domingo, 23 de setembro de 2012

E agora?

Cesar Vanucci *

“A política salarial terá que ser ajustada, algum dia,
de maneira a que o teto envolvendo todas as categorias
não seja superior mais do que dez vezes do piso de remuneração.”
(Adelmo Carneiro Leão, deputado estadual)

E agora José?
A Nação inteira, aplaudindo com sinceridade e entusiasmo a Lei da Transparência, reconhecendo nesse instrumento legal prova de maturidade política e democrática, espera que na sequência das revelações acerca dos megasalários, instituídos ao arrepio da legislação e do bom senso, sejam logo definidos os procedimentos necessários para se por cobro aos abusos detectados.

Pra aturdimento geral, a contribuição do Judiciário para a escandalosa situação parece estar sendo mais opulenta do que a dos demais Poderes. Ora, veja, pois! Muita gente aí, afeita a cálculos, chega a admitir que o somatório dos abusos até aqui apurados em decorrência da aplicação da Lei, estendidos no tempo, vai acabar chegando a números inconcebíveis. Superiores até aos valores dos prejuízos causados ao Erário pelas incontáveis maracutaias que a própria Justiça vem se encarregando de julgar. Ou sejam, os impropriamente denominados “mensalões”, em suas diferentes versões, já em fase de julgamento ou ainda por julgar, envolvendo militantes políticos de diversificadas siglas. Na verdade, de todas as siglas.

Evidenciado, com constrangedora abundância de pormenores, graças a esse dispositivo saneador de recente implantação, que um mundão de gente, em escancarado desrespeito às normas legais, vem percebendo remunerações, não é de hoje, infinitamente acima do teto salarial oficialmente previsto para o serviço público, cabe agora, sem muito tititi, sem discussões espichadas, sem urdiduras jurídicas sibilinas, definir-se o que terá que ser inexoravelmente feito daqui pra frente no sentido de se por fim nas anômalas situações levantadas.

Todos os brasileiros, ciosos de suas prerrogativas cidadãs e republicanas, se posicionam, obviamente, na expectativa de decisões complementares capazes de corrigir o problemão que conveniências espúrias de toda ordem e em tudo quanto é canto criaram ao longo dos anos. Uma encrenca, brotada da leniência, da complacência, do contundente desrespeito às leis que nos regem, executada por administradores (com o poder da caneta nas mãos) mal orientados, totalmente despreparados. Isso pra só dizer o mínimo a respeito de sua reprovável conduta gestora.

A opinião pública –fácil perceber – não se revela nada disposta a engolir, passivamente, a continuidade desse processo de fraudes e de outros ilícitos cometidos de má fé. A aberração das folhas de pagamento mantidas com recursos dos contribuintes que contemplam alguns milhares de privilegiados, em diversificadas áreas, com remunerações astronômicas, num país que adota salário mínimo da ordem de R$ 622,00, é algo por demais indigesto. Como explicar, por exemplo, aos professores da rede estadual em Minas – uma categoria que luta com denodo, arrostando incompreensões e sacrifícios sem conta – pelo simples reconhecimento do direito elementar de acesso ao piso salarial nacional dos educadores, que há indivíduos, pra ficar num exemplo na multidão de contemplados, que chegam a perceber mais de 200 mil reais por mês num Tribunal de Justiça? Que os holerites de outros milhares de servidores, em incontáveis repartições, em todos os Estados da Federação, acusam cifras infinitamente superiores ao teto salarial legalmente constituído, consensualmente fixado?

As lideranças políticas, os dirigentes dos Poderes estão no dever moral irrecusável de buscar, com toda urgência, saída decente para esse desvairado carrossel salarial. O estudo sobre a adoção das medidas complementares indispensáveis à Lei da Transparência não pode sofrer demora.

Certos aspectos complexos da política salarial envolvendo servidores públicos, do tipo da duplicidade de fontes pagadoras, consagrada legalmente, não poderão, evidentemente, dentro desse efervescente contexto, deixar de ser considerados com critério, objetividade e bom senso na fixação das diretrizes que fatalmente regulamentarão o assunto.

A invocação, pura e simples, da tese do “direito conquistado”, não poderá servir de álibi generalizado para as mil e uma extravagâncias perpetradas. A história dos megasalários precisar ser devidamente reescrita. Doa a quem doer.



As Olimpíadas e a Escola

 “O entrelaçamento da Escola com o Esporte é responsável,
 em vários países, pelo sucesso nas disputas olímpicas.”
(Antônio Galhardo, educador)

A crônica olímpica revela que a participação dos países escolhidos para sede dos jogos é costumeiramente expressiva nas competições, não importa o quanto se distanciem das superpotências esportivas na pontuação geral.

