sexta-feira, 10 de março de 2017

Exige-se 
transparência solar

Cesar Vanucci

“O que se concebe bem, se anuncia com clareza.
 E as palavras para dizê-lo chegam com facilidade.”
(Nicolas Boileau, poeta francês, século 17)

Transparência solar na apuração das circunstâncias do desastre aéreo que ceifou a vida do Ministro Teori Zavascki! Tal preocupação não pode permanecer ausente, hora alguma, das cogitações dos setores incumbidos da lida com o assunto. Apesar de compreensível do ponto de vista técnico, a recente decisão do Juiz Federal de Angra dos Reis, determinando hermético sigilo em torno do processo investigatório concorre, forçoso admitir, para que a opinião pública se sinta um tanto quanto desconfortável em relação às diligências oficiais.

É sumamente importante, neste momento, em todos os escalões, que os agentes públicos com expressas responsabilidades no impecável esclarecimento do acidente se mostrem verdadeiramente compenetrados do elevado grau das expectativas das ruas concernentes ao caso. Para que possam executar a contento sua relevante missão conta muito a certeza de que as explicações sejam transmitidas de forma convincente e clara. Toda a Nação almeja conhecer por inteiro os desdobramentos do trabalho de verificação a respeito do que, afinal de contas, andou acontecendo no voo fatídico de Parati.

A coincidência de a morte de Teori haver ocorrido na véspera da homologação de depoimentos cruciais, num processo da magnitude política, econômica e social da Lava Jato, é bastante significativa. Não há como desfazer os temores circulantes em muitas áreas no sentido de que o destino impiedoso poderia não ter sido a real causa do lastimável evento. A apuração rigorosa dos fatos, como a que se acredita esteja em andamento, terá o condão de deixar tudo muito bem elucidado, com base em rigorosa transparência.

E já que se está a tratar de transparência e clareza das coisas, seja-nos facultado focalizar, na sequência, posturas governamentais em dissonância com esses elementos, obviamente essenciais no processo de comunicação oficial com a sociedade. Vamos falar, como prometido em artigo anterior, das chamadas “síndrome da reivindicação sucessiva” e “síndrome da responsabilização regressiva”, fórmulas marotas de engazopamento da opinião pública, traduzidas em excesso de palavrório e carência de ações.

Lembrando que o Governo Michel Temer, tal qual fizeram os antecessores, acostumou-se a lidar com a segurança manipulando truques com o fito de embromar o respeitável público, o jornalista Élio Gáspari discorre magistralmente sobre o que vêm a ser essas ardilosas manobras. A “síndrome da reivindicação sucessiva”, uma delas, agrada em cheio a emproada casta dos burocratas, sempre empenhados em elaborar “agendas futuristas” que lhes propiciem a chance de não fazer o que devem. Permite corra desenvolto, conforme sublinha o jornalista, o raciocínio descrito abaixo: “As facções criminosas nos presídios só poderiam ser contidas com bloqueadores de celulares. Instalados os bloqueadores, será necessário um satélite para vigiar a fronteira e assim por diante. (...) As cadeias estão superlotadas e, em vez de botar pra trabalhar quem nunca trabalhou, defende-se a mudança na legislação penal.” E por aí a carruagem vai rodando, numa marcha inesgotável, carregando intenções que nunca se concretizam.

Já no que concerne à outra “síndrome” anotada, “a síndrome da responsabilização regressiva”, o citado jornalista sustenta que o ex-Ministro da Justiça e já agora Juiz do STF se acha dela apoderado. E no que mesmo consiste? Urdida, como a primeira “síndrome”, com o objetivo de empulhar a plateia, a postura adotada enfatiza a ideia de que a aterrorizante situação das penitenciárias remonta “a uma crise antiga, secular”. Suas raízes estariam fincadas nos tempos coloniais. Gáspari ironiza: “Tudo bem, a responsabilidade é de Tomé de Souza. Nada a ver com os governos de José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma, todos apoiados pelo atual presidente Michel Temer”. E acrescenta, aludindo ao Ministro Alexandre Morais: “... é um homem do seu tempo. Atento às sutilezas do vocabulário, sempre que fala em “homicídio” acrescenta a palavra “feminicídio”. No mundo do politicamente correto lixo é “resíduo sólido”, e não se deve buscar a regeneração dos delinquentes, mas a “ressocialização” dos presos. Tudo seria uma questão de palavras que não fazem mal a ninguém, se na fantasia de modernidade e cosmopolitismo não se escondesse o atraso. Finge-se que tornozeleiras, satélites, radares, censos e mudanças pontuais podem resolver os problemas das prisões brasileiras. Eles resolvem o problema da ocupação do noticiário. Nada mais que isso.”


Seduções do
“primeiro mundo”


Cesar Vanucci

“A moda é uma tirana que muitos
ridicularizam, mas não deixam de obedecer.”
(Domingos Justino)

Certas expressões caem com tal força e desenvoltura no gosto popular que não há como resistir-lhes ao fascínio e deixar de absorvê-las na falação do dia-a-dia.

Assim aconteceu com o "fora de série", para nos retermos num exemplo. Disseminado pela televisão, andou em voga por bom pedaço de tempo. Ainda hoje é utilizado, se bem que de forma mais comedida. Usavam-no como medidor de um mundão de coisas: da qualidade de um utensílio de cozinha à postura, no ambiente comunitário, de cidadãos acima de qualquer suspeita. Brindando o mérito da esforçada balconista, o gerente da loja sapecava-lhe rótulo reluzente: - "profissional fora de série". A moça deixava escapar no olhar marejado os sinais de uma emoção nitidamente "fora de série"... Em tom triunfal, o pai falava pra amigos do retumbante sucesso do filho no vestibular, um garoto, naturalmente, "fora de série"...

Uma das ondas do momento presente é curtir adoidado uma outra expressão, com serventia ampla, geral e irrestrita. É chique à beça soletrar "primeiro mundo" em tudo quanto é papo, caprichando nas sílabas no mais genuíno carioquês...

