sábado, 27 de outubro de 2012

Adeus ao Mestre

Cesar Vanucci *
“Avançar sempre em direção do futuro.”
(Da homilia de Juvenal Arduini, na missa
de seus 90 anos de vida em dezembro de 2008)

Uma das cabeças pensantes mais bem dotadas deste País acaba de deixar-nos, Mas isso - desolador sinal dos tempos -, não mereceu qualquer registro especial na grande mídia. Juvenal Arduini, o personagem em foco construiu obra pujante como filósofo, sociólogo e teólogo. Pregador eletrizante contagiou saudavelmente gerações universitárias inteiras. Viu suas idéias projetadas em livros esplêndidos, de rico conteúdo humanístico e espiritual, debatidas em simpósios, encontros, ciclos de estudos, aqui e alhures, por pessoas sinceramente empenhadas na busca de explicações acerca do sentido da vida.

Juvenal foi uma dessas criaturas admiráveis, dotadas de sabedoria incomum, que colocam os talentos do espírito a serviço do mundo, aqui e agora! Criaturas importantíssimas na construção humana de todos os dias! Por comunicarem da vida a essência. Por saberem interpretar os sinais. Por saberem olhar as estrelas e dar rumo ao navio. Por trabalharem os melhores impulsos das pessoas. Por saberem também iluminar com jatos de claridade, despejados de mente privilegiada e de coração generoso, os caminhos a percorrer, sobretudo quando se mostrem trevosos e arriscados em função da intolerância, do desamor, da injustiça e da fanatice rancorosa.

Há muita gente por aí, aquinhoada de dons singulares, que não sabe ou não quer deles fazer uso adequado. Se, por acaso, se lhes bate uma idéia generosa, de proveito social, costumam estacar diante das conveniências do jogo mundano dos interesses clandestinos. E a idéia, condenada ao enclausuramento, não ganha força em palavras e muito menos em ações. São desertores da causa social. Aplicam mal os talentos. Acumulam débitos na contabilidade da história. Deixam a bola rolar sem assumir compromisso com as apostas da vida.

Já este nosso Juvenal Arduini que acaba de partir, desfalcando nossos quadros da inteligência e da cultura, revelou-se sempre inteirissimo na postura assumida, com a qual procurou incessantemente refletir a natureza das coisas. Dono de inteligência invulgar, própria dos iluminados, ofereceu-nos um documentário vivo do emprego pertinente e fecundo dos talentos dados por Deus. Pelo vigor das idéias e disposições interiores, pela juventude de espírito.

Tornou-se lenda. Foi personagem magnífico de substanciosos capítulos na história da construção humana. Todos que travaram contato com ele, a qualquer tempo, sabiam disso. Gente de dentro e de fora da Igreja. Gente que compartilhava dos conceitos e concepções que defendia. E até mesmo gente que se contrapunha a esses conceitos, mas que não conseguia se desvencilhar do fascínio de seu verbo e do reconhecimento da universalidade de sua pregação.

Arduini teve participação em eventos decisivos ligados à expansão da consciência e conquistas sociais. Em momentos difíceis, quando valiosos ideais de vida eram colocados sob ameaça, o seu desassombro, autoridade intelectual e moral e serena avaliação dos acontecimentos representaram para milhares de cidadãos, uma âncora firme, um abrigo e um acalento. É inevitável a recordação, sem intuitos de atingir personagens menores, à época encastelados em poderosos bastiões do farisaísmo emborcado na contramão da história, da presença marcante de Juvenal Arduini nas batalhas pelos direitos civis, alvejados impiedosamente por muitos nos chamados anos de chumbo. Ele travou essas batalhas no púlpito, em livros, em salas de aulas, conferências e discursos de formatura. Deixou à mostra, o tempo todo, guarnecido de fé e esperança, inabaláveis crenças cívicas, democráticas, humanísticas no superior destino do homem, desenhado nos desígnios de Deus. Fê-lo com altivez num cenário povoado, na época, por extremismos políticos e religiosos, exasperante insensibilidade social, injustiças e incompreensões, tomadas como referência a cidade de Uberaba e outras cidades mais na região do Triângulo Mineiro.

Gerações inteiras vão guardar, com ternura, as imagens de sua presença cintilante nas pregações da célebre “missa dos universitários”. De sua indormida atuação espiritual num santuário conhecido por Hospital São Domingos, dedicado à celebração perene da vida, fundado, mantido e administrado pelas fabulosas Irmãs Dominicanas.

No livro “Hermenêutica – história e futuro”, um dos muitos suculentos e preciosos frutos de seu talento criativo como escritor, sociólogo, filósofo, pensador de escol, que contempla a vida como refulgente aventura poética, ele nos repassou, com riqueza de pormenores, lances portentosos do trabalho desenvolvido pelas dominicanas no Hospital São Domingos. Falava da “essência borbulhante do fenômeno hospitalar”, do “espaço de esperança”, da “moradia de acolhimento” e da germinação cultural para o bem da verdade que emana da instituição.

Em suma, a história de nossos tempos localizou Arduini a desenvolver monumental trabalho de conscientização social. Fiel à doutrina social da Igreja, comprometido com o amanhã da vida, sintonizado em pensadores vigorosos do porte de Teilhard de Chardin, nosso jovem mestre não fez em vida, até os 94 anos de idade, outra coisa, em vasta quilometragem apostólica, medida em anos-luz, do que ensinar que a salvação do homem não vem dos extremos ideológicos, nem das lateralidades geográficas. Vem do Alto.

Vai fazer-nos baita falta.


Padre Lebret brasileiro

“Os púlpitos, daqui e de alhures, (...)
registram a tonalidade sobrenatural de sua voz.”
(Dom Alexandre Gonçalves Amaral, saudoso Arcebispo de Uberaba,
 referindo-se à figura de Juvenal Arduini)


A biografia de Juvenal Arduini comporta um refulgente e insuspeitado registro. O admirável sacerdote e grande pensador – são fortes os indícios de que o fato realmente aconteceu – recusou a possibilidade que se lhe foi oferecida, no passado, de assumir função episcopal. Trago aqui, pela primeira vez, indícios consistentes de como isso poderá ter acontecido.

Anos atrás, década de 60, num papo com o saudoso Padre Eddie Bernardes, então responsável pelos trabalhos de secretaria da Arquidiocese de Uberaba, externei minha surpresa com o fato de Juvenal nunca ter sido convocado pela Igreja a assumir um lugar no Episcopado. Recomendando-me sigilo em torno da informação, Padre Eddie revelou-me que, em seu modo de entender, o convite já teria sido formulado e teria sido simplesmente recusado. Contou-me que, em certa ocasião, um expediente oficial do Vaticano, de características singulares, com lacre confidencial, passara por suas mãos, endereçado ao nosso querido e inesquecível personagem. A intuição forte que bateu em seu espírito foi de que a correspondência continha uma manifestação que, nas previsões gerais da comunidade sacerdotal, parecia algum dia inevitável: a consulta a Juvenal sobre se aceitava a indicação para Bispo. A explicação razoável para a provável não concordância de Juvenal pode ser encontrada na clara e definitiva opção por ele tomada por uma vida simples, de certa forma reclusa na convivência comunitária, apesar da intensidade das ações intelectuais e apostólicas desenvolvidas.

Juvenal foi padre. Padre na completude da palavra. Padre absoluto. Trouxe do berço a vocação inteiriça, abrasada de apostolicidade. Trouxe junto, também, o dom da palavra. Viveu o que pregou. Ensinou o que viveu. Foi mestre incomparável, por várias décadas, de sucessivas levas de universitários vinculados a todos os ramos dos saberes profissionais.

