sexta-feira, 25 de outubro de 2019


Relembrando insólito convite


Cesar Vanucci 

A primeira coisa que um cidadão precisa ter é civismo...”
(Unamuno)

A neobobice vernacular disseminada na praça, em razão do descerimonioso emprego de vocábulos estrangeiros em papos triviais e na comunicação social escrita e falada, muitos deles (vocábulos) proferidos em inglês de araque – alguns até diriam, num inglês “morolês” – inspiram este escriba velho de guerra a reeditar texto sobre um convite insólito, recebido muitos anos atrás, quando fazia parte do quadro diretivo da nossa Rede Minas de Televisão. A relembrança permite dizer que as bestagens de hoje, ou seja, desse mórbido alumbramento cultivado por inúmeros setores da vida brasileira com relação a coisas e personagens doutras plagas, revelador de irreparável pauperismo cívico, é mesmo de datação antiga.

Contando assim, parece até história inventada. Não é. “Antes sesse”, como diria, em sua saborosa maneira de expressar, algum matuto dos chapadões sem fim lá das bandas do Triângulo. Uma agressão, outra a mais, à cultura brasileira estaria deixando de ser praticada. Mas o fato real, verdadeiro e contundente, é que recebi, tempos atrás, convite para participar, como jornalista, de evento, no Rio de Janeiro, no Riocentro, todo ele, o convite, da primeira à última linha, face e verso, impresso em inglês. Achei, num primeiro momento, que estava a cometer algum erro de percepção. Não estava. Li e reli o convite um bocado de vezes. Vasculhei o interior do envelope à cata de outro impresso qualquer, apegando-me ansioso à hipótese de que nele pudesse vir registrada, em idioma falado em meu país, uma explicação razoável para o inusitado prosseguimento.

Nada encontrei. Não havia motivo pra dúvida. O convite endereçado ao cidadão brasileiro, profissional de comunicação no Brasil, para debater as atividades do setor aqui neste país, envolvendo a participação, seguramente em maioria, de colegas também brasileiros, a ser realizado num centro de convenções brasileiro, em cidade brasileira, o convite, repito, estava formulado em língua estrangeira. Algo de um surrealismo único. O cúmulo dos absurdos. Um sinal alarmante a mais da onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Uma onda hiper ativada na panaquice, na indigência cívica e intelectual. Encurtando razões: em frescurice a mais ampla, geral e irrestrita.

Um outro dado  constrangedor nessa historinha do insólito convite  é que  organizações brasileiras respeitáveis estavam a assiná-lo. E, de forma clamorosa, mantiveram-se indiferentes aos impropérios perpetrados contra o idioma e a cultura. Já disse, repeti e torno a repetir que o emprego de vocábulos estrangeiros, na palavra falada e escrita, para classificar coisas óbvias do cotidiano, rescende a babaquice. Desqualifica intelectualmente os deslumbrados da silva que, junto com pessoas desavisadas, fazem coro com o “inimigo”, interessado em corroer, por dentro e por fora, as instituições e os valores mais sagrados da autêntica cultura brasileira. Não há como não desconfiar faça isso parte de um trabalho articulado, manhoso, sorrateiro, com o qual se busca inocular no espírito popular a idéia perversa e falsa de que somos, os brasileiros, cidadãos de segunda classe. Criaturas sem capacitação para gerir o próprio destino. No fundo mesmo aquela conversa cretina, vigorosamente rebatida em rotineiros exemplos na atuação comunitária, de um país que teria sido agraciado pelo Todo Poderoso com dádivas naturais sem igual, mas que seria povoado por uma gente nem tanto...

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