sexta-feira, 15 de junho de 2012

Assim, na democracia

Cesar Vanucci *

“A democracia é, antes de tudo, um estado de espírito.”
(Pierre Mendes France)

Ø A lei da ficha limpa representou um extraordinário avanço no processo de consolidação da democracia brasileira. A opinião pública soube reagir, com justa veemência, às solertes manobras feitas em alguns momentos por grupos e pessoas comprometidos com malfeitos repudiados pela consciência nacional no sentido de revogá-la ou de procrastinar indefinidamente sua aplicação. Ela despontou como resposta vigorosa da sociedade brasileira a abusos administrativos que todos almejamos ver, algum dia, banidos para sempre da cena pública.
Deixando evidenciada sincera e bem intencionada aspiração de ver a legislação aplicada em sua inteireza, doa a quem doer, muita gente vem chamando a atenção nas redes sociais para alguns personagens já devidamente caracterizados como incontestes “fichas-suja”. Dessa circunstância vem também tirando proveito uma minoria de ativistas, pescadores de águas turvas, que se vale maliciosamente dessa faculdade para promover inclusões indevidas, juridicamente incorretas, de nomes de desafetos e adversários, nas relações que têm sido amplamente disseminadas.
Esse procedimento maldoso pede muita cautela e atenção do distinto público, para que o processo não seja desvirtuado de seus reais objetivos, contaminado por manobras solertes a serviço de desforras, vinditas, perseguições mesquinhas.
Pelas regras, “ficha suja” é aquele individuo responsável por ação de improbidade ou de outro delito grave, indiciado, julgado e condenado em instância colegiada. Uma notícia solta, expondo alguém de militância pública não implica obrigatoriamente em sua culpabilidade. Esta só se configura em processo normal de apuração dos fatos, garantidos aos acusados sempre o direito de defesa. É assim que as coisas funcionam na Democracia.

Ø O Senador Aécio Cunha tem todo o direito do mundo de ocupar a tribuna parlamentar para tecer, como fez, enaltecedoras referências à atuação como homem público do Senador Demóstenes Torres, alvo neste momento de gravíssimas acusações. A liberdade de opinião é apanágio da democracia. A opinião pública tem todo o direito do mundo de criticar, como vem também fazendo nas redes sociais, o posicionamento do Senador Aécio Cunha. É assim que as coisas funcionam numa democracia. Já a grande mídia brasileira não tem o menor direito, quaisquer que sejam suas razões, de silenciar ou de simplesmente registrar com descomedida discrição um pronunciamento desse gênero, tendo-se em vista o peso da liderança de quem o formulou e as circunstâncias que rodeiam o momentoso episódio de que o parlamentar goiano é protagonista. Tal posicionamento passa léguas de distância do dever atribuído à comunicação social dentro do contexto democrático.

Ø Muita gente supunha que seria difícil pacas pintar no pedaço, a longo prazo, alguma celebridade, política ou não, em condições de superar o notório doutor Paulo Salim Maluf como “cara de pau” mor da República. As declarações e alegações do senador Demóstenes Torres, prestimoso parceiro do todo poderoso chefão Carlinhos Cachoeira, concorreram para que se esboroassem pra sempre essas suposições.

Ø O torcedor que conserva na lembrança as deslumbrantes imagens da coreografia traçada nos gramados do mundo pelo Cruzeiro dos tempos de Tostão, Dirceu Lopes, José Carlos, Piazza, Raul não pode deixar de sentir-se em tremendo desconforto com o padrão de futebol que o clube vem mostrando nesta melancólica fase de agora. Na partida com o Náutico, os atletas do time cometeram, com o seu atual estilo feio e retranqueiro, 46 faltas, recorde difícil de ser igualado. Que horror! As regras do futebol deveriam ser alteradas em casos assim. Deveriam fixar para excesso de faltas uma punição à altura. No curso da própria disputa. Com cobranças de pênaltis, que tal?



Números surpreendentes


“Surpreender-se, estranhar, é começar a entender.”
(Ortega y Garret)

