercício, plano econômico de contenção de gastos denominado 3D pelo Ministro Paulo Guedes. Quando se deram conta do lapso cometido, os tecnocratas em finanças apressaram-se em dizer que a coisa não era bem como a imprensa estava a propagar. O plano em causa consistiria na desindexação, da inflação de salários, aposentadoria e outros benefícios sociais, numa tentativa de não ultrapassar o teto dos gastos públicos. O titular da pasta da economia assim explicou, de acordo com o noticiário, o significado do “3D”: desvinculação, desindexação e descentralização. De forma mordaz jornalistas da área econômica encontraram outro significado para o plano: desastroso, danoso, desditoso.

 

2) Segundo turno

A campanha eleitoral no segundo turno atingiu grau de efervescência nunca vista anteriormente. Nesta reta final o “vale tudo” chutou pra escanteio todas as regras éticas. Além da produção ininterrupta de fakes, ganharam desassossegante notoriedade às pressões de toda ordem, com vistas a persuadir, agradar, intimidar, manipular eleitores desprevenidos. Chama a atenção, por exemplo, a exagerada carga de “bondades” distribuídas na 25° hora da acirrada porfia. São benefícios sem suporte orçamentário, de efêmera duração, com mais do que certa probabilidade de afetar as contas públicas em futuro próximo. Não são poucos os cidadãos, chefes de família que se confessam perturbados com os ataques desabridos entre pessoas e grupos contendores, bem como com o assedio nos ambientes de trabalho envolvendo familiares e conhecidos. São visíveis – argumentam – os sinais de angustia e desgaste emocional. A saúde mental da população está seriamente afetada.

 

3)Fakes

O TSE recebeu quase 20 mil denúncias de fake news na atual campanha eleitoral. É quase certo que esse volume de conteúdos falsos, alvejando reputações, represente apenas parte da avalancha de desinformação propalada pelas redes com impetuosidade de grama tiririca. A Corte judicial bem que se esforça em reprimir o esquema, mas tudo indica que os meios legais para a contenção dos abusos são insuficientes para se contrapor à velocidade da maléfica irradiação facultada pela internet. O problema das fakes é universal. Em todas as partes do mundo a momentosa questão vem sendo tenazmente debatida, na busca de soluções que não coloquem em risco a liberdade de expressão. Indoutrodia, a justiça americana condenou um “ especialista” em espalhar falsidades pela mídia eletrônica a pagar multa de 1 milhão de dólares. Se a moda pegar por aqui...

 

4)Poupança.

Uma das fakes mais alardeadas na hora presente diz respeito a desagradável perspectiva de um confisco da poupança, como já ocorreu em período governamental lúgrobe do passado. O fato permite que rememoremos a campanha em que Fernando Collor se elegeu presidente, numa disputa com Luiz Inácio Lula da Silva. O político alagoano afiançou com estardalhaço, que seu oponente iria, se eleito aplicar a indesejável medida confiscatória. Lula negou enfaticamente. No final das contas quem acabou  assinando o calamitoso ato do confisco, que levou muitas famílias  ao desespero, foi justamente o autor da denuncia. Que teve seu prestigio abalado a ponto de ser “convidado” a deixar a presidência.

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Nos tempos do “voto de marmita”

 

Nos tempos do “voto de marmita”

                                                                                                    *Cesar Vanucci

                                                   “As fraudes eram uma constante.” (Estudo do TSE)

A dinâmica do processo eleitoral na vida democrática contempla a possibilidade de seu constante aperfeiçoamento. O atual sistema de votação e apuração de votos implantado no Brasil, reconhecido mundialmente como modelar, representa amostra frisante dessa benfazeja escala de aprimoramento.

