quinta-feira, 14 de novembro de 2013

CONVITE AOS LEITORES DO BLOG


"Desafios e perspectivas da saúde pública no Brasil" é o tema de uma palestra a ser proferida, no próximo dia 25 (vinte e cinco) de novembro, às 19h30m (dezenove horas e trinta minutos) pelo deputado Adelmo Carneiro Leão, vice-presidente da Assembleia Legislativa, no "XVIII Encontro Cultural da Academia".
O ato, promovido pela Academia Mineira de Leonismo e Lions Clube BH Mangabeiras, será realizado no auditório do Sesiminas, rua Álvares Maciel, 59, Centro de Cultura "Nansen Araujo".
Convido os leitores do "Blog do Vanucci" a comparecerem.

*****

Reflexões em torno da espionagem

 Cesar Vanucci *

“Tudo isso é ilegal como obviamente nada tem a
ver com proteger os EUA e o mundo do terrorismo.”
(Jornalista Antônio Luiz M.C. Costa, da “CartaCapital”)


· Por razões mais do que óbvias, a política externa da Casa Branca vem sendo amplamente criticada, inclusive nos Estados Unidos. O mundo inteiro já se deu conta, a esta altura, que as semelhanças do governo republicano de Bush e do governo democrata de Barack Obama, na forma de conduzir as questões no plano internacional, são bastante acentuadas.

Mas não era isso que a opinião pública esperava acontecesse por ocasião da chegada ao poder do atual presidente estadunidense. A aposta global na efetividade das mudanças era de tal ordem que bem poucos ousaram, à época, questionar a açodada outorga do Nobel da Paz ao recém-chegado. Tratava-se apenas – esta a crença generalizada – de uma mera antecipação do crédito em esperança e confiança das multidões depositado na atuação de um personagem carregado de ideias novas, carismático, bom de fala, que entrava em cena com a firme disposição de alterar o enredo na desgastada convivência politica internacional. Demorou um pouco para que essa alvissareira expectativa se esboroasse e a frustração se instalasse, irremediavelmente, no espírito popular. A convicção agora dominante é de que a diferença no modo de agir de um e de outro, em termos de política externa, é a mesma que se percebe no sabor da Coca e da Pepsi, as mais famosas marcas do mercado mundial de refrigerantes, ambas de origem norte-americana.

· Por mais que alguns veículos de comunicação da mídia tupiniquim procurem minimizar a importância do fato, o posicionamento de Dilma Rousseff na condenação ao esquema de espionagem cibernética patrocinado pelos Estados Unidos tornou-se ponto de referência para uma decisão global no sentido de se criar um sistema de proteção eficaz contra essas agressões à soberania dos países e violações, com fitos políticos e comerciais, da intimidade das pessoas e instituições.
A declaração conjunta levada pelo Brasil e Alemanha à ONU, em favor da implantação de um marco regulatório estabelecendo controle das ações da internet, recebida com total simpatia pela quase totalidade dos países membros da instituição, é prova mais do que provada do acerto da atitude tomada pela Presidenta.

· E se fosse levada realmente a sério a argumentação dos paranoicos porta-vozes das agências de espionagem norte-americanas, a respeito de que a arapongagem eletrônica praticada em alta escala é voltada, exclusivamente, para o monitoramento de dirigentes das redes terroristas espalhadas por várias partes deste mundo velho de guerra? Seríamos todos forçados a passar, daqui pra frente, pelo constrangimento de ter que enxergar no Papa Francisco gloriosamente reinante e na garbosa Guarda Suíça do Vaticano, alvos da bisbilhotice cibernética,  perigosos agentes da subversão, engajados em tenebrosa conspiração contra a concórdia e a paz entre os homens. Dá procês?

· O acesso livre e desembaraçado pela ação criminosa da espionagem estadunidense às mensagens propagadas pelo Google e o Yahoo, coloca-nos, todos usuários da internet, na incômoda sensação de vivenciar um pouco o clima asfixiante dos personagens do livro “1984”, de George Orwell, criado pelo “Grande Irmão” com seus tentáculos de dominação sobre as mentes.

· Essa história da espionagem cibernética gerou uma estupefação, pode-se dizer, extra. O técnico em informática Snowden, responsável pela veiculação do repulsivo esquema, era um mero funcionário terceirizado das “agências de inteligência” encarregadas de conduzir o processo. Ao apoderar-se das estarrecedoras informações vindas a lume expôs a extrema vulnerabilidade do sistema de segurança dos referidos órgãos. E, de certo modo, também, a suprema arrogância que os norteia, ao se arvorarem em organizações situadas acima do bem e do mal. Descompromissadas do dever de oferecer satisfações dos malfeitos praticados a quem quer que seja. Mesmo que seus nefandos atos cheguem, por qualquer acidente de percurso, como, aliás, acabou acontecendo, ao conhecimento da opinião pública.


· Comparar uma ou outra diligência promovida pela Agência Brasileira de Informação (ABIN), dentro de suas estritas atribuições institucionais, com o formidando aparato de espionagem mundial da CIA e NSA – como andam querendo irrefletidamente alguns parlamentares oposicionistas – é uma forma de subestimar a inteligência das pessoas, sem deixar de ser um sinal eloquente de imaturidade politica e de indigência cívica.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O poetaço Vinicius

Cesar Vanucci *

“O material do poeta é a vida.”
(Vinicius de Moraes)

Temo, sinceramente, que a expressão poetinha, aplicada carinhosamente a Vinicius de Moraes por legiões de fãs brasis afora, seja também empregada desembaraçadamente em certos redutos acadêmicos obsessivamente focados em cânones literários herméticos, como tentativa de restringir a extraordinária importância da obra artística desse poetaço. Uma obra que assegura ao personagem mencionado o sagrado direito de figurar com realce na lista dos maiores poetas da língua.

Na minha desajeitada percepção revelam-se indisfarçáveis os sinais de que setores intelectuais com algum grau de influência na vida literária encontram dificuldades em reconhecer o papel exponencial de Vinicius no amplo espectro de nossa cena cultural. Não deixam, é certo, de festejá-lo pelos notáveis méritos acumulados como inspirado compositor e autor de versos encantadores lançados em inesquecíveis canções. Nem de aplaudi-lo, com entusiasmo, pela demonstração pujante de seu talento no território da música popular brasileira. Mas reservam, falar verdade, tempo de menos para celebrar o fascínio impactante de sua fala poética. De sua fala romântica. De sua fala social. Uma espécie de conspiração de silêncio parece envolver o todo da invulgar criatividade desse artista da palavra. Um poeta, escritor, cronista que soube fazer-se intérprete de generosos sentimentos e anseios. Sentimentos que povoam a alma humana, nas manifestações de cunho romântico produzidas. Anseios sociais genuínos brotados das vivências comunitárias, registrados em suas vibrantes manifestações de teor social.

Homem de seu tempo, um contemporâneo do porvir, com percepção aguda das coisas de sua terra e de sua gente, poeta universal de todos os tempos, o saudoso Vinicius de Moraes, ora merecidamente homenageado em verso, prosa e música pelo transcurso do centenário de nascimento, foi em vida um dos intelectuais mais bem providos de dons desse país. Não há exagero em se aponta-lo como um gênio da raça. Um cultor das letras que se lembrou do futuro, como proposto num mimoso conceito de Jean Cocteau. Um poeta singular cujo olhar “girando em delírio, vai do céu para a terra, de terra para o céu e, no que a imaginação vai tomando corpo, usa da pena para cativar a essência das coisas, moldando-lhes a forma e dando a um nada construído no ar um nome e um ponto de referência”, como na descrição de Shakespeare em o “Sonho de uma noite de verão”.

