sexta-feira, 22 de abril de 2016

Maracutaia de dimensão global


Cesar Vanucci

“... um sistema econômico manipulado para favorecer os poderosos”.
(Registro da Oxfam sobre os paraísos fiscais e suas “offshores”)

Os famosos “paraísos fiscais”, caixas-fortes de contas secretas predominantemente constituídas de mufunfa de origem suspeita, atraem na atualidade de forma intensa os holofotes da mídia. Tudo advém de um trabalho jornalístico internacional de fôlego. Ancorado em toneladas de documentos, o “Panama Papers” trouxe a lume os pormenores de uma corrupção global em proporções nunca vistas.

O colossal escândalo envolve 214 mil “clientes” em todos os cantos do mundo. Um punhado de brasileiros figura na lista. Segundo denúncia do jornalista Henrique Beirangê na “CartaCapital”, estariam havendo tentativas, em setores da Justiça e da Comunicação, de ocultar da opinião pública brasileira informações relevantes acerca da participação no esquema fraudulento investigado de alguns desses nossos patrícios.

O “Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos” (ICI, em inglês), integrado por mais de uma centena de profissionais, debruçou-se durante um ano no exame de 11,5 milhões de documentos pertencentes a uma firma de consultoria com sede no Panamá, a “Mossack Fonseca”. O resultado desse esforço foi uma impressionante coleta de dados sobre o “modus operandi” das tais “offshores”. Ou seja, desses sistemas criados em alta escala com o fito de resguardar conveniências de abonada clientela interessada no mínimo em tapear o erário. Mas está comprovado que boa parte das organizações e pessoas que recorrem ao esquema cogita mesmo, no duro da batatolina, de conservar na moita recursos abocanhados em outras diversificadas atividades ilegais. A saber: lavagem de dinheiro, corrupção, negócios de armas e de drogas, sonegação de impostos, contrabando, ocultação de patrimônio e por aí vai...

A extrema fragilidade do sistema financeiro mundial ficou, outra vez mais, evidenciada na análise da documentação arrolada pelos jornalistas. Importantes corporações empresariais, investidores de grande porte, personagens de presença realçante no cenário político internacional foram apontados como autores das ilicitudes praticadas. Entre eles, chefes de governo ainda no exercício do mandato. Casos da Argentina, Rússia, Inglaterra, Islândia, China. E mais: 70 ex-Chefes de Estado, incluídos ditadores sobre os quais pesam acusações de haverem saqueado os cofres públicos de seus países. Da relação dos “paraísos fiscais” mapeados, em número de 21, fazem parte Panamá, Suíça, Ilhas Cayman, Estados Unidos (província de Nevada), China (Hong Kong), Cingapura, Luxemburgo. Estima-se que 500 bancos envolveram-se nas mutretas, favorecendo o esquema das fraudes montadas com o objetivo de atender às safadezas cometidas por 16 mil empresas de fachada situadas em 200 diferentes países. Cento e quarenta políticos, empresários e funcionários públicos, 7 agremiações partidárias e 57 elementos, por sinal já devidamente enquadrados por outros crimes de corrupção, responderiam pela “cota-parte” de nosso país, num primeiro levantamento, sujeito obviamente ainda a alterações numéricas, nessa formidanda maracutaia de dimensão universal...

Estimativas consideradas demasiadamente conservadoras sustentam ser de 7,6 trilhões de dólares os depósitos recolhidos nesses “paraísos fiscais”. A soma equivale aos PIBs da Inglaterra e da Alemanha, com alguma sobra. Representa 8% da riqueza mundial. Recentemente, conforme assinalam Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo num substancioso comentário divulgado na “CartaCapital”, o “Comitê de Oxford para Alívio da Fome”, sigla OXFAM, chamou a atenção para uma rede de paraísos fiscais e uma indústria de evasão fiscal que floresceu nas últimas décadas e que constitui um exemplo inquestionável de um sistema econômico manipulado para favorecer os poderosos. Outra constatação da OXFAM: 90% das 200 maiores corporações do mundo promovem negócios nos “paraísos fiscais”. Os investimentos canalizados em 2014 para essas cidadelas de fortunas mal adquiridas foram quatro vezes maiores do que em 2001.

É assim que a humanidade caminha. Nesta nossa maltratada ilha solta no infinito oceano cósmico a ganância desenfreada, apta a promover qualquer ignomínia, confere validade permanente àquele ditado espanhol que diz simplesmente o seguinte: entre Deus e o dinheiro, o segundo é (sempre) o primeiro!


Felicidade Interna Bruta

Cesar Vanucci

“A FIB propõe índices menos materialistas e
mais sustentáveis para avaliar o desenvolvimento.”
(Guilherme Mazui, jornalista)

O reino do Butão, encrustado em deslumbrante paisagem do Himalaia, trocou há décadas o método de aferição da prosperidade comunitária. Substituiu o PIB (Produto Interno Bruto) pela FIB (Felicidade Interna Bruta). O inovador sistema brotou da cachola de um governante dotado de aguçada sensibilidade social, logo se vê. Cidadão empenhado no plantio de estruturas de vida aptas a conferirem ênfase, na busca do progresso, aos índices de desenvolvimento humano voltados para o ideal da sustentabilidade.

Príncipe Jrgme Singye Wang-chu-k, o nome do personagem. Para execução de seu projeto revisionista ele recorreu à ajuda do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). As medidas adotadas influenciaram significativas mudanças nos padrões comportamentais da população. As modificações tiveram em mira o bem-estar social. Não ficaram apenas no plano retórico, como acontece amiúde mundo afora. Generosos anseios de crescimento pessoal ocuparam o centro das decisões nas políticas públicas praticadas. Partiu-se da constatação de que as tradicionais concepções universais sobre o que seja prosperidade não contemplam, nem sempre, os verdadeiros interesses humanos. O PIB, segundo reconhecem reputados estudiosos das ciências sociais, projeta de certo modo uma contabilidade distorcida, desfalcada de humanismo. Deixa ao largo das cogitações imediatas itens valiosos em matéria de desenvolvimento. Parece desconhecer que, além das tabulações econômicas, o processo da construção social autêntica deve englobar informações relativas à educação, expectativa de vida, e outros valores de cunho psicológico-espiritual indissociáveis da dignidade inerente ao ser pensante.

País de PIB minúsculo, o Butão é lar de quase um milhão de pessoas que convivem, no exercício cotidiano, com índices nulos de miséria. Cultura, educação, saúde, uso do tempo, ecologia, padrão de vida, vitalidade comunitária, boa governança e bem-estar psicológico são os fatores constitutivos da FIB, repita-se, Felicidade Interna Bruta. Esses aí os alvos obsedantemente perseguidos pela criatividade e esforço produtivo do país. O ser humano é reconhecido como a medida correta das coisas. Por isso o Butão transformou-se num formidável laboratório experimental onde a criatividade, o labor, a conjugação de vontades estão concentrados no propósito de assegurar a satisfação das pessoas sobre a própria vida. Com toda certeza, esse reino é o pedaço do mundo onde melhor se compreende o desagrado causado à aventura da vida em sua essência por essa tremenda e perversa confusão estabelecida entre “fins” e “meios”, como consequência da ganância reinante no planeta. Os fins – relembremos - são sempre sociais. Os meios, vistos como tais a economia, a educação, a tecnologia, são apenas suportes utilizados para se atingir os objetivos. Sempre sociais.


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