O esquema anteriormente vigorante, da chamada “marmita” com cédulas que continham os nomes dos candidatos, produziu situações fraudulentas inumeráveis, apesar da fiscalização da Justiça Eleitoral e agremiações partidárias. Em várias circunscrições eleitorais, com conluio de muita gente não era incomum uma quantidade expressiva de votos brancos e nulos serem computados proporcionalmente à votação realmente auferida por candidatos, de modo a favorecer sua ascensão ao cargo pretendido. Nos chamados “currais coronelísticos”, envelopes com cédulas eram entregues a “cordatos eleitores”, conduzidos aos postos de votação sob implacável vigilância de cabos eleitorais. Os “votantes”, em não poucas oportunidades não sabiam se quer em quem estavam “votando”. Essa situação anômala do chamado “voto de cabresto” deu origem a muitas historietas que entraram para o folclore político. Uma delas: perguntado sobre o candidato em que votou, um desses “dóceis eleitores” respondeu “não saber o nome do gajo, já que o voto é secreto, uai!”...

O TSE rememora passagens sugestivas desses tempos. Até 1996, quando o voto eletrônico passou a ser gradualmente implementado, as suspeitas de fraude eram componente de tensão a mais num dia de eleição, que naturalmente já guardava emoção avolumada.  No período em questão, não havia apuração de imediato. Os resultados não eram divulgados no mesmo dia , como agora ocorre.  A contagem cédulas espichava-se por até semanas. Essa circunstancia fazia crescer o azedume dos ânimos entre escrutinadores e fiscais dos partidos. Em clima assim, as alegações de fraude eram constantes. Durante a apuração a cada cédula mal preenchida, qualquer dúvida que houvesse sobre a real intenção do eleitor – ao marcar com um “x” o quadrado do candidato ou ao escrever o nome ou o número do escolhido – armava-se uma discussão entre os fiscais dos partidos e os escrutinadores que podia tomar um bocado de tempo. E, não raro, essa discussão resultava na anulação de votos e, por vezes, da urna inteira.

As denominadas “urnas grávidas” já traziam votos antes mesmo de abrir as sessões pras votações. Como não dava para separar os fraudulentos dos autênticos, todos os votos da seção eleitoral acabavam sendo impugnados – isso quando o trambique era descoberto. Urnas com mais votos do que eleitores inscritos na respectiva seção eram algo corriqueiro. As razões para isso eram muitas, começando pelas falhas no cadastro eleitoral, em que a mesma pessoa podia ter vários títulos. E, no tempo em que o cadastro eleitoral não era unificado, havia ainda os “eleitores-fósforo”, que ganhavam esse nome porque “riscavam” (votavam) em várias seções na mesma eleição. Quem saía perdendo era a vontade soberana dos eleitores.

Outro tipo de tramoia ficou conhecido por “mapismo”. Consistia no seguinte: o placar dos votos apurados ia sendo registrado conforme a conveniência do escrutinador. Com as urnas abertas e os votos já contados, era difícil descobrir de onde era o voto e para quem havia sido dado.  Essa manobra solerte forçava fatigante recontagem – atrasando ainda mais o resultado final.

Pelos poucos exemplos enunciados, tem-se uma visão do extraordinário avanço que o sistema da urna eletrônica, tão virulentamente combatido pelo negacionismo fundamentalista, representa  na história de nossa evolução política e democrática.

 

                      Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Nunca, jamais, em tempo algum...

 

Nunca, jamais, em tempo algum...

                                                                             *Cesar Vanucci

 

“É loucura, mas há um método” (Shakespeare)

 

“Isso é intriga da oposição, outra fake”.  Esta foi, num primeiro momento, nossa reação diante da notícia do incidente ocorrido em Aparecida. Mas, pouco depois, confrontando imagens estampadas na TV, demo-nos conta do equívoco cometido na avaliação do fato. O que se passou, em recinto sagrado, na celebração consagrada a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, provocado por desordeiros travestidos de militantes políticos, foi uma algazarra que aviltou a consciência cristã e o sentimento cívico da Nação. Jamais, em tempo algum, assistiu-se no país a uma cena tão desrespeitosa a valores tão caros à devoção marial de que se acha saudavelmente impregnada a alma popular. Ao redor do candidato de sua preferência, num arremedo de comício, impróprio para o lugar e ocasião, emitindo aos berros, frases ensaiadas de campanha política, os apoiadores de Jair Bolsonaro tiveram o desplante de vaiar na porta da Basílica, o arcebispo Dom Orlando Brandes no instante solene em que era proferida a homilia evocativa da consagração à Padroeira. Os apupos ecoaram estridentemente à hora em que o prelado pedia a proteção divina para os pobres, para as crianças, para os que têm fome. Não satisfeitos com tanto abusos, os desordeiros partiram para intimidações a integrantes da equipe da TV Aparecida. Tudo isso se processou durante romaria à Basílica que reuniu incalculável multidão de devotos. No púlpito, debaixo de aplausos estrepitosos, um sacerdote explicou que a data era dedicada a pedidos de bênçãos, não de votos. O desvairado procedimento causou impacto negativo junto a opinião pública, motivando manifestações de indignação em todo seguimento da sociedade.

