sexta-feira, 6 de abril de 2018

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A erupção das falsas notícias

Cesar Vanucci

“Há loucura, mas há método nela.”
(Shakespeare)

A erupção, pode-se dizer vulcânica, das incandescentes falsidades que andam enxameando as redes sociais é fruto, no mais das vezes, de ódio exacerbado, crassa ignorância, intolerâncias e preconceitos dilacerantes. Mas o que mais intriga, chegando até mesmo a amargurar as pessoas de juízo perfeito, providas de bom senso, sentimento nacional e sensibilidade social, não são bem as propagadas sandices propriamente ditas. E, sim, a estarrecedora constatação de serem numerosos, bem mais numerosos do que o admissível, os setores aparentemente alfabetizados em termos de práticas cidadãs e de conhecimento político a absorverem, sem grandes questionamentos, o besteirol alardeado, urdido com inocultáveis intuitos maquiavélicos e maniqueístas.

As chamadas “fake news” são repassadas adiante sem qualquer avaliação crítica. Ressoam, absurdamente, em muitos ambientes, como se fossem verdades incontestes. Na fanatice de uns e outros, ganham conotação dogmática, cruz credo! Contaminam a atividade comunitária, ao espalharem-se com velocidade de grama tiririca. As características malsãs desse fenômeno, registrado na fascinante esfera da comunicação célere, clamam por uma reflexão mais aprofundada das lideranças, dos formadores de opinião. No salutar sentido de proteger o sagrado interesse coletivo, projeta-se como extremamente necessário um estudo urgente, bem articulado, por gente realmente capacitada a analisar as consequências por inteiro da momentosa questão. Afigura-se indispensável a criação de salvaguardas legais, harmonizadas com os preceitos democráticos, que anteponham óbices eficazes à ação insidiosa em marcha. O que grupelhos minoritários e rancorosos estampam rotineiramente nas redes sociais não espelha o genuíno sentimento da sociedade brasileira. Em esforço diuturno condenável, esses radicais empenham-se em disseminar informações destituídas de fundamento com o indisfarçável objetivo de semear a confusão nos espíritos das criaturas desavisadas. O que anda acontecendo, aqui (e lá fora, também), em matéria de divulgação deturpada, impregnada de perversidade, remete a inglórios momentos da história. Goebbels, um dos artífices do nazismo, dizia que a mentira repetida acaba virando verdade. O sinistro Adolf Hitler, em “Minha Luta”, referenda, lugubremente, o insano conceito de seu fiel “aspençada”: “As grandes massas do povo (...) são mais facilmente vitimadas por uma mentira grande, do que por uma mentira pequena.”

Tem muito nego por aí deitando e rolando na internet, a emitir, com suas interpretações e versões mentirosas, certificado pessoal de haver captado com exatidão as aberrações conceituais hitleristas.

Um amigo meu, bem identificado no que diz e escreve pelo posicionamento crítico com relação às lideranças políticas e siglas partidárias, sem exceção alguma, conta-me uma historinha surreal que serve como magistral amostra da enxurrada de insanidades despejadas na internet. De um cidadão bem posto na vida pública, que já exerceu cargos relevantes, seu conhecido de longa data, recebeu postagem contendo “incrível denúncia”. A mensagem dava conta de que “a pensão de valor mais elevado paga pela Previdência Social favorece, ninguém mais, ninguém menos, do que a viúva de Che Guevara” tendo sido “concedida” pelo governo passado.

O destinatário da mensagem colocou, naturalmente, em dúvida a alegação. Sustentou que coisa assim, tão absurda, não passaria desapercebida às redes de televisão e imprensa de modo geral. Ficou de queixo caído com a réplica do propagador da denúncia. A observação que fez foi assim rebatida: “Deixe de ser ingênuo, companheiro. Só você não está sabendo  que as televisões, as rádios e os jornais receberam dinheiro dos grandes empreiteiros, por ordem do José Dirceu, para esconder os fatos graves que andam acontecendo.” Nada mais foi dito e, obviamente, nem foi perguntado. O kafkiano diálogo parou aí.

Só mesmo Shakespeare pra explicar, talvez, os desatinos cometidos nas redes: “É loucura, mas há método nela.”

