sexta-feira, 7 de julho de 2017

A missão do intelectual

Cesar Vanucci

“O menos que o escritor pode fazer
(...) é acender sua lâmpada.”
(Érico Veríssimo)

Concorrida assembleia na Academia Mineira de Letras marcou a posse do jornalista Rogério Faria Tavares como membro da Academia Municipalista MG. Ele foi recepcionado pela acadêmica Elizabeth Rennó. Como presidente da Amulmig, usei também da palavra. Reproduzo abaixo o que falei.

Devo, de início, agradecer a todos quantos concorreram para que esta assembleia se transformasse em feérico espetáculo de afirmação cultural, impregnado de calor humano e vibração fraterna. Sustento que “o batismo acadêmico” reveste-se de um certo  caráter sacramental. Tem um quê de “processo iniciático” voltado para a busca da expansão do conhecimento individual dentro de salutar contexto gregário onde prevalece aquela conjugação de vontades poderosa que torna uma Academia serena guardiã de saberes acumulados. Estamos falando de precioso patrimônio cultural composto de valores que os integrantes da grei acadêmica têm em comum apreço e que exprimem sentimentos enraizados na alma das ruas. Na psicologia das ruas, esse formidável e desbordante manancial de vida.

Com regozijo, a Amulmig acolhe Rogério Faria Tavares. O novo companheiro, de trajetória cintilante nos fazeres e afazeres culturais, é um intelectual provido de compreensão a respeito das coisas de sua época. Dispõe dos atributos desejáveis para fazer parte desta valorosa instituição. Uma instituição que se ufana em alardear a presença em seus quadros, no passado – ontem, como hoje, quadros representativos de expoentes da inteligência -, de ninguém mais do que Juscelino Kubitschek de Oliveira. O Nonô de Diamantina e de Brasília. Este extraordinário estadista que deixou saudade eterna na memória popular, com atuação republicana sugestivamente reverenciada nestes momentos em que a vida nacional se revela desfalcada – em circunstâncias assustadoramente traumáticas – de lideranças capazes de conectarem o País com sua insopitável vocação de progresso.

Dispenso-me, naturalmente, de alinhar mais considerações sobre a vida e obra do Acadêmico recém-empossado. Da tarefa de exaltar-lhe os méritos cuidou com esmero, em substancioso pronunciamento, nossa querida Elizabeth Rennó, com aquela singular finura de espírito e capacidade que possui de envolver-nos em clima de embevecimento nos ditos e escritos.

O que se me afigura relevante sublinhar é que festas como esta, de soberba louvação da inteligência e celebração jubilosa da vida, são necessárias. Mais que isso: imprescindíveis. Têm o condão de oxigenar cenários por onde escoa parte volumosa das trepidantes rotinas da vida.

Rotinas essas alvejadas pela mediocridade. Por desatinos de comportamento - de procedência bem identificada - que afetam impiedosamente o tecido social. Pelas fanatices descabidas e intolerâncias de todas as cambiantes, nascidas de concepções fundamentalistas esclerosadas. Pelas ambições hegemônicas descomedidas praticadas por países e grupos. Pela insensibilidade social e ausência de misericórdia, amiúde constatadas nas relações comunitárias.

A inteligência é um dom de Deus. Deus não permanece neutro entre o bem e o mal. É compreensível se sinta em santa frustração quando se dá conta, por exemplo, de que, nalguns redutos despojados de espiritualidade e humanismo, mesmo que isso seja negado em palavras, viceje como constante prática o absurdo conceito de que “entre Deus e o dinheiro, o segundo é sempre o primeiro”, conforme enuncia desconcertante adágio.

O intelectual é alguém detentor de dons essenciais na construção humana. Não pode se recolher a uma torre de marfim, em atitude de indiferença com relação às mazelas sociais à sua volta. Há que fazer da palavra, como o confrade Rogério Faria Tavares faz, um instrumento empenhado em propagar o primado do Social sobre as outras coisas deste mundo do bom Deus onde o tinhoso persevera na implantação de nefastos enclaves. Os alvos colocados sob a mira do engenho e do labor humanos devem ser sempre sociais. A economia, a tecnologia, a política, a educação, bem como outras atividades de valoração equivalente, não são fins em si mesmas. Constituem, sim, meios para se atingir fins. Fins, sempre e exclusivamente, sociais. O homem é a medida correta das coisas. Tudo, no febricitante processo laboral, tem que estar voltado para o bem-estar social. Fora da solidariedade social não há salvação Este conceito me leva a evocar Juvenal Arduini, grande sociólogo, saudoso compadre, quando afirma que “Amar a humanidade é preciso, mas o amor não pode camuflar a verdade. Amor consciente e resoluto deve contestar injustiça, miséria, rancor, crueldade e guerras.”

