sexta-feira, 20 de abril de 2018

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG







Crimes da mala

Cesar Vanucci

“O que não falta, hoje, na vida pública, é mala sem alça...”
(Comentário de uma senhora na fila do banco)

A desnorteante história do ex-deputado e ex-assessor especial da Presidência da República indiciado por haver sido pilhado com a mão na cumbuca conduzindo mala, não se sabe bem com ou sem alça, contendo bufunfa de origem identificada e de destino sabido, levou este desajeitado escriba a vasculhar, outra vez, guardados do baú, trazendo a furo versões antigas daquilo que era, então, conhecido no jargão dos periódicos como “crime da mala”. O comentário reprisado na sequência saiu publicado há um tempão, conservando – dá pra ver – frescor de atualidade.

Nos tempos em que o Dodô jogava no Andaraí e o lendário Cafunga operava prodígios no gol do Atlético, as ruas de nossas cidades não ofereciam, nem de leve, sinais da habitual turbulência dos dias de agora. A despreocupação das pessoas, haurida na trivial amenidade dos relacionamentos, chegava a tal ponto que as famílias convencionavam largar a chave da porta da casa sob o tapete, ou no parapeito da janela, ou em meio às folhagens do vaso do alpendre, de maneira a favorecer notívagos retardatários. Acontecia, muitas vezes, até das portas da rua “dormirem destrancadas”, como se costumava, então, dizer. E, via de regra, sem consequências pessoais ou patrimoniais a deplorar.

Provêm de época assim os primeiros registros, de que se guarda lembrança, dos célebres “crimes da mala”. As características e conotações das transgressões penais catalogadas nessa denominação eram outras. Bastante diferenciadas das ilicitudes praticadas hoje sob o mesmo rótulo. Além do mais, conquanto impactantes, eram raras. Todas as vezes que as páginas policiais, em tom sensacionalista, colocavam o distinto público leitor a par da ocorrência de um “crime da mala”, tinha-se como certo que uma tragédia com muito sangue derramado, de natureza passional ou motivada por sórdida vingança, começara a ser investigada, ou acabara de ser desvendada. Muitas dessas ocorrências, no geral envoltas em denso e intrigante mistério, perpetradas com requintes de crueldade – já que as malas encerravam despojos de vítimas esquartejadas – exigiam de experientes detetives trepidantes ações, no melhor estilo sherloqueano. Repórteres argutos eram postos a acompanhar, pari passu, os acontecimentos. Mantinham a opinião pública, como se faz nos folhetins de novela, devidamente informada de todos os capítulos das diligências policiais concentradas na elucidação da história. No final, os impiedosos autores das cruéis matanças acabavam sendo sempre descobertos, pagando no xilindró pelo “crime da mala”.

O “crime da mala” tomou configuração nova nos tempos atuais. O conteúdo da mala não é mais aquele dos tempos de antanho, partes anatômicas de inocentes, vítimas de violência originada de ódio irracional ou mórbidas paixões. Mas, de qualquer maneira, face à contundência das revelações nauseantes da crônica política recente, não deixa de representar, simbolicamente, um registro de que, nalgum lugar, nalgum instante fatídico, por conta de ações irresponsáveis, procedeu-se ao esquartejamento dos melhores sonhos e das heroicas esperanças de muita gente. Gente, no caso, boa, generosa, ordeira, crédula, que vive, por um lado, apostando confiante, o tempo todo, na vocação de grandeza do país. Gente que, por outro lado, apoderada de inconformismo e indignação, tem sido alvejada com constância, em seus direitos de cidadania, por manobras desastrosas de uma minoria despreparada e inidônea, alçada inadvertidamente, nas atividades públicas e privadas, a funções com relevante poder de decisão.