 Outro episódio que vem causando penosa  impressão no espírito popular diz respeito a uma denuncia feita, em Goiânia pela Senadora eleita Damares Alves, ex-Ministra de Estado. Ela declarou que na Ilha de Marajó crianças, inclusive recém-nascidos foram vítimas de horripilantes crimes de pedofilia. O governo do Pará, os Ministérios Públicos Federal e Estadual, a Secretaria de Segurança daquele estado, órgãos de direitos humanos estão reclamando provas da escabrosa denuncia. Damares havia alegado possuir provas, entretanto, agora alega apenas ter ouvido dizer que isso teria sucedido. Jornalistas brasileiros estão informando que uma história parecida, reconhecida posteriormente como fake, foi intensamente propagada nos Estados Unidos contra Joe Biden, na campanha de Donald Tramp. Parece maluquice, mas há um método.

Segundo turno

 Segundo turno

                                                                                                                     *Cesar Vanucci

“Politica não é coisa para amador”

(Domingos Justino Pinto, educador).

 

 O cidadão comum espanta-se, muitas vezes, com as trilhas sinuosas percorridas pelos políticos. Acontece que a política, numa parodia relativa aos versos de  melodia popular bastante conhecida, “tem razões que a própria razão desconhece; faz juras de amor e depois esquece.” E não apenas isso. Esquece também os agravos, as desavenças, os desentendimentos, as discordâncias, os entrechoques do passado, tidos nalgum momento, erroneamente, como insanáveis e definitivos.

 Aí estão como palpitante evidência desse estado de coisas predominante, não é de hoje nos arraiais políticos, os novos arranjos, os pactos, as negociações, as alianças firmadas com vistas ao segundo turno, numerosas delas inimagináveis até outro dia.

  O “presidenciável” Luiz Inácio Lula da Silva, empenhado na composição de uma “frente ampla” que possa garantir-lhe, tal qual ocorreu no primeiro turno, ganho de votos na rodada final da sucessão, tem agora como aliados Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckimin, José Serra, Simone Tebet, Ciro Gomes, ferrenhos adversários em inflamadas campanhas eleitorais, em diferentes épocas. Os Ministros Joaquim Barbosa e Celso de Melo, ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), críticos em dias não muito remotos da gestão lulista; Marina Silva ex-pretendente à chefia de governo em oposição a Dilma Rousseff, Pérsio Arida, André Lara Resende, Armínio Fraga, Henrique Meirelles, economistas que em dado instante adotaram posição contraria às diretrizes econômicas petistas são personagens que agora identificam em Lula o candidato que melhor encarna o sentimento democrático da Nação.

 Vejamos, em seguida, o que anda rolando no pedaço contrário. No rol dos apoiadores, para segundo turno, do candidato Jair Messias Bolsonaro, figuram, pela mesma forma nomes que, ainda outro dia se contrapunham, enfaticamente, à sua atuação. Caso frisante envolve o ex-Juiz Federal e ex-Ministro Sérgio Moro. Eleito Senador pelo Paraná, saiu no ano passado do Ministério Da Justiça em conflito aberto com o chefe do Executivo, acusando Bolsonaro de interferências desabridas na Policia Federal. Sua atitude motivou a abertura de um inquérito, ainda em curso na Alta Corte, para apuração de responsabilidades. Moro anunciou oficialmente sua adesão à campanha em prol da reeleição do Presidente. Em momento não muito recuado, o chamado “centrão” era apontado por Bolsonaro e companheiros de sigla como uma excrescência na vida política. E não é que a base de sustentação no plano parlamentar do atual ocupante do Palácio do Planalto está hoje confiada, justamente, ao “execrável” agrupamento?