Permito-me, por derradeiro, trazer pra reflexão magistral definição de Érico Veríssimo acerca da missão do intelectual: “O menos que um escritor pode fazer, numa época de injustiças, desamor e atrocidades como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”

Meus bons amigos, espero que tão singelas considerações, elaboradas com o intuito de transmitir mensagem de boas vindas a este nosso ministro da palavra social Rogério Faria Tavares, guardem sintonia com o conteúdo humanístico e espiritual desta empolgante festa de exaltação da inteligência e celebração da vida.


Seis filmes e suas versões

Cesar Vanucci

O cinema é infinito (...) Cada imagem só existe
interligada à que a antecede e a que a sucede.”
(Vinicius de Moraes)

A programação de filmes na televisão com seus enfadonhos repetecos proporciona aos cinemeiros, com constância, a ensancha de poderem comparar distintas versões de uma mesma história. Assim aconteceu, dias atrás, ao vermos o mais recente lançamento de “Grande Gatsby”. Este tipo de avaliação também prevalece para outras películas conhecidas. Mencionemo-las: “Ben-Hur”, “A Noviça Rebelde”, “Sabrina”, “Sete homens e um destino”, “Doze homens e uma sentença”.

A trajetória de o “Grande Gatsby”, adaptação para o cinema de um romance de Scott Fitzgerald, comporta já a partir de 1926 quatro versões. A primeira delas traz Warner Baxter no papel central. Em 1949, Alan Ladd, protagonista de um faroeste que marcou época - “Os brutos também amam” -, um baixinho que subia em caixotes para poder contracenar com atrizes mais altas, vive o personagem central.  Robert Redford e Mia Farrow lideram o elenco na projeção de 1965. Agora, em 2016, Leonardo DiCaprio é o astro escolhido para interpretar a enigmática figura que dá título ao filme, um milionário que promove suntuosas noitadas festivas em sua mansão, reunindo aristocratas e artistas. Confrontada com a produção anterior, essa última é de doer. Não consegue reproduzir, um tiquinho que seja, o charme, padrão técnico e artístico da versão mais famosa (1965).

Outro fiasco monumental caracteriza a versão exibida pouco tempo atrás de “A Noviça Rebelde”. Tirante as inesquecíveis melodias, nada no “novo filme” lembra a saborosa narrativa referente à noviça de um convento, refratária a regras, que na condição de  governanta revira de cabeça pra baixo, trazendo muita alegria e vibração, alterando radicalmente os hábitos do lugar, mansão habitada por rígido militar e seus sete filhos. O “A Noviça Rebelde” recebido a princípio com restrições pela crítica, mas aclamado o tempo todo pelo público, foi dirigido por Robert Wise. O destaque no time de atores pertence a  Julie Andrews, Christopher Plummer, Eleanor Parker e Richard Haydn.

No “Ben-Hur” de seis décadas atrás, Charlton Heston é Judah, príncipe judeu injustamente acusado de traição, junto com a mãe e irmã, pelo oficial romano Messala, amigo de infância. Sobrevivendo às galés, adotado por um nobre romano a quem salva da morte num naufrágio, Judah retorna à Judeia e enfrenta Messala numa corrida de bigas apontada como um dos momentos mais eletrizantes da cinematografia.  Stephen Boyd é o oficial romano na trama. Pouca gente sabe que o autor do enredo, Gore Vidal, insinuou em seu trabalho que existiria uma ligação homossexual entre Judah e Messala. Esse enfoque foi descartado na realização da fita. Ano passado, com Jack Huston (Judah), Toby Kebbell (Messala), Morgan Freeman (mercador que se torna amigo do príncipe judeu) e o brasileiro Rodrigo Santoro (que interpreta Jesus crucificado), lançou-se nova versão de “Ben-Hur”. A diferença de qualidade entre os dois filmes é de tal monta que se faz possível valermo-nos de metáfora para uma explicação: o primeiro “Ben-Hur” está para o segundo assim como o desempenho da seleção brasileira de futebol que levantou o Tri no México está para o desempenho da seleção dos vexatórios sete  a um no Mineirão.

A comédia romântica “Sabrina” de 1954, com a meiga Audrey Hepburn, Humphrey  Bogart e William Holden, mesmo tendo saído ao agrado do público e da crítica, não resiste, falar verdade, a um confronto com a “Sabrina” de 1995, estrelada por Harisson Ford, Julia Ormond e Greg Kinnear. A historieta da jovem filha de motorista cortejada por dois irmãos, um deles play boy, o outro compenetrado executivo de poderoso conglomerado empresarial familiar, revela-se bem mais glamorosa e interessante no segundo momento.