"Primeiro mundo" é mesmo o máximo. O topo cobiçado do Himalaia a ser escalado no exercício diário de alpinismo de que é composta a alucinante aventura humana. Indica procedimentos, sinaliza roteiros, abaliza argumentos, aponta a meta a ser alcançada na ambicionada rota do crescimento. Estabelece a premissa da existência de uma espécie de iluminação feérica em cada final de túnel. Cria no imaginário das ruas a fantasia delirante de que a vinculação ao "primeiro mundo" assegura acesso direto, sem preocupações quanto à validade do visto de permanência, a um florido e imperturbado Shangrilá, o paraíso perdido das tradições guardadas no inconsciente coletivo. Nesses recantos paradisíacos ninguém experimenta situações desconfortáveis provocadas por agudas questões sociais, ao contrário do que acontece à pamparra noutras partes maltratadas do planeta.

"Primeiro mundo" virou designação mágica para um punhado de situações cotidianas. No salão frequentado por socialites, o cabeleireiro imaginoso bola uma mecha roxo-abóbora na cabeça de madame para a festa de gala no sábado. Explica, convicto, para a freguesa deslumbrada: "Coisa de primeiro mundo!" Na butique refinada, o vendedor chama a atenção do cliente para a prateleira abarrotada de bugigangas multicoloridas com etiquetas do invejável "primeiro mundo". São trazidas em caravelas modernas, atraídas pela sedutora e despoliciada política de abertura escancarada dos portos, como parte do "elogiável esforço de transformação do Brasil em país de primeiro mundo".  De nada adiantarão, no caso, as ponderações arguidas por lúcidos porta-vozes dos setores produtivos nacionais, expressando adequadamente justo inconformismo e amargura diante dos "efeitos perversos" dessa política carregada de equívocos. Equívocos danosos que concorrem para o desemprego e o sucateamento de fatias bem expressivas de nosso parque fabril.

Retomo o assunto na sequência.



A eterna
comédia humana


 Cesar Vanucci

"O mundo é um palco; os homens
 e as mulheres meros artistas..."
(Shakespeare)

Em artigo anterior, lembramos que para não poucas pessoas o acesso de um país como o Brasil ao assim chamado "primeiro mundo" passa, obrigatoriamente, pela necessidade de escancarar amplamente suas fronteiras, mode que favorecer, sem "salvaguardas eficazes", a entrada comercial de toda sorte de produto e bugiganga que exiba no rótulo um "made" qualquer.

Seja registrado, a propósito desse equivocado entendimento do mundo dos negócios internacionais, que todos os países do tal "primeiro mundo" aplicam, desembaraçadamente, com zelo e ciúme maternais, impactantes práticas protecionistas na defesa de seu complexo produtivo. É só acompanhar o noticiário econômico de cada dia. O mencionado procedimento representa, para nós outros, uma lição valiosa transmitida pelo mundo economicamente mais desenvolvido. Uma lição que a babaquice (ou que outro nome possa ser dado à visão deformada da realidade que tantos têm por aí) teima em desconhecer.

Voltemos agora, à linha de raciocínio introduzida no comentário passado a respeito do singular fascínio que a expressão "primeiro mundo" desperta na mente de um mundão de pessoas.

Levando em conta os aspectos emocionais e as pressões psicológicas resultantes da acolhida franca dispensada ao uso desenfreado dessa expressão, é preciso que aprendamos a conservar serenidade e a demonstrar um mínimo de apego ao lado racional nas análises feitas da realidade contemporânea, do ponto de vista social e econômico, quando se aborda o tema "primeiro mundo". Acontece que "primeiro mundo" serve mais para designar um estado de espírito, um ideal a atingir. E não, de verdade, um estágio de vida onde o bem estar esteja de tal sorte disseminado, por porções territoriais privilegiadas, que dê ensejo para se proclamar que nesses recantos a prosperidade reina à pamparra. Vamos colocar pingos nos iis.

Não existe nada disso, em lugar algum, da Escandinávia aos recantos paradisíacos mostrados da revista “Caras”, na intensidade e extensão imaginadas. Nos países tidos como detentores de suprema prosperidade coexistem, justapostos, inocultáveis, estamentos sociais característicos de terceiro e quarto mundos, com toda sua dolorida problemática. De outra parte - e o Brasil é uma amostra exemplar -, são muitos os países de classificação inferior na graduação do desenvolvimento a ostentarem vestígios indicativos não de primeiro mundo, mas do "melhor dos mundos". Se, num passe de mágica, pudesse se desvencilhar de tudo que a constrange no plano social, a cidade de São Paulo seria, sozinha, muito mais "primeiro mundo" do que toda a citada Escandinávia junta.

Os Estados Unidos são tidos como amostra refulgente do primeiro mundo. Mas o Harlen, em Nova Iorque, citando um exemplo, é seguramente território de terceiro mundo. E os subterrâneos nauseantes de Manhattan, onde ficam as áreas mais valorizadas do planeta, abrigam cenas cotidianas tão dilacerantes que não fica difícil enquadrar o pedaço até no quarto mundo.

Nada consegue impedir, todavia, que o deslumbramento diante dessas supostas maravilhas inerentes ao "primeiro mundo" arraste muitos a uma contemplação tresloucada do que veem e que se confunde com aquilo que gostariam, por certo, de ver. Como nesse significativo episódio de uma turista brasileira que topou, numa rua de Washington, com mendigo em estado deplorável. Chocada com o drama do ambulante que lhe estendia a mão, implorando caridade, uma amiga que a acompanhava expressou a preocupação de que a criatura à míngua estivesse acometida de aids. A turista não se deu por achada: - "Um aidético, sim, com toda certeza! Mas do primeiro mundo. Do primeiro mundo, minha santa..."

“Tamos" conversados...

sexta-feira, 3 de março de 2017


Obama marcou seu tempo

 Cesar Vanucci

“Foi melhor que seu antecessor. E,
seguramente, será bem melhor que seu sucessor.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Tá na cara que Barack Obama vai deixar saudade. Mesmo que não tenha sido o estadista extraordinário que muitos, fervorosamente, chegaram a acreditar estivesse a despontar no panorama mundial, os feitos positivos acumulados em sua gestão foram bastante razoáveis.

De outra parte, a inevitável comparação entre seu estilo de governar com o de seu tresloucado sucessor amplia consideravelmente a reluzência da imagem que tende a deixar gravada no espírito das pessoas de seu tempo, sobretudo entre adeptos. Barack Obama ascendeu ao poder com força total. Depois de haver conquistado competentemente o público interno, encantou com oratória persuasiva e propostas sociais avançadas boa parte do público externo. Foi recebido em tudo quanto é lugar com manifestações de entusiasmo nunca dantes reservadas a dirigentes políticos estadunidenses. Conservamos nítidas na memória as cenas televisivas das estrondosas recepções que lhe foram prestadas em praças públicas, em seu périplo por capitais europeias pouco depois da posse. Verdadeiro delírio popular envolveu o cidadão negro, de porte altivo, simpático, inteligente e culto que acabara, surpreendentemente, de romper a granítica barreira da discriminação racial existente em seus pagos natais, alcançando num passe de mágica a posição mais elevada que qualquer mortal vocacionado para a vida pública pudesse ambicionar.