Na cátedra, no púlpito, nos livros que correm mundo, em artigos, deixou registros duradouros da tonalidade sobrenatural de sua voz eletrizante, pra tomar emprestada observação do saudoso Alexandre Gonçalves Amaral, primeiro Arcebispo de Uberaba.

Enfrentando, com galhardia e destemor, toda sorte de intempéries que costumam se antepor à caminhada de líderes autênticos, comprometidos com a construção de um mundo melhor, Juvenal Arduini, pensador de projeção nacional, foi desses personagens incomuns que sabem juntar idéias e ação no desmonte das imposturas sociais incrustadas no comportamento humano como se fossem verdades fatalísticas. Isso levou-o, em não poucos momentos, a encarar de frente os olhares dardejantes de rancor dos poderosos de plantão, que de algum modo acabavam sempre arrepiando carreira, contrafeitos, diante do vigor e pujança de seus argumentos.

Autor de livros como “Estradeiro”, “Homem Libertação”, “O Marxismo”, “Horizonte de esperança”, “Testemunhos inesquecíveis”, “Temas da atualidade”, de estudo esplêndido sobre a fascinante obra de Teilhard de Chardin, esse homem de trato ameno e de vivência franciscana assegurou, ao longo dos anos, com sua presença carismática, um lugar de inconfundível relevo no carinho e no apreço da comunidade em que atua. Em Uberaba, onde estava centrado seu belo trabalho, respondia pela capelania do Hospital São Domingos, um centro de excelência médico-assistencial erguido no Alto da Abadia pelas valorosas Irmãs Dominicanas.


A análise de sua obra confere-lhe lugar de realce na galeria dos grandes pensadores brasileiros. O acesso restrito na grande mídia aos seus trabalhos, determinada em parte por seu estilo de vida singelo em cidade do interior, Uberaba, impediu, de certa maneira, que ganhasse amplitude o conceito que dele tinham círculos intelectuais categorizados, ao apontarem-no como o “Padre Lebret brasileiro”.

Juvenal Arduini foi um contemporâneo do futuro. Um pensador em sintonia com os clamores sociais e com as aspirações de crescimento humano da gente destes tempos conturbados.


Pensamentos vivos do Mestre

“Viver é muito mais do que matar uma charada.”
(Juvenal Arduini, padre)

Juvenal Arduini, o fulgurante intelectual que acaba de partir, adquiriu justificado renome como pensador ao longo de irrepreensível trajetória, medida em termos de tempo por várias décadas. Com suas prédicas e escritos, de riquíssimo conteúdo humanístico, soube colocar para milhares de universitários e pessoas de outros segmentos comunitários ensinamentos valiosos que levam à expansão da consciência e a uma compreensão mais exata do sentido da vida. Sua inestimável contribuição na construção de um mundo melhor, menos desigual, aberto à convivência entre opostos, foi sempre reconhecida pela multidão de cidadãos que se deixou tocar, nos bancos escolares e, depois, na atividade profissional, pelas idéias por ele propagadas na cátedra, púlpito e livros.

Entrego, aqui, à apreciação do leitor, pequena amostra dos pensamentos vivos do mestre.

Sobre a fala gestual do ser humano .“Do ponto de vista da expressão, todo homem é poliglota. Fala através de muitas linguagens. O gesto corporal é uma dessas linguagens.”(...) “O gesto aproxima ou distancia, reconcilia ou divide. (...) O gesto alegra ou amargura, convulsiona ou deprime. (...) O gesto dignifica ou degrada, salva ou fulmina. (...) Em cada gesto é o homem que fala. (...)  Posto o gesto, está posto o homem.

Sobre a paz. “A paz é filha da convivência fraterna e não da servidão imposta.”

Interpretando Teilhard de Chardin. “A complexidade se torna o eixo da vida, da consciência, da evolução humana. O infinito da complexidade aparece como sinal e, ao mesmo tempo, como gênese da ascensão evolutiva do mundo. Nessa linha, é todo o universo que se aclara e adquire sentido, não só como explicação, mas também como criação.”

Sobre a indefinição humana. “A ambivalência é condição humana. A indefinição acompanha o homem até o túmulo. (...) O homem é sempre uma interrogação para si e para os outros (...) Essa ambigüidade é estrutural no homem. Não é apenas um acidente ou secreção derivada da vida. É modo de ser. Ser homem é ser ambivalente, é ser indefinido na raiz existencial.”

Sobre a criatividade humana. “Criar é condição humana. Aniquilar é tentação ou patologia. Para se criar não é necessário realizar obras imortais ou trabalhos excepcionais. Criar é produzir valores, é gerar recursos, é abrir possibilidades, é ampliar a consciência, é levantar projetos, é sugerir soluções, é construir o pequeno trecho que faltava nos caminhos da humanidade.”

Sobre a importância do amor. “Queremos que o amor se responsabilize pela nossa vida, mas não pensamos em responsabilizar-nos pela vida do amor. (...) Tornamos o amor responsável pelo nosso destino, mas falta-nos a coragem de assumir o destino do amor. (...) O amor é vida candente que circula na pessoa e entre as pessoas. É energia que interconexa existências e unifica destinos. (...) Amor é uma situação existencial e dinâmica das pessoas. É forma de viver, agir, trabalhar e comunicar-se. (...) Amor é estender um fio de alegria no chão trincado da existência humana.”

Sobre o ideal da convivência harmoniosa entre os homens. “Se a humanidade deseja viver unida, terá de abolir tudo que a divide. Seria possível promover a união, sem antes eliminar os fatores da desunião? É gritante contra-senso lutar pela unidade e querer preservar situações que distanciam e separam os homens. As pessoas e sociedades só demonstram o desejo eficaz da unificação, quando se mostram dispostas a extirpar os agentes da desagregação.”

Sobre a vocação humana. “Resolver um problema, não é a mesma coisa que viver um mistério. Uma coisa é exercer uma função e outra é responder a uma vocação. Viver é muito mais do que matar uma charada. O homem se caracteriza pela vocação. Encontra-se sempre perante um apelo. Por isso, o ser humano se define pela resposta que vai oferecendo à voz que o chama em cada curva da estrada, em cada pedaço de acontecimento, em cada semblante humano.”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Decisão histórica

Cesar Vanucci *

“Um processo de elevado valor pedagógico.”
(Ministro Celso de Mello, decano do STF)

Não fica difícil, em meros contatos pessoais nos diferentes agrupamentos comunitários, a constatação de que o posicionamento do Judiciário no caso do assim chamado “mensalão” encontrou receptividade ampla na sociedade. Vários questionamentos levantados a respeito da atuação do Supremo, merecedores de óbvia atenção, não são de molde a desfigurar o significado das decisões tomadas no concernente às punições aplicadas aos responsáveis pelos desatinos praticados, que tanto clamor provocaram no seio da opinião pública.

Faz sentido mencionar algumas dessas avaliações críticas ao posicionamento dos ilustres togados. O “mensalão” explodiu há quase 8 anos. A morosidade na condução do processo foi notória e isso deu vaza a críticas pertinentes. Pressionado, de certa forma, pelo bombardeio midiático, a alta Corte resolveu atribuir-se, de repente, o papel, sem precedentes, de instância de julgamento única e especial. Convocou ao banco de réus acusados sem direito a foro privilegiado e estabeleceu um cronograma rígido de trabalho que pudesse coincidir exatamente com o período pré eleitoral, o que pareceu a muitos algo um tanto quanto despropositado. Não poucos juristas conceituados, desvinculados seja profissionalmente, seja politicamente, da tertúlia em foco, divisaram riscos no procedimento adotado. Confessaram-se temerosos quanto à circunstância de que os veredictos venham a produzir, passos adiante, desdobramentos imprevisíveis, implicando até eventualmente em incômodas reformulações.

