sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ficar atento aos sinais

Cesar Vanucci *

“Época mais triste em que é mais difícil quebrar um preconceito, do que um átomo”
(Albert Einstein)


Ostensivo ou camuflado, o preconceito racial é impiedoso. Abre no corpo e na alma feridas de difícil cicatrização.

Vejo o racista na condição de um desertor da condição humana. Classifico-o como um poço profundo de defeitos. Um depósito vivo ambulante de imperfeições. Observações acumuladas no dia-a-dia instalaram em meu espírito granítica certeza: nem todo mau caráter é, necessariamente, racista. Mas todo racista é seguramente um tremendo dum mau caráter. Por causa disso o racismo adquire uma feição emblemática. Espécie de marca registrada de viventes que trocaram de mal com a vida. Há – não são poucos – quem faça da discriminação uma profissão de fé. Exiba sua crença, orgulhosa e escancaradamente, como se fosse um distintivo reluzente a ser pespegado à lapela do paletó. Já os adeptos dissimulados do preconceito, apelam para todos os disfarces imagináveis, enquanto dá pra aguentar. Mas não conseguem refrear, o tempo todo, os impulsos interiores. A intolerância acaba explodindo. No olhar carregado de raiva. No tom de voz. Na omissão deleitosamente cúmplice. Quando as resistências de conveniência desabam, vêm com uma saraivada de frases encharcadas de irritação.

Um dos riscos comuns da prática racista é que ela pode se infiltrar, sorrateira, em ambientes insuspeitados, de guarda baixa. Atinge aí pessoal desprevenido, ou desinteressado. Gente que não está nem aí, sem “tempo pra essas coisas de direitos humanos”. Desprovida de sensibilidade social, deixa o marfim correr solto, como o diabo aprecia ser servido.

Tenho coligido um punhado de incidentes típicos de discriminação brotados nesse amargo contexto. Num episódio recente de dissimulação ousada, dois amigos advogados depararam-se com a situação de um profissional humilde dispensado do emprego por causa da cor. Quer dizer por causa nenhuma. A vítima chegou a relatar com pormenores o acontecido. Mas, abalada por emoção forte, carregando nas costas a carga atávica de humilhações impostas à sua etnia, secularmente sedimentadas, pesada demais para pessoas de constituição frágil, esquivou-se, pelo menos até aquele momento, de dar desdobramento ao caso. Na outra ponta da linha, o indigitado causador desse drama pessoal, um estrangeiro, temendo eventuais repercussões, procurou, na sequência, vender abertamente a idéia de repentina conversão às causas da cidadania. Esmerou-se em demonstrações de simpatia ao trabalho empreendido nessa área de conscientização cívica e espiritual. Procedeu como se fosse partidário desde neném das históricas lutas anti-racistas. Ora, veja, pois...

Com outras pessoas de boa vontade, tenho concorrido, em diferentes circunstâncias, para que certos procedimentos tolerados em redutos inocentes, sobretudo salas de aula, trazendo embutidos indesejáveis ingredientes em matéria de relacionamento racial, possam ser eliminados. Educadores experimentados, de formação humanística, podem se transformar, às vezes, em “inocentes úteis”. Isso ocorre, por exemplo, quando permitem ou toleram, por achar questão de somenos, que em ambientes escolares se atribua a alunos negros, com naturalidade, papel (sempre) secundário nas rotinas pedagógicas. Essa avaliação cândida, se não distorcida, disseminada por aí, fica bem documentada em história de que fui protagonista. Pela imprensa, verberei a atitude de um clube que vedou, injustificavelmente, o ingresso de negros em seus salões. Logo depois, procurou-me o diretor de outro clube, envolvendo-me num abraço caloroso de solidariedade pela atitude assumida. A prazerosa manifestação de apoio esboroou-se, na sequência, diante de meus olhares estupefatos, quando ele, trazendo na ponta da língua a convicção dos justos, arrematou a fala com dizeres mais ou menos assim: "- Um absurdo o que fizeram naquele clube. Conosco não acontece. Os negros podem entrar. O que não podem fazer é sair dançando”. Dance-se com uma melodia dessas!