Concederam-lhe, prematura e açodadamente, sob os efeitos dessa atmosfera de embevecimento que o rodeou, o Nobel da Paz. Contudo, tempos depois de haver sido agraciado com a láurea assumiu iniciativas que contribuíram, de alguma maneira, para revelar seu engajamento em causas voltadas ao desarmamento da belicosidade reinante no planeta. As reaproximações dos Estados Unidos com Cuba e Irã falam muito a seu favor. Adicionam também créditos em sua folha de serviços os esforços incisivos desenvolvidos no sentido de conter o radicalismo que sustenta a beligerância dominante nos convulsionados territórios de Israel e Palestina. Granjearam-lhe ainda aplausos memoráveis alguns pronunciamentos que fez, um deles agora na despedida, exaltando a democracia e condenando o racismo e as intolerâncias fundamentalistas.

Na esfera das conquistas sociais, ameaçadas pela truculência “trumpiana”, Obama conseguiu implantar consistentes programas de assistência médico-hospitalar. Beneficiou multidões de assalariados de baixa renda. Seus atos contrariaram, sabido é, interesses muito poderosos. É o que explica a guerra sem quartel declarada ao assim denominado “Obamacare”. Foi diminuto o tempo transcorrido, após deixar o governo, para que essas forças hostis aos programas implementados em favor dos excluídos sociais demonstrassem o peso de sua influência nas decisões da administração recém-empossada. Com uma canetada, o ex-apresentador de “realities shows” de questionável qualidade artística anunciou uma reformulação radical no esquema da assistência médica garantida pelo Estado.

Não passam despercebidos, por outro lado, aqueles instantes numerosos, na trajetória de Obama, em que ideias e palavras conflitaram clamorosamente com atos decisórios adotados na órbita administrativa. Com o seu consentimento, as agências de segurança dos Estados Unidos praticaram virulenta ação de bisbilhotagem, jamais vista nestes tumultuados tempos eletrônicos. Telefones de milhares de cidadãos foram grampeados. Chefes de Estado e empresas de países amigos, inclusive Brasil, tiveram suas correspondências vasculhadas com intuitos inconfessáveis. Ninguém recebeu pedidos de desculpas por essa clara violação dos direitos fundamentais.

Apesar do alardeado empenho pacifista do ex-mandatário, os conflitos bélicos se alastraram. Para isso, não tem como desconhecer, muito contribuiu a inabilidade do governo norte-americano em seu relacionamento diplomático e no apoio concedido a grupos econômicos interessados na ampliação de negócios.

De tudo quanto exposto sobra, cabe admitir, a constatação de que Obama deixou marca na história contemporânea. Como dito na epígrafe, foi bem melhor que seu antecessor e será, com certeza absoluta, infinitamente melhor que seu sucessor.


O irresistível fascínio da MPB

Cesar Vanucci 

"Onde se toca boa música,
 não pode haver coisa má."
(Cervantes)

Na celebração de seu centenário, o Lions Clube homenageará, semana vindoura, com um caprichado ato cívico e cultural no Teatro Sesiminas, cidadãos e instituições centenários. Os 100 anos do samba não ficarão fora dos festejos. A magnifica Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e o esplêndido Coral do Sesi se encarregarão de reviver, em espetáculo de gala, peças imortais da MPB.

O samba, caríssimos leitores, foi alvo no passado de impiedosa discriminação. Encarado como reles produto marginal, naquilo que a expressão conceba de mais pejorativo, por conta de falsas crenças culturais então vigentes. Um autêntico “caso de polícia”, como sugestivamente se cantava nas composições de antanho. Tendo como fontes de inspiração genuínos sentimentos e emoções da alma popular acabou sobrepujando as resistências puritanas e retrogradas dessa penosa fase de obscurantismo cultural. É hoje mostrado orgulhosamente ao mundo como expressão maior da incomparável criatividade artística musical brasileira.

Vamos repetir, pausadamente, pra ficar bem gravada: a música brasileira representa, no reconhecimento das ruas universais, um instante mágico, privilegiado, de sublime elevação na escala da inspiração artística.

Não existe neste mundo do bom Deus, onde o diabo costuma armar barraco pra aprontar traiçoeiras malvadezas, quem ouse não se confessar encantado com os sons cheios de vida, líricos e coloridos, lembrando imenso caleidoscópio, de infinitas e variegadas emoções, produzidos à mancheia pelo excepcional time dos artistas brasileiros da música. Um time, sem sombra de dúvida, da maior competência, preparado para ganhar tudo quanto é copa de que participe. A propósito do encantamento suscitado pelo samba vale evocar a lição de mestre Caymi: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé...”

Quando se fala dos sons musicais brasileiros, dos versos primorosos reunidos em milhares de composições do melhor quilate, não há como esquecer também do ritmo malemolente, único, saído dos instrumentos de percussão. Ele é inconfundível e, também, irreproduzível em outras plagas, mesmo por craques na arte de extrair ruídos sonoros dos  tambores. Produz um barulho de fala muito especial. Junto com os da melodia e letra, que são “barulhos que pensam”, conforme clássico conceito de Victor Hugo, ajuda a mostrar, de modo exultante, a riqueza cultural fabulosa da gente brasileira.

Em tudo quanto é canto deste planeta azul, as músicas brasileiras enternecem e arrebatam. Ary Barroso e Tom Jobim, pra ficar no registro de apenas dois nomes transcendentes da populosa nação dos compositores brasileiros talentosos, deixaram as digitais impressas nos repertórios das mais famosas orquestras, grandes instrumentistas e vocalistas. São assobiados nas ruas. Ouvidos com prazer em todos os lugares onde se toca boa música. Lugares, conforme lembra Cervantes, em que não pode haver coisas más.

