sexta-feira, 13 de abril de 2018

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Lula, mito e réu

Cesar Vanucci

“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.”
(Provérbio português)

Vejo Lula com culpa no cartório. Mas, espera lá, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como prudentemente  aconselha a antiga sabedoria. Incandescente controvérsia, impregnada de passionalismo, circunda a história do mito tornado réu. Ou seja, do Lula endeusado por muitos e demonizado por outros.

Reconhecer que ele haja cometido atos falhos, suscetíveis de condenação, não significa admitir que a relevante obra de inclusão social levada a cabo em seu governo mereça ser encoberta pelas brumas do esquecimento. Sua trajetória na vida pública projeta incontáveis atos meritórios. São de bom tamanho as realizações voltadas para a causa da ascensão social, mesmo que na avaliação do trabalho empreendido feita por adeptos incorra-se, por vezes, em exageros. Noutra vertente da análise comunitária alusiva a Lula aparecem elementos influentes a, visivelmente, focarem seus defeitos com lentes de aumento.

Volto à sabedoria dos antigos para lembrar que costuma colher tempestade quem semeia vento. Pode-se aplicar o conceito, de certa maneira, a Lula. Ele não conseguiu desvencilhar-se - omitindo-se, numa benevolente avaliação - das teias maquiavélicas de um sistema implementado, não é de hoje, por vilões engravatados. Gente da pesada. Recrutada nas fileiras de empreiteiros inescrupulosos, agentes públicos inidôneos e mafiosos políticos. Dono de forte carisma, aguçada sensibilidade social, o ex-presidente, não cabe dúvida, soube conquistar a simpatia de extensas camadas da população. Isso explica a apreciável base de sustentação política ostentada nessa hora da penosa adversidade que enfrenta à conta dos erros cometidos. Padece, sob outro ângulo, de tenaz rejeição, que adquire em muitos momentos timbre rancoroso, da parte de ponderáveis segmentos. É aí identificado como personagem central das engrenagens de corrupção, vastamente disseminadas, que o sentimento nacional obviamente abomina.

As narrativas, de lado a lado, acerca do alentado currículo do personagem pecam, não raras vezes, pela exorbitância. Seja no capítulo das louvações, seja no item das críticas. Para adversários, ele desponta no cenário como vilão-mor. Para os admiradores trata-se de um grande ídolo. Ídolo ele também se sente. A tal ponto que, em arroubos retóricos, andou ousando mesmo dizer coisas desse gênero: “Desafio alguém apontar algum brasileiro mais honesto do que eu!”

Análise serena e objetiva dos acontecimentos que ora galvanizam o interesse das ruas – deixadas à parte as reações extremadas -, permite sejam levantadas a propósito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do atual contexto político brasileiro, entre outras, algumas constatações dignas de especial atenção: 1. Lula errou, está sendo legalmente punido; 2. São numerosos os militantes políticos, de diferentes siglas, vários deles no campo adversário, comprovadamente envolvidos nas investigações em curso, sob suspeição de haverem praticado irregularidades até mais graves do que as imputadas a ele, aguardando ainda na fila competentes ações jurídico-legais mais expeditas; 3. A tramitação dos processos referentes a Lula vem se desenrolando em ritmo consideravelmente mais célere do que o observado noutros casos de políticos graduados implicados em operações fraudulentas; 4. É indisfarçável, na percepção dos que se dão a tarefa de acompanhar as apurações das tramoias detectadas pela operação Lava Jato e a divulgação dos lances correspondentes, a tendência de alguns grupos, órgãos da grande mídia incluídos, de dispensarem “tratamento diferenciado”, “prioritário”, às situações e circunstâncias onde o nome de Lula aparece, comparativamente às situações em que os denunciados são integrantes de outras legendas partidárias; 5. Afigura-se mais que provável, a serem levadas em conta as sucessivas pesquisas eleitorais, que o ex-presidente irá exercer, a esta altura já não mais como candidato, influência marcante no processo das próximas escolhas eleitorais; 6. A opinião pública mostra-se sumamente desejosa de que as apurações em andamento, no saudável combate à corrupção, cheguem logo a termo, com o devido equacionamento das dúvidas que sobrepairam sobre a interpretação das leis e a culpabilidade de todas as pessoas cujos nomes frequentam continuamente as manchetes. 7. É bom que se diga, por derradeiro, que as mentes mais lúcidas da sociedade brasileira veem com inocultável desagrado os “vazamentos seletivos” volta e meia vindos a furo, com as costumeiras desculpas dos poderes competentes de nada saberem sobre a origem desses atos ilegais.



