sexta-feira, 6 de dezembro de 2019


O racismo é repulsivo


Cesar Vanucci


"Todos os homens nasceram iguais, exceto os pretos...”
(Abrahão Lincoln, na condenação ao racismo)

Como nas fitas em série do passado, ou nas novelas do presente, contemos, em rápidas pinceladas, como terminou o capítulo anterior deste relato sobre racismo. Falávamos do convite formulado, com toda pompa, ao líder comunitário em ascensão, naquele próspero burgo do interior, para assumir a presidência do principal clube local. Ele aceitou sensibilizado e com vivo entusiasmo a honrosa convocação. Aplausos entusiásticos e fraternais palminhas nas costas coroaram o acordo. Na palavra de agradecimento, anunciando seus planos, o futuro presidente deixou registrada a disposição de franquear a pessoas da comunidade negra o acesso às dependências do clube. O relato no textículo anterior parou nesse ponto.

Seguindo em frente. Baixou, então, naquela hora, silêncio de tumba etrusca. O gelo só foi quebrado quando o garçom de plantão retirou, do balde, outras pedras de gelo para abastecer os copos do pessoal com nova rodada do legítimo. Tudo ficou, então, nestes termos: convite feito, convite aceito, a reunião chegou ao desfecho almejado.

Algumas semanas passadas, o cidadão solenemente convidado a ser presidente do clube, com o terno de gala para a posse já encomendado, tomou ciência, atônito, pela imprensa, de que as eleições em questão haviam sido antecipadas. E mais: seu nome não figurava, nem como suplente de vogal, na chapa única sufragada pela assembléia de sócios e referendada pelo conselho de notáveis da agremiação.

Oportuno anotar. A indiferença e distanciamento que tanta gente faz questão de manter com relação a absurdidades desse gênero explicam a razão de serem numerosos, no cotidiano, essas atordoantes ocorrências de injuria racial. Do tipo, por exemplo, abaixo descrito. Indoutrodia, as redes sociais divulgaram um anúncio sobre vagas de emprego para cuidadora de idosos, contendo dois “requisitos essenciais”: as candidatas não poderiam ser negras, nem gordas... A “oferta” era para dez profissionais, cinco para cada turno de trabalho. Especialistas em temática mística, conhecidos deste desajeitado escriba, asseguraram-lhe que o próprio São Benedito, tão meigo e carismático, lá nas paragens celestiais onde vela permanentemente pelos destinos da desvairada humanidade, ao ser notificado do abjeto fato, deixou-se tomar, por fugidios instantes, da mais santa ira...

Relatos que tais, de certo modo até brandos diante do que realmente costuma rolar por aí, retratam flagrantes da imperdoável postura racista adotada por tantos em tantas partes. Ela é tão ou mais hedionda quanto outras manifestações que a intolerância tem por hábito gerar, através dos tempos, como reflexo do egoísmo e ambição de grupos e pessoas empenhados em fomentarem discórdias e danificar a convivência entre os integrantes da espécie. Num mundo regido pelas leis da sabedoria universal, em que os direitos humanos fossem vivenciados na plenitude, não haveria, por certo, condições propícias para práticas discriminatórias que alvejassem a mulher, a criança de rua, o índio, as minorias étnicas e religiosas, mais nuns lugares, menos noutros, mas, afinal de contas, em todos os rincões da sofrida pátria terrena. O genocídio de que foram alvo os judeus na era nazista, fruto do racismo, é exemplo frisante da insensatez que domina os procedimentos fanatizados de um mundão de pessoas. E nem é o caso de tentar combater e justificar o racismo com a adoção do racismo, como fazem, deploravelmente, alguns judeus, sobretudo com relação aos palestinos, e, até mesmo alguns negros. Racismo é racismo, ponto final. Algo totalmente repulsivo, não importa a “motivação” e a origem.

Essas coisas carecem ser ditas e repetidas como estímulo a que se fortaleça, na consciência das ruas, a resistência cívica e moral à intolerância e ao preconceito.

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