Os turistas brasileiros são, vez por outra, envolvidos no exterior por inesperadas ondas de simpatia, que ajudam a quebrar o gelo da recepção costumeiramente oferecida, sobretudo em paragens europeias. É quando a música brasileira pinta no pedaço. Algo assemelhado com o que ocorre, também, quando o futebol aflora nas conversas. Nossa música popular e nosso futebol, apesar dos dilacerantes 7 X 1, têm o condão de identificar lá fora, admiravelmente, o nosso jeito de ser. E produzem, como nenhuma outra ação construtiva consegue fazer, aproximações enriquecedoras e saudáveis.

Acode-me, a esta altura, a lembrança de uma situação singular que experienciei (ora, epa!) em 1995, no longínquo Tibete.

Disponho-me a contar, na sequencia, o que aconteceu, neste acolhedor espaço. Se a memória não tá a fim de me trair, já pela segunda vez. A repetição, diga-se logo, robustece os argumentos da defesa apaixonada que me habituei a fazer da cultura brasileira nas maldatilografadas linhas frequentemente projetadas em letra de forma.


De repente, no Tibete...
  

Cesar Vanucci

"Brasil que eu amo é (...)
o balanço das minhas cantigas e danças."
(Mário de Andrade)

Anunciei na crônica anterior o relato de uma experiência singular, ligada à música popular brasileira, vivenciada em 1995 no distante Tibete. Conto como tudo se deu.

Numa longa e gélida noite, a pressão fora de controle por conta da altitude superior a 4 mil metros, resolvi mandar-me para um estabelecimento do tipo “piano-bar”. A casa, mobiliada com simplicidade, ficava na principal rua de Lhassa. Já alvejado, naquelas cumeeiras impiedosas do teto do mundo, pelo danado do banzo, com a cabeça a ponto de explodir, defrontei-me, dada hora, com outra ameaça séria. Cheguei a imaginar mesmo, pela esmagadora emoção experimentada, que iria ser convocado, logo ali, naquela lonjura toda, a deixar pra todo o sempre este nosso vale eternamente banhado de lágrimas...

Aconteceu quando o pianista, um europeu com o qual não havia trocado, até então, qualquer palavra, e que ignorava minha nacionalidade, resolveu sapecar pra cima da pequena e seleta plateia, turistas estrangeiros na totalidade, um punhado de músicas brasileiras. “Aquarela do Brasil” abriu o desfile. Veio depois o “Vou te contar”, de Jobim. Foi demais. Não deu pra segurar. A emoção ganhou, sem intenção de trocadilho, dimensões himalaianas. O coração velho de guerra disparou adoidado. O ar à volta desapareceu. Um chá ultra amargo, enfiado goela abaixo, garantiu o prestígio da tradicional medicina tibetana composta de ervas, ao permitir recobrasse a condição física.

Ocorre-me lembrar outras prazerosas circunstâncias inesperadas em que, maravilhado, me deparei no exterior com impecáveis interpretações da MPB. Em São Petersburgo, Rússia, deleitei-me com uma banda executando a “Aquarela do Brasil”. Em Santiago, Chile, aplaudi uma retreta de banda militar defronte ao palácio do governo entoando acordes de Ary, Jobim e Chico Buarque.

Pois bem, tudo que está contado aí e já foi dito pratrazmente vale como expressão do enorme fascínio que a música popular brasileira desperta em multidões de todos os sotaques, latitudes e hábitos culturais. Chega, então, o momento de se colocar pra fora, numa pergunta, a perplexidade de muita gente: por que cargas d’água, o rádio e a tevê deste país rico em musicalidade insistem tanto em conceder escandalosa preferência à música estrangeira em suas programações? Outra pergunta: qual o papel das gravadoras estrangeiras e brasileiras nessa estranha e desconcertante partitura?

Convido o leitor destas maldigitadas a pedir numa loja um CD com músicas do Ary Barroso. Não vai ser mole achar. Mas achará, com extrema facilidade, trazido por solícitos vendedores, o que existe de mais representativo do lixo musical alienígena. Um besteirol de sons, imposto pela indústria fonográfica pra consumo de público desprevenido, a render polpudos direitos autorais para compositores e músicos na maior parte sem talento. Gente que, em seus delírios criativos, confunde acordes musicais com barulhada de utensílios metálicos despencando no piso da cozinha...

É sempre hora e vez, assim sendo, de tomar a música brasileira sob proteção. Garantir essa proteção na legislação do país. É o que se deveria também tentar fazer na defesa do idioma contra descabidas agressões perpetradas pela neobobice vernacular, com seu palavreado “macdonaldizado”. Fico torcendo para que brote do Parlamento, algum dia, projeto de lei que defina certas obrigatoriedades para tornar a música brasileira mais divulgada entre nós. Nas rádios, nas tevês, nas lojas, nas festas dançantes, na publicidade. Em benefício da cultura e dos artistas. A música brasileira é patrimônio cultural. Cabe defendê-lo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Muito acima do teto


Cesar Vanucci

“A população brasileira não se conforma com os supersalários.”
(Senadora Kátia Abreu)

Como anteviam traquejados observadores da cena política - marcada invariavelmente por tricas e futricas desnorteantes - a candente questão dos ganhos himalaianos da tecnoburocracia tupiniquim retornou ao limbo em que é conservada, há um bocado de tempo, por poderosas influências corporativistas. O aceso confronto retórico, reaberto com o anúncio de que o Senado iria colocar em pauta a discussão a respeito da momentosa matéria da extrapolação do teto remuneratório legal, detectada em muitas repartições da República, desapareceu subitamente dos registros midiáticos.

Em seus momentos mais acalorados, esse confronto alimentou manchetes. Era intenso o bate boca, com argumentos às vezes ferinos. De um lado, membros do Parlamento, com destaque para o senador Renan Calheiros. Do outro, dirigentes de entidades representativas de grupamentos profissionais que agasalham agentes públicos favorecidos por essa política de vencimentos desapartada de legitimidade.

Não foram poucos, na ocasião, os analistas políticos que identificaram, em certas reações dos órgãos classistas citados, tendências muito mais próximas do desejo de represália do que do propósito de crítica pertinente a supostas ações indecorosas atribuídas aos parlamentares, que por sinal vêm sendo objeto de apuração. Mas, de qualquer modo, soterrado no noticiário por outros acontecimentos de repercussão, o assunto acabou caindo, outra vez, em ponto morto. Por imposição ética inevitável, será fatalmente, mais na frente, ressuscitado. Não há como ignorá-lo o tempo todo. A busca de uma solução justa para o caso só será encontrada no curso de estudos e debates escorados em transparência solar. É o que propõem os setores mais lúcidos da sociedade, traduzindo o sentimento das ruas.