 Assim, a política. Travessa, desconcertante, astuciosa, incoerente, atividade repleta de ardis e irreverência, que não se presta decididamente a manejos de amador. Mas, de qualquer forma, um instrumento valioso no debate das ideias e propostas que alicerçam o processo democrático.

 Essas composições de forças promovidas pelos contendores fazem parte de um jogo complexo que exerce certo fascínio no espírito popular. Subsidiam o eleitor com informações preciosas para a tomada de decisão em seu próximo retorno às urnas eletrônicas. Fica claro que as adesões obtidas por cada um dos aspirantes à presidência, por mais representativas que sejam não excluem a necessidade da apresentação de propostas que contemplem os anseios generosos da sociedade. Mais ainda: que representem cabalmente os clamores doridos da gente do povo marginalizada no desfrute de benefícios sociais que as leis, a cartilha de direitos humanos, o bom senso, a ética humanística estipulam para todos os indivíduos independentemente de sua crença, raça, sexo ou qualquer diversidade.

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

domingo, 9 de outubro de 2022

Política da vida

 

Política da vida 

                                                      *Cesar Vanucci  

        "(...) Política é nobilitante e expressa sentido de cidadania.”  (Padre Juvenal Arduini, sociólogo e professor)

 

Criatura admirável, provida de incomum sabedoria, soube colocar os talentos do espírito a serviço do mundo, das causas sociais, dos excluídos na partilha dos bens terrenos prodigalizados pela Natureza ou produzidos pelo labor humano.   Chamava-se Juvenal Arduini. Padre, escritor, sociólogo, professor, tribuno eletrizante. Desfrutei do privilégio de extensa convivência, muito fecunda para mim em benefícios, com esse admirável mestre. Em certa ocasião, ao homenageá-lo, disse-lhe que o considerava o padre Lebret brasileiro. Atualizo o conceito. Nutro hoje convicção plena - repassando lances do seu trabalho apostólico e revendo escritos brotados de sua pena refulgente e ensinamentos transmitidos em sua fala civicamente desassombrada - que faz todo o sentido proclamar também que o citado padre Lebret, festejado pensador, foi o Juvenal Arduini francês.

 

Ao relembrar personagem de tão maiúscula presença na cena intelectual, aquinhoado de dons humanísticos e espirituais invejáveis, amigo muito querido, meu compadre, tomo a liberdade de substituir, com notória vantagem para o leitor, meu comentário nesta fase eleitoral por palavras extraídas da vasta e valiosa obra deixada pelo mestre. São pensamentos vigorosos, oportunos e atuais, como se verá adiante.

 

Vamos lá. Assim falou Juvenal: “Em tempo de eleições (...) é oportuno refletir sobre a política. Política deriva de “poleteia”, no grego. “Polis” significa cidade, região habitada. E “polites” é cidadão. Verifica-se que, originalmente, política é nobilitante e expressa sentido de cidadania.

 

Política é fenômeno eminentemente social e promove a sociedade como todo. Política tem significado de associação, convivência e aliança. A política existe para reunir pessoas, integrar grupos e povos para responder aos desafios sociais. A verdadeira política suscita a socialização substancial e elimina o dilaceramento feroz entre pessoas, organizações e partidos.

 

A política está organicamente ligada ao povo. É destinada a servir o povo e não a subordiná-lo a interesses mesquinhos. A Constituição brasileira foi ousada e lúcida ao tratar da relação entre poder e povo. No artigo primeiro, parágrafo 1, a Constituição declara: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Aí está proclamação constitucional lapidar que dignifica Nação moderna. O poder emerge do povo. E também é exercido pelo povo mediante os eleitores ou diretamente. O poder está no povo, permanece no povo. O povo pode outorgar funções aos políticos, mas não lhes transfere o poder. Estritamente, o poder é do povo e não dos governantes. Há políticos que agem como se fossem donos do poder, que pertence ao povo. Isso é usurpação do poder popular.