 O clássico “Sete homens e um destino”, faroeste inspirado no célebre “Os sete samurais”, de Akira Kurosawa, foi lançado numa segunda versão em 2016, com Denzel Washington à testa do elenco. O filme bateu recorde de bilheteria. Em que pese o ritmo eletrizante da narrativa, bem ao gosto dos aficionados das películas de ação, a versão de 1960, que traz Yul Brynner como protagonista principal, merece ser apontada como de feição artística superior.

Chegamos, por último, nesta singela avaliação comparativa, a um dos maiores filmes de todos os tempos: “Doze homens e uma sentença”. Na versão de 1967, com o excelente Henry Fonda e um soberbo conjunto de atores, direção de Sidney Lumet, a cinematografia atinge um de seus instantes de mais raro esplendor. Na versão de 1997, com Jack Lemmon igualmente encabeçando portentoso grupo de intérpretes, dirigidos por Willian Friedkin, defrontamo-nos com outro celuloide de inspiração requintada, em condições de também galgar pódio na arte cinematográfica.


Tom, Edu e “Caffeine”

Cesar Vanucci

A música é como o pão – elementar e santa, e é de todos.”
(Tristão da Cunha)

O locutor que lhes fala viveu a deleitosa emoção de ver, com estes olhos que a terra um dia vai comer (só que, a depender da própria vontade, daqui muitos anos ainda), três soberbos espetáculos musicais, no curto espaço de 48 horas. Dois deles – ora, veja, pois! – via televisão, com a sintonização de canais por assinatura em momentos, tanto quanto se sabe, de minguada audiência. O terceiro espetáculo, encenado em aconchegante espaço cultural denominado “Autêntica”, na Savassi, Belo Horizonte, foi acompanhado de perto, bem ao alcance das mãos, pode-se dizer. Afianço, com convicção, que shows como esses só de raro em raro costumam pintar no pedaço.

Falo, primeiramente, das imagens captadas na telinha. O canal da Paramount trouxe um senhor documentário sobre a obra de ninguém mais, ninguém menos, do que Tom Jobim. Produção esmeradíssima, em condições de extasiar qualquer tipo de público, em qualquer parte do mundo. À vista do que está dito, dá pra avaliar o elevado grau de intensidade em matéria de embevecimento que o espetáculo certeiramente suscitou no espírito das legiões de admiradores do compositor, mundialmente reconhecido como figura exponencial na galeria dos fazedores de arte musical. Intérpretes vocalmente e instrumentalmente famosos encarregaram-se de espalhar os sons de algumas lindíssimas páginas do inesgotável repertório do genial maestro brasileiro.

O outro show mostrado na tevê foi produzido pelo canal Brasil, uma referência marcante na divulgação da cultura nacional. Comemorando os 70 anos do esplêndido compositor Edu Lobo, a emissora promoveu magnífico desfile de melodias de sua autoria. Parceiros de inesquecíveis canções, entre eles Chico Buarque de Holanda, outro titular absoluto do escrete brasileiro de brilhantes compositores, estiveram presentes. Num dos instantes mais apreciados do evento, Edu brindou-nos com antológica interpretação do “Trem Caipira”, de Villa Lobos.

O terceiro espetáculo empolgante que faço questão de destacar neste acolhedor minifúndio de papel (evocando metáfora bolada pelo saudoso Roberto Drumond) coloca sob foco o magistral e ainda não suficientemente louvado “Caffeine Trio”. As cantoras de formação lírica que compõem o admirável conjunto fizeram, perante plateia numerosa e vibrante, que as aplaudiu de pé, exigindo bis a cada número, o lançamento de seu primeiro DVD. Trajadas a caráter, Renata Vanucci, Sylvia Klein e Carolina Rennó, em lindíssima performance, imprimiram estilo todo peculiar, valendo-se de arranjos considerados  introspectivos, às peças brasileiras e internacionais interpretadas. Os lances coreográficos e gestuais que serviram de moldura à exibição deixaram patente que, além de excepcionais cantoras, todas possuem também vocação para atrizes. Difícil pacas, no espetáculo montado, apontar qual o trecho mais eletrizante. Consciente disso, este escriba limita-se a anotar, à guisa de mera ilustração, as interpretações de “Taí”, “Aurora”, “Mas que nada”, “Meu sangue ferve por você”.

Dois registros a mais apenas, pinçados numa infinidade de observações sugeridas pela atuação do Trio: 1) O acompanhamento instrumental foi de excelente nível; 2) O “Caffeine Trio” cumpriu recentemente um roteiro artístico na Alemanha, com retumbante sucesso.

E pra final de papo, animo-me a deixar aqui uma perguntazinha: o que andam, afinal de contas, esperando os responsáveis por espetáculos musicais levados ao ar na televisão e levados a cena em teatros e casas de shows para incluir o primoroso grupo em suas listas rotineiras de convidados? O bom gosto artístico ficará sumamente agradecido quando isso começar a acontecer.


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