O problema dos salários dos marajás produz enorme desconforto no seio da sociedade. Agrava-se naturalmente numa hora em que a política governamental acena ruidosamente com restrições a direitos trabalhistas, estabelecendo como meta prioritária mudanças capazes de penalizarem assalariados de menor poder aquisitivo ligados ao sistema previdenciário. O raciocínio popular a respeito da reforma previdenciária é simples e objetivo. Por que cargas d’água a exigência de sacrifícios, no tocante ao necessário equilíbrio das contas públicas, contempla apenas o pessoal miúdo, dos andares de baixo da pirâmide social? E quanto aos ocupantes dos pavimentos superiores, mesmo com tantas distorções clamorosas a corrigir, como no caso da extrapolação dos tetos salariais, permanecerão eles de fora dessas reformas ditas indispensáveis?

E olha que são mesmo muito clamorosas as distorções! Pieter Zalis, conta na “Veja” que mais de 5 mil servidores federais recebem acima do limite legal. A diferença salarial seria suficiente para pagar todo mês 400 mil aposentados que ganham o mínimo. O jornalista lembra que os governos vêm prometendo, há um tempão, acabar com a praga dos supersalários. Mas, até hoje, nenhuma das tímidas tentativas colocadas em prática deu certo. O tamanhão do problema pode ser aquilatado nos registros abaixo. Entre funcionários da ativa, Judiciário, Executivo e Legislativo federais, 5.203 ganham acima do teto. É o que consta das folhas de pagamento de três meses seguidos. Esse número corresponde apenas a uma parcela do conjunto. A pesquisa feita não relaciona aposentados e nem servidores dos Estados e Prefeituras. Se um levantamento semelhante viesse a ser feito nos Estados, o número de marajás apontados quadruplicaria ou quintuplicaria...

O peso descomunal desses vencimentos no orçamento pode ser dimensionado com mais essas revelações estarrecedoras. Depois de explicar que a maior parte (acima de dois terços) dos excessos salariais é detectada nas folhas do Judiciário, a reportagem aponta os nomes dos detentores dos mais altos ganhos mensais entre servidores federais. No Judiciário, os “líderes”, em número de cinco, percebem em valores arredondados entre 83 mil e 100 mil reais mensais. No Executivo, em cinco casos apontados, entre 57 mil e 82 mil. No Legislativo, quatro casos alinhados, entre 49 mil e 68 mil. Finalmente, no Ministério Público, mencionados igualmente cinco nomes, as variações de ganhos, arredondando-se as parcelas, vão de 69 mil a 97 mil.

Tá danado...


A fonte de inspiração de Gandhi

Cesar Vanucci

“Cristo é a maior fonte de força
espiritual que o homem conheceu”.
(Mahatma Gandhi)

Em minha singela percepção, São Francisco de Assis e Mahatma Gandhi desempenhariam, com o mesmo fulgor que tanto os notabilizou, as missões executadas por um e por outro no vital processo da construção civilizatória, caso se lhes tivesse sido proposta uma troca de tempo na participação de cada um deles na historia do planeta. Gandhi, seguindo este entendimento, foi o Francisco de Assis do Século 20. Francisco foi o Gandhi do Século 12.
Ao animar-me a fazer tal comparação, estou convencido de que ambos beberam inspirações, para as edificantes tarefas levadas avante, numa mesma mensagem espiritual e humanística. A mensagem de que aqui se fala chega do fundo e do alto dos tempos para toda a sociedade humana, mas quem mesmo cuida de absorvê-la em sua pureza e plenitude são criaturas pacíficas e de coração fervoroso. Para vivenciá-la, em nada pesa a circunstância de, entre os dois personagens mencionados, um deles confessar-se cristão  e outro declarar-se hinduísta. A mensagem de que se cogita não tem – pode-se afirmar com certeira segurança – “coloração partidária”. Não representa precioso e essencial acervo de valores transcendentes que possa ser requisitado como propriedade por nenhuma especifica corrente do pensamento filosófico. É patrimônio ecumênico. Destina-se ao desfrute amplo, geral e restrito de tantos quantos possuam olhos para enxergar, ouvidos para escutar, sensibilidade para compreender e voz para propagar. Encerra saberes que podem ser divulgados com eficácia por cristãos, hinduístas, budistas, islamitas, judeus e assim por diante...
Gandhi, a exemplo de Francisco, passou adiante a mensagem. Ela permitiu-lhe alcançar na veneração popular a condição de “Apostolo da Paz”. Adotando como mote um processo revolucionário estribado em princípios inseridos na chamada “Satyagraha” – princípios esses que consagram a não agressão e o repúdio à violência como instrumentos de protestos firmes e persistentes contra as injustiças sociais –, o Mahatma enfrentou, com raro desassombro cívico e pesados danos pessoais, a asfixiante opressão colonial do império inglês, emancipando a Índia e tornando-a potência com audiência universal.
Apreciando sua conduta e tomando ciência de suas ideias, aprendi a identificar nesse líder de arrebatador carisma alguém muitíssimo familiarizado com os ensinamentos do mais fabuloso e iluminado ser que já colocou os pés nos ásperos caminhos da jornada terrena, em todos os tempos. Ele, mesmo: Jesus de Nazaré!
Impressionaram-me vivamente as referencias de Gandhi ao Cristo reunidas na esplêndida biografia que Huberto Rohden, brasileiro de Santa Catarina, escreveu sobre o “pai espiritual da Índia”. O ilustre patrício, falecido em 1981, filósofo, teólogo, escritor com 70 obras editadas, aponta Gandhi como um fenômeno humano “de incrível força cósmica”. E no livro de 250 paginas, dedicado à sua reluzente trajetória, destina sugestivo capitulo às manifestações (cujo teor eu ignorava) feitas pelo mestre indiano acerca do “Mestre dos mestres”.
Para que meu leitorado possa compartilhar as emoções deixadas naturalmente por tais revelações, anoto na sequência conceitos de Gandhi sobre Jesus, extraídos da obra de Rohden.
Assim falou o Mahatma: ●“Cristo é a maior fonte de força espiritual que o homem até hoje conheceu”. ●“Vejo em Cristo o supremo modelo: manifestou, como nenhum outro espírito, a vontade de Deus”. ●“O Sermão da Montanha foi-me direto ao coração. Bebam nas fontes do Evangelho”. ●“Cristo não pertence só ao cristianismo, pertence ao mundo inteiro. Ele é todo amor. O amor no supremo mandamento é dirigido antes de tudo aos mais fracos, aos abandonados. Cristo não carregou a cruz somente há mil e novecentos anos. Carrega-a hoje e morre e ressuscita dia após dia”.