Nas rotinas da vida é aconselhável recomendar atenção para os sinais, nesse delicado terreno da convivência humana. Expor racismo e racistas aos holofotes das leis e da censura pública faz parte do capítulo das reações legítimas da cidadania. O que uma mãe de família fez recentemente numa escola, trazendo a público as circunstâncias desagradáveis em que sua filha menor se viu impiedosamente alvejada pelo “crime” de trazer na epiderme a marca indesejada nos delírios das concepções de “pureza racial” ariana, foi uma exteriorização louvável do despertar da consciência comunitária para o candente problema.

É como não me canso de afirmar: ficar alerta aos sinais, que nem os escoteiros, é preciso. Pode ajudar a matar o mal no nascedouro.



As lateralidades incendiárias

 “A salvação do homem não vem do leste nem do oeste. Vem do alto.” 
(Tristão de Athayde)


No fundo, nada mais parecido com um extremista de esquerda do que um extremista de direita. As diferenças são circunstanciais. No rótulo, nas palavras de ordem, por aí. Na essência é tudo de uma mesmice aterrorizante.

Viveu por aqui um judeu que escapou por um triz do holocausto. Era da Hungria. Impelido por forte saudade, a memória abarrotada de lembranças, algumas tenebrosas, resolveu um dia rever os pagos natais. Voltou traumatizado. Tudo igualzinho no front. Os fantasmas de carne e osso que haviam assombrado familiares e amigos no passado, promovendo expurgos raciais a mando dos nazistas, continuavam firmes nos arreios do comando político, praticando os mesmos desatinos e ignomínias. Só que, já aí então, em nome do comunismo.

O nada saudoso ditador Augusto Pinochet, apesar das alegadas divergências ideológicas, nutria grande admiração por Fidel Castro, considerando-o figura de realce na história. Lembrei-me muito disso quando seu colega cubano andou condenando, com veemência, as tentativas da Justiça espanhola e de algumas organizações do direito humano, alguns anos atrás, em arrastar Pinochet, pelos crimes cometidos, à barra dos tribunais internacionais.

Os extremos se tocam. As afinidades entre extremistas são bem mais sutis do que jamais conseguirá supor nossa vã filosofia. Hitler e Stalin, os mais sanguinários tiranos conhecidos, chegaram a firmar pacto de não agressão (que veio a ser rompido pelos nazistas), com o objetivo de facilitar as coisas para a Alemanha em seus projetos expansionistas. Durante o acordo, as lideranças comunistas nos diversos países receberam instruções precisas para se conservarem em “piedoso silêncio” com relação às atrocidades das tropas nazistas nos países ocupados. Ordem disciplinadamente acatada. Da indignação e do clamor dos vultos mais destacados da inteligência comunista, diante dos hediondos crimes dos alemães, a opinião pública mundial só veio a tomar conhecimento depois da traiçoeira invasão do território russo.

Qual a diferença para a sociedade, volta e meia tornada refém dos radicais, entre um terrorista de esquerda e um de direita? Os fanáticos militantes da Al Qaeda, sob o comando do finado bin Laden, dinamitaram prédios na África e puseram abaixo as torres gêmeas, em nome de Alá. Aquele outro alucinado, de nacionalidade estadunidense condenado à morte pela destruição do edifício em Oklahoma, intitulou-se defensor da supremacia racial branca, “dom divino” do qual a Ku Klux Klan se julga detentora. Na Noruega e nos Estados Unidos, outros espécimes tresloucados cometeram, ainda recentemente, tragédias inomináveis em nome desses mesmos falsos valores. Qual a diferença? No frigir dos ovos, esses malucos de tendências aparentemente opostas não passam de verso e reverso da mesma moeda.

As ideologias políticas e religiosas radicais, que atuam na base do crê ou morre, constituem, na verdade, inimigas juramentadas da humanidade. É só ver do que são capazes de aprontar, em amostras repetidas de ferocidade, extremistas dos diferentes grupos litigantes do Oriente Médio.

Sobra de tudo lição milenar definitiva. A solução dos problemas não virá jamais das lateralidades incendiárias. Ela só poderá germinar em clima onde vicejem os valores humanísticos, com destaque para a justiça social e a solidariedade. Ou – numa conceituação de maior abrangência, projetada a partir da interpretação espiritual e do fascinante e às vezes complexo jogo da vida – ela só pode vir mesmo, minha gente, do Alto.

 *Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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