Os pacotes de cédulas encontrados nas malas ou pendurados em cuecas, a nos valermos das constatações vindas a lume, foram montados com doações generosas de fontes estatais e privadas, como “corretagem” de operações clandestinas, ou ainda como fruto de superfaturamentos. Destinam-se a engordar contas particulares, ou a financiar o caixa dois eleitoral, abominado por todo mundo, mas praticado intensamente, como todos estão carecas de saber, por um pessoal que jura abominá-lo. Esses pacotes remetem a mazelas que a opinião pública almeja ver extirpadas pra sempre da vida nacional. Essas mazelas atendem pelos nomes de corrupção, suborno, chantagem, extorsão, hipocrisia e rótulos outros, de odor fétido equivalente.

Machucam pacas!


Falemos, agora, 
do turismo doméstico

Cesar Vanucci

“Turista – Pessoa que viaja por diversão 
ou recreio dentro ou fora do país.”
(Dicionário do Aurélio)

Retomamos a temática turística, reproduzindo outro texto, de muitos anos atrás, que conserva ainda, como se verá, frescor de atualidade.

A decantada paisagem brasileira, incomparável sob variados aspectos na avaliação de gente do ramo turístico, permanece ausente dos roteiros mais frequentados pelos interessados no desfrute das emoções que as viagens a recantos especiais do globo têm o condão de proporcionar. Para que se tenha uma ideia do que ocorre é bom anotar esta revelação, não sei se agregada aos relatos insólitos do saudoso Jack Palance no “Acredite se quiser”: o volume de turistas estrangeiros que, todos os anos, toma o rumo do Uruguai é superior ao que demanda o território brasileiro. O registro se aplica a outras dezenas de países. Haverá quem consiga compreender coisa assim?

Mas os problemas relacionados com o inadequado aproveitamento das nossas potencialidades não ficam circunscritos a esse inacreditável desvio de rota do turismo internacional, fruto de desconhecimento de causa dos estrangeiros e de confessa incompetência brasileira na colocação lá fora dos esplêndidos produtos que o país oferece nesse particular. Nossa incapacidade para produzir resultados satisfatórios está exuberantemente evidenciada no insuficiente fluxo do turismo doméstico.

O brasileiro não sabe aproveitar quase nada das dádivas da Natureza que lhe são próximas. É mais receptivo a um apelo pra visitar Aruba do que a um convite para percorrer as miríades de praias, cheias de encantos, que se espicham pelas nossas franjas litorâneas. É capaz de atravessar meio mundo, pagando antecipadamente pelo passeio, para visitar o litoral escandinavo, e descobrir, atônito, que as nesgas de areia e os penhascos acinzentados onde a lourice dinamarquesa ou sueca se bronzeia não resistem a qualquer confronto nem mesmo com as praias das bordas do São Francisco.

Estão faltando ações inteligentes, criativas, que saibam mostrar o Brasil, sobretudo, aos brasileiros. Nossa população representa clientela colossal. Equiparável, em número, aos habitantes reunidos do México, Canadá e países da América Central. Criar condições para que ela possa se deslocar, em programas de lazer, dentro das próprias fronteiras, é tão ou mais importante até do que incluir os atrativos turísticos existentes nas rotas regulares das operadoras mundiais de turismo.

E é seguramente mais fácil. Pena que não seja mais barato. Aí, justamente, é que a porca torce o rabo, como se dizia em tempos antigos. Os preços praticados no Brasil para se fazer turismo doméstico são de arrepiar. Não adianta nosso céu ter mais estrelas, nossas praias mais dunas e mais ondas, nossas grutas mais imponência, nosso verão mais luminosidade, nossas matas mais verdor e cascatas, nossas águas termais mais poderes medicinais, nada disso adianta se os custos de dormida, alimentação e deslocamentos aéreos se colocam acima dos padrões internacionais. O espírito irreverente das ruas captou toda a incongruência da situação quando pôs pra circular aquela piada de que o turista brasileiro de menores recursos costuma visitar Miami, o de classe média viaja pra Europa e o de classe abastada sai de férias para o nordeste. Os números dos pacotes de viagem conferem visos de verdade a essa historieta. Folheando edições de jornais estrangeiros e brasileiros deparamo-nos com realidades surpreendentes. Um final de semana de três dias num hotel de nível superior em Nova Iorque, Roma ou Londres, compreendendo voo, traslados, pernoites, é ofertado por menos de quinhentos dólares. Será que com o mesmo dinheiro no bolso alguém conseguirá passar o fim de semana, nos conformes turísticos, no Rio de Janeiro? Os preços dos hotéis, da alimentação, das companhias aéreas, deixam longe os valores cobrados em países que aprenderam a fazer do turismo um bom negócio na obtenção de divisas.