Exige-se transparência solar


Cesar Vanucci 

“O que se concebe bem, se anuncia com clareza.
 E as palavras para dizê-lo chegam com facilidade.”
(Nicolas Boileau, poeta francês, século 17)

Transparência solar na apuração das circunstâncias do desastre aéreo que ceifou a vida do Ministro Teori Zavascki! Tal preocupação não pode permanecer ausente, hora alguma, das cogitações dos setores incumbidos da lida com o assunto. Apesar de compreensível do ponto de vista técnico, a recente decisão do Juiz Federal de Angra dos Reis, determinando hermético sigilo em torno do processo investigatório concorre, forçoso admitir, para que a opinião pública se sinta um tanto quanto desconfortável em relação às diligências oficiais.

É sumamente importante, neste momento, em todos os escalões, que os agentes públicos com expressas responsabilidades no impecável esclarecimento do acidente se mostrem verdadeiramente compenetrados do elevado grau das expectativas das ruas concernentes ao caso. Para que possam executar a contento sua relevante missão conta muito a certeza de que as explicações sejam transmitidas de forma convincente e clara. Toda a Nação almeja conhecer por inteiro os desdobramentos do trabalho de verificação a respeito do que, afinal de contas, andou acontecendo no voo fatídico de Parati.

A coincidência de a morte de Teori haver ocorrido na véspera da homologação de depoimentos cruciais, num processo da magnitude política, econômica e social da Lava Jato, é bastante significativa. Não há como desfazer os temores circulantes em muitas áreas no sentido de que o destino impiedoso poderia não ter sido a real causa do lastimável evento. A apuração rigorosa dos fatos, como a que se acredita esteja em andamento, terá o condão de deixar tudo muito bem elucidado, com base em rigorosa transparência.

E já que se está a tratar de transparência e clareza das coisas, seja-nos facultado focalizar, na sequência, posturas governamentais em dissonância com esses elementos, obviamente essenciais no processo de comunicação oficial com a sociedade. Vamos falar, como prometido em artigo anterior, das chamadas “síndrome da reivindicação sucessiva” e “síndrome da responsabilização regressiva”, fórmulas marotas de engazopamento da opinião pública, traduzidas em excesso de palavrório e carência de ações.

Lembrando que o Governo Michel Temer, tal qual fizeram os antecessores, acostumou-se a lidar com a segurança manipulando truques com o fito de embromar o respeitável público, o jornalista Élio Gáspari discorre magistralmente sobre o que vêm a ser essas ardilosas manobras. A “síndrome da reivindicação sucessiva”, uma delas, agrada em cheio a emproada casta dos burocratas, sempre empenhados em elaborar “agendas futuristas” que lhes propiciem a chance de não fazer o que devem. Permite corra desenvolto, conforme sublinha o jornalista, o raciocínio descrito abaixo: “As facções criminosas nos presídios só poderiam ser contidas com bloqueadores de celulares. Instalados os bloqueadores, será necessário um satélite para vigiar a fronteira e assim por diante. (...) As cadeias estão superlotadas e, em vez de botar pra trabalhar quem nunca trabalhou, defende-se a mudança na legislação penal.” E por aí a carruagem vai rodando, numa marcha inesgotável, carregando intenções que nunca se concretizam.

Já no que concerne à outra “síndrome” anotada, “a síndrome da responsabilização regressiva”, o citado jornalista sustenta que o ilustre Ministro da Justiça se acha dela apoderado. E no que mesmo consiste? Urdida, como a primeira “síndrome”, com o objetivo de empulhar a plateia, a postura adotada enfatiza a ideia de que a aterrorizante situação das penitenciárias remonta “a uma crise antiga, secular”. Suas raízes estariam fincadas nos tempos coloniais. Gáspari ironiza: “Tudo bem, a responsabilidade é de Tomé de Souza. Nada a ver com os governos de José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma, todos apoiados pelo atual presidente Michel Temer”. E acrescenta, aludindo ao Ministro Alexandre Morais: “... é um homem do seu tempo. Atento às sutilezas do vocabulário, sempre que fala em “homicídio” acrescenta a palavra “feminicídio”. No mundo do politicamente correto lixo é “resíduo sólido”, e não se deve buscar a regeneração dos delinquentes, mas a “ressocialização” dos presos. Tudo seria uma questão de palavras que não fazem mal a ninguém, se na fantasia de modernidade e cosmopolitismo não se escondesse o atraso. Finge-se que tornozeleiras, satélites, radares, censos e mudanças pontuais podem resolver os problemas das prisões brasileiras. Eles resolvem o problema da ocupação do noticiário. Nada mais que isso.”

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017



Exige-se transparência solar


Cesar Vanucci 

“O que se concebe bem, se anuncia com clareza.
 E as palavras para dizê-lo chegam com facilidade.”
(Nicolas Boileau, poeta francês, século 17)

Transparência solar na apuração das circunstâncias do desastre aéreo que ceifou a vida do Ministro Teori Zavascki! Tal preocupação não pode permanecer ausente, hora alguma, das cogitações dos setores incumbidos da lida com o assunto. Apesar de compreensível do ponto de vista técnico, a recente decisão do Juiz Federal de Angra dos Reis, determinando hermético sigilo em torno do processo investigatório concorre, forçoso admitir, para que a opinião pública se sinta um tanto quanto desconfortável em relação às diligências oficiais.

É sumamente importante, neste momento, em todos os escalões, que os agentes públicos com expressas responsabilidades no impecável esclarecimento do acidente se mostrem verdadeiramente compenetrados do elevado grau das expectativas das ruas concernentes ao caso. Para que possam executar a contento sua relevante missão conta muito a certeza de que as explicações sejam transmitidas de forma convincente e clara. Toda a Nação almeja conhecer por inteiro os desdobramentos do trabalho de verificação a respeito do que, afinal de contas, andou acontecendo no voo fatídico de Parati.

