sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017




O maior evento 
do cinema brasileiro


Cesar Vanucci

“Está aí uma façanha histórica!”
 (Secretário da Cultura Angelo Oswaldo)

Assisti a primeira. Compareci a algumas mais. Acompanhei à distancia as outras. Estive presente agora na vigésima edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. Os da minha convivência conhecem de sobra o fascínio que carrego, não é de hoje, por cinema.
Desde os distanciados tempos da escola risonha e franca, fiz da “sétima arte” referência maiúscula na lista das predileções pessoais em matéria de entretenimento. Na juventude, ao abraçar com febril ardor a profissão de repórter eclético inclui entre as tarefas cotidianas a apreciação dos filmes exibidos nos cinemas de minha cidade. Ajudei a criar, com outros contumazes cinemeiros, um “Clube de Cinema”. O clube promovia com constância animadas tertúlias à volta de projeções de fitas famosas em 16 milímetros. Eram alugadas ou trazidas da coleção particular de alguém fissurado em cinema. Não perdia lançamentos. Cheguei a “disputar” recordes de permanência em salas de projeção. Surpreendi-me, mais de uma vez, deixados os pagos natais em viagens de férias, a percorrer horas seguidas (até doze horas, vejam só!) salas de projeção nas antigas “cinelândias” de São Paulo e Rio de Janeiro e no circuito fílmico de Beagá. Cometi a proeza de acompanhar, em dois dias consecutivos, as três sessões diárias de “A Doce Vida”. Perdi o número das vezes em que vi Casablanca, Sinfonia de Paris, Cantando na Chuva, 12 Homens e uma Sentença, Adivinhem quem veio para jantar?, O Homem que matou o facínora, O pagador de promessas, 2001 - odisséia no espaço e Orfeu do Carnaval. A lista comporta, obviamente, outros títulos. Pela minha contabilidade, nas salas de cinema, ou diante da tevê e de vídeos de locadora, enlevei-me com Retratos da Vida “apenasmente” 12 vezes. À conta disso, pude inteirar-me dos três diferentes epílogos bolados pelos produtores dessa encantadora fita francesa. Do que nunca fiquei sabendo, todavia, foi do tipo de conveniência a que essas mudanças no fecho do enredo procuraram atender. Tem mais: li e mantenho em minha biblioteca razoável volume de livros alusivos à temática cinematográfica. Entre eles, ocupa lugar de destaque na estante a coleção produzida, com talento e apuro de linguagem, pelo amigo e companheiro Guido Bilharinho, da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.
Falo dessas coisas com o fito de enfatizar, convicto, não me faltarem credenciais na condição de espectador, mode que poder afirmar, com todas as letras, acentos, parágrafos, pontos e vírgulas, que a Mostra de Tiradentes - como restou exuberantemente provado nesta vigésima versão - representa o mais importante evento do cinema brasileiro. Seus idealizadores, Raquel Hallak D’Angelo, Quintino Vargas Neto e Fernanda Hallak D’Angelo, estão cobertos de razão quando proclamam, tomados de compreensível ufania, que em Tiradentes funciona hoje a principal fonte de inovação e divulgação do cinema brasileiro. Podem, perfeitamente, jactarem-se de que a exuberante trajetória percorrida pela Mostra assegurou-lhe posição de invulgar realce no “centro da história do áudio-visual e no circuito de festivais realizados no Brasil.”
Enfeixando na programação, como é do feitio da promoção, diversificadas manifestações da arte – cinema, música, teatro, literatura, dança, desenho e pintura -, estabelecendo vinculações competentes e proveitosas com os movimentos sociais e com a sociedade, a Mostra teve o condão de criar poderosa mística em torno da tricentenária Tiradentes como novo e esfuziante centro moderno de irradiação cultural. Fez infletir no formoso burgo - relicário de preciosidades históricas, arquitetônicas e paisagísticas – o foco das atenções turísticas. 
Nesta recente edição, afirmando-se como plataforma da produção fílmica independente, divulgou 108 filmes em pré-estréias mundiais. Promoveu mais um seminário de estudos com movimentados debates a cargo de renomados especialistas. Patrocinou oficinas de cinema e implantou a sugestiva Casa da Mostra, ponto de encontro para pesquisa, produção do conhecimento e do fazer cinematográfico.
Por derradeiro, o repórter que esta subscreve não resiste à tentação de anotar fatos que o deixaram um tanto intrigado, ocorridos na imponente solenidade de abertura da Mostra. Numa criativa e bem documentada exposição visual, foi mostrada, aos milhares de convidados presentes no Cine-Tenda, uma retrospectiva dos festivais anteriores, entrelaçada com cenas frisantes da historia brasileira dos últimos 20 anos. A reação do público, composto predominantemente de moradores de Tiradentes, deu o que pensar. Nas vezes em que aparecerem suas imagens no telão, Michel Temer e Aécio Neves foram intensamente vaiados. Luiz Inácio Lula da Silva foi intensamente aplaudido. Para Dilma Roussef e Fernando Henrique Cardoso não houve nem aplausos nem apupos.





