sexta-feira, 29 de julho de 2011

Lembranças sugestivas

Cesar Vanucci *


“A música é barulho que pensa.”
(Victor Hugo)

Um reclame de sabonete, uma resolução em vias de ser implantada na rede de ensino e um filme narrando a historia de um ídolo do “futebol americano”, mostrados sequencialmente numa noite dessas pela tevê, despertaram-me lembranças adormecidas bastante sugestivas.

A marca de sabonete de que se está falando é “Lifeboy”. Anoto vivo empenho publicitário, na atualidade, em se proclamar a excelência do produto. E não é que, coisa de mais de meio século atrás, esse sabonete despontava como campeão absoluto de vendas? Batia retumbantemente na predileção do freguês - um cara que tem sempre razão, como se diz por aí - até mesmo o sabonete “Lever”, “o preferido de nove entre dez estrelas do cinema”, como saborosamente se recorda. Especialistas em marquetagem houveram por bem (ou por mal), determinado momento, em agregar às já devidamente decantadas propriedades daquele insuperável sabão fino e aromatizado outro poderoso elemento atrativo. Bolaram “genial” campanha, levada com o maior espalhafato ao rádio e imprensa (a televisão ainda não operava em escala nacional). Nas linhas gerais, a informação publicitária lançada chamava a atenção de todos, estimulando até um certo sentimento de repugnância, para o “cc”, quer dizer “cheiro de corpo”. O“Lifeboy” surgia, aí, como a cura providencial para o mal. A “marca” “cc” pegou. Tornou-se definição pronta e acabada de odor desagradável provocado por asseio corporal insatisfatório. Foi até dicionarizada como cê-cê. Já a marca do sabonete miraculoso – em condições de eliminar instantaneamente cheiros indesejáveis numa época em que o consumidor não contava ainda com essa inesgotável batelada de produtos de higiene pessoal despejada nas prateleiras pela indústria farmacêutica e de cosméticos – pagou tributo pesadíssimo pela ousada propaganda. Uma propaganda, viu-se logo, concebida ao arrepio de conhecimentos mais aprofundados da psicologia popular. A associação do sabonete com o cê-cê afugentou a freguesia fiel, a ponto de o “Lifeboy” ser compelido a tomar “chá de sumiço” por um tempão. Bota tempão nisso! Renasce, agora, das cinzas, com feição atraente, disposto a reocupar lugar de realce no gosto popular.

Já a resolução do MEC que andou me chamando a atenção é aquela que estabelece para o ano a inserção obrigatória da cadeira de Música no currículo das escolas. Confesso em boa e leal verdade, sem esconder um ligeiro constrangimento, que ainda não ficara sabendo bulhufas da retirada da “Música” do processo de formação escolar de nível fundamental e de nível médio desde os bons tempos em que atuei como diretor de unidades de ensino na Capital e Interior. Da boa experiência acumulada no Sesiminas, onde implantei, atuando como diretor de ensino, sem prejuízo doutras funções executivas no Sistema Fiemg, a rede de “ginásios orientados para o trabalho” (os famosos GOTs) conservo uma recordação de cunho simbólico a propósito do trabalho de orientação musical proporcionado aos alunos. O simbolismo da situação deriva do clima de obscurantismo cultural enfrentado, volta e meia, naquele período, em função do regime político dominante. Preparávamos, no GOT central, localizado na chamada “praça da Cemig”, comecinho de Contagem, uma festa cívica comunitária. A programação contemplava números musicais a cargo do coral. Uma das melodias escolhidas era “Aquele abraço”, de Gilberto Gil. Melodia de gingado e bossa bem brasileiros, ainda hoje, tantos anos passados, frequentadora das paradas de sucessos. Mas a música acabou não sendo cantada. O encarregado da apresentação explicou-se depois: resolveu deletá-la por temer alguma repercussão negativa envolvendo o educandário, já que a canção figurava, segundo soubera, numa relação de criações artísticas vistas com desconfiança pelas autoridades, por causa da letra de conteúdo “suspeitoso”, bem como pela situação de exilado do compositor Gil, “convidado” a deixar o país por algum tempo junto com o parceiro Caetano Veloso.

O retorno dessa disciplina aos currículos é uma boa. “A música é barulho que pensa”, como diz Victor Hugo. “Onde há música, não pode haver coisa má”, assevera Cervantes. A preparação das crianças e jovens para o jogo da vida ganha substancioso reforço com a adoção da medida preconizada.

Ficam para comentário vindouro as considerações concernentes ao filme que focaliza a história de um famoso astro negro do futebol estadunidense.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)



Um filme e uma lembrança


“Não há problema negro, há apenas um problema branco.”
(Richard Wright, escritor negro estadunidense)

O filme a que aludi no comentário anterior, quando me reportava a lembranças sugestivas suscitadas por imagens mostradas na televisão, é “No limite”, lançado em 2008, estrelado por Darrin Dewitt Henson e Dennis Quaid. Não sei dizer se para engabelar incautos telespectadores, mas acontece da fita ser também projetada, às vezes, com outro título: “O expresso”.

