sexta-feira, 1 de abril de 2016


Desfile de horrores

 Cesar Vanucci

 “... Loucura, ou verdade, tanto horror perante os céus?”
(Relembrando Castro Alves)
Graças aos mágicos instrumentos eletrônicos deste nosso paradoxal e atormentado estágio civilizatório, podemos acompanhar a tempo e a hora o desfile contínuo de tragédias geradas pela ambição e insanidade humana. Não há, pois, como evitar sorver, em indigestas doses diárias, a angústia e preocupação provocadas pela desditosa e insolúvel questão dos refugiados. Somam hoje mais de 1.5 milhão e a tendência é de que o contingente duplique a médio prazo.

As imagens despejadas na tela, a começar pelo que rola nos devastados territórios onde tem origem a encrenca toda, são arrasadoras. Um vendaval de horrores! A começar pelos lances específicos da guerra, melhor dizendo, das guerras propriamente ditas - calamidades compostas de todas as calamidades imagináveis e mais as inimagináveis, como diria Vieira –, ceifando vidas preciosas, mutilando pessoas, reduzindo a escombros patrimônios valiosos. Uma após outra, as desgraças vão se acumulando. Os atos de crueldade, levados a extremo paroxismo, no tratamento dispensado a “inimigos”, mostrados ao vivo e em cores. As fugas desesperadas rumo a destinos incertos e não sabidos. As traiçoeiras, para muitos fatídicas, travessias marítimas. As hostilidades, humilhações e desconfianças enfrentadas por boa parte dos condenados ao exílio, em locais tidos presumivelmente como de solidário acolhimento. O desaparecimento – Deus do céu! – de menores em número elevado no fluxo caudaloso e desordenado das multidões, muitos comprovadamente aliciados à força pelas máfias de lenocínio. As provações de toda ordem nas caminhadas sem rumo definido. E, como já documentado contundentemente, a severa repressão das tropas de choque, na base do cassetete, jatos de água, balas de borracha, gás lacrimogênio e de pimenta e de outros “convincentes apetrechos”, a migrantes que imploram mais espaço nos guetos em que se acham confinados na civilizada Europa. Parte das levas de refugiados está sendo jogada em terrenos desprovidos de qualquer tipo de conforto básico, inclusive banheiros. E, ainda assim, alguns dos “abrigos” vêm sendo demolidos por tratores e escavadeiras, de modo a impedir a chegada de mais foragidos do caos sírio e de paragens adjacentes.

Os conflitos de interesses em jogo são de tal ordem que se afigura praticamente impossível possam lograr êxito as tentativas de se por fim ao morticínio e à selvageria responsáveis pelo êxodo. Além do mais, a desejável absorção das correntes de refugiados pode, de outra parte, agravar-se acentuadamente face às mudanças políticas que andam acontecendo em alguns países europeus. Os resultados eleitorais vêm favorecendo grupos radicais com propostas xenófobas que se contrapõem às medidas até aqui utilizadas para abrigar os retirantes chegados das plagas conflagradas. Medidas essas, ressalte-se uma vez mais, em desacordo volta e meia com os ideais da confraternização humana e preceitos civilizatórios basilares.

Tão tenebroso colapso humanitário confere, na verdade, gritante atualidade ao brado famoso emitido por Castro Alves noutro momento doloroso da história humana: “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade / Tanto horror perante os céus?!”

Tragédia surreal

Cesar Vanucci

“Surreal e apavorante!”
(Professor Antônio Luiz da Costa,
falando do conflito na Síria)

Os interesses em jogo no(s) conflito(s) bélico(s) que ocorre(m) na Síria e adjacências são de tal monta e complexidade que se afigura impossível, mesmo a tarimbados observadores, vaticinarem qualquer perspectiva de solução próxima para a colossal encrenca. Como sabido, acham-se em andamento negociações de paz articuladas pelos Estados Unidos e Rússia. Tais articulações contam aparentemente com a concordância de Damasco e de representantes dos impropriamente denominados “grupos rebeldes moderados” que se opõem à ditadura Bashar al-Assad. Na mesa de debates não têm assentos os demais protagonistas do ensandecido embate político-militar.