Enfim, um poeta e tanto e compositor magnifico que entendeu que seu material de trabalho deveria ser sempre a vida, “com tudo que ela tem de sórdido e sublime”. Alguém compenetrado de que a missão abraçada em seu nobre ofício “é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo, informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação”, conforme as próprias palavras com que descreve sua participação no jogo da vida.

Vinicius de Moraes, na música, no verso, na crônica, foi simplesmente um poetaço.


Repúdio universal

“Os Estados Unidos já não têm
 mais aliados. Só alvos e vassalos!”
(Deputado francês Jean-Jacques Urvoas)

A credibilidade da Casa Branca, junto com a imagem de bom mocismo de Barack Obama, vem despencando ladeira abaixo de forma estrepitosa. A acumulação ruidosa de evidencias a respeito da xeretagem eletrônica mundial posta a funcionar a pleno vapor, com o solerte intuito de promover trapaças comerciais, políticas e financeiras, acendeu a luzinha vermelha indicativa da ultrapassagem inaceitável dos limites éticos e legais.

Dilma Rousseff foi a primeira a exprimir indignação diante dos estarrecedores fatos. Pediu na ONU, debaixo de aplausos, a implantação de um marco regulatório universal que seja capaz de deter o traiçoeiro processo de invasão da privacidade executado pelas agências estadunidenses de espionagem.

Depois disso, chegou a vez de Angela Merkel chiar. Em nome do governo alemão, a chanceler não poupou críticas ásperas aos “muy amigos” que, há anos, andam monitorando seus passos e os das autoridades e cidadãos de sua pátria. Considerou naturalmente afrontoso tal procedimento. Nota oficial do governo de Berlim, cobrando explicações de Obama, assinalou que “entre amigos próximos, como têm sido Alemanha e Estados Unidos por décadas, não deveria haver vigilância.”

O Presidente François Hollande, da França, também manifestou enorme irritação com a conduta dos “leais aliados” norte-americanos. Foi secundado no protesto pelo presidente da Comissão de Legislação da Assembleia Nacional francesa, Jean-Jacques Urvoas, que num comunicado, entre outras coisas, disse o seguinte: “Os Estados Unidos já não têm mais aliados. Só alvos e vassalos.” Pelas apurações feitas, a Agência de Segurança Nacional (NSA) grampeou nada mais nada menos do que 70 milhões e 300 mil ligações telefônicas e e-mails no território francês em apenas um mês, transmitidas pelas redes Wanadoo e Acatel.

Igualmente vítima das sherloqueanas trapalhadas, o governo espanhol engrossou o coro dos protestos, a um só tempo que a imprensa internacional revelava ter havido monitoramento constante das ações de Felipe Calderon, presidente mexicano, pelas “agências de segurança” de seu mais próximo vizinho. Das reações mexicanas com relação a esse caso específico de arapongagem pouco se conhece. Acontece que o México mantém uma relação muito peculiar com os Estados Unidos. Não dispomos de condições para saber se a situação absurda que nos propomos agora a relatar ainda persiste. Mas, até bem pouco tempo, os consulados mexicanos exigiam estranhavelmente de turistas estrangeiros que requeressem visto de entrada em seu belo país um compromisso formal no sentido de não virem a utilizar a liberação concedida para alcançar, posteriormente, o território estadunidense. Esses órgãos operavam, pelo que estava à vista, como repartições anexas ao serviço consular dos Estados Unidos, algo que, com presumível certeza, desgastava e constrangia os cidadãos mexicanos. Não fica fora de propósito imaginar que de sabujices do gênero é que tenha nascido aquele intrigante desabafo do líder mexicano Porfirio Dias registrado pela história: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”

As flamejantes denúncias vindas a furo sobre a espionagem norte-americana envolvendo 35 (ou mais) chefes de Estado dão conta ainda da existência de relatórios em que as agências estadunidenses classificam, cinicamente, a internet de “instrumento valioso de trabalho” por permitir ao governo do país “conduzir negociações bem sucedidas em assuntos políticos e planejar investimentos internacionais”. É o caso de dizer: Valha-nos Deus, Nossa Senhora!

Enquanto os aliados dos Estados Unidos do lado de cá expressam inconformismo com relação às escutas clandestinas, aliados do lado de lá, do Oriente, lamentam um outro tipo de ação executada pela Casa Branca que tem dado causa a mortes violentas no seio da população civil. Na caça a combatentes terroristas, os chamados “drones”, veículos aéreos não tripulados, vêm despejando misseis mortíferos em áreas habitadas por civis inocentes que nada têm a ver com os inimigos apontados como alvos. Isso vem suscitando onda de revolta contra a política estadunidense nas regiões atingidas pela vigilância aérea.


Todos esses fatos explicam as articulações que diversos países fazem no momento no sentido de controlar um pouco os ímpetos norte-americanos. Como no caso das interceptações telefônicas, que levaram à proposta apresentada pelo Brasil, já agora endossada pela Alemanha e outros membros da ONU, em favor da criação de um marco regulatório internacional para a internet. Órgãos internacionais apelaram ao Brasil para que organize um encontro mundial sobre governança na internet com o objetivo de estabelecer regras de controle sobre a rede, de modo a impedir sejam desvirtuados seus objetivos originais em favor da construção do bem-estar humano.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Celebração magna do Lions

Cesar Vanucci *

“Paixão contagiante, o futebol é a alegria do povo.”
(Neuza Ribeiro Viana na “Invocação a Deus” do dia 8 de outubro,
 no ato de abertura da Semana Mundial do Serviço Leonistico)

O futebol como fator de integração cultural foi o tema escolhido pelo Lions Clube para as celebrações deste ano da “Semana Mundial do Serviço Leonistico”. Promovidos pela Governadoria e Clubes do Distrito LC-4 e pela Academia Mineira de Leonismo, os eventos se desdobraram entre os dias 8 e 15 de outubro passado. Com expressiva participação popular, os dois atos mais significativos da comemoração foram realizados no Espaço Cultural do Tribunal de Contas de Minas Gerais (dia 8) e no Teatro do Sesiminas (dia 15).

Duas palestras marcaram o primeiro desses atos. O jornalista Milton Naves, narrador esportivo da Rádio Itatiaia, fez um vibrante apanhado de suas experiências profissionais na cobertura das Copas Mundiais de Futebol a que compareceu. O cineasta Geraldo Veloso discorreu sobre o entrelaçamento da arte cinematográfica com a arte futebolística, numa fala de rica erudição.

Na mesma ocasião, foi aberta linda mostra de artes plásticas da pintora e escultora Mariza Guerra, versando a temática da celebração. Houve também a apresentação ao público de um projeto elaborado pelo Lions relativo à construção de moradias populares com o emprego de garrafas pet, de acordo com modelo de edificação na linha da sustentabilidade testado com êxito no Rio Grande do Norte. O projeto será implantado em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte. O Coral dos Servidores do Tribunal de Contas, regido pelo Maestro Cleude William. respondeu pela parte artística do evento. A Invocação a Deus da cerimônia foi feita por Neuza Ribeiro Viana.

No dia 15, no Teatro do Sesiminas, o Lions entregou troféus a personagens de realce na história futebolística brasileira. As homenagens contemplaram clubes e outras instituições ligadas a essa modalidade esportiva, craques, árbitros, cronistas, médicos, dirigentes, voluntários que comandam projeto de inclusão social na várzea, indicados pelas lideranças leonisticas incumbidas da elaboração do programa da “Semana”. Os homenageados, em número de 30, foram agraciados com o “Troféu Lions”. A Academia Mineira de Leonismo conferiu a tradicional “Medalha JK - Cultura, Desenvolvimento e Civismo” ao jornalista Emanuel Soares Carneiro, diretor-presidente da Rede Itatiaia de Rádio. A acadêmica Marilene Guzella Martins Lemos encarregou-se da Invocação a Deus. Como Mestres de Cerimônia atuaram o jornalista Neymar Fernandes e a acadêmica Nancy Maura Couto Konstantin.