Por superpotências sejam reconhecidos os Estados Unidos, a China e, também, a Rússia, mesmo que este país, após o desmoronamento do império bolchevista, tenha reduzido acentuadamente suas possibilidades de ameaçar a hegemonia esportiva estadunidense.

Essa circunstância recomenda cuidemos de colocar desde já nossas “barbas de molho”, à vista dos até aqui frustrantes desempenhos dos representantes das cores brasileiras nas quatrienais disputas. Se pretendemos, de fato, assegurar resultados que não venham a nos causar aborrecimentos futuros, a preparação dos atletas nas diversas modalidades esportivas terá que se traduzir em eficiência, esmero e cuidados especiais. Tanto quanto na estruturação logística do magno evento. Como o apito da contagem regressiva para as Olimpíadas do Rio já soou, é tempo mais do que chegado para se deflagrar o exaustivo trabalho de identificação dos quadros potencialmente aptos a concorrerem às provas.

Isso terá que vir acompanhado, evidentemente, de programação de treinos intensivos, mode que as equipes convocadas aprendam, à altura das expectativas, a subir mais vezes, muitas vezes mais que no passado, ao pódio das premiações.

Noutros lugares do mundo, onde triunfos olímpicos são festejados amiúde, a escola tem representado sempre grande manancial na formação de atletas. Entre nós, desoladoramente, isso não sucede. O complexo educacional conserva-se, inexplicavelmente, desatento à possibilidade de estabelecer conexão digna de nota com o esporte. Procede como se o esporte não constituísse instrumento poderoso no encaminhamento da juventude para o jogo da vida.

Doutra parte, os encarregados do monitoramento oficial das ações educacionais, a cúpula responsável pelas diretrizes gerais do ensino em todas as faixas, não parecem nada propensos a introduzir práticas esportivas como item relevante na grade curricular. Não é difícil imaginar o esperdício cumulativo de oportunidades, anos e anos a fio, provocado por essa ausência de percepção do verdadeiro papel do esporte no processo pedagógico.

Saiba, no entanto, o distinto leitor que, em tempos idos, muitos lugares do território brasileiro costumavam abrigar núcleos atuantes, providos de visão vanguardeira das coisas da vida, que sabiam cuidar de estabelecer preciosas vinculações entre grupos de estudantes vocacionados e centros especializados em treinamento esportivo. Os frutos desse salutar intercâmbio foram, tanto quanto sei, copiosos. Trago aqui, na condição de testemunha ocular, um depoimento.

Retorno o olhar para a Uberaba dos idos de 50. No Liceu do Triângulo Mineiro, embrião do poderoso complexo educacional criado pelo magistral escritor Mário Palmério, e no Colégio Diocesano, dirigido pelos Maristas, cerca de dez (talvez um bocadinho mais) colegas de sala de aula e contemporâneos no ensino médio ostentavam com justa ufania títulos de campeões brasileiros de natação infanto-juvenil. Só em minha classe, no Triângulo, faziam parte desse invejável grupo os nadadores campeões Edelweiss Simões, detentora além do mais de um titulo sul-americano, Helice Jurity Ferreira, Maria da Fé Gigliotti, os irmãos Vicente e Cícero Lima. Zuzinha Camargo e Lênio Lima, alunos do Diocesano, são outros craques que acodem à lembrança velha de guerra. Repito, todos, todos eles verdadeiros ases da natação. E por que isso acontecia? Qual a razão da concentração de índice tão expressivo de atletas consagrados num mesmo segmento, numa mesma cidade interiorana?

Um grupo arrojado e idealista, à frente os saudosos José Tiradentes Lima, Diocleciano Pereira de Souza e Orcival Barra, entendeu de apostar todas as fichas do cacife no talento dos jovens. Criou, na então Cultura Física, mais tarde Associação Esportiva e Cultural, numa piscina de 25 metros de extensão, um centro de treinamento que permitiu despontassem todas essas esplendidas revelações atléticas. A valorosa moçada abiscoitou títulos estaduais e nacionais à pamparra. O trabalho, mais adiante, com a saída de cena de seus idealizadores, foi deploravelmente interrompido.

Imaginem só se essa ação de vanguarda houvesse se espichado no tempo! Com certeza, algum daqueles muitos atletas laureados em competições nacionais acabaria por emergir triunfante de alguma piscina olímpica.

Esse registro, buscado nas ladeiras da memória, reforça uma crença de muita gente: a de que o potencial da escola carece ser descoberto, ainda que tardiamente, na composição de nossos futuros quadros olímpicos.

Tamos conversados.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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