Ø Minas continua a proporcionar incríveis surpresas com relação aos números que projetam suas contas públicas. Indoutrodia tomávamos conhecimento, incrédulos, dos valores de uma dívida pública colossal, insuspeitada da maioria.
De repente, não mais do que de repente, diria o poeta, o “déficit zero” da marquetagem caprichada e ultraeficiente, saiu precipitadamente do ar, cedendo lugar para que despontasse, com toda sua tintura dramática, uma dívida pública de quase 70 bilhões para com a União e uma outra dívida de mais de 5 bilhões com a Cemig, ambas oferecendo em face dos juros e correções cobrados aterrorizante tendência de crescimento. E não é que, agora, trazido à divulgação pelo Sindifisco, chega-nos, mais uma vez, outro número desnorteante! Vejam só: a dívida ativa acumulada do Estado de Minas Gerais, que de 27 bilhões em 2009, caiu ligeiramente para 26 bilhões e 700 milhões de reais em 2010, fechou no ano passado em 29 bilhões, 551 milhões, 541 mil, 302 reais e 36 centavos. A revelação é acrescida de que são de 24 bilhões, nos assentamentos do balanço patrimonial do Estado, as presumíveis “perdas de devedores duvidosos.”
São dados – ta na cara – que reclamam esclarecimentos mais completos de quem de direito. Algumas perguntas inevitáveis assomam como ponto de partida para discussão: Os valores podem ser classificados como “impagáveis”? Como está mesmo composta a relação de devedores? Quem são os maiores devedores, pessoas, empresas, setores? Não será o caso de fazer-se uma divulgação dos nomes dos devedores mais notórios? 30 bilhões – seja frisado – correspondem a quase a metade das dívidas oficiais do Estado.

Ø Não tenho, evidentemente, como confirmar a veracidade da informação. Mas como ela foi colhida em fontes que nós, repórteres, costumamos classificar genericamente de “confiáveis” animo-me a repassá-las aos poucos (posto que leais) leitores destas maldatilografadas. Aquele cara que andou dando chilique no aeroporto até ser intimado a cascar fora do avião debaixo de apupos, após vociferar seu azedo inconformismo diante do fato do comando do vôo ter sido confiado a uma pilota, acaba de ser distinguido com convites internacionais procedentes da Arábia Saudita, Afeganistão e Paquistão. Os autores dos convites confessam-se jubilosos com a possibilidade de tê-lo como expositor oficial em congressos e cursos organizados com o edificante propósito de divulgar os extraordinários benefícios proporcionados à coletividade pela prática permanente de atos que exaltem a supremacia machista no cotidiano de suas progressistas comunidades. Isso aí.

Ø O Ministro Gilmar Mendes acusou o ex-Presidente Lula de fazer-lhe proposta descabida atinente ao chamado mensalão. O ex-Presidente Lula reagiu, indignado, à denuncia. O ex-Ministro Nelson Jobim, única testemunha do encontro de Lula e Gilmar, negou a versão do segundo a respeito do teor da conversa. A grande mídia, deixando claramente expressa uma tendência, está dando guarida ampla nos comentários e noticiários aos argumentos de Gilmar. Noutras palavras: para ela Gilmar está certo, Lula está errado.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Festa da Academia

Cesar Vanucci *

“A Academia é uma guardiã de saberes acumulados.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Um acontecimento de relevância cultural indiscutível. Assim a solenidade de posse da diretoria que irá reger os destinos da Academia Mineira de Leonismo no biênio 2012/2014, realizada no último dia 29 de maio.

Público numeroso, constituído de intelectuais, líderes políticos e de outros segmentos comunitários, dirigentes de entidades literárias, educacionais, cientificas e classistas, integrantes do movimento leonistico, lotou as dependências do Teatro da Assembléia Legislativa.

Entre outras figuras de realce, estiveram presentes ao evento o presidente da Federação das Academias de Letras e de Cultura do Estado de Minas Gerais, acadêmico Aloísio Garcia, secretário geral da Academia Mineira de Letras; o deputado dr. Viana, representante da Assembléia Legislativa de Minas; a escritora Conceição Abritta, presidente da Academia Mineira Feminina de Letras; o escritor Luiz Carlos Abritta, presidente da União Brasileira dos Trovadores e presidente emérito da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais; o acadêmico João Bosco Castro, presidente da Academia de Letras Guimarães Rosa, da Policia Militar de Minas Gerais, o advogado e acadêmico Sebastião Braga, ex-diretor internacional do Lions Clube; o coronel Ary Vieira Costa, presidente do Circulo Militar de Minas Gerais.

A parte artística da programação ficou a cargo da Orquestra de Cordas “Sol das Gerais” de Betim, regida pela maestra Vânia Maria Mendes. Esse esplêndido conjunto musical é composto de jovens selecionados em áreas de vulnerabilidade por um edificante projeto de inclusão social, mantido por empresários, levado avante com excepcionais resultados, por pessoas de boa vontade na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O espetáculo apresentado foi de rara beleza. Arrancou aplausos entusiásticos da platéia.