A magnífica parte artística da celebração esteve a cargo da famosa Companhia de Dança do Sesiminas, comandada pela renomada coreógrafa Cristina Helena, com o concurso da Orquestra de Câmera do Sesi, regida pelo Maestro Marcos Antônio Maia Drumond. O espetáculo intitulado “Meu Brasil brasileiro”, composto de melodias de Carlos Gomes, Vila Lobos, Ary Barroso, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, entre outros compositores, arrancou aplausos entusiásticos do público que lotou as dependências do majestoso teatro. O governador do LC-4, José Leroy Silva, recepcionou os convidados, figuras de projeção na vida política, econômica e cultural. Na condição de presidente da Academia Mineira de Leonismo e de presidente da Comissão Organizadora da “Semana”, este escriba saudou os convidados e fundamentou a escolha do tema adotado pelo Lions como reflexão sobre a realidade brasileira ao ensejo da magna celebração anual do movimento leonistico. Em comentário vindouro serão reproduzidas neste espaço as palavras proferidas na referida assembléia.

Para o brilhantismo da celebração deste ano, o Lions contou com decisiva ajuda da Assembléia Legislativa de Minas, Sistema Federação das Indústrias, Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude, Tribunal de Contas de Minas Gerais, Rede Itatiaia de Rádio, Associação Mineira de Cronistas Esportivos e Associação de Garantia ao Atleta Profissional de Minas Gerais.


Percepção altruísta da vida

 “... os países devem se enfrentar apenas nas quadras de esporte.”
(Acadêmica Marilene Guzella, na Invocação a Deus
da celebração do “Dia Mundial do Serviço Leonístico”)

Como prometido, reproduzo abaixo os dizeres do pronunciamento que fiz, em nome do Lions Clube, por ocasião da celebração, em 15 de outubro passado, do “Dia Mundial do Serviço Leonistico.”

Nossos homenageados de hoje compõem grupo categorizado de desportistas com folhas de serviços expressivos na implantação e sustentação da mística do futebol. São, de um lado, personagens que deixaram impressas nos gramados, em imagens imorredouras, as pegadas de seu invulgar talento e habilidade. São, de outro lado, personagens que atuam nos efervescentes bastidores dos espetáculos. Integram as variegadas e complexas estruturas do apoio logístico, técnico e administrativo do futebol, assegurando suporte aos atletas para que possam encantar-nos com a magia de sua arte generosa. São, também, figuras que se esmeram, no mister profissional, em projetar de forma colorida e vibrante, produzindo salutar contaminação emocional, a beleza coreográfica incomparável do esporte das multidões.  São ainda criaturas que, à custa de elogiável abnegação, se valem do fascínio que o futebol exerce no espírito popular, para atrair em atividades educativas e desportivas adolescentes e crianças em condição de vulnerabilidade, de maneira a proporcionar-lhes chances de inclusão social. Somos gratos a todos esses homenageados pelo que realizaram e continuam fazendo em favor da construção humana.

O Futebol é mesmo alegria do povo! Mais do que isso até!

Percorrendo as veredas da memória, vejo-me, garoto do interior, ginasiano, rodeado de familiares e colegas, diante do enorme aparelho de rádio que guarnecia a sala de jantar na residência de vovó Carlota. Esta aí, uma santa criatura! Em seu perfil humano encaixavam-se admiravelmente aqueles dizeres poéticos de Manuel Bandeira narrando a chegada ao céu de uma mulher especial, feição meiga, atitudes nobres, vida singela. São Pedro, o próprio, cuida de recepcioná-la. Ela pede, humildemente, licença pra entrar. São Pedro reage com doçura paternal:
- Sem essa, mulher, vê lá se você precisa de licença pra entrar aqui!

A voz rouquenha do espiquer Antônio Cordeiro, espalhava-se pela sala naquela tarde de 16 de julho do ano da graça de 1950. O narrador esportivo da famosa Rádio Nacional descrevia os emocionantes lances da partida decisiva entre o Brasil e o Uruguai no Maracanã superlotado. Aguardávamos, todos nós, o final do jogo pra fim de comemorar. A festança vinha sendo aguardada há dias.

O título, pelo andar da carruagem, eram favas contadas. O Brasil dependia apenas de um empate. E o gol do ponteiro Friaça já havia deixado a seleção em confortável vantagem. Foi aí, então, que veio o gol de empate do ponta direita uruguaio Gighia. Um gol que, falar verdade, não chegou, no primeiro momento, a preocupar os torcedores. Mas um tiquinho de tempo adiante, de repente, não mais que de repente, já ai de forma atordoante, o marcador voltou a ser alterado, graças a uma jogada do mesmíssimo endiabrado Gighia. À medida em que, a partir dali, os ponteiros do relógio avançavam, o desespero começou a ganhar contorno nas mentes e corações. Quando o juiz trilou o apito final, o mundo veio abaixo. Um verdadeiro tsunami psicológico! O Maracanã ficou mudo e quedo que nem penedo. O silêncio de tumba etrusca que se abateu sobre o País inteiro era ensurdecedor. Os comentaristas da Nacional trataram de por fim, alguns aos soluços, à transmissão. A sala de jantar de dona Carlota tornou-se um reflexo melancólico do estado de espírito geral. Clima de chororô. A doce matriarca, muito ao seu feitio, procurava consolar-nos. O tom embargado de voz, somado ao semblante vincado de amargura, desmentiam frontalmente a certeza que se esforçava por repassar nas palavras: “Vamos ser racionais. Um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol, não passa apenas de um jogo de futebol.” Vovó Carlota, – aprendi, dolorosamente, naquele fatídico 16 de julho, estava redondamente equivocada. Um jogo de futebol nunca foi e nunca será, na realidade brasileira, apenas um jogo de futebol.

A história desse esporte popular, democrático como nenhum outro, documenta isso exuberantemente. Em 58, na Suécia: em 62, no Chile; em 70, no México; em 94, nos Estados Unidos; em 2002, na Coréia do Sul e Japão, para falar de outros instantes futebolísticos marcantes, o chororô já foi bem diferente do de 1950.  Houve, sim, lágrimas convulsivas, soluços angustiados e arritmias cardíacas em profusão, mas o conteúdo das reações, já ai, era alegre, feérico, extasiante.

Isso ai, minha gente! A crônica futebolística dá conta, constantemente de que um jogo de futebol, do ponto de vista dos brasileiros de todas as classes, profissões, etnias e crenças, não é apenas, simplesmente, um jogo de futebol. É uma interpretação única, singular, sem comparações com o que costuma rolar noutras paragens deste planeta azul, do jeito de ser, criativo, imaginoso, contagiante, conciliador do povo. No caso, do nosso povo brasileiro. O futebol, ato esportivo repleto de significados antropológicos, é uma expressão lídima da alma das ruas.
É uma afirmação robusta da integração nacional, de nossa identidade cultural. Um soberbo agente de confraternidade.

É eclosão de sentimentos genuinamente brasileiros. Revela o povo em pleno esforço de criatividade. Um povo que deixa à mostra, nessa pujante modalidade de manifestação cultural, suas grandes qualidades, até mesmo seus defeitos, suas virtualidades, sua percepção atilada e altruísta da aventura humana. Palavra de leão!


Invocação a Deus
  
“A serenidade de Deus está presente
nas coisas que fazemos juntos.”
(Provérbio popular)

A “Invocação a Deus” abre todas as assembléias promovidas pelo Lions Clube. Trata-se de uma mensagem de fundo espiritual e humanístico onde são traduzidos os sentimentos que embalam as ações do movimento leonistico no sentido da construção humana.