Recentemente, um conhecido resolveu alterar a rota prevista em seu bilhete aéreo, de Helsinque a São Paulo, acrescentando paradas em Estocolmo e Oslo. Pagou pela mudança exatamente 21 (vinte e um) dólares. Duas semanas depois, precisou ir ao Triângulo Mineiro. Preço da passagem: quase quinhentos dólares.

Não é mole dormir com um ronco de motor desses.





MARIELLE FRANCO EMUDECEU...? NÃO !

 Wenceslau Teixeira Madeira *

Prezado jornalista Cesar Vanucci, Sentirei imensas saudades dessa coluna quando não puder vê-la mais. Verdades verdadeiras são narradas com saber e com extrema fidelidade e qualidade literata, os acontecimentos do dia a dia. Lembrei-me do grande Vanucci, seu irmão, caso estivesse, aliás, como ainda está pairando no fascinante Rio de Janeiro a observar, lamentando, as mazelas locais, tanto na política quanto na violência. Em sua homenagem, a ele a você, transmito a minha indignação contra a violenta e recente morte de dois cariocas.

Num carro, Marielle Franco emudeceu, / Junto com ela seu motorista, Logo após, dar uma entrevista ! / Naquele triste dia, senti um tranco, / Que abalou meu coração! / abala, / abala, / abala, / abala / abala / abala / abala / abala / abala / Abalaram  os corações  de todos nós, / Será mesmo que Marielle ficou sem voz ? / Não ! / Milhões de balas não fariam Marielle calar! / O corpo, sim, desaparece, mas, a voz fica a ecoar /
Porque o espírito ninguém pode matar! / Mas, afinal o que representava ela? / s fracos e os oprimidos da favela! / Só? / Não! / No Rio, representava seus eleitores / E seus incontáveis admiradores; / Defensora Incansável e destemida / Daqueles de menos sorte na vida, / Da LGBT, do afro-brasileiros, artistas, / Só não defendia bandidos e terroristas! /

Indaga o povo, - quem matou a ativista? / Milicianos, corruptos e os violentos? Xi... cuidado tiroteio, mais tiroteio! / Virgem santa, bala perdida, de onde veio? / Alerta geral! / Passou raspando, mais um caiu no chão. / Tiro certeiro bem no coração. / Mais uma bala perdida / E tomba no solo mais uma inocente vida! / Ninguém sabe de onde veio! / Ninguém sabe, de onde o tiro partiu / Ninguém viu. / Nem o Governo Federal! / Apelaremos, então, para quem, neste Brasil! / Para um ente sobrenatural? / Não! / Para o nosso Deus Celestial! / AMÉM.

De Nova Lima, para BH, / Para o Vanucci advogado. / Do Wenceslau, indignado. / Contra a hipocrisia nacional.//

P.S.: Coincidência ou não, abri o jornal, que recebi neste instante, o Diário do Comércio abrindo imediatamente na segunda página, como sempre faço, e li atentamente a “Que versos mais lindos!” Li rapidamente e admirei essa maravilhosa crônica. Gervásio Horta, grande compositor destas Minas Gerais havia me falado e não prestei a devida atenção, que a melhor poesia e composição, para ele, era de Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Ficava em dúvidas mas, agora, lendo sua crônica tenho convicção de que é a melhor, mesmo. É claro, sem desmerecer as outras.”

* wenceslau@sachacalmon.com.br


Nenhum comentário:

A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...