A diretoria empossada, que tem na presidência este amigo de vocês, é integrada pelos seguintes acadêmicos: ex-Presidente Imediato, Sóter do Espírito Santo Baracho; 1º Vice-Presidente, José Alves Viana (Doutor Viana); 2º Vice-Presidente, Nancy Moura Couto Konstantin; 3º Vice-Presidente, Vespasiano de Almeida Martins Neto; 1º Secretária, Maria das Graças Amaral Campos; 2º Secretário, Marcos Boffa; 1º Tesoureiro, Maria Jorge Abrão de Castro; 2º Tesoureiro, Maria Celeste Martins; 1º Diretor Bibliotecário, Marilene Guzella Martins Lemos; 2º Diretor Bibliotecário, Edite Buéri Nassif; 1º Diretor Social, Carminha Ximenes; 2º Diretor Social, Sônia Maria Queiroga Ferreira; Diretor Jurídico, Ernani Martins de Melo Rocha; 1º Orador Oficial, Sebastião Braga; 2º Orador Oficial, Sóter do Espírito Santo Baracho; Diretores Vogais, Antônio Carlos Tozzi Henriques, Augusto César Soares dos Santos, Daniel Antunes Filho.

Coube à acadêmica Nancy Moura Couto Konstantin proferir a “Invocação a Deus” que, tradicionalmente, abre as assembléias leonisticas em todos os lugares. O acadêmico Sebastião Braga homenageou Sóter Baracho com uma placa de reconhecimento pelo brilhante trabalho por ele executado no período em que presidiu a Academia.

Os oradores Sóter e Braga revelaram-se pródigos em demasia nas referências ao presidente empossado. Aos exageros por eles cometidos nessas referências pessoais, nos discursos de substancioso conteúdo cultural proferidos, juntou-se calorosa manifestação de apreço de amigos reunidos na platéia. Encheram-me a bola a tal ponto que me senti “encorajado” a confessar estar balançado com relação a algo até certo tempo atrás inimaginável. Filiar-me a partido político e – quem sabe? – sair candidato nas próximas eleições a um cargo qualquer. Segundo suplente de Juiz de Paz da Comarca, por exemplo, dá pra imaginar?



Pronunciamento de Cesar Vanucci na solenidade de posse da diretoria da Academia Mineira de Leonismo - dia 29 de maio de 2012, no Teatro da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.


Esta Academia tem uma origem ilustre, uma proposta nobre e um destino de grandeza.

Nasceu sob as inspirações vibrantes de companheiros que têm seus nomes cravados na “calçada da fama” das realizações leonísticas.

A menção de dois deles, com a benevolente permissão dos demais, serve para exaltar, emblematicamente, o mérito dos que compartilharam, em diferentes momentos, dos sonhos e ações desabrochados em tantas celebrações da inteligência e da sensibilidade que compõem a crônica da instituição. Reverencio-os: Felipe Machado Cury, de saudosa memória, Ernani Martins Melo Rocha, governador do Lions à época da criação do órgão.

A Academia traz uma proposta nobre.

Proposta, claro está, encharcada de leonismo. Vale dizer, repleta de humanismo, que tem tudo a ver com a prática da solidariedade humana, com a busca infatigável de caminhos melhores na edificação da pátria terrena.

A Academia tem, por outro lado, compromisso com a tradição. Conserva em alto apreço o conhecimento consolidado. Mas tem, também, um compromisso com a contemporaneidade das coisas. Procura viver o seu tempo, assestando o olhar perquiridor nos desafios do amanhã. Não pode deixar de ser depositária de conhecimentos valiosos, guardiã serena de saberes acumulados.

De outra parte, ela não cumprirá sua missão a jeito se deixar engessar-se pela falsa certeza de que os paradigmas criados no curso da aventura humana para identificar momentos culturais relevantes, precisam ser vistos fatalmente como dogmas de fé. O mundo gira e as mudanças são inevitáveis. Uma Academia não pode deixar, assim, se emaranhar, em suas propostas, pelas teias traiçoeiras do apego fanatizado a conceitos de notória falsidade cultural.

A Academia tem um destino de grandeza.

Alimenta-se dos conhecimentos e experiências consolidados, de riqueza inexaurível, do movimento leonístico. Processa-os de modo a realimentar o movimento leonístico de informações de utilidade que lhe assegurem, sem perda de substância, fiel aos princípios essenciais, permanência e modernidade.

É bom, sob esse aspecto, não se perder de vista, mode evitarem-se equívocos e injustiças, a visão distorcida que muitos têm do que seja modernidade. Moderneiras – mas não modernas -, certos viventes aprontam confusão tremenda quando colocam, por exemplo, a economia como um fim em si mesma, esquecidas de que a Economia, assim como a tecnologia, não é fim em si mesma. É meio para se atingir um fim. E o fim é sempre social.

Ser moderno significa, na realidade, colocar todo o resto sob o primado do espírito humano. É colocar a inventiva das pessoas, o potencial de serviços da sociedade em favor do bem estar social. É dar tratamento privilegiado ao social no gerenciamento dos negócios comunitários. É encarar a miséria, a falta de oportunidades profissionais, o desemprego, as endemias, a ausência de escolas e de tetos, como pecados sociais, a serem expurgados em nome dos sentimentos humanísticos.