KALIL PREFERE O 
GRAFITE COLORIDO

Maria Inês Chaves de Andrade
Vice-presidente da ONG “O Proação”


O Prefeito Alexandre Kalil foi de uma profunda sensibilidade política, valorizada a Pólis em sua definição mais essencial, ao perceber que os grafites embelezam a cidade e a arte urbana merece guarida. Na verdade, sua decisão se distende para além do que apenas parece, embora aparência seja o que motiva o conflito em São Paulo, sejam gostos e desgostos. O fato é que neste sufocamento do dia a dia, a grafitagem oferece uma saída, deixando inspirar e expirar a poesia possível sob a prosa impossível do cotidiano. Mas, a pensar-se bem, tudo é grafite, esta cor da arte, bem como da sisudez, cinza tempestuoso. De todo modo, de grafite-cor tudo se pode grafitar. É legal sem ser nem um pouco “legal”. Grafite por grafite, Kalil preferiu o colorido enquanto de grafite-cor escreve o projeto Profeta Gentileza para incentivar a arte da grafitagem por aqui. Ora, não há muito, aos 29 dias do mês de outubro do ano de 2014, nesta nossa Capital, se reuniram, no Museu das Minas e do Metal, durante o evento nominado Arte Solidária, várias entidades sem fins lucrativos e artistas de todas as artes, pela assunção do compromisso inconfidente de continuidade do desenvolvimento da ideia de liberdade, proclamada em Minas, quando se instaurou o Solidarismo Mineiro como movimento cultural artístico-humano, cujas bases se apresentaram pela confecção do “homem como a maior obra de si mesmo”, tornado ser humano a partir de sua intervenção sobre a realidade, na valorização de uma estética do bem. Assim, Kalil vem ao encontro deste propósito comum, o de que a expressão do mundo dos sonhos e da realidade não apenas exerça influência sobre os artistas e suas criações, mas também se ofereça às suas influências. Conspiração e inspiração, veladas e desveladas, figurativas ou objetivas, mas intencionalmente artísticas, como uma contra-corrente tanto quer romper os grilhões que sufocam a essência humana de expressar-se. A falta de sentido das linguagens que nos confundem e nos tornam seres aleatórios subjugados pelo nada quando tudo o que ansiamos é reconhecermo-nos humanos, sendo, através do outro, seja ele quem for, na sua infinita multiplicidade.
O solidarismo mineiro é um movimento que envolve todas as artes e quer influenciar toda a sociedade como manifestação artística que despreza a nossa pasteurização como cópias naturais, ditas homens apenas, quando o que nos distingue uns dos outros são a nossa humanidade e o belo que podemos e que toma a “ética como estética da existência”. Este movimento instaurado em Minas e sob os ventos que ora sopram com Kalil releva a demanda que temos a propósito do enfrentamento de todo tipo de violência e da indiferença que nos constrange a Razão humana. A arte é mesmo instrumento de intervenção na face do mundo e enfrenta a corrupção como degenerescência da essência humana sob a potência do bicho-homem. Ora, o poder precisa mesmo reconhecer-se como “força a serviço da liberdade”, que emana do povo e em seu nome deve ser exercido, quando a omissão relativamente à humanidade imanente em nós tem favorecido a que a irracionalidade contrabalance-se a si no equilíbrio de forças brutas.
O belo artístico que se quer com o grafite colorido promove a reconciliação do espírito humano enquanto exterioridade e interioridade, homem e ser humano, superando a cisão natureza-espírito para tomar a obra de arte não só como objeto sensível, finito e transitório, mas forma de deixar transparecer a plenitude do divino e do sagrado em nós, objetivamente. “A arte cultiva o humano do homem”. O objetivo último da arte é mesmo “despertar a alma”, “é revelar à alma tudo o que a alma contém de essencial, de grande, de sublime, de respeitável e de verdadeiro”. A promoção de nosso Prefeito é a do espírito estético que exige, neste momento, que a ideia de ser humano e sua manifestação exterior, homem, redimensionem a arte para atender as necessidades tanto da sensibilidade como da razão, reconciliando a finitude da aparência e a infinitude da essência, de modo a fazer renascer a arte na história de nossa trajetória. “A verdadeira política é um modelo, uma forma que resolve, a cada momento, a exigência histórica de um povo” pelo que Kalil, na arte da política, assume um compromisso racional e estético de intervenção na face de nossa cidade, intercedendo por uma estética humana e, na produção de sentidos ajudando a construir, objetiva e subjetivamente, o sentido da vida do belorizontino. Agora, os muros e os viadutos de Belo Horizonte vão se oferecer à abstração no concreto, nesse concreto armado de nosso país, já armado até os dentes. Kalil arrasou!


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