A coincidência de a morte de Teori haver ocorrido na véspera da homologação de depoimentos cruciais, num processo da magnitude política, econômica e social da Lava Jato, é bastante significativa. Não há como desfazer os temores circulantes em muitas áreas no sentido de que o destino impiedoso poderia não ter sido a real causa do lastimável evento. A apuração rigorosa dos fatos, como a que se acredita esteja em andamento, terá o condão de deixar tudo muito bem elucidado, com base em rigorosa transparência.

E já que se está a tratar de transparência e clareza das coisas, seja-nos facultado focalizar, na sequência, posturas governamentais em dissonância com esses elementos, obviamente essenciais no processo de comunicação oficial com a sociedade. Vamos falar, como prometido em artigo anterior, das chamadas “síndrome da reivindicação sucessiva” e “síndrome da responsabilização regressiva”, fórmulas marotas de engazopamento da opinião pública, traduzidas em excesso de palavrório e carência de ações.

Lembrando que o Governo Michel Temer, tal qual fizeram os antecessores, acostumou-se a lidar com a segurança manipulando truques com o fito de embromar o respeitável público, o jornalista Élio Gáspari discorre magistralmente sobre o que vêm a ser essas ardilosas manobras. A “síndrome da reivindicação sucessiva”, uma delas, agrada em cheio a emproada casta dos burocratas, sempre empenhados em elaborar “agendas futuristas” que lhes propiciem a chance de não fazer o que devem. Permite corra desenvolto, conforme sublinha o jornalista, o raciocínio descrito abaixo: “As facções criminosas nos presídios só poderiam ser contidas com bloqueadores de celulares. Instalados os bloqueadores, será necessário um satélite para vigiar a fronteira e assim por diante. (...) As cadeias estão superlotadas e, em vez de botar pra trabalhar quem nunca trabalhou, defende-se a mudança na legislação penal.” E por aí a carruagem vai rodando, numa marcha inesgotável, carregando intenções que nunca se concretizam.

Já no que concerne à outra “síndrome” anotada, “a síndrome da responsabilização regressiva”, o citado jornalista sustenta que o ilustre Ministro da Justiça se acha dela apoderado. E no que mesmo consiste? Urdida, como a primeira “síndrome”, com o objetivo de empulhar a plateia, a postura adotada enfatiza a ideia de que a aterrorizante situação das penitenciárias remonta “a uma crise antiga, secular”. Suas raízes estariam fincadas nos tempos coloniais. Gáspari ironiza: “Tudo bem, a responsabilidade é de Tomé de Souza. Nada a ver com os governos de José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma, todos apoiados pelo atual presidente Michel Temer”. E acrescenta, aludindo ao Ministro Alexandre Morais: “... é um homem do seu tempo. Atento às sutilezas do vocabulário, sempre que fala em “homicídio” acrescenta a palavra “feminicídio”. No mundo do politicamente correto lixo é “resíduo sólido”, e não se deve buscar a regeneração dos delinquentes, mas a “ressocialização” dos presos. Tudo seria uma questão de palavras que não fazem mal a ninguém, se na fantasia de modernidade e cosmopolitismo não se escondesse o atraso. Finge-se que tornozeleiras, satélites, radares, censos e mudanças pontuais podem resolver os problemas das prisões brasileiras. Eles resolvem o problema da ocupação do noticiário. Nada mais que isso.”

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017




O maior evento 
do cinema brasileiro


Cesar Vanucci

“Está aí uma façanha histórica!”
 (Secretário da Cultura Angelo Oswaldo)

Assisti a primeira. Compareci a algumas mais. Acompanhei à distancia as outras. Estive presente agora na vigésima edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. Os da minha convivência conhecem de sobra o fascínio que carrego, não é de hoje, por cinema.
Desde os distanciados tempos da escola risonha e franca, fiz da “sétima arte” referência maiúscula na lista das predileções pessoais em matéria de entretenimento. Na juventude, ao abraçar com febril ardor a profissão de repórter eclético inclui entre as tarefas cotidianas a apreciação dos filmes exibidos nos cinemas de minha cidade. Ajudei a criar, com outros contumazes cinemeiros, um “Clube de Cinema”. O clube promovia com constância animadas tertúlias à volta de projeções de fitas famosas em 16 milímetros. Eram alugadas ou trazidas da coleção particular de alguém fissurado em cinema. Não perdia lançamentos. Cheguei a “disputar” recordes de permanência em salas de projeção. Surpreendi-me, mais de uma vez, deixados os pagos natais em viagens de férias, a percorrer horas seguidas (até doze horas, vejam só!) salas de projeção nas antigas “cinelândias” de São Paulo e Rio de Janeiro e no circuito fílmico de Beagá. Cometi a proeza de acompanhar, em dois dias consecutivos, as três sessões diárias de “A Doce Vida”. Perdi o número das vezes em que vi Casablanca, Sinfonia de Paris, Cantando na Chuva, 12 Homens e uma Sentença, Adivinhem quem veio para jantar?, O Homem que matou o facínora, O pagador de promessas, 2001 - odisséia no espaço e Orfeu do Carnaval. A lista comporta, obviamente, outros títulos. Pela minha contabilidade, nas salas de cinema, ou diante da tevê e de vídeos de locadora, enlevei-me com Retratos da Vida “apenasmente” 12 vezes. À conta disso, pude inteirar-me dos três diferentes epílogos bolados pelos produtores dessa encantadora fita francesa. Do que nunca fiquei sabendo, todavia, foi do tipo de conveniência a que essas mudanças no fecho do enredo procuraram atender. Tem mais: li e mantenho em minha biblioteca razoável volume de livros alusivos à temática cinematográfica. Entre eles, ocupa lugar de destaque na estante a coleção produzida, com talento e apuro de linguagem, pelo amigo e companheiro Guido Bilharinho, da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.
Falo dessas coisas com o fito de enfatizar, convicto, não me faltarem credenciais na condição de espectador, mode que poder afirmar, com todas as letras, acentos, parágrafos, pontos e vírgulas, que a Mostra de Tiradentes - como restou exuberantemente provado nesta vigésima versão - representa o mais importante evento do cinema brasileiro. Seus idealizadores, Raquel Hallak D’Angelo, Quintino Vargas Neto e Fernanda Hallak D’Angelo, estão cobertos de razão quando proclamam, tomados de compreensível ufania, que em Tiradentes funciona hoje a principal fonte de inovação e divulgação do cinema brasileiro. Podem, perfeitamente, jactarem-se de que a exuberante trajetória percorrida pela Mostra assegurou-lhe posição de invulgar realce no “centro da história do áudio-visual e no circuito de festivais realizados no Brasil.”
Enfeixando na programação, como é do feitio da promoção, diversificadas manifestações da arte – cinema, música, teatro, literatura, dança, desenho e pintura -, estabelecendo vinculações competentes e proveitosas com os movimentos sociais e com a sociedade, a Mostra teve o condão de criar poderosa mística em torno da tricentenária Tiradentes como novo e esfuziante centro moderno de irradiação cultural. Fez infletir no formoso burgo - relicário de preciosidades históricas, arquitetônicas e paisagísticas – o foco das atenções turísticas. 
Nesta recente edição, afirmando-se como plataforma da produção fílmica independente, divulgou 108 filmes em pré-estréias mundiais. Promoveu mais um seminário de estudos com movimentados debates a cargo de renomados especialistas. Patrocinou oficinas de cinema e implantou a sugestiva Casa da Mostra, ponto de encontro para pesquisa, produção do conhecimento e do fazer cinematográfico.
Por derradeiro, o repórter que esta subscreve não resiste à tentação de anotar fatos que o deixaram um tanto intrigado, ocorridos na imponente solenidade de abertura da Mostra. Numa criativa e bem documentada exposição visual, foi mostrada, aos milhares de convidados presentes no Cine-Tenda, uma retrospectiva dos festivais anteriores, entrelaçada com cenas frisantes da historia brasileira dos últimos 20 anos. A reação do público, composto predominantemente de moradores de Tiradentes, deu o que pensar. Nas vezes em que aparecerem suas imagens no telão, Michel Temer e Aécio Neves foram intensamente vaiados. Luiz Inácio Lula da Silva foi intensamente aplaudido. Para Dilma Roussef e Fernando Henrique Cardoso não houve nem aplausos nem apupos.