Outro ponto martelado nessas considerações críticas a que nos referimos diz respeito à atitude até aqui passiva do Judiciário diante de evento análogo ao “mensalão” objeto de julgamento. Esse outro “mensalão”, transcorrido anteriormente, reúne indícios que apontam como prováveis réus personagens de outras falanges políticas baseadas predominantemente em Minas Gerais. A articulação operacional desse esquema, igualmente repudiado pela opinião pública, esteve confiada, como sabido, ao mesmíssimo Marcos Valério. O Judiciário, pelo que se depreende dos fatos, não vai ter como se esquivar do dever de dispensar o mesmo grau de atenção a essa outra aprontação fraudulenta, imprimindo ritmo também ágil à sua tramitação.

Tudo isso devidamente pesado e medido, não há como deixar de reconhecer, todavia, a importância histórica da decisão do STF. Ao declarar explícita, em sintonia com o sentimento popular, sua intolerância quanto às praticas criminosas de malversação dos recursos públicos e de corrupção, a mais alta Corte judiciária brasileira fixou marco simbólico nas relações das forças do Poder constituído. Deu voz às aspirações em torno das mudanças e da transparência absoluta requeridas em atos administrativos, inclusive os da própria Justiça, que embalam as expectativas e esperanças das ruas quanto à construção de um país cada vez melhor, mais consciente dos direitos e deveres da cidadania.

O julgamento comentado e os julgamentos que, certamente, haverão de sucedê-lo são processos impregnados de elevado valor pedagógico, como sublinhou o Ministro Celso de Mello, decano do Supremo. Ditam exemplos. Traçam rumos. Expõem à clareza solar recomendada pelo regime democrático ações que, muitas e muitas vezes, no passado, desoladoramente para nossos foros civilizatórios, foram sempre, discreta e descerimoniosamente, empurradas pra debaixo do tapete.


Modelo coreano

“Perdão foi feito pra gente pedir.”
(Verso de saborosa melodia da MPB)

Pelo menos num aspecto, a decantada Coréia do Sul, um dos tigres asiáticos volta e meia apontados entre nós como paradigmas no processo de edificação de uma economia moderna, me encanta. O citado país, como nenhum frequentador de jornal televisivo tem o direito de ignorar, é aquele país habitado por estudantes brabos que, com frequência, saem às ruas para protestar, correndo da polícia, ou pondo a polícia pra correr. Mas, nada de equívocos. Não queiram identificar na indignação cotidiana da meninada, por favor, o item reluzente nos procedimentos coreanos que prende especialmente a minha atenção.

O que consegue me tocar e, sinceramente, me deixar com santa inveja é a presença constante na televisão, para reverentes explicações públicas, dos políticos e empresários que ali são pegos, como se diz por aqui, com a “boca na botija”. Quando dos “flagras” de corrupção ou de outro malfeito qualquer, os indiciados expõem a cara diante das câmeras, apresentando formais desculpas à nação. Confessam, via rede nacional, sua culpa. O gesto parece incorporado à cultura cívica do país, sem que o arrependimento, ao que tudo indica, seja passaporte para a impunidade.

Sem a constância coreana, mas provavelmente inspirados no exemplo, japoneses e chineses também agem assim. E, de certo modo, até os americanos. Anos atrás, vimos o então presidente Clinton desculpar-se perante líderes negros do Alabama, região em que se revela mais poderosa a influência da nefanda Ku Klux Klan, pela utilização de seres humanos como cobaias num experimento científico que, em proporções reduzidas, lembrou “pesquisas” alemãs e japonesas do passado. Pessoas negras, atacadas pela sífilis, foram enganosamente submetidas a um tratamento com uso de droga dita revolucionária. Na realidade, não havia medicamento algum. Eles participaram, minha Nossa Senhora d’Abadia da Água Suja, de um macabro teste de resistência física à progressão da doença.

Fico imaginando quão proveitoso e pedagógico acabaria sendo, para nossos foros de cidadania, a adoção do modelo coreano. A programação das emissoras teria que ser obviamente alterada, já que razoavelmente volumosa a lista dos ilustres patrícios em condições de ocuparem o horário nobre com seus reparadores pronunciamentos. Seja como for, o momento se oferece propício pra muita gente, em tudo quanto é atividade, cogitar de pedidos de desculpas à Nação por irregularidades cometidas.

Algo carece ser, a propósito, de antemão, anotado em boa e leal verdade: mesmo que a lista dos personagens detentores dos “requisitos essenciais” exigidos para o “mea culpa” diante das câmeras seja numerosa, o que tem acontecido, de algum tempo pra cá, entre nós, em matéria de apurações de fatos nocivos ao interesse público, de indiciamentos e já também de condenações, merece ser saudado como auspicioso.

Está havendo como quê um despertar da consciência comunitária. Isso tem impedido, ao contrário do que ocorreu intensamente no passado, que malfeitos nas atividades públicas sejam sistematicamente empurrados pra debaixo do tapete. Uma conquista republicana de autêntica cidadania, não se pode deixar de reconhecer. Cuidemos de celebrá-la.

E já que se está mesmo a falar, neste comentário, da possibilidade de pedidos de desculpa que se fazem às vezes inevitáveis, acode-me à lembrança, a esta altura, uma emblemática historieta, recolhida do cotidiano, sutilmente atada, por fios invisíveis, ao tema. Envolve alguém conhecido, pessoa de projeção, muito simpática, que se viu enredado numa situação de tremendo constrangimento. Com um punhado de amigos, avançou, madrugada adentro, em folganças boêmias. A chegada ao lar foi patética. Amparada na chorosa solidariedade das irmãs e vizinhas, malas devidamente arrumadas na sala de visitas, a esposa anunciou a inabalável disposição de retornar imediatamente à casa dos pais. As tentativas de explicação esbarraram em implacável interrogatório. A sola gasta do calçado, ele tentou explicar, não foi por causa de dança, não. É que a turma resolveu sair andando pelas ruas, revendo trechos palmilhados na infância distante... O cheiro forte de cigarro não foi trazido de casa noturna, mas, sim, de desgastante reunião de negócios. Por aí. Até que, subitamente, tomado de palidez cadavérica, mais só e desamparado do que náufrago numa ilhota com coqueiro perdida no meio do oceano, não teve como: desabou os joelhos no chão, as mãos postas em gesto de unção, o tom de voz súplice. “- Mulher, perdoe. Eu pequei!”. Nada mais disse, nem lhe foi perguntado. Esclareceria, ao depois: - Prova esmagadora. Marca de batom em peça íntima é fogo... Não tem como justificar.

Tem jeito não. Tem hora que não dá mesmo pra segurar. O que fica sobrando, como única e digna opção, é o dever formal do pedido de desculpas.

Perdão não foi feito pra gente pedir, como se diz na canção famosa?

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma tese sobre buzinação

Cesar Vanucci *

“Todo buzinador inveterado carrega dentro de si
 uma alma gentil ávida por mudança de sexo.”
(Professor Adamastor Abaeté)

Na tevê, são apontados os ruídos mais desagradáveis. Um deles: o estrondo de britadeira rasgando asfalto. Choro de bebê na calada da noite entra na lista. Riscar com as unhas a superfície verde das lousas antigamente conhecidas por “quadros-negros” é outro som indicado como capaz de quebrar o sossego público, no grau supliciante mais extremado.