 

Há muitos tipos de política. A política humanizada, social, ética e comprometida com a população. A política prostituída, corrupta e perversa. A política autoritária, tirânica e a política submissa, servil. Há política séria que responde às necessidades da população e política corrompida que se apodera dos recursos que pertencem aos pobres.” (...) “A realidade política, em si, é valor humano, social, cultural e histórico. A política sadia é necessária à sociedade. Não se trata de abolir a política, mas de limpá-la. Há que resgatar o potencial político dos povos. É urgente instaurar (...) a política da justiça e não da miséria. (...) A política da ética (...) A política da vida e não da morte. A política deve estar comprometida com o clamor da humanidade sofrida e com a responsabilidade histórica.”

 

*  Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 

Semântica das urnas

  Semântica das urnas

                                             Cesar Vanucci *

        “Descubra como separar o joio do trigo – ou entender o que é  verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral.”                       (Nirlando Beirão)

 

O jornalista Nirlando Beirão, de saudosa memória, reconhecido no período em que atuou como  titular absoluto no escrete do jornalismo de qualidade comprometido com o sentimento nacional, era dotado de inteligência arguta e a verve faiscante. Deixou isso esplendidamente evidenciado num saboroso texto publicado, anos atrás, na revista “CartaCapital”. Intitulado “Dicionário Eleitoral (para ingênuos)”, o trabalho fornece dicas que ajudam a decifrar a semântica das urnas, ou, conforme frisa, “entender o que é verdade e o que é só interesse no calor das temporadas eleitorais”.

 Abaixo, de forma adaptada e resumida por este desajeitado escriba, alguns “verbetes” do divertido “dicionário”. 1)Alternância de Poder – só é essencial à democracia quando o nosso adversário está no poder. 2) Aparelhamento do Estado – os adversários nomeiam apaniguados. Nós, os melhores quadros técnicos. 3) Corrupção. Os outros a praticam de forma perene. Nossos aliados cometem apenas pequenos deslizes. 4) Visão de Deus. Todos os candidatos dizem ter fé. Os mais fervorosos são aqueles que não acreditam. 5) Delação premiada. Ela só tem valor se vazada para atingir o concorrente. Se no meio do lamaçal, surgir o nome de um aliado, o correto é dizer que as denúncias são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento da delação premiada constituir também crime (...), bem esqueça.” Cenário internacional. Se uma administração aliada vai mal, a culpa é do cenário externo. Inverte-se a lógica no caso dos adversários. Se a gestão inimiga vai bem, as condições internacionais a favoreceram. 7) Marquetagem. Se o adversário sobe nas pesquisas isso se deve a ação mistificadora dos marqueteiros. Sem essa de lembrar que o nosso candidato igualmente possui um exército de especialistas em marquetagem. 8) Ano eleitoral. As ações do adversário não passam de medidas eleitoreiras. As nossas ações são decisões de governante seriamente comprometido com suas funções. 9) Velha política. Só os adversários a praticam. 10) Coligações. Promovidas por nós, deixam estampada aguda sensibilidade política, negociação de fino trato. Promovida pelos outros, denotam falta de escrúpulos, atroz barganha de princípios por conveniências.

 Este desajeitado escriba não resiste à tentação, após a leitura do “Dicionário” de Nirlando Beirão, de juntar ao texto outra sugestiva definição sobre política. O autor é Pierre Augustin Caron de Beaumarchais considerado por biógrafos figura emblemática do “Século das Luzes” (XVIII), foi, aliás, muito mais que um brilhante dramaturgo. Escritor, músico, poeta, instrumentista, professor, inventor, homem de negócios que amealhou fortuna, exerceu também, vivenciando ascensão social fulminante, a carreira diplomática. Aqui a definição:

 “... fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora; entender o que não se compreende e não escutar o que se ouve; sobretudo, poder acima de suas forças; ter frequentemente como grande segredo ou esconder que não se tem segredos”; (...) “parecer profundo quando se é apenas, como se diz, oco e vazio; desempenhar bem ou mal um papel”; (...) “procurar enobrecer a pobreza dos meios pela importância dos objetivos: eis toda a política (...)”.

