sexta-feira, 14 de maio de 2021

 

Célia eletrizou a plateia

 

Cesar Vanucci

 

“Morrer é só não ser visto”.

(Fernando Pessoa)

 

Acabei a releitura, de uma sentada só, de livro muito interessante em que são relatadas as incríveis experiências do paranormal estadunidense James van Praagh. Este cidadão tem o dom de estabelecer, com pessoas da plateia, em programas de televisão, de grande aceitação popular, insólitos diálogos. Os atendimentos individuais em seu consultório são também marcados pela singularidade. Ele costuma liberar informações desconcertantes, atribuídas a entes queridos não mais pertencentes ao mundo dos vivos. As revelações, na maior parte das vezes, provocam forte impacto. A ideia de um contato desse gênero, que possa envolver forças ou energias do além, marca de modo bastante vigoroso os telespectadores.

Tive ensejo, antes mesmo de ler o livro, de presenciar programas de van Praagh em que – chamemo-las assim -, suas percepções extrasensoriais afloram de forma impetuosa e convincente.  Dá pra compreender perfeitamente a razão pela qual o seu trabalho desfruta de credibilidade entre estudiosos de parapsicologia.

O que James van Praagh realiza na televisão causa forte impressão, já registrei. Mas não se iguala em impacto às cenas que presenciei, há mais de duas décadas, no Teatro Vanucci, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro. Uma sensitiva de nome Célia promoveu no recinto – sabe-se lá como – algo fantástico, extraordinário, inimaginável, nessa linha de supostos contatos com o outro mundo, reconhecidos por não poucas correntes filosóficas. Casa superlotada, umas setecentas pessoas, dos mais diferentes bairros da antiga capital da República, de cidades das redondezas e de outros Estados, presenciaram tudo.

Depois de uma exposição atraente, rica em pormenores, acerca das variáveis infinitas de aplicação das chamadas energias sutis, de que é composto nosso enigmático e fascinante universo, a sensitiva dispôs-se a operar, inteiramente lúcida e com plena articulação das palavras e controle dos movimentos, andando de um lado para outro do palco, como “canal” numa comunicação, segundo garantiu, com criaturas que já haviam deixado este nosso “vale banhado de lágrimas”. E que, em vida, integraram o universo afetivo das pessoas presentes. Ninguém, no público, fez qualquer intervenção oral, qualquer pedido por escrito. Debaixo de silêncio absoluto, respeitoso, só dona Célia falou. Em dezenas de intervenções, chamou pessoas pelos nomes, indicando os números das poltronas em que se achavam sentadas. E, na sequência, uma a uma, passou-lhes mensagens, “recebidas na hora”, dos parentes e amigos já “encantados”. As palavras foram obviamente recebidas com emoção, arrancando confirmações surpreendentes quanto aos dados apontados.

Num determinado instante teve-se a impressão de que a sensitiva havia cometido uma derrapagem. Ledo engano. Ela pediu a um cidadão, numa poltrona próxima à minha, que anotasse o recado de alguém cujo nome citou. O cidadão em referência assinalou não conhecer a pessoa mencionada. Célia admitiu: sim, ele estava com inteira razão. O “contatado” era, na verdade, filho de um amigo e vizinho seu, morador do apartamento de número tal, edifício tal, bairro tal. O espectador convocado a levar o recado emocionou-se às lágrimas. Os dados anunciados estavam rigorosamente corretos.

Essa paranormal, tanto quanto sei, nunca foi levada a um estúdio de televisão para por à prova seus extraordinários dons, sua capacidade de utilizar, de forma tão arrebatadora, o poder inimaginável das chamadas energias sutis. Que muita gente, em reta intenção, enclausurada em dogmatismos religiosos rançosos, encontra dificuldades intransponíveis em aceitar. Não sei o que foi feito de dona Célia. O que sei é que, naquela noite, ela deixou a plateia eletrizada.

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