A confusão das arábias armada nas conflagradas regiões, epicentro de tragédia humanitária que estremece o mundo, com milhares de mortos e milhões de refugiados, está contundentemente evidenciada nos posicionamentos de inusitado teor surrealista assumidos pelos litigantes. A noção de “aliados” e de “adversários” se dilui nas refregas repletas de selvageria pela conquista do poder. Isso alimenta, tá na cara, suspeitas de meio mundo acerca do seguinte: as versões trazidas ao conhecimento público a respeito dos acontecimentos ocultam variáveis de impacto atordoante. Ressurgem aí perguntas incômodas que ninguém parece disposto a responder. Como as que se seguem. Quem financia, nos bastidores, as atrocidades do Estado Islâmico? E da Al Qaeda? Onde, afinal de contas, são fabricados tanques, peças de artilharia, carros de combate, demais equipamentos bélicos empregados em elevada escala pelos extremistas islâmicos nas batalhas da Síria, Iraque e Líbia? Se os militantes de tão sinistras organizações, conforme se alega, extraem os recursos necessários às suas operações da comercialização do petróleo existente em abundância nas regiões dominadas, por que cargas d’água então as bem equipadas esquadrilhas de aviões dos adversários não conseguem reduzir a escombros os poços e as refinarias? O que impede os mísseis certeiros dos drones de pulverizarem as frotas de caminhões-tanque e os oleodutos obviamente usados para escoamento do óleo? Como se processa o suprimento de munições, alimentos, peças de vestuário destinados aos combatentes? A rede bancária para transações fica mesmo em que lugar? Se, por outro lado, conforme já admitido, quase 30 mil europeus, sem contar um bom número de norte-americanos, integram as fileiras fanáticas do EI, escuta aqui, como é que essa gente toda conseguiu se deslocar, desembaraçadamente, por tantas estações aduaneiras rigorosas em matéria de controle burocrático, até bater com os costados no front? Intrigante pacas, tudo isso...
 
As informações apresentadas na sequência sobre o confuso protagonismo das forças, extraídas de reportagem de “O Tempo”, mostram a razão pela qual os chocantes eventos daquele martirizado pedaço do mundo, além de espalharem profunda angústia, mexem tanto com a cuca das pessoas.

Bashar-al Assad, presidente da Síria – contrário ao Estado Islâmico, Al Qaeda, outros grupos rebeldes, coalizão liderada pelos Estados Unidos; recebe apoio de: Rússia, Irã, Hezbollah.

Vladimir Putin, presidente da Rússia – contrário aos rebeldes sirios, Estado Islâmico, Al Qaeda; apoia Bashar al Assad.

Ali Khamenei, líder supremo do Irã - contrário aos rebeldes sirios, Al Qaeda e Estado Islâmico; apoia Assad. 

Hezbollah (dirigente Hassan Nasrallah), grupo libanês combatido pelos Estados Unidos e Israel; contrário aos rebeldes sírios, Al Qaeda, Estado Islâmico; apoia Bashar-al Assad.

Barack Obama, presidente dos Estados Unidos – contrário a Assad, Al Qaeda, Estado Islâmico; apoia os rebeldes sirios e curdos.

Arábia Saudita (Salmán bin Abdulaziz, rei) – contrário ao governo Assad; apoia os  rebeldes sunitas e a coalizão dos Estados Unidos.

Turquia (presidente Recep Tayyip Erdogan) – contrário a Assad e separatistas curdos; apoia a coalizão dos Estados Unidos e rebeldes sirios.

Estado Islâmico – contrário ao governo Assad, rebeldes sírios, Estados Unidos, Rússia, Irã, Turquia, exército sírio, Hezbollah, Al Qaeda, curdos e milícias xiitas.

Al Qaeda (frente AL Nusra) – contrária ao governo Assad, Estados Unidos e coalizão, Rússia, Irã, curdos, Estado Islâmico, exército sírio, Hezbollah e milícias xiitas.

Exército Livre da Síria (rebeldes sírios) – contrário ao governo Assad, exército sírio, Rússia, Irã, curdos, Al Qaeda, Estado Islâmico e Hezbollah; recebe apoio dos Estados Unidos e Turquia.

Grupos curdos – contrários ao Governo Assad, Turquia, grupos rebeldes sírios, Estado Islâmico, Al Qaeda; recebe apoio dos Estados Unidos e coalizão.

Nenhum comentário:

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...