 E como arremate, vem agora mais esta intrigante observação sobre o comportamento político, muito em voga no passado, nas hostes da militância partidária coronelística: “aliado meu não tem defeito. Adversário, se não tem, eu boto...”.  

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 

O dia seguinte

 O dia seguinte

                            

                                                *Cesar Vanucci

 

“Não houve nenhuma contestação quanto aos resultados das eleições de 02 de outubro” (Presidente do TSE, Ministro Alexandre de Moraes, a respeito do pleito)

 

Antes de tudo mais, olhos voltados para os acontecimentos do histórico 02 de outubro, falemos da extraordinária festa cívica vivenciada pela Nação. Os brasileiros demos uma demonstração agigantada de maturidade democrática, num pleito que registrou de norte a sul, de leste a oeste, perfeita sintonia dos lares e das ruas com os ditames da convivência ordeira e pacifica. Seja, igualmente, mais uma vez louvada a irrepreensível conduta da Justiça Eleitoral, responsável pela estrutura de votação e apuração que tanto assombro e admiração produz aqui e alhures.

 Reportemo-nos, na sequência, aos resultados. Foram, de certo modo, surpreendentes, numa disputa que se revelou a mais renhida após a redemocratização.  No tocante a contenda presidencial, a margem de votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da silva, na vitória parcial conquistada, foi menor do que as pesquisas assinalavam. O Presidente Jair Messias Bolsonaro mostrou, na chegada condição excepcional para adiar a definição para um segundo momento. Paralelamente a isso ampliou sua força política com o triunfo significativo de numerosos integrantes de seu grupo em cargos executivos e legislativos. Tem-se por certo que a campanha do segundo turno será bastante acirrada ficando nada fácil para o observador prognosticar acerto sobre quem sairá vencedor, já que o páreo pode vir a ser decidido, como se diz, “no olho eletrônico”.

Os próximos dias, reservados pelos presidenciáveis ao esforço de atrair alianças, oferecerão muitas emoções. Lula vai empenhar-se em ampliar o leque de apoios a que seus partidários convencionaram de denominar “frente ampla”. Suas articulações, como tudo faz crer, se estenderão aos domínios eleitorais em que Simone Tebet e Ciro Gomes se destacaram. Nos redutos petistas vem sendo propagado que os contatos, nos dois casos, serão diretos com Simone e com a cúpula do PDT. Do outro lado, espera-se que Bolsonaro procure reestabelecer o pacto que vigorou no pleito de 2018 com o governador reeleito de Minas Gerais. Romeu Zema, como foi amplamente noticiado, manteve-se, no primeiro turno, em posição de neutralidade com relação à competição presidencial.

Simone Tebt saiu-se na porfia como estrela em ascensão na constelação política brasileira. Ciro Gomes, provido sem duvida alguma de boas qualificações intelectuais e técnicas, perdeu-se no labirinto das contradições e estratégias equivocadas que adotou na corrida presidencial.

 A propósito do evento eleitoral, o Presidente do TSE, Ministro Alexandre de Moraes explicou, em coletiva à imprensa, não ter havido contestação alguma aos resultados das urnas. Disse, também, acreditar que o acirramento entre as candidaturas no 2* turno será político e que os ataques a Justiça Eleitoral não devem intensificar-se.

 Tudo isto posto, a sensação de que se acha a nação agora  apoderada é de que os próximos capítulos dessa maratona presidencial serão simplesmente eletrizantes. Dos contendores espera-se que se comportem à altura desse momento épico de evolução democrática inconteste evidenciado pela nossa gente. Que cada um deles saiba executar a contento a missão relevante de que se fazem protagonistas centrais. Exponham suas ideias, tragam à mesa dos debates, sabatinas e entrevistas propostas que contemplem o desenvolvimento econômico, o combate às desigualdades sociais, a eliminação de bolsões de pobreza aguda, enfim a invasão do futuro pelo nosso país, tão rico em potencialidades e virtualidades.

 

  Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

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