sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O poetaço Vinicius

Cesar Vanucci *

“O material do poeta é a vida.”
(Vinicius de Moraes)

Temo, sinceramente, que a expressão poetinha, aplicada carinhosamente a Vinicius de Moraes por legiões de fãs brasis afora, seja também empregada desembaraçadamente em certos redutos acadêmicos obsessivamente focados em cânones literários herméticos, como tentativa de restringir a extraordinária importância da obra artística desse poetaço. Uma obra que assegura ao personagem mencionado o sagrado direito de figurar com realce na lista dos maiores poetas da língua.

Na minha desajeitada percepção revelam-se indisfarçáveis os sinais de que setores intelectuais com algum grau de influência na vida literária encontram dificuldades em reconhecer o papel exponencial de Vinicius no amplo espectro de nossa cena cultural. Não deixam, é certo, de festejá-lo pelos notáveis méritos acumulados como inspirado compositor e autor de versos encantadores lançados em inesquecíveis canções. Nem de aplaudi-lo, com entusiasmo, pela demonstração pujante de seu talento no território da música popular brasileira. Mas reservam, falar verdade, tempo de menos para celebrar o fascínio impactante de sua fala poética. De sua fala romântica. De sua fala social. Uma espécie de conspiração de silêncio parece envolver o todo da invulgar criatividade desse artista da palavra. Um poeta, escritor, cronista que soube fazer-se intérprete de generosos sentimentos e anseios. Sentimentos que povoam a alma humana, nas manifestações de cunho romântico produzidas. Anseios sociais genuínos brotados das vivências comunitárias, registrados em suas vibrantes manifestações de teor social.

Homem de seu tempo, um contemporâneo do porvir, com percepção aguda das coisas de sua terra e de sua gente, poeta universal de todos os tempos, o saudoso Vinicius de Moraes, ora merecidamente homenageado em verso, prosa e música pelo transcurso do centenário de nascimento, foi em vida um dos intelectuais mais bem providos de dons desse país. Não há exagero em se aponta-lo como um gênio da raça. Um cultor das letras que se lembrou do futuro, como proposto num mimoso conceito de Jean Cocteau. Um poeta singular cujo olhar “girando em delírio, vai do céu para a terra, de terra para o céu e, no que a imaginação vai tomando corpo, usa da pena para cativar a essência das coisas, moldando-lhes a forma e dando a um nada construído no ar um nome e um ponto de referência”, como na descrição de Shakespeare em o “Sonho de uma noite de verão”.

Enfim, um poeta e tanto e compositor magnifico que entendeu que seu material de trabalho deveria ser sempre a vida, “com tudo que ela tem de sórdido e sublime”. Alguém compenetrado de que a missão abraçada em seu nobre ofício “é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo, informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação”, conforme as próprias palavras com que descreve sua participação no jogo da vida.

Vinicius de Moraes, na música, no verso, na crônica, foi simplesmente um poetaço.


Repúdio universal

“Os Estados Unidos já não têm
 mais aliados. Só alvos e vassalos!”
(Deputado francês Jean-Jacques Urvoas)

A credibilidade da Casa Branca, junto com a imagem de bom mocismo de Barack Obama, vem despencando ladeira abaixo de forma estrepitosa. A acumulação ruidosa de evidencias a respeito da xeretagem eletrônica mundial posta a funcionar a pleno vapor, com o solerte intuito de promover trapaças comerciais, políticas e financeiras, acendeu a luzinha vermelha indicativa da ultrapassagem inaceitável dos limites éticos e legais.

Dilma Rousseff foi a primeira a exprimir indignação diante dos estarrecedores fatos. Pediu na ONU, debaixo de aplausos, a implantação de um marco regulatório universal que seja capaz de deter o traiçoeiro processo de invasão da privacidade executado pelas agências estadunidenses de espionagem.

