sexta-feira, 5 de maio de 2017

Unidos, jamais vencidos

Cesar Vanucci

“Qualquer semelhança é mera coincidência”.
(Registro celebrizado em produções cinematográficas)

Programar o encontro foi nada mole. “Uma verdadeira odisseia”, comentou o responsável pela ideia. Demandou exaustivos e exasperantes esforços. Principal articulador da reunião, o político mineiro de cognome “Santinho do pau oco” até que foi acolhido com razoável simpatia por gregos e troianos. Ou seja políticos das diferentes correntes partidárias, muitos deles, pelo menos para as arquibancadas e gerais, adversários hostis. Coadjuvado competentemente pelo colega paulista cognominado “Malandro refinado”, deu-se conta de que sua aceitação nas funções sem grandes questionamentos decorreu da familiaridade demonstrada, ao longo da carreira, com as variadas modalidades de mensalão, tanto os regionais quanto os federais.

Botou todo ardor e empenho na tarefa de reunir a patota enredada nas trapalhadas da corrupção institucionalizada. Fez das tripas coração. Engoliu sapos, cobras e lagartos pra tudo sair nos conformes. Valeu a pena. A reconhecida habilidade dos articuladores do encontro para negociar contornou malquerenças supostamente insuperáveis. Alguns  convidados confessaram-se relutantes em sentar na mesa dos entendimentos com pessoas com as quais haviam trocado desaforos. Desavença difícil de ser aplainada foi a que envolveu os companheiros de cognome “Robin Hood tupiniquim” e “Bagre ensaboado”. O primeiro alvejou o segundo com xingamento de mãe. Este, em represália, prometeu “quebrar a fuça” do desafeto no momento em que o topasse no clube por ambos (e por toda a grei política) frequentado. Um argumento fulminante persuadiu todos a baixarem o facho e acomodar momentâneas malquerenças. “Numa hora como essa, sacumé?, com a classe política na berlinda, ameaçada até de sobrevivência, impõem-se gestos de renúncia para superação de divergências circunstanciais. Um poder mais alto se alevanta”. “Precisamos ser pragmáticos. Conter ações de varejo é fórmula vital para salvar os negócios por atacado”. Foi o que judiciosamente se asseverou.

Rodeado das precauções de estilo – distribuição de senhas, contrassenhas, emprego de aparelho detector de metais de maneira a evitar arapongagem eletrônica, compromissos formais em torno de inviolável sigilo mode evitar vazamentos midiáticos -, o encontro dos implicados nas maracutaias transcorreu em atmosfera surpreendentemente harmoniosa. Quem temeu por agravos espantou-se com o excesso de afagos. Prevaleceu, no final das contas, um forte sentimento de preservação classista. Os argumentos expendidos e as deliberações tomadas deram o tom do estado de espírito reinante. A relembrança de pilantragens pretéritas caídas no esquecimento - tipo casos PC Farias, Daniel Dantas, Anões do Orçamento – foi encorajante. As recomendações sobre os procedimentos adequados a observar nas atuais circunstâncias repercutiram bem.  O correto – explicou-se - é reagir às denúncias com declarações peremptórias de gênero manjado: “nada sabemos a respeito”; “todas as doações foram rigorosamente feitas dentro da legalidade e aprovadas pela Justiça Eleitoral”; “no curso do inquérito tudo ficará devidamente esclarecido”; “todos os aportes de recursos foram contabilizados e figuraram na prestação de contas aos órgãos fiscalizadores”; “desconhecemos o teor das acusações que nos são imputadas”; e por aí vai...

Contar “a favor da causa” com a tradicional morosidade da Justiça; com eventuais prescrições processuais; com enorme sobrecarga de trabalho nas apurações em função da inclusão nos interrogatórios de outras centenas de personagens apontados em delações – ajudou a gerar expectativa menos pessimista por parte dos ilustres próceres. Considerou-se também a hipótese de declarações públicas com reconhecimento dos ilícitos praticados. Recordou-se que isso já foi feito por respeitáveis parceiros. Alguns deles mantiveram o semblante de madeira de lei imperturbável diante das câmeras, foi o que se viu. Pode ser que dê certo.

Um momento no encontro marcado por singular emoção foi o da aprovação por unanimidade do “slogan” a ser usado nas ações defensivas do grupo, composto de apreciável contingente de conspícuos cognomes. Assessor de marquetagem presente assegurou que, apesar de surrado, o “slogan” escolhido revelou-se eficaz noutras campanhas: “Unidos, jamais seremos vencidos!”

