sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Cultura e humanismo

Cesar Vanucci

“A força da cultura une as pessoas (...) em
independência e liberdade através do direito e da arte.”
(Pestalozzi)

O Automóvel Clube de BH foi palco, no dia 26 de setembro, de imponente e prestigiado encontro cultural. Deu-se ali o ato de lançamento de um novo livro do jornalista Rogério Zola Santiago. Na condição de presidente da Amulmig, este escriba saudou o autor com as palavras reproduzidas na sequência. 

Honrado com a incumbência desta fala protocolar de saudação ao jornalista e poeta Rogério Zola Santiago, andei me questionando, olhar focado na opulenta programação literomusical traçada para esta noitada, se não seria o caso, então, de se descartar minha despretensiosa manifestação, já que ela convergirá, obviamente, para a reafirmação de conceitos alusivos ao ilustre personagem já sobejamente conhecidos da distinta plateia.

Os que aqui nos reunimos, cidadãos representativos de variados setores pensantes da comunidade, nutrimos pelo autor de “Exercícios de Partida - Metáfora Clandestina”, apreço e admiração. Perfeitamente justificáveis – reconheça-se – diante da esplêndida obra de sua lavra. Obra esta, por sinal, que fez por merecer de alguém da magnitude do crítico literário Fábio Lucas a louvação entusiástica a seguir reproduzida: “Rogério se firma entre os mais hábeis cultores da palavra poética em linguagem portuguesa contemporânea”. É ainda o renomado crítico literário que, a propósito de “Exercícios de Partida”, afiança trazer o livro “ensinamentos preciosos sobre como fazer literatura polivalente (...) em versos plenos de essência e desafios.”

Como sublinhado, os predicados de Rogério são bastante conhecidos. Sua criatividade, posicionamentos em favor da livre expressão das ideias, sua forma de utilizar o ofício das letras como instrumento de construção humana, tornam-no um apreciado propagador da palavra social. Propagador da palavra social é função – seja frisado - da qual nenhum intelectual realmente digno de se enquadrar nessa condição tem o direito de abdicar, no labor cotidiano.

Isso ajuda responder o questionamento que levantei acerca da conveniência desta descolorida fala protocolar, nesta festa cheia de amorosidade e brilho feérico difíceis de serem suplantados.

Fique claro, pois, ser este um evento de exaltação da cultura. Instante de celebração das conquistas do espírito. Promoções desse gênero são indissociáveis do processo da evolução civilizatória. Perfeitamente razoável, portanto, seja aqui ouvida manifestação de obvio conteúdo. A melhor retórica é a repetição, como pontuava Napoleão Bonaparte. Reafirmemos coisas mesmo que de todos já sabidas. Enfatizemos, outra vez, os méritos, como prosador e poeta, de nosso anfitrião Rogério. Tratemos de consignar, novamente, aquilo que luminares do pensamento de vanguarda (Pauwels e Jacques Bergier) asseveram: “O espírito humano é que nem o paraquedas, só funciona aberto!” Cuidemos de nos prevalecer desta consagração de uma trajetória pessoal positiva para proclamar que a cultura é uma formidável força ordenadora da sociedade.

Importantíssima em todas as etapas de nossa peregrinação pela pátria terrena, a cultura se mostra imprescindível, sobretudo, nas horas em que são detectados surtos obscurantistas de negação frontal dos valores do espírito. Surtos esses provocados, como se pode detectar em diferentes lugares mundo afora, por minoritárias correntes fundamentalistas comprometidas com o trasanteontem da vida. Noutras palavras, gente de conduta radical, alojada rancorosamente nas lateralidades ideológicas e notabilizada pelo afã negativista de criar embaraços e obstáculos à invasão do futuro pela sociedade.

As criaturas de boa-vontade, engajadas na nobre lida da difusão da palavra social, devem ter sempre presente a historieta emblemática do debate travado, tempos atrás, entre Hermann Goering, vice-líder nazista, e o iluminado pensador Louis Pauwels. Palavras de Goering: “Todas as vezes que alguém perto de mim fala de cultura, eu saco o meu revólver.” Réplica de Pauwels: “Todas as vezes que perto de mim alguém fala em revólver, eu saco do coldre a minha cultura”.

Confessamo-nos agradecidos por este ensejo afortunado, graças ao lançamento do livro de Rogério, de poder enaltecer, uma vez mais, a cultura. Os participantes deste encontro estamos conscientes de ser a cultura uma projeção do humanismo e da espiritualidade. Humanismo e espiritualidade que, por sua vez, promanam da mensagem de amor e de paz vinda do fundo e do alto dos tempos e dirigida aos que sabem conservar acesa a esperança num mundo melhor, mais fraterno, mais solidário, mais ecumênico. Mundo em que se possa contemplar, como almeja o único grande estadista contemporâneo, Papa Francisco, a conexão dos que o povoam, independentemente de crenças políticas e religiosas, etnias e gêneros, com os valores humanísticos que conferem dignidade à aventura humana.

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