sexta-feira, 25 de março de 2016

Reflexões sobre a fala das ruas

Cesar Vanucci

“Diálogo à exaustão!”
(Aconselhamento da CNBB)

A mensagem das ruas foi de clareza solar. As lideranças políticas e as dos outros setores com reconhecida influência decisória na vida nacional não podem se furtar, jeito maneira, ao dever de assimilá-la em suas propostas essenciais. Elas exprimem o sentimento popular.

Os métodos de fazer política estão sendo veementemente questionados. A mesma contestação se aplica aos privilégios oligárquicos originários de nefastos conluios de agentes públicos inidôneos com gananciosos e inescrupulosos empreendedores da iniciativa privada. Das cabeças pensantes mais lúcidas, verdadeiramente comprometidas com as grandes causas, temos os brasileiros o direito de aguardar, tomados de generosa expectativa, posicionamento capaz de amortecer os impulsos negativos da crise. E cumulativamente constituir ambiente favorável à efetivação das mudanças fundamentais nos processos de gestão da coisa pública, tão reclamadas pela sociedade.

Importa, nesta hora, reconhecer as virtualidades incomparáveis da índole brasileira. Essas virtualidades foram postas à prova, mais uma vez. O tom vibrantemente pacífico das passeatas, as palavras de ordem diversificadas intensamente propagadas, o exercício amplo e irrestrito da liberdade de expressão compuseram um cenário formidável de pujança democrática. O que se desvelou serenamente aos olhares gerais, atrás do clamor ouvido, foi novo e retumbante brado de esperança.

O contexto político atual confere reluzente oportunidade à convocação feita, a dirigentes políticos de todos os matizes, pela respeitada Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Anunciando apoio às manifestações populares e frisando que “adversários políticos não podem se tornar inimigos”, a entidade proclamou que o Brasil anda precisado de “diálogo à exaustão”. Revelando preocupações com a ausência de valores éticos e morais na “crise política econômica institucional”, a CNBB assinala também ser dever do Congresso Nacional e dos partidos políticos “fortificar a governabilidade”. O momento, diz ainda, “não é de acirrar ânimos”. Faz-se necessário que as pessoas não percam o bom senso, “querendo defender suas opiniões de forma tão veemente que acabam se esquecendo do respeito aos outros e, assim, ferindo-se mutuamente”. Palavras lúcidas e sensatas, as dos Prelados! Servem de balizamento para as atitudes dos interessados nas soluções dos problemas que nos afligem.

Outra contribuição oportuna para que sejam dissipadas compreensíveis ansiedades e angústias, nascidas do desejo de que as mudanças comportamentais demandadas se processem em ritmo mais acelerado, provém da sabedoria oriental. O ensinamento é do guru indiano Sai Baba. Procuremos adaptá-lo à realidade brasileira. Ao nos deparar com os resultados produzidos pelo satisfatório funcionamento de nossas instituições democráticas no combate a malfeitos sistemáticos, poderemos ser levados, equivocadamente, a inferir que tudo está perdido. Estaríamos atravessando momento de asfixiante penumbra. Que tal mudar o enfoque para admitir que, ao contrário, este momento é de luminosidade? Aqui está, para reflexão,  registro comparativo sugestivo. A troca de uma lâmpada de 40 watts por outra de 100 watts no quarto de despejo leva-nos a enxergar no lugar sinais de desordem e de sujeira que nem de leve imaginaríamos existir. A luminosidade abundante, derivada de uma mudança de patamar da consciência, tem o condão de expandir a percepção para engodos, ilusões, por aí... Chama atenção pra coisas que não vinham sendo lançadas nos sacos de lixo, mas empurradas pra debaixo do tapete. Estamos sendo convocados, neste instante, a fazer arrumação no quarto de despejo. O bom senso aconselha aprender a assimilar em plenitude esta positiva vibração energética. Isso aí!

Notícias ligeiras

Cesar Vanucci

“Recuso-me a acreditar nas notícias...”
(Henriqueta Lisboa, 1901-1985)

O ranking das mentes científicas mais influentes deste mundo de Deus, povoado por 7,5 bilhões de seres humanos, aponta os nomes de quatro brasileiros: Ado Jório, Adriano Nunes-Nesi, Alvaro Avezum e Paulo Artaxo. Os dois primeiros atuam em Minas. Jório é da área de física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Adriano faz parte do corpo de pesquisadores da área de ciências das plantas e dos animais da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Avezum trabalha em medicina clínica no Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese e Antaxo no departamento de física da Universidade de São Paulo (USP).
Este fato extraordinário, merecedor de todos os aplausos e louvores, foi laconicamente registrado em notas de pé de página, em letra bem miúda, no noticiário nosso de cada dia. Em debochado contraste – assinale-se – com a divulgação estardalhante que, dia sim, outro também, a mídia impressa e televisiva reserva para os conflitos existenciais e os gloriosos feitos dos célebres ocupantes da casa do “Big Brother Brasil”..., minha nossa!

Naná Vasconcelos. No ver dos críticos, era o melhor percussionista do mundo. Abiscoitou por oito vezes o “Grammy” e outros laureis internacionais. Usava da arte para promover mudanças sociais relevantes. Um de seus projetos, o “Língua Mãe”, beneficiou crianças carentes no Brasil e países latino-americanos, europeus e africanos. O nome deste patrício brilhante, pernambucano, 71 anos, vítima de câncer, que acaba de nos deixar, era Naná Vasconcelos.

O mosquito-vilão. Ninguém provido de juízo e bom senso cometerá, com certeza, a insensatez de recusar apoio às recomendações das autoridades sanitárias pertinentes ao combate do incômodo mosquito apontado como transmissor dos vírus da zika, dengue, chicungunya e de outros malefícios ainda por serem devidamente classificados. Mas, de outra parte, não há como fugir à constatação de que no espírito popular ganha consistência uma certa perplexidade com relação a essa súbita elevação do grau de periculosidade atribuído a um inseto que sempre circulou solto por aí sem causar aparentemente os transtornos que lhe são agora debitados. Fica-se com a sensação de que, nessa engrenagem toda de divulgação montada para alertar a população, em centenas de países, dos riscos produzidos pelo vilão do momento em matéria de saúde pública, andam faltando peças fundamentais pra encaixar no quebra-cabeça armado, de modo a garantir possa ser decifrado por inteiro.

O barulho. Uma grande amiga com realçante participação na vida literária, integrante do reduzido, posto que leal, quadro de leitores deste desajeitado escriba, encaminhou-me texto poético de William Morris bastante apropriado para o momento: Vejam se não é mesmo assim: “Que é isso, esse som e barulho? / Que é isso que todos ouvem, / Como o vento em vales ocos quando a tempestade se aproxima, / Como o rolar do oceano no anoitecer do medo? / É o povo em marcha...”

Notícias. De um poema (“Pousada do Ser”), de Henriqueta Lisboa, selecionado por Paulo Rónai para seu “Dicionário de Citações”: “Recuso-me acreditar nas notícias / mas elas se impõem de cátedra / com implacável desfaçatez / talvez para convencer-nos / de que somos todos culpados.”


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