Na celebração deste ano, vivida festivamente agora em outubro, da “Semana Mundial do Serviço Leonistico”, a acadêmica Marilene Guzella Martins Lemos e a Companheira Leão Neuza Ribeiro Viana brindaram o público com magistrais “Invocações” nas duas principais assembléias constantes da programação.

Pelos edificantes conceitos emitidos, ambas as manifestações merecem ser conhecidas por parte de um número mais elevado de pessoas. Daí a razão de havermos optado pela reprodução dos textos lidos neste espaço.

Assim falou Marilene: “Quando invocamos a presença de Deus para abençoar esta cerimônia, ponto alto da Semana Mundial do Serviço Lonístico, que neste ano usa o lema “Futebol, Alegria do Povo”, podemos sentir orgulho. Os dois principais times mineiros estão lá no alto.
Muitas vezes nos chamaram de “País do Carnaval e País do Futebol”.
Somos isso, isso e muito mais, caminhamos bem no desenvolvimento de vários setores, mas, se carnaval e futebol encontraram no Brasil a pátria ideal é porque seu povo, fruto de um maravilhoso caldeamento de etnias, mantém, apesar de todos os percalços, uma inigualável alegria de viver.
Preferimos o apito das escolas de samba aos apitos de sirenes e fumaça dos fogos de artifício a fumaça de bombas.
Peçamos a Deus: Que no próximo ano, quando acolhermos os jogadores para a Copa do Mundo, possamos divulgar a mensagem de que os países devem se enfrentar apenas nas quadras de esporte e que as supremacias se limitem ao resultado de um placar.
Que os tratados de paz sejam as trocas de camisas e a derrota represente apenas a frustração de ver outros levantarem o caneco.
Que os feridos dessa guerra se curem com mercúrio nas esfoliações.
Que os custos da derrota sejam investimentos em formação de atletas e os rancores e retaliações se traduzam em preparação para o certame seguinte.
Agradecemos, Senhor, e que assim seja!”

Assim falou Neuza: “Agradecemos, Senhor, pela grandiosidade e magia deste encontro, pelo seu significado, pela nobreza do serviço leonístico e pela profunda solidariedade que envolve os propósitos de nossos caminhos.
Senhor Deus, abra sobre nós o brilho de sua luz; abra sobre nós o manto de sua segurança, da perseverança, do perdão e do aconchego. Que possamos aprender a orar pedindo um coração aberto e disposto a servi. Que possamos nos render à direção do Espírito ao lidar com o nosso próximo, com as circunstâncias e com as decisões que tomamos no decorrer de nosso trabalho em Lions. Que nossa presença evoque esperança, que nossas mãos tenham o dom de realizar boas obras, de acolher, de afagar o desvalido, e assim doando serviços, ganharmos vida.
Senhor, que a comemoração da Semana Mundial do Serviço Leonístico seja a celebração do servir, a celebração de companheiros fortes, unidos e imantados na lei maior do amor.
Abençoe nossa Governadoria, os Clubes do Distrito LC-4 e nossa Academia Mineira de Leonismo. Abençoe ricamente os homenageados deste magno evento, alcançando todos aqueles da direção e da atividade desta paixão contagiante: “Futebol, alegria do povo”. Faça com que essa magnífica energia abrace a vida e seja sempre para a construção do bem, da paz e da concórdia.
Enfim, Senhor, permaneça na justiça e na fé com os que, de coração puro, invocam o seu santo nome. Assim seja!”


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Diamantina feminina e musical

Cesar Vanucci*

"Onde há música, não há coisa má.”
(Cervantes, autor de “Dom Quixote”)

Voltei a Diamantina. Onde nasceu JK. Cidade danada de charmosa. Como poucas, bem poucas, existirão espalhadas pelos numerosos rincões deste mundo do bom Deus.

Se as cidades, como acontece com as pessoas, fossem classificadas pelo sexo, masculino ou feminino, eu diria que Diamantina é mulher. Uma mulher linda. Cheia de encantos mil. Daquele tipo reverenciado no Livro dos Cantares, escrito no século VI a.C: “Mulher bela é uma graça; espanta melancolia, consola mágoas de amor.”

E os sortilégios emanados dos dotes naturais dessa cidade-mulher chamada Diamantina! Vou te contar: nenhum mortal consegue deles escapulir. O sujeito nem bem chega, nem bem desfaz as malas e já está inapelavelmente seduzido pela magia do lugar.

Até onde o olhar alcança e, além mesmo, até lá onde a sensibilidade dê conta de chegar, tudo recende, deleitosamente, a cultura. Cultura viva, pulsante, dinâmica. Desatrelada de formalismos. Cultura ancorada em valores humanos essenciais. O ar que se respira está impregnado de emoções universais e, também, de muita brasilidade e mineiridade.

Diamantina submete os visitantes a um prazeroso bombardeio sensorial. A começar pela paisagem arquitetônica. Calçadões, passeios e degraus respingando história. Casarões lindíssimos, enfeitados, coloridos, guarnecidos de ornamentos barrocos. Engenhosas eiras, beiras e tribeiras, deixando à mostra o poder eterno da ostentação no comportamento humano. Nas Igrejas adornadas de arte, guias solícitos embalam a imaginação do visitante com uma multiplicidade de deliciosas versões para cada detalhe mais instigante da construção ou da decoração. Nas paredes, arcos, altares e colunatas, além do barroco, o esfuziante estilo rococó.

A visita à casa em que JK morou provoca um turbilhão de emoções. Ninguém passa ileso pela prova. No mínimo, uma lagrimazinha furtiva acaba rolando pela face.

Diamantina é feminina e é musical. Dizem que toda família diamantinense que se preze tem pelo menos um músico. Vem daí a profusão de bandas, orquestras e corais que trazem para as ruas e templos a sua arte generosa e encantadora. A música realiza, em Diamantina, mais do que em qualquer outro lugar que conheça, verdadeiros prodígios em matéria de aglutinar platéias imensas, seletas e democráticas. A praça – que é do povo como o céu é do condor, como fazia questão de dizer o grande Castro Alves – é tomada por multidão eletrizada, alegre, descontraída, que emite, pela linguagem do congraçamento, sinais de harmoniosa integração social e racial. Gente de todas as camadas se acotovela no imenso teatro improvisado para aplaudir as vesperatas, um espetáculo sem similar no mundo inteiro. Mais de uma centena de músicos talentosos, crianças, jovens e adultos, ocupam as janelas dos andares superiores dos casarões que rodeiam a praça, transformando-as em majestoso palco circular. Atentos à batuta do maestro, posicionado, lá embaixo, próximo da multidão, eles produzem recital primoroso, único, incomparável, interpretando um repertório erudito e popular de excepcional bom gosto.

O ambiente, ao contrário do que se percebe em outros tipos de aglomeração popular, é jovial, conciliatório, envolvente e repousante. A ponto de justificar o dito famoso de Cervantes, quando sublinha, em “Dom Quixote”, que “onde há música, não pode haver coisa má.”

Você já foi a Diamantina? Não? Então, vá!


Ato de contrição positivo

“As Organizações Globo reconhecem que, 
à luz da História, esse apoio foi um erro.”
(Editorial de “O Globo”, sobre o regime militar instituído em 64)

Em recente pronunciamento, de grande repercussão, as Organizações Globo concluíram que, à luz da História, o apoio editorial dado ao golpe militar de 1964 foi um erro crasso.

Artigo estampado em “O Globo”, reproduzido na televisão e emissoras de rádio do grupo, registrou, entre outras coisas, o seguinte: “Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura.” De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura. Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro (...): Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda das manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário. Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas. De nossa parte, é o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos (...)”