Essa relação de barulhos incomodativos parece insuficiente. Não foram incluídas, pelo menos, três outras práticas atentatórias - quanto as que mais o sejam - aos bons costumes. Suscetíveis, por esse motivo, de atraírem sanções, na forma de degredo, a escolher entre o charme de Cabul e a hospitalidade de Bagdá. Primeira: as batidas belicosas do róqui bate-estaca. Segunda: o ruído arrepiante, de dar calafrio até em múmia egípcia, de dedo molhado deslizando no espelho. Terceira: a enlouquecedora buzinação que motoristas desvairados, a pretexto nenhum, aprontam no alucinante tráfego urbano.

O buzinaço remete à figura do professor Adamastor, dono de insólita tese acerca dos riscos à saúde decorrentes do emprego descontrolado da buzina. Antes de falar da tese, contemos algo sobre o autor. Adamastor, natural de Catas Altas da Noruega, é sociólogo, com mestrado em Kuala Lumpur, onde residiu à época em que o pai exercia função diplomática. Acompanhando o genitor em sua peregrinação profissional, morou em dezenas de países. Aprendeu idiomas, entre eles o mandarim. Em momento de desencanto, ruptura de casamento (quinto de longa série) com uma atriz croata, alistou-se na Legião Estrangeira, indo servir no Saara tunisiano. Da convivência com culturas do oriente nasceu provavelmente sua inclinação para vivências ocultistas. Prestou serviços como escafandrista em Luxor. Foi pintor de quadros na Riviera. Atuou, ainda, como sertanista, no Roncador. Em Belô, onde residiu por alguns anos, ali por volta do sétimo casório, andou ministrando aulas de física quântica e esperanto. Cometeu livro de versos e se envolveu na preparação de um filme nunca rodado. Sumiu, ao depois, do mapa. Uns dizem que se recolheu a monastério na Capadócia. Outros garantem que anda por aqui mesmo, curtindo as bem-aventuranças ecológicas de uma próspera quinta recebida como herança, lá nas bandas de São José do Mantimento.

Chegamos, finalmente, à tese do polimorfo ensaista. Juntando conceitos de gente respeitada em estudos de comportamento com pesquisas e intuições pessoais, o homem sustenta, com ardorosa convicção, a idéia de que a buzinação é conseqüência fatal de insopitável anseio, do desalmado buzinador, de que se possa operar, algum dia, uma radical mudança sexual em sua anatomia. Até mesmo, pegando ao pé da letra o significado médico do verbo, recorrendo aos préstimos profissionais daquele cirurgião do Paquistão que adquiriu sólida fama mundial em operações transexuais.

O professor entrega copiosa argumentação. Casos de buzinadores inveterados, por ele próprio, exaustivamente, acompanhados. Um deles: rapaz de família abastada, morador do Carmo-Sion. Dono de frota de carros, marido de socialites. De repente, não mais que de repente, chutou tudo pra corner. Mandou-se para Paris, depois de apoquentar, anos a fio, os ouvidos alheios e a tranqüilidade das ruas com diabólicas partituras de buzina. Buzinava sem parar. Saindo e chegando. Pra chamar a atenção de alguém. Nos cruzamentos e sinais, exigindo passagem. Comemorando sempre não se sabe bem o quê. Lá onde reside ocupa, prazerosamente, o cargo de presidente do Sindicato dos Travestis da praça Pigale. Mais um caso: o de uma jovem do Calafate. Cumpria, também exemplarmente, por onde circulava, a sina inapelável da buzinadora frenética. O berro emitido era do estribilho do hino do clube de sua paixão. Largou amigos e familiares. Foi bater com os costados em Manila. Convolou núpcias com uma halterofilista filipina, de origem cigana. Participa, na atualidade, de disputas de sumô, enfrentando galhardamente avantajados especialistas japoneses.

A tese, damas e cavalheiros um tanto quanto chegados à buzinação imoderada, é da responsabilidade exclusiva do Adamastor. Sua, a frase prefacial destas maltraçadas. Esse desajeitado escriba não tem nada a ver com isso.

  
O discurso do Senador

“Usa-se uma entrevista que não houve para,
mais uma vez, tentar indigitar o ex-Presidente.”
(Senador Roberto Requião)

O pronunciamento do Senador Roberto Requião, solidarizando-se com o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante da avalancha de insultos pesados com que vem sendo alvejado por parte de alguns oposicionistas e de grupos midiáticos poderosos, faz por merecer uma boa reflexão.

O ex-Governador do Paraná é veemente nas afirmações. Colocando pingos nos iis, assegura que os ataques são ditados por oportunismo, irresponsabilidade, ciumeira e ressentimento. Acrescenta que os responsáveis pela desabrida campanha são pessoas que jamais “desculparão” a chegada “do retirante nordestino à Presidência da República.” “A ascensão do metalúrgico talvez fosse aceita, mas não a do pau-de-arara! Este, não!”- exclama.

Contundência não falta, é de se ver, no discurso. Mas contundência também não tem faltado, verdade seja dita, em manifestações da mídia anotadas, como exemplos, por Requião, por ele classificadas de desrespeitosas e grosseiras ao ex-Presidente e à atual chefe da Nação.

Um lance específico, da mais pura baixaria, é mencionado. “Por vários dias, a nossa gloriosa grande mídia deu enorme destaque às peripécias de uma pobre mulher, certamente drogada, certamente alcoolizada, certamente deficiente mental que teria tentado invadir o Palácio do Planalto, dizendo-se “marido” da Presidente.” Requião conta que “sem qualquer pudor, sem o menor traço de respeito humano”, jornal de grande circulação nacional transformou “a infeliz em personagem, em celebridade”, chegando mesmo ao absurdo de “destacar repórter para “entrevistar” a mãe da tal mulher, meu Deus!”

Na avaliação do ex-Governador do Paraná, o que parece menos contar, hoje, na oposição, são os partidos, bastante fragilizados. “O que mais conta, o que pesa mesmo, o que é significante, é a mídia”, ou seja, segundo suas palavras, um seleto grupo de jornais, televisões e rádios “que consome mais de 80 por cento das verbas estatais de propaganda”. Acentua, a esse respeito, que um “conjunto de articulistas e blogueiros desfrutáveis” responde na atualidade pela “posição oposicionista nos meios de comunicação”. Usa “uma entrevista que não houve para, mais uma vez, tentar indigitar o ex-Presidente”. Recorda o Senador que, anteriormente, “tivemos o famosíssimo grampo sem áudio”, que levou a uma situação bastante hilária: “a transcrição do áudio inexistente mostrava-se extremamente favorável aos grampeados”. Acrescenta: “Um grampo a favor. E sem áudio. Lembram? Houve até quem quisesse o impeachment de Lula pelo grampo sem áudio e a favor dos grampeados. Houve até quem ameaçasse bater no Presidente.”

Às tantas de sua fala, reportando-se à circunstância de que seu mandato como governador coincidiu com o período dos oito anos da gestão Lula, Roberto Requião faz questão de sublinhar que, “por diversas vezes, inúmeras vezes, manifestei discordância com sua forma de governar, com suas decisões ou indecisões, especialmente em relação à política econômica, à submissão do país ao capitalismo financeiro, aos rentistas.” Mas isso, garante, não o impede, agora, de reconhecer que “não foi pouco o que Lula fez para os pobres.” “Apenas corações empedrados por privilégios de classe, apenas almas endurecidas pelos séculos e séculos de mandonismo, de autoritarismo, de prepotência e de desprezo pelos trabalhadores podem explicar esse combate contínuo aos programas de inclusão das camadas mais pobres dos brasileiros ao maravilhoso mundo do consumo de três refeições ao dia.”, assevera, na complementação dessa parte das considerações.