Mas no que verdadeiramente importa às considerações que me proponho a fazer, “No limite”, ou “O Expresso”, inspirado em comovente história real, trata da (curta) trajetória de vida (1939 a 1963) de um ídolo negro do chamado “futebol americano”, Ernie Davis. O primeiro afro-americano a conquistar o cobiçadíssimo “Troféu Heisman”, atribuído a atletas que logrem escalar o topo himalaiano nessa truculenta modalidade esportiva disputada por corpulentos atletas com indumentárias parecidas com as dos astronautas e bolas ovaladas, em gramados que lembram nossos campos de futebol. Os tempos de garoto de Davis, que vivia com os avós na Pensilvânia rodeado da ira racista dos vizinhos, sua mudança, em companhia da mãe, para Nova Iorque, onde continuou a sofrer rejeições ultrajantes na convivência comunitária, por conta de sua epiderme, são retratados com toda crueza. A discriminação alveja-o também na chegada à Universidade de Siracusa e até mesmo no período em que, por força de grande talento, passa a integrar a equipe de futebol da instituição. Nada disso impede que se torne em curto espaço de tempo um dos maiores astros do “futebol americano” de todos os tempos. Célebre ainda pelas posições destemidas em defesa dos direitos civis, dentro e fora do campo, Ernie Davis, falecido aos 23 anos, vítima de leucemia, representa ainda hoje uma fonte de inspiração para os militantes dos movimentos em favor da igualdade racial. Num dos momentos emblemáticos da narrativa cinematográfica, o atleta é informado, pelo treinador, após triunfante façanha da equipe, graças à sua atuação, que sua presença na festa comemorativa estava sendo vetada por causa da cor. Na mesma hora, os companheiros do time, brancos na grande maioria, tomam a dignificante decisão de boicotar a celebração, escolhendo uma casa de diversão frequentada pela comunidade negra para o festejo programado. As cenas relativas a essa parte do enredo em particular reavivaram-me na memória velha de guerra um episódio, de feição muito assemelhada, transcorrido aqui em Minas Gerais, marcado pelo contrário por uma atitude de rematada pusilanimidade.

Conto, ou melhor volto a contar como aconteceu.

Anos 60. O Palmeiras acabara de conquistar o campeonato sul-americano de basquetebol. O feito ganhou repercussão nacional. O Jockey Club de Uberaba, possuidor já naquela época de um dos mais belos e imponentes complexos destinados ao lazer e desporto no país, resolveu convidar o sexteto vitorioso para uma exibição em seu ginásio. Evento prestigiadíssimo. Público vibrante compareceu à partida de basquete, fazendo coro com o Jockey nas homenagens prestadas na quadra aos atletas visitantes.

À delegação do Palmeiras ofereceu-se, depois, um baile de gala. Só que com um porém. Numa demonstração imperdoável de racismo, deu-se a conhecer que não seria permitida a presença dos atletas negros. Eram dois. Um deles, principal astro, conhecido por Rosa Branco. Ironicamente, o Rosa, chamado de Branco, foi barrado no baile justamente por não sê-lo. (Esse atleta, falecido há poucos meses em São Paulo, desfrutou no apogeu da carreira prestigio equivalente ao de Oscar).

O gesto foi acompanhado, da parte da comitiva do Palmeiras, de um ato de pusilanimidade incrível. Os palmeirenses brancos, dirigentes e atletas, deixaram os colegas alvo da odiosa discriminação no hotel e compareceram maciçamente à festa, embasbacados com os rapapés programados, como se nada de singular tivesse ocorrido.

Extrai-se daí uma medida exata da falta de sensibilidade social que, de forma mais intensa que hoje, prevalecia naquela época nesses domínios perturbadores da convivência interracial.

Indignado com o acontecido utilizei as páginas do  extinto "Correio Católico" (diário com doze mil assinantes no período em que circulou) e o microfone da Rádio Difusora para críticas veementes. Os responsáveis pelo absurdo procedimento, tentando tapar o sol com peneira, contestaram as evidências. Veladas ameaças foram postas a circular. Falavam em eliminar do quadro de sócios do clube a "cambada de jornalistas", todos "extremistas", comprometidos com as denúncias. Uns dois diretores do clube, mais sensatos, não só se opuseram à tresloucada idéia, como se animaram, até mesmo oferecendo a mão à palmatória, a procurar o jornal e a rádio, pedindo desculpas pela besteira. As inconsistentes contestações e ameaças motivaram-me a desnudar outros aspectos dolorosos do problema da discriminação racial.

Entre as manifestações de solidariedade recebidas figurou a de um dirigente destacado de outro clube da cidade. Cidadão simpático, trazia definidos na tez amorenada traços de ancestralidade negra. Ao cumprimentar-me "pela corajosa atitude assumida no incidente Rosa Branco", ele esclareceu que "em seu clube um absurdo desses jamais ocorreria." Acrescentou, triunfante: "– Lá, não proibimos pretos de frequentar bailes. O que eles não podem é sair dançando. Cada um no seu lugar..."

Como bem diz o escritor norte-americano mencionado no intróito, colocando o assunto da segregação racial no enfoque correto, o que existe, por esse mundo afora, em matéria de discriminação contra negros, não passa apenas de "um problema branco." Um baita problema!





Na próxima edição do “Blog do Vanucci”,
iniciarei uma série de relatos sobre o
 tema OVNIs, com algumas revelações
que podem surpreender muita gente.

Um comentário:

claudia vanucci disse...

Vanucci vamos aguardar as revelações............

A SAGA LANDELL MOURA

ENCONTRO CULTURAL INTERACADÊMICO - 18 DE FEVEREIRO

C   O   N   V   I   T   E A Arcádia Minas Gerais, a Academia Feminina Mineira de Letras, a Academia Cordisburguense de Letras Guimarãe...