O artigo se estende em informações a respeito da conjuntura política vigorante no Brasil à época das decisões editoriais equivocadas que o poderoso complexo midiatico admite haver assumido. Reporta-se a situações em que, “mesmo sem retirar apoio aos militares”, as organizações Globo “sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática.” É dito, também, no editorial, que “contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais” e que “a História não é apenas uma descrição de fatos (...)” e, sim, “o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhecê-los.” Na conclusão, é sublinhado que “a democracia é um valor absoluto e, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

O pronunciamento das Organizações Globo produziu muitas reações. A maioria delas favoráveis. As desfavoráveis partiram de setores sob o ponto de vista ideológico consideravelmente distanciados uns dos outros. Alguns militares da reserva não pouparam críticas veementes ao posicionamento anunciado. A contundência nas palavras foi também empregada por pessoas que estiveram do lado oposto, combatendo o regime militar. Para esses a confissão de culpa trazida a lume chegou tardiamente, depois de um pesado fardo de sofrimento e injustiças imposto à Nação.

Mas, as avaliações reconhecendo que O Globo deu passo importante num acerto de contas com a História foram bastante significativas. Para o Ministro José Eduardo Cardoso, o que aconteceu foi “algo digno de aplauso.” “Foi uma postura madura e admirável, ao tocar numa questão importante sobre a trajetória do jornal e do país”, acrescentou. Por sua vez, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo, classificou de corajosa a atitude tomada, assinalando que ela deveria ser seguida por outros veículos de comunicação de expressão nacional que tiveram no passado posição idêntica à das Organizações Globo. Dirigentes políticos do PMDB (deputado Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara), do PSDB (senador Aloysio Nunes, líder da bancada), do PT (senador Wellington Dias, líder da bancada) também enalteceram o gesto do Globo. O deputado Chico Alencar, do PSOL, comentou, a seu turno, que a confissão feita deveria inspirar a classe política a mudar radicalmente de postura, em resposta ao clamor popular das manifestações de rua ocorridas em junho.

O ato de contrição das “Organizações Globo” é positivo do ponto de vista da cidadania. Revela o elevado grau de amadurecimento da pujante e abençoada democracia que rege, na atualidade, em consonância com os sentimentos cívicos da Nação, os destinos brasileiros.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013


Arapongagem universal

Cesar Vanucci*

"O humanismo é a nossa razão de viver.”
(Otto Maria Carpeaux)

Há 12 anos, neste mesmo espaço do DC, divulguei uma sequência de artigos focalizando a ameaça representada para o mundo do “Projeto Echelon”, implantado pelos órgãos de segurança dos Estados Unidos.

Considerada a extrema atualidade do tema, peço licença aos benevolentes leitores para reproduzir na íntegra, a partir de hoje, os conceitos então expendidos. A titulação e a frase que encimam o comentário são as mesmas do artigo inaugural da série, publicado em 24 de maio de 2001.

Muitos se recusam a acreditar. Tudo não passaria de papo furado. História fantasiosa. Já houve até quem rotulasse o projeto de “conto da carochinha”.

Mas, a verdade verdadeira é que o Echelon existe. E, sob todos aspectos, mete medo. Dispõe de condições para materializar as sombrias previsões (não seriam predições?) de George Orwells. O criativo escritor, no instigante “1984”, descreve o clima asfixiante de uma sociedade futurista, onde as pessoas são alvo de feroz monitoramento. A narrativa é uma versão ficcional do Echelon. O livro fala de formidando complexo eletrônico de coleta de informações, que não poupa nem mesmo a intimidade dos lares, e que garante ao “Grande Irmão” o controle absoluto de tudo. Até das vidas. O cinema aproveitou o tema em filme estrelado por Richard Burton, ator inglês falecido, que foi casado com Elizabeth Taylor.

Tem-se, pois, que o Echelon não é ficção. Fruto de notáveis avanços tecnológicos, com as operações centralizadas nos Estados Unidos, numa agência de informações qualificada, a NSA, o Sistema opera a partir de satélites aperfeiçoadíssimos. Além dos EUA, que desfrutam sobre os parceiros de privilégios na utilização do material coletado, fazem parte do projeto países como a Inglaterra, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. O esquema tem acesso a todo som e imagem produzidos em qualquer parte e que estejam conectados às redes de alcance mundial, telefonia e Internet incluídas. O Echelon trabalha no atacado com base em palavras-chave, não importando os idiomas. As palavras podem traduzir, teoricamente, intenções e procedimentos capazes de afetar os interesses dos países usuários. O acompanhamento à distância desse incalculável volume de dados, postos a circular bilhões de vezes diariamente, poderá representar em alguns momentos preciosa ajuda na identificação de situações que constituam ameaças à coletividade. Como no caso, por exemplo, de eventuais ações terroristas. Mas, como diz o ditado, madeira que dá em Chico, dá também em Francisco. O processo pode se aprestar, assim, a outras conveniências desprovidas de nobreza. Enquadradas no “vale-tudo” do jogo geo-político-econômico das grandes potências, em seu obsedante empenho por supremacia hegemônica.
Vai daí que armações seguramente serão articuladas pelos Estados poderosos, valendo-se das vulnerabilidades alheias, em áreas de movimentação financeira e setores onde são definidas estratégias políticas dos demais países, alcançando até mesmo lideranças regionais “suspeitosas” aos olhos “vigilantes” dos “donos” do Echelon. Ou, nesta versão moderna da vida imitando a arte, aos olhos do “Grande Irmão”.


Voltando ao Echelon

A realidade é mais assustadora do que se poderia supor.”
(Aldo Novak, jornalista)

Nosso papo de hoje reproduz na íntegra o segundo artigo que escrevi em maio de 2001, há mais de doze anos portanto, sobre os riscos que o “Projeto Echelon”, de arapongagem eletrônica, representa para a humanidade. Título e frase prefacial são os mesmos.

Os riscos que a Humanidade corre com o Echelon, sistema de arapongagem eletrônica mundial, vêm sendo avaliados, em acesos debates e em denúncias incandescentes, no Parlamento europeu, no próprio Congresso estadunidense e na imprensa internacional. No Brasil, o tema já trouxe inquietação a diferentes segmentos sociais e profissionais, com repercussão nos meios parlamentares e de comunicação.

O conceituado jornalista Aldo Novak revelou, recentemente, num palpitante trabalho, que por meio do Echelon, a Agência de Segurança Nacional (NSA) pode acessar todas as transmissões de televisão, emissões de rádio, inclusive portáteis e de curta distância, e informações veiculadas através de faxes e correio eletrônico.

Dois episódios, do recente noticiário, ilustram os perigos que o Sistema carrega. O Vaticano denunciou o que foi classificado por um porta-voz de violação da intimidade do Papa João Paulo II. Todos os indícios de inominável devassamento dos domínios domésticos pontifícios apontaram na direção do “Projeto Echelon”.

Num outro incidente, pacata família estadunidense teve a casa subitamente invadida por tropas de choque, à cata de terroristas e de bombas de alto poder destrutivo. Desfeito o mal-entendido, apurou-se que tudo brotara de inocente conversa telefônica, em que a palavra-chave “bomba” fôra utilizada mais de uma vez. Decodificada pela parafernália eletrônica, a conversa de duas comadres soou, aos ouvidos de zelosos agentes, especializados no combate a práticas terroristas, como tenebrosa conspiração. Acionar a SWAT foi a emergência recomendada, meu santo Euzébio!

O “Grande Irmão”, meus amigos, está aí, firme nos arreios, como se diz na saborosa linguagem roceira. Prontinho da silva para levar a cabo sua “sacrossanta missão”.