Depois disso, chegou a vez de Angela Merkel chiar. Em nome do governo alemão, a chanceler não poupou críticas ásperas aos “muy amigos” que, há anos, andam monitorando seus passos e os das autoridades e cidadãos de sua pátria. Considerou naturalmente afrontoso tal procedimento. Nota oficial do governo de Berlim, cobrando explicações de Obama, assinalou que “entre amigos próximos, como têm sido Alemanha e Estados Unidos por décadas, não deveria haver vigilância.”

O Presidente François Hollande, da França, também manifestou enorme irritação com a conduta dos “leais aliados” norte-americanos. Foi secundado no protesto pelo presidente da Comissão de Legislação da Assembleia Nacional francesa, Jean-Jacques Urvoas, que num comunicado, entre outras coisas, disse o seguinte: “Os Estados Unidos já não têm mais aliados. Só alvos e vassalos.” Pelas apurações feitas, a Agência de Segurança Nacional (NSA) grampeou nada mais nada menos do que 70 milhões e 300 mil ligações telefônicas e e-mails no território francês em apenas um mês, transmitidas pelas redes Wanadoo e Acatel.

Igualmente vítima das sherloqueanas trapalhadas, o governo espanhol engrossou o coro dos protestos, a um só tempo que a imprensa internacional revelava ter havido monitoramento constante das ações de Felipe Calderon, presidente mexicano, pelas “agências de segurança” de seu mais próximo vizinho. Das reações mexicanas com relação a esse caso específico de arapongagem pouco se conhece. Acontece que o México mantém uma relação muito peculiar com os Estados Unidos. Não dispomos de condições para saber se a situação absurda que nos propomos agora a relatar ainda persiste. Mas, até bem pouco tempo, os consulados mexicanos exigiam estranhavelmente de turistas estrangeiros que requeressem visto de entrada em seu belo país um compromisso formal no sentido de não virem a utilizar a liberação concedida para alcançar, posteriormente, o território estadunidense. Esses órgãos operavam, pelo que estava à vista, como repartições anexas ao serviço consular dos Estados Unidos, algo que, com presumível certeza, desgastava e constrangia os cidadãos mexicanos. Não fica fora de propósito imaginar que de sabujices do gênero é que tenha nascido aquele intrigante desabafo do líder mexicano Porfirio Dias registrado pela história: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”

As flamejantes denúncias vindas a furo sobre a espionagem norte-americana envolvendo 35 (ou mais) chefes de Estado dão conta ainda da existência de relatórios em que as agências estadunidenses classificam, cinicamente, a internet de “instrumento valioso de trabalho” por permitir ao governo do país “conduzir negociações bem sucedidas em assuntos políticos e planejar investimentos internacionais”. É o caso de dizer: Valha-nos Deus, Nossa Senhora!

Enquanto os aliados dos Estados Unidos do lado de cá expressam inconformismo com relação às escutas clandestinas, aliados do lado de lá, do Oriente, lamentam um outro tipo de ação executada pela Casa Branca que tem dado causa a mortes violentas no seio da população civil. Na caça a combatentes terroristas, os chamados “drones”, veículos aéreos não tripulados, vêm despejando misseis mortíferos em áreas habitadas por civis inocentes que nada têm a ver com os inimigos apontados como alvos. Isso vem suscitando onda de revolta contra a política estadunidense nas regiões atingidas pela vigilância aérea.


Todos esses fatos explicam as articulações que diversos países fazem no momento no sentido de controlar um pouco os ímpetos norte-americanos. Como no caso das interceptações telefônicas, que levaram à proposta apresentada pelo Brasil, já agora endossada pela Alemanha e outros membros da ONU, em favor da criação de um marco regulatório internacional para a internet. Órgãos internacionais apelaram ao Brasil para que organize um encontro mundial sobre governança na internet com o objetivo de estabelecer regras de controle sobre a rede, de modo a impedir sejam desvirtuados seus objetivos originais em favor da construção do bem-estar humano.

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