KALIL PREFERE O 
GRAFITE COLORIDO

Maria Inês Chaves de Andrade
Vice-presidente da ONG “O Proação”


O Prefeito Alexandre Kalil foi de uma profunda sensibilidade política, valorizada a Pólis em sua definição mais essencial, ao perceber que os grafites embelezam a cidade e a arte urbana merece guarida. Na verdade, sua decisão se distende para além do que apenas parece, embora aparência seja o que motiva o conflito em São Paulo, sejam gostos e desgostos. O fato é que neste sufocamento do dia a dia, a grafitagem oferece uma saída, deixando inspirar e expirar a poesia possível sob a prosa impossível do cotidiano. Mas, a pensar-se bem, tudo é grafite, esta cor da arte, bem como da sisudez, cinza tempestuoso. De todo modo, de grafite-cor tudo se pode grafitar. É legal sem ser nem um pouco “legal”. Grafite por grafite, Kalil preferiu o colorido enquanto de grafite-cor escreve o projeto Profeta Gentileza para incentivar a arte da grafitagem por aqui. Ora, não há muito, aos 29 dias do mês de outubro do ano de 2014, nesta nossa Capital, se reuniram, no Museu das Minas e do Metal, durante o evento nominado Arte Solidária, várias entidades sem fins lucrativos e artistas de todas as artes, pela assunção do compromisso inconfidente de continuidade do desenvolvimento da ideia de liberdade, proclamada em Minas, quando se instaurou o Solidarismo Mineiro como movimento cultural artístico-humano, cujas bases se apresentaram pela confecção do “homem como a maior obra de si mesmo”, tornado ser humano a partir de sua intervenção sobre a realidade, na valorização de uma estética do bem. Assim, Kalil vem ao encontro deste propósito comum, o de que a expressão do mundo dos sonhos e da realidade não apenas exerça influência sobre os artistas e suas criações, mas também se ofereça às suas influências. Conspiração e inspiração, veladas e desveladas, figurativas ou objetivas, mas intencionalmente artísticas, como uma contra-corrente tanto quer romper os grilhões que sufocam a essência humana de expressar-se. A falta de sentido das linguagens que nos confundem e nos tornam seres aleatórios subjugados pelo nada quando tudo o que ansiamos é reconhecermo-nos humanos, sendo, através do outro, seja ele quem for, na sua infinita multiplicidade.
O solidarismo mineiro é um movimento que envolve todas as artes e quer influenciar toda a sociedade como manifestação artística que despreza a nossa pasteurização como cópias naturais, ditas homens apenas, quando o que nos distingue uns dos outros são a nossa humanidade e o belo que podemos e que toma a “ética como estética da existência”. Este movimento instaurado em Minas e sob os ventos que ora sopram com Kalil releva a demanda que temos a propósito do enfrentamento de todo tipo de violência e da indiferença que nos constrange a Razão humana. A arte é mesmo instrumento de intervenção na face do mundo e enfrenta a corrupção como degenerescência da essência humana sob a potência do bicho-homem. Ora, o poder precisa mesmo reconhecer-se como “força a serviço da liberdade”, que emana do povo e em seu nome deve ser exercido, quando a omissão relativamente à humanidade imanente em nós tem favorecido a que a irracionalidade contrabalance-se a si no equilíbrio de forças brutas.
O belo artístico que se quer com o grafite colorido promove a reconciliação do espírito humano enquanto exterioridade e interioridade, homem e ser humano, superando a cisão natureza-espírito para tomar a obra de arte não só como objeto sensível, finito e transitório, mas forma de deixar transparecer a plenitude do divino e do sagrado em nós, objetivamente. “A arte cultiva o humano do homem”. O objetivo último da arte é mesmo “despertar a alma”, “é revelar à alma tudo o que a alma contém de essencial, de grande, de sublime, de respeitável e de verdadeiro”. A promoção de nosso Prefeito é a do espírito estético que exige, neste momento, que a ideia de ser humano e sua manifestação exterior, homem, redimensionem a arte para atender as necessidades tanto da sensibilidade como da razão, reconciliando a finitude da aparência e a infinitude da essência, de modo a fazer renascer a arte na história de nossa trajetória. “A verdadeira política é um modelo, uma forma que resolve, a cada momento, a exigência histórica de um povo” pelo que Kalil, na arte da política, assume um compromisso racional e estético de intervenção na face de nossa cidade, intercedendo por uma estética humana e, na produção de sentidos ajudando a construir, objetiva e subjetivamente, o sentido da vida do belorizontino. Agora, os muros e os viadutos de Belo Horizonte vão se oferecer à abstração no concreto, nesse concreto armado de nosso país, já armado até os dentes. Kalil arrasou!


A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...