A crítica do Senador ao comportamento escancaradamente hostil de boa parte da mídia a Lula e Dilma – mídia essa que finge não saber da simpatia e gratidão que a grande maioria da sociedade brasileira comprovadamente devota a ambos – volta-se para dois aspectos bem sugestivos. Um deles: revelam-se assustadores os “pontos de contato entre o jornalismo e o colunismo de antes de 64 e o jornalismo e o colunismo político dos dias de hoje.” O outro aspecto reportado diz respeito a comparações entre o que se tenta fazer agora com Lula, por conta das políticas sociais, com o que se tentou fazer, no passado, com Vargas, “quando criou a CLT, o salário mínimo, as férias e descanso remunerados, a previdência social”, ou com Juscelino, “quando ele decidiu afrontar o FMI e suas infamantes condições para liberação de financiamento.” Todos esses governantes foram falsa e impiedosamente acusados pela mídia de ações de improbidade.

Arremata o parlamentar: “Qualquer coisa que beneficie os trabalhadores, que dê um sopro de vida e de esperança aos mais pobres, que compense minimamente os deserdados e humilhados, qualquer coisa, por modesta que seja, que cutuque os privilégios da casa grande, é imediatamente classificada como populismo.”

As palavras de Requião são de molde a fomentar discussões acaloradas. Mas, também, chamam todos os militantes da nobre atividade da comunicação social, a uma reflexão aprofundada sobre o sentido da missão institucional que lhes toca no contexto político do País.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ficar atento aos sinais

Cesar Vanucci *

“Época mais triste em que é mais difícil quebrar um preconceito, do que um átomo”
(Albert Einstein)


Ostensivo ou camuflado, o preconceito racial é impiedoso. Abre no corpo e na alma feridas de difícil cicatrização.

Vejo o racista na condição de um desertor da condição humana. Classifico-o como um poço profundo de defeitos. Um depósito vivo ambulante de imperfeições. Observações acumuladas no dia-a-dia instalaram em meu espírito granítica certeza: nem todo mau caráter é, necessariamente, racista. Mas todo racista é seguramente um tremendo dum mau caráter. Por causa disso o racismo adquire uma feição emblemática. Espécie de marca registrada de viventes que trocaram de mal com a vida. Há – não são poucos – quem faça da discriminação uma profissão de fé. Exiba sua crença, orgulhosa e escancaradamente, como se fosse um distintivo reluzente a ser pespegado à lapela do paletó. Já os adeptos dissimulados do preconceito, apelam para todos os disfarces imagináveis, enquanto dá pra aguentar. Mas não conseguem refrear, o tempo todo, os impulsos interiores. A intolerância acaba explodindo. No olhar carregado de raiva. No tom de voz. Na omissão deleitosamente cúmplice. Quando as resistências de conveniência desabam, vêm com uma saraivada de frases encharcadas de irritação.

Um dos riscos comuns da prática racista é que ela pode se infiltrar, sorrateira, em ambientes insuspeitados, de guarda baixa. Atinge aí pessoal desprevenido, ou desinteressado. Gente que não está nem aí, sem “tempo pra essas coisas de direitos humanos”. Desprovida de sensibilidade social, deixa o marfim correr solto, como o diabo aprecia ser servido.

Tenho coligido um punhado de incidentes típicos de discriminação brotados nesse amargo contexto. Num episódio recente de dissimulação ousada, dois amigos advogados depararam-se com a situação de um profissional humilde dispensado do emprego por causa da cor. Quer dizer por causa nenhuma. A vítima chegou a relatar com pormenores o acontecido. Mas, abalada por emoção forte, carregando nas costas a carga atávica de humilhações impostas à sua etnia, secularmente sedimentadas, pesada demais para pessoas de constituição frágil, esquivou-se, pelo menos até aquele momento, de dar desdobramento ao caso. Na outra ponta da linha, o indigitado causador desse drama pessoal, um estrangeiro, temendo eventuais repercussões, procurou, na sequência, vender abertamente a idéia de repentina conversão às causas da cidadania. Esmerou-se em demonstrações de simpatia ao trabalho empreendido nessa área de conscientização cívica e espiritual. Procedeu como se fosse partidário desde neném das históricas lutas anti-racistas. Ora, veja, pois...

Com outras pessoas de boa vontade, tenho concorrido, em diferentes circunstâncias, para que certos procedimentos tolerados em redutos inocentes, sobretudo salas de aula, trazendo embutidos indesejáveis ingredientes em matéria de relacionamento racial, possam ser eliminados. Educadores experimentados, de formação humanística, podem se transformar, às vezes, em “inocentes úteis”. Isso ocorre, por exemplo, quando permitem ou toleram, por achar questão de somenos, que em ambientes escolares se atribua a alunos negros, com naturalidade, papel (sempre) secundário nas rotinas pedagógicas. Essa avaliação cândida, se não distorcida, disseminada por aí, fica bem documentada em história de que fui protagonista. Pela imprensa, verberei a atitude de um clube que vedou, injustificavelmente, o ingresso de negros em seus salões. Logo depois, procurou-me o diretor de outro clube, envolvendo-me num abraço caloroso de solidariedade pela atitude assumida. A prazerosa manifestação de apoio esboroou-se, na sequência, diante de meus olhares estupefatos, quando ele, trazendo na ponta da língua a convicção dos justos, arrematou a fala com dizeres mais ou menos assim: "- Um absurdo o que fizeram naquele clube. Conosco não acontece. Os negros podem entrar. O que não podem fazer é sair dançando”. Dance-se com uma melodia dessas!

Nas rotinas da vida é aconselhável recomendar atenção para os sinais, nesse delicado terreno da convivência humana. Expor racismo e racistas aos holofotes das leis e da censura pública faz parte do capítulo das reações legítimas da cidadania. O que uma mãe de família fez recentemente numa escola, trazendo a público as circunstâncias desagradáveis em que sua filha menor se viu impiedosamente alvejada pelo “crime” de trazer na epiderme a marca indesejada nos delírios das concepções de “pureza racial” ariana, foi uma exteriorização louvável do despertar da consciência comunitária para o candente problema.

É como não me canso de afirmar: ficar alerta aos sinais, que nem os escoteiros, é preciso. Pode ajudar a matar o mal no nascedouro.



As lateralidades incendiárias

 “A salvação do homem não vem do leste nem do oeste. Vem do alto.” 
(Tristão de Athayde)


No fundo, nada mais parecido com um extremista de esquerda do que um extremista de direita. As diferenças são circunstanciais. No rótulo, nas palavras de ordem, por aí. Na essência é tudo de uma mesmice aterrorizante.

Viveu por aqui um judeu que escapou por um triz do holocausto. Era da Hungria. Impelido por forte saudade, a memória abarrotada de lembranças, algumas tenebrosas, resolveu um dia rever os pagos natais. Voltou traumatizado. Tudo igualzinho no front. Os fantasmas de carne e osso que haviam assombrado familiares e amigos no passado, promovendo expurgos raciais a mando dos nazistas, continuavam firmes nos arreios do comando político, praticando os mesmos desatinos e ignomínias. Só que, já aí então, em nome do comunismo.