Governantes, humanistas, a sociedade, todos temos que nos pôr, também, atentos aos desdobramentos desse desconcertante esquema de espionagem. Dele podem nascer conseqüências inimagináveis em matéria de “arapongagem” eletrônica.

O Echelon está a exigir a criação de regras jurídicas poderosas, que coloquem ao abrigo de sinistras maquinações a dignidade do ser humano. Sem o que, estaremos todos contribuindo para que conquistas milenares, de conteúdo humanístico e espiritual, sejam arrastadas de roldão nas correntezas do obscurantismo e da insensatez, estimulados por uma ciência e por uma tecnologia que vêm sendo, volta e meia, flagradas em descompasso com os valores éticos.


Ogivas, antraz e Echelon

 “Se a preocupação na Europa é com a espionagem industrial,
 a dos americanos é com a intromissão na vida das pessoas”.
(Argemiro Ferreira, jornalista )

Em 25 de março de 2000, treze anos passados, sob o título “Ogivas, antraz e Echelon”, escrevi um artigo focalizando temas palpitantes da realidade internacional, com realce para o tenebroso esquema representado pelo “Projeto Echelon”, operação de bisbilhotice eletrônica montado pelas agências de segurança dos Estados Unidos.

Considero oportuno reproduzí-lo, nesta hora em que a espionagem eletrônica praticada em alta escala pela Casa Branca frequenta destacadamente as manchetes.

No Oriente Médio, aquela desavença milenar, quase insanável, envolvendo os primos - irmãos judeus e árabes. Menos insanável agora do que antes, quando o cargo de primeiro - ministro de Israel era ocupado pelo ultra radical e nada simpático Benjamin Netanyahu. (Abra-se parêntese para lembrar que este artigo foi publicado no ano 2000 e que Benjamin Netanyahu ocupa, hoje, novamente, o cargo de primeiro Ministro de Israel)

Em boa parte da já tão flagelada África e no Haiti, a falta d’água inclemente soa como um SOS dramático. Em outros lugares deste planeta azul, inclusive na Europa, que tanto se jacta de sua supremacia cultural, continuam acontecendo as guerras tribais de sempre. E estão, também, aí, o racismo, a intolerância religiosa e o neo-nazismo redivivo, com sua catadura feroz; a fome e as condições de vida sub humanas de multidões colossais de irmãos nossos, excluídos dos benefícios sociais desta era paradoxal, de crescente esplendor tecnológico. A registrar, ainda, as agressões ao meio ambiente e aos direitos fundamentais da criatura humana; a corrida armamentista que exaure recursos que poderiam ser melhor aproveitados na solução de problemas cruciais do momento. Lembremo-nos, em seguida, das guerras regionalizadas, laboratórios para instrumentos de destruição cada vez mais requintados; do neo-colonialismo embutido nas propostas do neoliberalismo com sua globalização fajuta, uma contrafação à autêntica universalização dos interesses, sentimentos e direitos das aspirações humanas.

Tudo isso e muitas coisas mais, de registro perturbador na crônica contemporânea, já seriam mais do que suficientes para manter a humanidade inteira desconfortavelmente ansiosa. Mas existe, ainda, um punhado de situações, iguais ou mais alarmantes, conservadas deliberada e estranhavelmente distantes do conhecimento público.

Uma delas diz respeito ao destino ignorado (e amedrontador) que se deu, após o desmantelamento do tirânico império, a parte do arsenal nuclear dos tzares bolchevistas. Onde foram parar as 84 ogivas nucleares, capazes de produzirem vários Armagedons, subtraídas dos estoques? O responsável pela revelação acerca do sumiço das bombas, foi o ex-ministro da Defesa da Rússia. As ogivas estão hoje em poder de quem? Será que de países dominados por extremistas, nalgumas dessas áreas conflituosas nevrálgicas do mapa? Não serão os atuais guardiães dos artefatos terroristas a serviço do ódio religioso ou racial?

Outra situação insatisfatoriamente divulgada está ligada a insuspeitados e inimagináveis recursos bélicos bolados com vistas a uma eventual guerra bacteriológica. Influentes cientistas manifestaram temor quanto a que possa cair em mãos erradas (excluída por eles a hipótese de que já esteja) um produto químico chamado Antraz. Para se ter idéia do poder mortífero do produto basta este aterrador prognóstico. Um frasco de 300 miligramas de Antraz lançado na atmosfera de uma cidade do porte de Nova Iorque dizima toda a população em duas semanas. Olha aí a realidade suplantando a ficção do mais imaginativo filme de terror!

Um outro petardo devastador desferido contra a sociedade indefesa, recordando a figura simbólica e assustadora do “Grande Irmão”, extraída da fecunda criação literária de George Orwells, ficou conhecido pela denominação de Echelon. Poucos sabem do que se trata. Manipulada pela NSA, uma organização secretíssima, dotada de poderes superiores aos da CIA, é a denominação dada a uma rede global de satélites e computadores estruturada para espionar tudo, em todos os rincões. Conforme denunciou o programa “60 minutos”, da CBS, a Echelon dispõe de sofisticadíssimo complexo de satélites em condições de fotografar, de grandes altitudes, com incrível nível de definição, cenas que ocorrem na superfície de qualquer recanto do globo. Está preparada para captar, também, mediante processos eletrônicos avançadíssimos, informações de qualquer esquema, o mais protegido, de processamento de dados por computador. Intromete-se, abertamente, na vida de qualquer cidadão. Um diálogo sigiloso de João Paulo II e Madre Tereza de Calcutá foi reproduzido pelo aterrorizante meio. A casa de uma pacata família americana foi invadida por agentes policiais, com base numa informação, mal assimilada, de que o garoto, filho do casal, levara à escola bombinhas juninas. O buscapé virou, na decodificação de inofensiva mensagem, bomba de alto poder explosivo.

É assim, de sobressalto em sobressalto, produzidos pela insensatez e insanidade, que se vai montando a história destes tempos complicados. O jeito que tem, para os simples e de bom senso, é atentar para o aconselhamento evangélico: vigiar e orar. Sobretudo orar.

sábado, 12 de outubro de 2013

CONVITE SEMANA MUNDIAL DO SERVIÇO LEONÍSTICO



Comportamento editorial desconcertante

Cesar Vanucci *

“A série de reportagens sobre “O escândalo do Metrô” desnudou
o esquema arquitetado por multinacionais que se organizaram em cartel para fraudar seguidas concorrências em São Paulo durante quase 20 anos de governos do PSDB.”
(Jornalistas Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Sérgio Pardellas, da “IstoÉ”)

O comportamento editorial de inúmeros veículos da grande mídia brasileira vem se mostrando, pra dizer o mínimo, desconcertante. Artigos de fundo e colunas de opinião demonstram, sistematicamente, uma inclinação oposicionista de fazer inveja aos próprios grupos políticos que, ancorados na saudável divergência proporcionada pelo regime democrático vigente, não rezem pela cartilha governamental.

Os enfoques atingem às vezes as raias do passionalismo. Caso, para ficar num exemplo bem atual, do tratamento dispensado nos comentários e noticiário de certos órgãos ao programa “Mais Médicos”. As redes sociais vêm chamando a atenção do público para as incríveis contradições detectadas no processo de divulgação adotado pelas publicações quanto às contratações dos médicos cubanos para assistir populações desassistidas nas periferias dos grandes centros e municípios à mingua de cobertura médica. A diferença de critérios é espantosa. Antes, no governo de Fernando Henrique Cardoso, esse tipo de contratação era apontado como “salvação da lavoura”, melhor dizendo “salvação da saúde”. Já agora, no governo de Dilma Rousseff, o que se lê e se ouve nos mesmissimos órgãos de comunicação é de que se trata de medida absurda, inconsequente, irresponsável. E por ai vai.