Mais um bocado de 
indagações intrigantes


“É impossível saber o porquê de tudo. Mas pra muita 
coisa existem respostas que não podem deixar de ser dadas.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Como dito anteriormente, neste mundo do bom Deus em que o tinhoso costuma plantar barraco, semeando confusão e discórdia pra valer, as inexplicabilidades abundam. Perguntas brotadas da aflição e aturdimento das ruas sobrepairam suspensas no ar, na ausência de respostas convincentes. Mal comparando, as perguntas, em circunstâncias que tais, soam com o fragor de tempestade, a um só passo que as respostas têm o embalo de mero chuvisco causador de constipação. Recorrendo a mais uma metáfora: o volume das perguntas sugere rio caudaloso. O das respostas dadas, pequeno riacho.

A tremenda insuficiência de informações, de esclarecimentos ardentemente almejados decorre, em grande parte – é o óbvio ululante – da proverbial ignorância humana com relação ao colosso de coisas que permeia a conturbada aventura da vida na pátria terrena. Mas decorre, também, em menor escala naturalmente, de outros variados e significativos fatores. Há respostas sonegadas por conveniências políticas, econômicas, culturais, sociais. Conveniências, assinale-se de passagem, não poucas vezes espúrias. Há (e como há!) o sibilino comportamento de pessoas, grupos, corporações, de diferentes matizes, morbidamente empenhados em falsear a realidade dos fatos.  E, a partir daí, compor versões deturpadas para fins de divulgação. Há um mundão de gente, posando de “sabichões”, de “proprietários da verdade”, navegando nas mesmas fétidas águas da adulteração dos registros cotidianos ou históricos, que finge entender dos assuntos, arvorando-se, sem pudor algum, a emitir explicações na base do “lero-lero”. Desprovidas de fundamento, logicamente.

Estas considerações nos estimulam a alinhar, outra vez mais, novos “porquês” sobre situações que intrigam e amofinam o cidadão do povo.

A Embraer é uma empresa brasileira internacionalmente aclamada como polo de tecnologia avançadíssima, na área da aeronavegação. De tempos a esta parte, personagens ligados ao governo central vêm sustentando, de forma obsessiva e, igualmente, suspeitosa, a necessidade de desnacionalizá-la. Revela-se muito forte, também, a disposição dos mesmíssimos personagens em proceder, de idêntica forma, no tocante à Eletrobras, outra referência importantíssima na estrutura desenvolvimentista nacional. Indaga-se: por quê todo esse incontrolável afã em torno de empreitadas sabidamente rechaçadas pela consciência cívica das ruas e pelo sentimento nacional?

A Justiça tem proferido, com frequência, decisões contrárias ao ganancioso sistema de saúde privada, no que diz respeito à indecente duplicação do valor das mensalidades dos usuários, quando estes se abeiram dos sessenta anos de idade. As decisões deixam claramente documentado que, assim agindo, os planos de saúde agridem acintosamente os direitos humanos e o estatuto dos idosos. Derrotadas nas Instâncias inferiores, as empresas vêm interpondo recurso atrás de recurso procrastinatórios, arremessando a análise decisiva para outra esfera. Indagação que se recusa a calar: Será que já não chegou a hora de os poderes mais elevados da Justiça definirem, vez por todas, com um saneador veredito, tão tormentosa questão? Por quê não o fazem?

O influente complexo midiático, televisivo e impresso, que tanto se ufana em proclamar sua reta intenção e isenção nas abordagens da avalancha de maracutaias que assola o país, costuma manter-se reticente, quando não inteiramente mudo e quedo que nem penedo, numa situação muito bem caracterizada. É quando irrompem denúncias, que se vão fazendo constantes, tanto quanto já aconteceu com outras siglas partidárias comprometidas nos desvios e propinas, implicando eminentes próceres tucanos da Paulicéia. Por quê isso acontece?

O Presidente da República e a Presidente do Supremo Tribunal Federal omitiram, nas respectivas agendas de compromissos oficiais, o registro de encontro reservado que mantiveram, com ligação, presume-se, aos palpitantes acontecimentos políticos da atualidade. O episódio, como não poderia deixar de ser, foi recebido como muita estranheza, se não com perplexidade. O regramento institucional republicano e democrático desaconselha procedimento com essa conotação singular. Por quê isso aconteceu?


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