O nada saudoso ditador Augusto Pinochet, apesar das alegadas divergências ideológicas, nutria grande admiração por Fidel Castro, considerando-o figura de realce na história. Lembrei-me muito disso quando seu colega cubano andou condenando, com veemência, as tentativas da Justiça espanhola e de algumas organizações do direito humano, alguns anos atrás, em arrastar Pinochet, pelos crimes cometidos, à barra dos tribunais internacionais.

Os extremos se tocam. As afinidades entre extremistas são bem mais sutis do que jamais conseguirá supor nossa vã filosofia. Hitler e Stalin, os mais sanguinários tiranos conhecidos, chegaram a firmar pacto de não agressão (que veio a ser rompido pelos nazistas), com o objetivo de facilitar as coisas para a Alemanha em seus projetos expansionistas. Durante o acordo, as lideranças comunistas nos diversos países receberam instruções precisas para se conservarem em “piedoso silêncio” com relação às atrocidades das tropas nazistas nos países ocupados. Ordem disciplinadamente acatada. Da indignação e do clamor dos vultos mais destacados da inteligência comunista, diante dos hediondos crimes dos alemães, a opinião pública mundial só veio a tomar conhecimento depois da traiçoeira invasão do território russo.

Qual a diferença para a sociedade, volta e meia tornada refém dos radicais, entre um terrorista de esquerda e um de direita? Os fanáticos militantes da Al Qaeda, sob o comando do finado bin Laden, dinamitaram prédios na África e puseram abaixo as torres gêmeas, em nome de Alá. Aquele outro alucinado, de nacionalidade estadunidense condenado à morte pela destruição do edifício em Oklahoma, intitulou-se defensor da supremacia racial branca, “dom divino” do qual a Ku Klux Klan se julga detentora. Na Noruega e nos Estados Unidos, outros espécimes tresloucados cometeram, ainda recentemente, tragédias inomináveis em nome desses mesmos falsos valores. Qual a diferença? No frigir dos ovos, esses malucos de tendências aparentemente opostas não passam de verso e reverso da mesma moeda.

As ideologias políticas e religiosas radicais, que atuam na base do crê ou morre, constituem, na verdade, inimigas juramentadas da humanidade. É só ver do que são capazes de aprontar, em amostras repetidas de ferocidade, extremistas dos diferentes grupos litigantes do Oriente Médio.

Sobra de tudo lição milenar definitiva. A solução dos problemas não virá jamais das lateralidades incendiárias. Ela só poderá germinar em clima onde vicejem os valores humanísticos, com destaque para a justiça social e a solidariedade. Ou – numa conceituação de maior abrangência, projetada a partir da interpretação espiritual e do fascinante e às vezes complexo jogo da vida – ela só pode vir mesmo, minha gente, do Alto.

 *Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O destempero radical árabe

Cesar Vanucci *

“O fanatismo religioso é mais perigoso
que o ateísmo e mil vezes mais prejudicial.”
(Voltaire)

A Secretária de Estado Hilary Clinton está com a razão. Um filmeco asqueroso, tanto na forma quanto no conteúdo, produzido com nefandos propósitos, não poderia, por si só, desencadear esse tsunami de protestos que estremece, outra vez, o costumeiramente turbulento mundo árabe. A busca das explicações para esse avassalador destempero radical tem que ir além, muito além da mera projeção das imagens e diálogos distorcidos, retratando a figura de Maomé, sagrada para o Islã, postos a circular nas redes sociais.

O caso guarda conotações com outros incidentes recentes, como, por exemplo, o produzido por aquele pastor norte-americano, fundamentalista amalucado, que algum tempo atrás, diante das câmeras de televisão, botou fogo em exemplares do Alcorão. Outros seguidores de teorias incendiárias anti islâmicas surgem também do nada, volta e meia, tornando públicas provocações que encontram sempre uma mídia receptiva para propagá-las. São episódios que deixam à mostra inocultável intuito de açular desatinos de extremistas religiosos. Mas, tanto quanto o filme, considerado de extrema vulgaridade, não conseguem, jeito maneira, falar verdade, macular a trajetória de um líder reconhecidamente influente da história humana. Uma avaliação serena, bem objetiva, que se faça do filme e das outras despropositadas ocorrências, em círculos providos de bom senso, dentro e fora do islamismo, poderá suscitar naturalmente reações de repúdio. Mas não a ponto de estimular, com absoluta certeza, algo que lembre de leve a onda de desvario que tomou conta das ruas e praças árabes com todas as consequências funestas que aí estão.

Isso conduz a inevitável reflexão. Se o meio sensato de analisar o assunto é esse, como explicar a erupção da violência fora de controle? A pergunta comporta um conjunto de respostas surpreendentes e enigmáticas. Tanto quanto surpreendentes, incoerentes e charadisticos costumam se revelar os rumos políticos árabes desde sempre. Fica evidenciado, primeiramente, que o filme, por mais grotesco que seja, está sendo manipulado ao gosto pela ferocidade radical de diferentes tendências no afã de fortalecer manobras junto a religiosos fanáticos na conquista de espaços políticos. Multidões com reduzida capacidade de discernimento das coisas são orquestradas a bel prazer por tais lideranças. Absorvem com fervor mórbido suas exacerbadas conclamações. Abra-se parêntese para relembrar que a história humana é, desoladoramente, permeada de manifestações desse gênero. Envolvendo tudo quanto é corrente religiosa. O fundamentalismo é enfermidade universal. Parece até incurável.

Recorde-se, ainda, a propósito, que as lideranças radicais sob o foco das atenções são múltiplas. Obedecem a orientações diversificadas. São divididas, geralmente, por encolerizadas discordâncias. Um verdadeiro saco de gatos, pode-se afirmar. O que confere ao problema graus de dramaticidade e complexidade ainda maiores.

Outro ingrediente de peso no processo é de cunho político. A confusão imperante nos territórios conflagrados (na verdade, permanentemente conflagrados), pode-se dizer sem intenção de trocadilho, é das arábias. Para tanto contribuem poderosamente os maquiavélicos esquemas geo-político-econômicos que ditam o comportamento das potências com disposições hegemônicas, os Estados Unidos em realce. São tamanhas as trapalhadas no campo diplomático, com os apoios ora dados a ditadores cruéis, ora aos adversários desses ditadores (que acabam se tornando, também, via de regra, déspotas cruéis), que as ações políticas em questão correm sempre o risco de ser recebidas com descrédito popular. Os ocidentais falam em democracia, mas garantem, como acontece na Arábia Saudita e no Bahrein, a permanência no poder de alguns dos mais fechados e tirânicos regimes políticos do planeta.

Para os extremistas políticos e religiosos desses ermos não fica difícil, à vista das contradições comportamentais das grandes potências, insuflarem massas fanáticas à pratica de atos insanos. A percepção que se passa a ter, em tais redutos, é de que elas não se importam com o derramamento de sangue nem com a dignidade dos árabes. O sentimento antiamericano é também fortemente propagado em decorrência da inexistência de uma política firme e vigorosa no sentido da implantação, há décadas esperada, do Estado da Palestina. Por que, até hoje, isso não foi resolvido? A pergunta deixa um clamor de indignação no ar.