E aqui vem outro exemplo frisante dessa postura editorial singular. A Justiça Federal proferiu, dias atrás, decisão condenatória envolvendo um dos réus do chamado “mensalão mineiro”, considerado o embrião do badaladissimo “mensalão federal”. O noticiário em boa parte da imprensa, rádio e televisão a respeito da sentença aplicada ao primeiro dos 24 denunciados no esquema das Alterosas nem de leve lembrou a cobertura, repleta de manchetes e chamadas retumbantes, concernente às condenações do Supremo atribuídas aos réus do outro “mensalão”. Estamos diante, evidentemente, de situação danada de intrigante. Mesmo que não se queira avançar fundo no mérito das duas situações, não pode passar desapercebida a ninguém que uma e outra ação fraudulenta foram concebidas dentro de um mesmíssimo abominável figurino. O operador de ambas é o mesmo. O que muda, numa e noutra maracutaia, são os atores, os beneficiários das tramóias financeiras, figuras pertencentes a grupos ou siglas políticas distintos. Uai! Que diabo de coisa é essa? Alguém aí está apto a explicar esse tratamento tão diferenciado dispensado a casos rigorosamente idênticos, merecedores, todos eles, da repulsa social?

Tem mais a ser dito a respeito. Reportemos-nos ao chamado propinoduto tucano, que teve origem na área da energia e, depois, se estendeu ao transporte público, desviando dos cofres públicos paulistas, ao longo de várias administrações, algo em torno de 425 milhões de reais. Estamos ai diante de outra situação de suprema gravidade, solenemente ignorada no noticiário de alguns dos principais órgãos de comunicação social.

O “escândalo do metrô”, como também ficou conhecido, tem sido focalizado, com minúcias atordoantes, pela revista “IstoÉ”, numa série de reportagens de capa. As investigações, originárias de denúncias feitas por executivos de uma multinacional enredada na tramóia fraudulenta, apontam todos os nomes dos personagens comprometidos com um esquema que supera no montante dos valores subtraídos e em ousadia quanto às circunstâncias das operações executadas, por incrível que pareça, os próprios mensalões. Ao contrário do que geralmente acontece em denúncias dessas proporções a quase totalidade dos órgãos da grande mídia não tem reservado, suspeitosamente, espaço algum no noticiário à divulgação dos estarrecedores fatos trazidos a lume.

Esse comportamento editorial estranho dá muito o que pensar.


Petrobras sessentona

"Tê-lo (petróleo) é ter o Sésamo abridor
e todas as portas. Não tê-lo é ser escravo”
(Monteiro Lobato, em “O escândalo do Petróleo”)

Os tempos – sabe seu moço – eram outros. Mais pacatos, sem as trepidações rotineiras da atualidade. Mesmo assim, corria solta no ar uma que outra neurose com forte efeito contaminador. Por causa da ditadura. A do Estado Novo. Na lembrança de infância revejo a palavra petróleo como um vocábulo maldito, obsceno. Impronunciável em ambiente frequentado por pessoas de respeito. “ Petróleo?... Hum! Coisa de comunista...” A polícia mantinha sob amedrontadora mira, rotulando-o de suspeito, qualquer cidadão um tantinho ousado que se aventurasse a empregar, na escrita ou na fala, o palavrão colocado no “index”.

Segundo a imperturbável avaliação das autoridades competentes, nosso solo e nosso subsolo serviam pra muitas coisas (“Em se plantando, tudo dá...”). Mas não se aprestavam, ponto final, para outras muitas coisas, ligadas coincidentemente à exploração de materiais econômica e politicamente estratégicos. Petróleo, por exemplo. Por um desses inextricáveis caprichos da Mãe Natureza, o chamado “ouro negro” só costumava brotar, naqueles tempos, nos territórios vizinhos. Recusava-se terminantemente a transpor a fronteira. Geólogos afamados, estrangeiros na quase totalidade, chegaram a instituir uma espécie tortuosa de linha de Tordesilhas. Até ali, existe petróleo. Do lado de cá, não existe. O governo levava muito a sério os “abalizadissimos” pareceres técnicos e construiu, em cima deles, assustador “dogma de fé”. Com “caça às bruxas”,“fogueiras de expiação”, por ai. Tudo como manda o santo figurino inquisitorial. As poucas vozes que se atreviam a discordar eram silenciadas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o famigerado DIP. Quando não punidas exemplarmente pela vigilante polícia política, comandada com mãos de ferro por Felinto Muller. Este aí, personagem do livro “Falta alguém em Nuremberg”, do grande repórter David Nasser. Com seu verbo incandescente, Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, conhecido da maior parte dos viventes apenas pela esplêndida criação literária infanto-juvenil, incomodou coisa que preste os detentores do poder por causa dessa impostura. Seus familiares deixavam sempre arrumada uma mala, com pertences pessoais, ao lado de sua cama, dada a frequência com que o convocavam a dar uma chegadinha ao distrito.

A redemocratização, depois do período trevoso da ditadura estadonovista, desfez a farsa. Nascida de possante sopro nacionalista, atacada virulentamente aqui dentro e lá fora, a Petrobras foi, nesse meio tempo, implantada. Surgiu como um clarão redentor na nebulosa paisagem em que se travava a ingente luta pela afirmação brasileira como potência industrial.

O tom da conversa mudou. “Desculpa o equívoco, o Brasil tem, sim, muito petróleo, mas pena não dispor de capacitação técnica para poder explorá-lo.” O tempo, senhor da verdade, se encarregou de mostrar que não era bem assim. Também essa alegação revelou-se tremendamente fajuta. A Petrobras em pouco tempo impôs, no conceito universal, a avançada tecnologia tupiniquim. Voltou-se, mais adiante, para as jazidas submarinas, criando tecnologia aperfeiçoadissima, no gênero incomparável em todo o mundo. Alcançou a sonhada autossuficiência. Tornou-se detentora da alvissareira informação de que nas bacias sedimentares da parte continental há petróleo em abundância. Aguardando o momento da plena exploração, o chamado “pré-sal” dispõe de petróleo pra dar e vender. Reserva para tempos de amanhã. Riqueza cobiçada, não é de hoje, pelo olho gordo alienígena. Que o digam as operações clandestinas da arapongagem eletrônica!

Todas essas recordações e constatações emergem impetuosamente nesta hora em que a Petrobras comemora, gloriosamente, seus 60 anos de fecunda existência. A empresa, não poucas vezes, viu-se colocada diante dos holofotes incômodos do descrédito público, apesar de reconhecida como a maior organização empresarial da América Latina, e, também, uma das maiores do mundo.

Alguns anos atrás, houve até aquela tentativa ridícula de mudança do nome, com o solerte objetivo de descaracterizá-la como marca referencial legitimamente brasileira.
De outra parte, a cantilena dos adversários de sempre, com os surrados argumentos de sempre, clamando por impatriótica privatização, persiste. É só por tento no que é dito em alguns artigos amiúde lançados em jornais de grande circulação.

Isso tudo recomenda alerta permanente e atenção redobrada de todos brasileiros com relação aos rumos de nossa sessentona estatal.

Não se queira jamais perder de vista o alerta atualíssimo de Monteiro Lobato: “O petróleo é o sangue da terra, a alma da indústria, a eficiência do poder militar. É a soberania. Tê-lo é ter o sésamo abridor de todas as portas. Não tê-lo é ser escravo.”


sexta-feira, 4 de outubro de 2013



Sintonia com a mensagem evangélica

Cesar Vanucci

“Não sendo um dogma, pode ser discutido livremente.”
(Pietro Paralin, Secretário de Estado do Vaticano, sobre o celibato sacerdotal)

Os setores religiosos ultra conservadores, aglutinando um bocado de indivíduos que se crêem mais católicos que o Papa, já não mais se esforçam por esconder o tremendo desconforto que lhes andam causando as falas e gestos de Francisco.

