sexta-feira, 18 de outubro de 2019


Sula e a magia do circo

Cesar Vanucci

Todas as linguagens artísticas têm uma
esquina que cruza com a arte circense.”
(José de Oliveira Junior)

Sabe você? Sabe essas pessoas de coração fervoroso, de bem com a vida, com coragem suficiente para apostar todas as fichas à mão num propósito nobre, que lhes exige esbanjamento de tempo e energia, seguras de que as decisões tomadas representam contribuição ao processo da construção humana? Sabe esses personagens sortidos de vibração interior, que consideram as utopias alojadas na mente parte indissociável da caminhada pessoal a percorrer? E que raciocinam que nem o poeta Mário Quintana quando, liricamente, garante que “se as coisas são inatingíveis, ora, não é motivo para não querê-las, já que tristes os caminhos se não fora a presença distante das estrelas”?

Sabe essa gente de ardor contaminante, que trabalha com benfazeja obsessão, uma ideia, um projeto, um ideal, evidenciando serenidade de espírito e firmeza de convicção? Sabe você, sabe? A Sula Kuriacos Mavrudis é alguém assim. Pesquisadora, autora e diretora teatral, desfrutando desde muito cedo – como faz questão de assinalar – o privilégio de conviver com o mundo do circo, ela conseguiu compor, ao longo dos anos, a respeito do tema, um colossal acervo de documentos e depoimentos. Ganhou o direito de ser reconhecida, nos círculos da lida circense, onde sua inteligência e capacidade de articulação é objeto de apreço e admiração, como cronista maior da fascinante atividade.

O pai de Sula, trabalhador no setor da construção de hidrelétricas, no curso das décadas de 60 e 70, deslocou-se com a família por vários rincões do país. Morou em acampamentos especiais implantados nas proximidades das obras. Nesses espaços, artistas circenses eram continuamente chamados a montar suas lonas, proporcionando entretenimento e lazer às comunidades de operários isoladas em territórios distantes dos centros urbanos. Frequentadora assídua dos espetáculos, Sula tomou-se de encantamento por essa modalidade de manifestação cultural enraizada na alma popular. Dedicou-se à coleta de informações, recolheu depoimentos, enredou-se emocionalmente com o contexto circense. Inteirou-se a fundo das peculiaridades, dos problemas e aspirações do pessoal do ramo.

Tudo isso influenciou seus rumos profissionais. Conduziu-a a participação ativa em políticas culturais e assistenciais em favor da causa. Estabelecendo-se em Belo Horizonte em meados dos anos 80, passou a ser enxergada, num dado instante, como uma espécie de guardiã de saberes acumulados no tocante a esse multicolorido complexo artístico de genuíno sabor popular. Transformou-se, também, em porta-voz de postulações do setor, inserindo-se em empreitadas e promoções voltados à preservação da memória do circo e sua revitalização.

Chega agora a explicação acerca da circunstância de os holofotes desta narrativa estarem focados em Sula Kuriacos Mavrudis, apelidada carinhosamente de “Grega”. Fique sabendo, então, o “respeitável público” que essa valorosa “parceira do circo”, como se autodenomina, presidente da “Rede de Apoio ao Circo”, que aglutina uma centena de circos e famílias de artistas de circo, é autora de uma publicação intitulada (em trocadilho sugestivo, bolado pelo Olavo Romano) “Encircopedia – Dicionário Crítico Ilustrado do Circo no Brasil”. Enfeixando histórias, verbetes e fotos, em 500 páginas, linda e sugestivamente ilustradas, a publicação, lançada com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura, no governo passado, dota a cultura nacional de um compêndio enciclopédico magnífico. Único, ao que parece, no gênero.

Não se detém aí a ação criativa de Sula. Confiante de que o projeto venha a se tornar, em breve, radiosa realidade, ela concebeu a implantação em BH, numa área já devidamente demarcada, onde funcionou, bocado de tempo atrás, a estação de trens da Gameleira, a “Cidade do Circo”, destinada a abrigar as artes circenses em suas diversas manifestações. Ela acolherá circos itinerantes, escola de circo, circos sociais, companhias familiares circenses, trupes de palhaços, cursos de capacitação, qualificação e aperfeiçoamento profissional, biblioteca especializada. Um termo de cooperação técnica, firmado entre a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a Rede de Apoio ao Circo, constitui o ponto de partida dessa viagem
da inteligência e sensibilidade artística pelos trilhos dos sonhos da comunidade circense.

Não há como não nos rejubilarmos com essas iniciativas. Afinal de contas, fazemos, todos nós, parte do “respeitável público” que, nalguma ocasião de nossas vidas, sentados em toscas arquibancadas de madeira, sob as lonas esverdeadas de teatros improvisados em terrenos baldios, nos deixamos arrebatar pela magia e emoções do circo. Pelas proezas e peripécias produzidas por palhaços, equilibristas, contorcionistas, malabaristas, trapezistas, ilusionistas, amestradores de animais, bailarinos, motociclistas arrojados com seus “globos da morte”. A memória das ruas conserva essas cenas, de forma indelével, envoltas em carinho e saudade.
  

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