Um derradeiro comentário. Não deixam de ser intrigantes essas provocações tacanhas, sem eira nem beira que, a intervalos, são feitas, via redes sociais e demais recursos midiáticos, por indivíduos desconhecidos, à cata ou não de celebridade instantânea. Ponho-me a matutar com os botões do pijama que, talvez, essas ações não sejam produzidas apenas por irresponsáveis desocupados. Talvez façam parte de complô urdido, sabe-se lá porque mentes doentias, com o objetivo mesmo de manter os ânimos acirrados, de ampliar divergências, de criar dificuldades. Uma forma solerte de impedir, naquele pedaço do mundo, possa frutificar, algum dia, uma convivência harmoniosa, amena e respeitável, na melhor configuração ecumênica, entre homens e mulheres de diferentes nacionalidades, etnias e crenças.



Que globalização é essa?


 "As combinações oportunisticas da economia costumam
levar, às vezes, a grandes desastres do ponto de vista humano"
(Antônio Luiz da Costa)

Que ordem econômica mundial mais frouxa é essa que entra em alucinado parafuso a um mero estalar de dedos de um especulador qualquer, envolvido em trapaça bursátil, refestelado em iate de luxo das "cote d'azur" da vida?

Que mané globalização é essa a espalhar desassossego e temor no espírito simples da gente do povo por causa de um parecer de um tecnocrata que ninguém conhece, de uma instituição que ninguém nunca antes ouviu falar, com nome lembrando marca de absorvente feminino, onde são atribuídas notas escolares aos países, como se nações inteiras pudessem ser tratadas que nem alunos de jardim de infância na cata das primeiras noções do aprendizado básico?

Que políticas econômicas desvairadas são essas, tão decantadas pela mídia, que permitem aos "donos" dos negócios do mundo, colocados acima do bem e do mal, deitar e rolar por cima da vida, do patrimônio, da saúde, do emprego dos outros, em latitudes geográficas economicamente desprotegidas? E a submeterem multidões à mercê das reações volúveis das bolsas de valores, instituições tão distanciadas da rotina amarga e da capacidade de percepção das camadas humildes quanto a Constelação Zeta Reticuli?

Que situação mais aloprada é essa em que se convoca, descerimoniosamente, para pagar a conta das empreitadas mal sucedidas no jogo internacional, pessoas que nunca aplicaram em ações e que de bolsas só conhecem, pela televisão, aquela caricatural coreografia de um bando frenético, parecendo dançarinos engravatados de "rock pauleira", celulares ou mini-receptores colados aos ouvidos, berrando a plenos pulmões frases ininteligíveis e produzindo gestos ainda menos compreensíveis? Abra-se uma pausa, nesta cruciante sequência de interrogações, para relembrar, com o espírito acariciado pelo arrebatante humor da cena, o genial comediante Peter Sellers. Num filme antológico em que vive um personagem puro e ingênuo, fissurado por televisão, vemo-lo, todo sorrisos, no recinto da bolsa, a retribuir com gestos os acenos insistentes dos desatinados apostadores à volta. Obtem-se ali o retrato da perplexidade que se apodera do homem comum diante de certos rituais cabalísticos mundanos que a comédia humana insiste em criar para diferenciar quem, supostamente, sabe das coisas, dos que nada sabem.

Mas que globalização, Santo Deus, é essa que não consegue, depois de tanta malvadeza introduzida no cotidiano de tanta gente, em tantos lugares, trazer uma promessa, um mero aceno sequer de benefício aos menos favorecidos? E que, pelo contrário, parece achar-se empenhada, o tempo todo, em só fazer crescer as desigualdades? E que celebra como feito heróico, retumbante, a "habilidade gerencial" de administradores faltos de sensibilidade social que desconhecem outros processos para reduzir custos e melhorar resultados senão o desemprego constante, o corte em despesas sociais e a rotatividade da mão-de-obra na base de custos progressivamente menores?

Que baita inversão de valores é essa que permite sejam assim ressuscitados, por conta da embromação e fajutice de minorias ousadas, conceitos da pré-história econômica, recauchutados para vigir em vastas porções territoriais onde se revele baixo o poder das exigências sociais e onde são apresentados como o supra-sumo do pensamento de vanguarda, como expressão pronta e definitiva, das políticas sociais avançadas supostamente praticadas nos países do primeiro mundo?

Esta confusão econômica passa a idéia de que o mundo tem de oscilar entre a turbulência e a depressão. Nesse mundo só existiria atenção para as previsões desconcertantes e suspeitosas de ilustres desconhecidos. Em geral PHDs. De preferência, estrangeiros. Se algum deles, numa overdose de autossuficiência, num instante de mau humor, nascido, quem sabe dizer?, de uma intempériezinha doméstica, resolver largar falação e atribuir pontuação sobre os níveis de risco das economias emergentes, o melhor a fazer é sair de baixo. Cascar fora. Tudo corre o risco de desmoronar. O pessoal com poder de decisões se mobiliza para enfrentar a crise a bombordo. E alguma reforma periférica, atingindo a população, acontece. Mas, se num cenário mais sério, consentâneo com as aspirações humanas, uma outra figura, PHD em espiritualidade e saber humanístico qualquer, um Gandhi, um Helder Câmara, um João Paulo II, um Luther King, à mesma hora do douto e ignoto economista, resolve lançar às lideranças, aos que traçam os rumos políticos, uma exortação para que ponham em andamento reformas vitais de cunho social, a repercussão será bem diferente. Haverá, seguramente, manifestações ruidosas de aplausos, louvores à clarividência desses luminares do pensamento humanístico. Tudo nesse diapasão. Mas não se conhecerá, fatalmente, a curto e médio prazo, qualquer iniciativa que dê consistência prática às generosas idéias. O exemplo surrealista tem a ver com a realidade.

Conclusão inapelável: essa ordem econômica mundial que aí está e que funciona de jeito tão irracional, injusto e perverso, tem mais é que ser refeita. A convivência humana reclama, ardentemente, por práticas fraternas, solidárias, por ações sérias e respeitosas de complementaridade econômica e social entre os países. São estes os valores em condições de fazer deste um mundo melhor.

Afinal de contas, que globalização é essa que não contempla o crescimento econômico e a ascensão social de todos os países igualitariamente?

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

domingo, 23 de setembro de 2012

E agora?

Cesar Vanucci *

“A política salarial terá que ser ajustada, algum dia,
de maneira a que o teto envolvendo todas as categorias
não seja superior mais do que dez vezes do piso de remuneração.”
(Adelmo Carneiro Leão, deputado estadual)

E agora José?
A Nação inteira, aplaudindo com sinceridade e entusiasmo a Lei da Transparência, reconhecendo nesse instrumento legal prova de maturidade política e democrática, espera que na sequência das revelações acerca dos megasalários, instituídos ao arrepio da legislação e do bom senso, sejam logo definidos os procedimentos necessários para se por cobro aos abusos detectados.

Pra aturdimento geral, a contribuição do Judiciário para a escandalosa situação parece estar sendo mais opulenta do que a dos demais Poderes. Ora, veja, pois! Muita gente aí, afeita a cálculos, chega a admitir que o somatório dos abusos até aqui apurados em decorrência da aplicação da Lei, estendidos no tempo, vai acabar chegando a números inconcebíveis. Superiores até aos valores dos prejuízos causados ao Erário pelas incontáveis maracutaias que a própria Justiça vem se encarregando de julgar. Ou sejam, os impropriamente denominados “mensalões”, em suas diferentes versões, já em fase de julgamento ou ainda por julgar, envolvendo militantes políticos de diversificadas siglas. Na verdade, de todas as siglas.