Todo mundo saiu convicto do acerto nas confabulações havidas. Elas podem ajudar muito no grande esforço em que tanta gente se concentra em favor de um acordão. “Afinal, somos todos ocupantes de um mesmo barco”, ponderou, categórico, aplaudido pelos demais, o participante cognominado “Juca Remela”. Constou no final, que dois convivas, o “Pelicano” e o “Jaguatirica”, num canto da sala, chegaram a trocar ideias sobre a perspectiva de assumirem a coordenação das ações do grupo, vislumbrando algo capaz de contemplá-los, à vista dos presumíveis benefícios gerais, com os capilés de praxe assegurados pelos departamentos especializados em propinas das empreiteiras. Se viável a hipótese, uma coisa é certa: os “abonos” terão que ser concedidos em dinheiro vivo, nada de depósito em contas no exterior, acertou-se.

A história acima é pura ficção. Ou será que não?




“Apocalipse now”, nada de ficção

Cesar Vanucci

“As crueldades e as perfídias inerentes à guerra cobrem o ser humano de uma infâmia mortal.
(Anatole France)

Revi o “Apocalipse now” indoutrodia. A fita é relacionada por muitos cinéfilos entre os clássicos dos dramas de guerra. A atmosfera asfixiante de ambiente povoado por ferocidade bélica é muito bem retratada, adquirindo ênfase na magistral interpretação de Marlon Brando como o sinistro coronel Kurtzz. Recordei-me de pronto que não se trata apenas de personagem de ficção, ao contrário do que se possa imaginar. O coronel é uma figura de carne e osso.

O nome dele é Flint Cole. Militar aposentado do Exército, vivia até recentemente em São Francisco, Estados Unidos, carregando consigo as lembranças tenebrosas de uma guerra sem quartel em que esteve envolvido no Laos. Uma guerra clandestina não admitida oficialmente pelo governo dos Estados Unidos.

Esplêndido documentário levado ao ar tempos atrás pela GNT colocou-nos a par da inacreditável trama. Repórteres estadunidenses, mergulhando fundo em pesquisa que se arrastou por meses e varou continentes, conseguiram compor o assustador itinerário de vida do temido “senhor da guerra” das selvas laosianas. Condecorado como herói na 2ª Guerra Mundial, o coronel foi recrutado pela agência de espionagem CIA, na Tailândia. Deram-lhe a incumbência de organizar um exército mercenário, agregando nativos de uma etnia hostil às forças comunistas do Vietnã que mantinham sob seu jugo parte do território do Laos. Dirigentes daquela agência e membros do serviço diplomático americano deixaram claro para Cole que sua ultrassecreta missão, abrindo novas frentes de batalha, jamais seria oficialmente reconhecida. A posição dos que estavam contratando seus serviços profissionais seria a de negar enfaticamente, em qualquer circunstância, informações ligadas às atividades do coronel que eventualmente viessem a escapar aos controles rígidos da censura oficial.

Os desdobramentos do caso podem ser assim resumidos. A “guerra que não houve” tendo por palco o Laos transformou-se numa tremenda carnificina. Centenas de milhares de pessoas foram mortas. Consta que os aviões despejaram mais bombas nas áreas conflagradas do que na segunda guerra mundial inteira. Kurtzz, ou seja Cole, combatente sanguinário, à frente de grupos bem municiados, tomado de delírios de mando, alterou os rumos da maluca missão que lhe foi atribuída. Acabou montando um esquema de guerra todo pessoal. Num determinado momento, a situação fugiu inteiramente ao controle e às orientações de seus superiores. O exército particular do coronel praticou atrocidades sem conta. A decapitação de inimigos, a retirada de seus órgãos como troféus de guerra e até mesmo a prática do canibalismo compuseram o estoque de maldades que, anos a fio, cuidou de espalhar na zona convulsionada e que lhe valeu a lenda aterrorizante projetada mais tarde no cinema.

O documentário a que fazemos alusão é impressionante. Os depoimentos reunidos são de estarrecer um frade de pedra. Os repórteres chegam, no final da investigação, a confrontar o coronel, então residente em São Francisco. Já tinham ouvido, no Laos, na Tailândia, nos Estados Unidos, arrepiantes relatos de outros personagens do brutal drama encenado. As declarações de Cole confirmaram, em gênero, número e grau, os desatinos e barbaridades acontecidos nas selvas laosianas. Na entrevista, em que se conduziu com perfurante frieza, o cara ressalta que as guerras são mesmo assim: algo infernal. Todos nutrimos, verdade seja dita, a impressão de que é isso mesmo. Mas as palavras e o percurso guerreiro do coronel deixam-nos diante de inimaginável  dimensão de horror.

Contribuem para que se apreenda melhor aquilo que Padre Vieira sustenta nos “Sermões”: “É a guerra aquela calamidade composta de todas calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça, ou não se tema; nem bem que seja próprio e seguro.” 

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