As belezas deste país tropical

Cesar Vanucci

“Moro num país tropical, abençoado por Deus...”
(De uma canção de Jorge Ben)

O compromisso de desova assídua de textos para o bate-papo com o distinto leitorado conduz, às vezes, este desajeitado escriba de quiméricas divagações, em instantes “apertados de costura”, a se valer de matérias do baú. Baú este que conserva zelosamente arquivados, por dona Clelia, secretária, artigos saídos ao longo de seis décadas. Interessante observar o frescor de atualidade de alguns deles. Veja, por exemplo, a crônica escolhida para ocupar hoje este espaço.

Homem de peso e medida. Sereno, bem plantado na profissão, inteligência aguda provida de bons conhecimentos gerais e vivência humanística. Marcante a presença de tio Nhô no cenário familiar de minha juventude. Amigos e conhecidos, agarrados à esperança de receberem ajuda capaz de eliminar estados de angústia, procuravam-no para colóquios fraternais. Eram acolhidos num ambiente que lembrava confessionário. Sob os impactos das aflições alheias, ele deixava escapar, de vez em sempre, uma observação engatilhada na ponta da língua: “Tentar entender direitinho certas coisas dá uma canseira dos diabos”.

As questões levantadas eram, geralmente, de solução óbvia. O que escapulia à compreensão dos autores das consultas. Tio Nhô, com paternal solicitude, ensinando o caminho das pedras, lançava mão da frase famosa, empregada como uma espécie de bordão nas interpretações dos fatos.

Tentar entender direitinho certas coisas dá, realmente, canseira. Pensando bem, a frase se aplica a várias situações desconcertantes e confusas de nossa realidade. Tome-se, por exemplo, o caso das clamorosas insuficiências, em criatividade e ação, detectadas nas políticas brasileiras de turismo. Entender o porquê das coisas rolarem do jeito que rolam dá, efetivamente, canseira. Não há como poder explicar a causa de nosso país não figurar no topo das preferências dos turistas que se extasiam com as belezas das regiões tropicais. Os cenários mais deslumbrantes, sob esse aspecto – que deveriam representar forte estímulo na definição dos rumos dos fluxos turísticos - estão localizados aqui mesmo, nesta nossa vastidão continental de oito milhões de quilômetros quadrados. Ou até mais um bocadinho, depois do que andou sendo feito, há anos, no Rio, com o aterro na praia do Flamengo.

São a perder de vista as porções propícias ao lazer existentes neste pedaço de chão, abençoado por Deus e bonito pela própria natureza. O que está exposto ao olhar, com prodigalidade que chega a configurar esbanjamento na obra da Criação, é mais do que suficiente para garantir catapultagem certeira do país à condição de potência turística. Para que isso se faça real, são precisos bons projetos e, seguramente, vontade política. Artigos, deploravelmente, em escassez no estoque. As informações disponíveis são chocantes. A fatia brasileira de participação no bolo turístico é ridícula. Evitemos citar exemplos de países como França e Espanha, que aprenderam, como ninguém, a extrair do turismo substanciosa fonte de divisas. O confronto, por aí, é atordoante. Mais desconsolador ainda é tomar tento dos números relativos aos fluxos turísticos de países como o México, de regiões como as do Caribe, ou de ilhas como Mallorca. Essa ilhota espanhola, antigo porto pesqueiro, população de 800 mil, segundo estatísticas de poucos anos atrás, recebia volume de turistas superior ao do contingente de estrangeiros que demandava o continente brasileiro em suas opções de viagem. Como é que pode?

Nosso litoral é composto do mais belo conjunto de praias de que se tem notícia. Paisagens que põem no chinelo lugares famosos da moda. O turismo ecológico encontra na Amazônia, no Pantanal e noutros lugares os recantos mais bem aquinhoados que se possa desejar. Outros fatores, como centros urbanos dotados de boa infraestrutura, bons aeroportos, fazem do Brasil um país naturalmente vocacionado para o turismo. Por que cargas d’água, então, as coisas não funcionam a contento? Resposta inevitável: ausência de políticas de turismo bem implementadas, escoradas em marquetagem inteligente. A abertura dos cassinos seria uma boa. Nenhum país de realce no plano turístico esteve ou está a fim de proibir jogo. Apenas o Brasil, com sua proibição de mentirinha para modalidades rendosas de apostas.

O tema remete-nos à certeza de que têm sido também pouco producentes os esforços no sentido da sensibilização da freguesia doméstica, numérica e economicamente expressiva. Milhões de patrícios deixam o país à cata de emoções que poderiam perfeitamente ser aqui mesmo encontradas. Está faltando marquetagem imaginosa no pedaço.


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