Evidenciado, com constrangedora abundância de pormenores, graças a esse dispositivo saneador de recente implantação, que um mundão de gente, em escancarado desrespeito às normas legais, vem percebendo remunerações, não é de hoje, infinitamente acima do teto salarial oficialmente previsto para o serviço público, cabe agora, sem muito tititi, sem discussões espichadas, sem urdiduras jurídicas sibilinas, definir-se o que terá que ser inexoravelmente feito daqui pra frente no sentido de se por fim nas anômalas situações levantadas.

Todos os brasileiros, ciosos de suas prerrogativas cidadãs e republicanas, se posicionam, obviamente, na expectativa de decisões complementares capazes de corrigir o problemão que conveniências espúrias de toda ordem e em tudo quanto é canto criaram ao longo dos anos. Uma encrenca, brotada da leniência, da complacência, do contundente desrespeito às leis que nos regem, executada por administradores (com o poder da caneta nas mãos) mal orientados, totalmente despreparados. Isso pra só dizer o mínimo a respeito de sua reprovável conduta gestora.

A opinião pública –fácil perceber – não se revela nada disposta a engolir, passivamente, a continuidade desse processo de fraudes e de outros ilícitos cometidos de má fé. A aberração das folhas de pagamento mantidas com recursos dos contribuintes que contemplam alguns milhares de privilegiados, em diversificadas áreas, com remunerações astronômicas, num país que adota salário mínimo da ordem de R$ 622,00, é algo por demais indigesto. Como explicar, por exemplo, aos professores da rede estadual em Minas – uma categoria que luta com denodo, arrostando incompreensões e sacrifícios sem conta – pelo simples reconhecimento do direito elementar de acesso ao piso salarial nacional dos educadores, que há indivíduos, pra ficar num exemplo na multidão de contemplados, que chegam a perceber mais de 200 mil reais por mês num Tribunal de Justiça? Que os holerites de outros milhares de servidores, em incontáveis repartições, em todos os Estados da Federação, acusam cifras infinitamente superiores ao teto salarial legalmente constituído, consensualmente fixado?

As lideranças políticas, os dirigentes dos Poderes estão no dever moral irrecusável de buscar, com toda urgência, saída decente para esse desvairado carrossel salarial. O estudo sobre a adoção das medidas complementares indispensáveis à Lei da Transparência não pode sofrer demora.

Certos aspectos complexos da política salarial envolvendo servidores públicos, do tipo da duplicidade de fontes pagadoras, consagrada legalmente, não poderão, evidentemente, dentro desse efervescente contexto, deixar de ser considerados com critério, objetividade e bom senso na fixação das diretrizes que fatalmente regulamentarão o assunto.

A invocação, pura e simples, da tese do “direito conquistado”, não poderá servir de álibi generalizado para as mil e uma extravagâncias perpetradas. A história dos megasalários precisar ser devidamente reescrita. Doa a quem doer.



As Olimpíadas e a Escola

 “O entrelaçamento da Escola com o Esporte é responsável,
 em vários países, pelo sucesso nas disputas olímpicas.”
(Antônio Galhardo, educador)

A crônica olímpica revela que a participação dos países escolhidos para sede dos jogos é costumeiramente expressiva nas competições, não importa o quanto se distanciem das superpotências esportivas na pontuação geral.

Por superpotências sejam reconhecidos os Estados Unidos, a China e, também, a Rússia, mesmo que este país, após o desmoronamento do império bolchevista, tenha reduzido acentuadamente suas possibilidades de ameaçar a hegemonia esportiva estadunidense.

Essa circunstância recomenda cuidemos de colocar desde já nossas “barbas de molho”, à vista dos até aqui frustrantes desempenhos dos representantes das cores brasileiras nas quatrienais disputas. Se pretendemos, de fato, assegurar resultados que não venham a nos causar aborrecimentos futuros, a preparação dos atletas nas diversas modalidades esportivas terá que se traduzir em eficiência, esmero e cuidados especiais. Tanto quanto na estruturação logística do magno evento. Como o apito da contagem regressiva para as Olimpíadas do Rio já soou, é tempo mais do que chegado para se deflagrar o exaustivo trabalho de identificação dos quadros potencialmente aptos a concorrerem às provas.

Isso terá que vir acompanhado, evidentemente, de programação de treinos intensivos, mode que as equipes convocadas aprendam, à altura das expectativas, a subir mais vezes, muitas vezes mais que no passado, ao pódio das premiações.

Noutros lugares do mundo, onde triunfos olímpicos são festejados amiúde, a escola tem representado sempre grande manancial na formação de atletas. Entre nós, desoladoramente, isso não sucede. O complexo educacional conserva-se, inexplicavelmente, desatento à possibilidade de estabelecer conexão digna de nota com o esporte. Procede como se o esporte não constituísse instrumento poderoso no encaminhamento da juventude para o jogo da vida.

Doutra parte, os encarregados do monitoramento oficial das ações educacionais, a cúpula responsável pelas diretrizes gerais do ensino em todas as faixas, não parecem nada propensos a introduzir práticas esportivas como item relevante na grade curricular. Não é difícil imaginar o esperdício cumulativo de oportunidades, anos e anos a fio, provocado por essa ausência de percepção do verdadeiro papel do esporte no processo pedagógico.

Saiba, no entanto, o distinto leitor que, em tempos idos, muitos lugares do território brasileiro costumavam abrigar núcleos atuantes, providos de visão vanguardeira das coisas da vida, que sabiam cuidar de estabelecer preciosas vinculações entre grupos de estudantes vocacionados e centros especializados em treinamento esportivo. Os frutos desse salutar intercâmbio foram, tanto quanto sei, copiosos. Trago aqui, na condição de testemunha ocular, um depoimento.

Retorno o olhar para a Uberaba dos idos de 50. No Liceu do Triângulo Mineiro, embrião do poderoso complexo educacional criado pelo magistral escritor Mário Palmério, e no Colégio Diocesano, dirigido pelos Maristas, cerca de dez (talvez um bocadinho mais) colegas de sala de aula e contemporâneos no ensino médio ostentavam com justa ufania títulos de campeões brasileiros de natação infanto-juvenil. Só em minha classe, no Triângulo, faziam parte desse invejável grupo os nadadores campeões Edelweiss Simões, detentora além do mais de um titulo sul-americano, Helice Jurity Ferreira, Maria da Fé Gigliotti, os irmãos Vicente e Cícero Lima. Zuzinha Camargo e Lênio Lima, alunos do Diocesano, são outros craques que acodem à lembrança velha de guerra. Repito, todos, todos eles verdadeiros ases da natação. E por que isso acontecia? Qual a razão da concentração de índice tão expressivo de atletas consagrados num mesmo segmento, numa mesma cidade interiorana?

Um grupo arrojado e idealista, à frente os saudosos José Tiradentes Lima, Diocleciano Pereira de Souza e Orcival Barra, entendeu de apostar todas as fichas do cacife no talento dos jovens. Criou, na então Cultura Física, mais tarde Associação Esportiva e Cultural, numa piscina de 25 metros de extensão, um centro de treinamento que permitiu despontassem todas essas esplendidas revelações atléticas. A valorosa moçada abiscoitou títulos estaduais e nacionais à pamparra. O trabalho, mais adiante, com a saída de cena de seus idealizadores, foi deploravelmente interrompido.

Imaginem só se essa ação de vanguarda houvesse se espichado no tempo! Com certeza, algum daqueles muitos atletas laureados em competições nacionais acabaria por emergir triunfante de alguma piscina olímpica.

Esse registro, buscado nas ladeiras da memória, reforça uma crença de muita gente: a de que o potencial da escola carece ser descoberto, ainda que tardiamente, na composição de nossos futuros quadros olímpicos.

Tamos conversados.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...