Em sua esclerótica interpretação da aventura humana, esses setores costumam identificar nas mensagens e posturas pontifícias graves riscos doutrinários. Riscos – acreditam - capazes de subverter a ordem religiosa constituída. Por ordem religiosa constituída entenda-se, na linha do rançoso entendimento integrista, um catálogo inesgotável de vetos à celebração da vida. Um compêndio de preceitos medievais inspirados na intolerância, revelador da incapacidade dos que os adotam de participarem da construção humana pelo diálogo respeitoso e partilhamento de ações e idéias com grupos que rezem por cartilhas diferentes das suas.

Assim sendo, soa-lhes sacrílega, por exemplo, a decisão de Francisco em acolher carinhosamente uma mulher islamita num ritual habitualmente reservado a fiéis católicos. Escandalizam-se com a determinação de Francisco em deslocar-se até um porto marítimo que ancora embarcações de africanos escorraçados pelas guerras tribais, para levar-lhes uma palavra de alento e fazer explicita condenação aos sistemas de espoliação de que esses refugiados se tornaram indefesas vítimas.

Arrepiam-se pra valer quando o Papa, respondendo a uma consulta de um renomado intelectual italiano ateísta (Eugenio Scalfari), revela de forma lapidar, em tom fraternal, que os cidadãos devem seguir os impulsos generosos da própria consciência quando não professam uma crença. Rangeram, por certo, os dentes ao ouvirem a recomendação papal no sentido de que os fiéis ponham fim ao clima de obsessão reinante à volta das discussões sobre aborto, união estável entre pessoas do mesmo sexo e outros temas candentes.

Sentiram-se, também, com certeza, abalados com a declaração de Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano recém-nomeado, relativa ao celibato dos padres. Não sendo um dogma, pode ser discutido amplamente, foi o que ele disse, abrindo a perspectiva de uma mudança de rumos capaz de trazer de volta aos púlpitos enorme contingente de cidadãos vocacionados para o ministério sacerdotal.

Esses setores religiosos fundamentalistas refratários a idéias remoçantes receberam também com desagrado a utilização por Francisco da cátedra universal pontifícia para criticar com veemência a ordem econômica e social injusta imposta às multidões deste planeta azul. Bem como para condenar as guerras que pipocam por diversos continentes e são, por vezes, apresentadas enganosamente como confrontos entre as forças do bem e do mal, quando não passam, segundo a mensagem atualizada de Roma, de mero e repugnante negócio para venda de armas e sustentação de esquemas iníquos de opressão.

Em toda essa história, o que mais importa, todavia, é saber que a atuação de Francisco está em sintonia com a mensagem evangélica que vem do começo e do fundo dos tempos e que isso ajuda a manter acesa a esperança humana num mundo melhor.


Obama afogou-se nas contradições

“Não podemos aceitar esse tipo
de comportamento entre parceiros e aliados.”
(François Hollande, presidente da França,
criticando a política de espionagem dos EUA)

Por tudo quanto é canto deste mundo conturbado pessoas de todas as etnias e crenças se perguntam, em clima de compreensível estupefação, o que aconteceu com Barack Obama. Quais as razões dessa chocante guinada de 180 graus dada por um cara que ascendeu aos cumes do poder em jornada cívica empolgante, enfrentando percalços de toda ordem. E que, arrostando virulentas incompreensões, nascidas da intolerância mais descabida, e justamente por isso, andou acumulando credibilidade e simpatia como nenhum outro estadista mundial em tempos recentes.

Que diabo de coisa é essa que provoca num homem vocacionado para a liderança repentina mudança de atitudes de tamanha proporção? Que ínvios caminhos foram esses no percurso percorrido que levaram personagem tão fascinante, um cidadão amável, de porte altivo e desassombrado, verbo chamejante, preciso nas conceituações alusivas a um processo de construção humana bem estruturado, defensor impreterito dos direitos civis, a abdicar de suas alardeadas convicções humanísticas? A botar clamorosamente pra escanteio a chance de assumir, ao lado dos patrícios Roosevelt e Luther King e de cidadãos do mundo como Gandhi e Mandella, um lugar de proeminência na história contemporânea?

Quando da chegada à Casa Branca, Obama soube como ninguém reacender a chama da esperança por um mundo melhor em bilhões de corações generosos. Por onde circulou, nos numerosos locais visitados, arrancou aclamações entusiásticas de verdadeiras multidões.

Mas, pouco a pouco, esse clima de contaminante euforia à volta do líder providencial, foi sendo desfeito, em razão dos atos praticados contradizerem contundentemente a retórica retumbante. Obama enveredou por um cipoal de contradições e vacilos. Desmentiu-se um bocado de vezes. Pisou na bola. Afogou-se em contradições.

Candidato a Presidente, garantiu repetidamente, debaixo de ovações populares, que iria por fim ao terrorismo das escutas telefônicas executado pelo seu belicoso antecessor, o xerife George Bush. Não cumpriu nada do que prometeu. A arapongagem eletrônica estadunidense foi ampliada a níveis que se fizeram a cada dia mais intoleráveis. Que o digam o Brasil e os brasileiros.

Assegurou que conteria os impulsos belicistas dos falcões que enxameiam os corredores do Pentágono. O que se viu, pelo contrário, foi uma extensão mortífera das intervenções por parte das poderosas forças armadas estadunidenses. Sempre em aberto desafio aos sentimentos da opinião pública e às recomendações expressas da comunidade das nações.

Asseverou, seguidamente, que riscaria do mapa o campo de concentração de Guantânamo, restabelecendo a ordem jurídica na apreciação dos casos dos detentos recolhidos ali e em penitenciárias clandestinas implantadas nalguns países do leste europeu. Paises esses que não escondem mórbido saudosismo dos tenebrosos tempos da KGB e órgãos de repressão assemelhados disseminados pelo extinto império bolchevista. Tudo, nessa questão tormentosa, não passou também de retórica oca.

Ganhou antecipadamente, tal a expectativa formada à volta das credenciais exibidas, um – vê-se agora com cristalina clareza – imerecido Nobel da Paz. Num dos lastimáveis vacilos cometidos, estimulou Lula e o primeiro ministro turco Tyyiq Erdogan a promoverem entendimentos com o regime dos aiatolás raivosos do Irã, numa tentativa de apaziguamento dos ânimos com relação ao controverso programa desenvolvido pelo país no melindroso campo da energia nuclear. As gestões foram concluídas com razoável sucesso. Mas Obama deixou os dois prestimosos aliados desguarnecidos, a falarem sozinhos em meio à tormenta.

Espalhou rastro inapagavel de decepções em tudo quanto é lugar, chocando aliados e seguidores. O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, traduziu isso em incisivo comentário: “É chocante que os Estados Unidos atuem contra os seus aliados mais próximos de forma comparável as medidas tomadas no passado pela KGB, da União Soviética.”

Obama vem demonstrando também inabilidade perturbadora na condução do processo de paz no conflagrado Oriente Médio. Dá mostras continuas de antepor-se ao projeto, irresponsavelmente protelado há décadas, de constituição da pátria palestina. A um só tempo em que, da boca pra fora, derrama-se em louvores às políticas de fortalecimento da democracia e de difusão dos direitos fundamentais, confere apoio irrestrito a ditaduras feudais no convulsionado mundo árabe.

Todo esse amontoado de insanáveis contradições acabou – fica evidente – por derrubá-lo do pedestal em que foi colocado, por largo espaço de tempo, no conceito da opinião pública mundial. Que pena!

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...