O quadro social de nosso país não pode deixar de ser avaliado na programação acadêmica. O que Camões assinalou, num outro contexto, se ajusta, como luva, às circunstâncias brasileiras: “Todas as notas da elegia das aflições humanas soluçam neste quadro de suprema angústia...”

O Acadêmico é um ministro da palavra.

Esculpindo conceitos edificantes, conferindo dinamismo e vibração às idéias, demarcando e alargando o espaço reservado às ações de construção humana, a palavra é sempre pura magia. Aliás, tomando emprestada definição de Ronsard, a única magia. E tudo porque, segundo o mesmo pensador, a alma é conduzida e regida pela palavra e a palavra é sempre dona do coração. Os praticantes do ofício das letras, conscientes de que sua arte é forma sublime de expressão dos sentimentos, usam do poder mágico da palavra, da força de sedução da palavra para  celebrar a vida. Entendem como dever utilizar o talento com o fito de espalhar beleza e disseminar verdades. Para expandir a consciência humana, apontar trilhas, criar condições perenes de ascensão social. Exercitando a curiosidade, transformam o ato de viver numa aventura poética. “A vida se vive e se escreve”, proclama Pirandello.

Tudo que acabo de dizer remete ao reconhecimento de que a palavra, como acontece também com os demais dons concedidos ao homem em sua busca infatigável do sentido das coisas, deve sempre revestir-se – seja repetido - de significado social.

Nasce aí a explicação dos motivos pelos quais os intelectuais, os artífices da palavra, escritores, poetas, pensadores, tribunos, cientistas, comunicadores, educadores, pessoas que trabalham por vocação, ou profissionalmente a palavra, merecem ser vistos como “ministros da palavra social.”

Essa honrosa condição implica em posicionamentos diante das coisas do mundo. Esse mundo de Deus, que anda precisando muito de ser reconectado com sua humanidade. A palavra social ajuda na indispensável reformulação de estruturas econômicas e sociais iníquas, geradoras da miséria, fome e doenças que tanto afrontam a dignidade humana.

A palavra social há que ser empregada na condenação das guerras que as mães abominam. As guerras do terror e o terror das guerras. Na condenação das lateralidades ideológicas incendiárias, dos fundamentalismos religiosos ou políticos de quaisquer matizes, que conduzem ao despotismo, ao obscurantismo, ao terrorismo sem entranhas, ao racismo, a discriminações de todo jaez e ao imobilismo social. A palavra social profliga a hipocrisia e arrogância dos “donos do mundo”, com suas regras capciosas de subjugação humana. Essas regras fabricam estatísticas estarrecedoras. A fortuna acumulada dos 500 grupos e pessoas mais bem aquinhoados do planeta equivale, conforme atesta a ONU, ao patrimônio somado de 3/4 da sociedade humana.

No contexto brasileiro, a palavra social não pode deixar de eleger como prioridade as cobranças pela prevalência da conduta ética na vida pública, com repulsa à enojante atuação de corruptos e corruptores em toda a ampla escala da convivência pública ou privada, e pelo culto do sentimento nacional nas ações gerais do governo e sociedade. Não pode deixar de insistir, também, na adoção de posturas coletivas em defesa, altiva e resoluta, da cultura brasileira, do idioma brasileiro, do patrimônio dos brasileiros. No que concerne à cultura e ao idioma, nunca é demais recordar que o uso desatinado, como tanto se vê por aí, de vocábulos estrangeiros para classificar coisas óbvias do cotidiano é indicação clara de pauperismo intelectual, subserviência cultural e panaquice ampla, geral, irrestrita e irremediável.

No tocante ao patrimônio nacional – e estamos falando aqui de soberania e segurança nacionais -, é necessário atentar para os sinais de ameaças e cobiças externas que mantêm sob permanente mira a riquíssima Amazônia. Muitas lideranças brasileiras, com destaque para as lideranças militares, têm alertado para o que vem rolando sob esse aspecto. É preciso levar na devida conta esses sinais.

Meus amigos,

Por derradeiro, uma profissão de fé: as utopias fazem parte da caminhada. “Se as coisas são inatingíveis, ora! Não é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos se não fora a presença distante das estrelas.” (Mário Quintana)

Esforcei-me quanto pude, nesta descolorida arenga, em traçar um utópico roteiro de conduta para a nossa Academia. As utopias são parte indissociável da aventura humana.

“Sonho, logo existo”, disse alguém, em algum lugar. Desajeitado propagador de idéias que costumam roçar as sutis fimbrias da quimera, não abdico, apesar de tudo, de todos os pesares, de minhas crenças no ser humano.

Imagino possível, algum dia, que a utopia cantada nos versos de tantos poetas venha a ser concretizada no advento radioso de uma era universal plenamente democrática, ecumênica, harmoniosa, humanística, forjada por corações fervorosos. Uma era onde “o homem possa confiar no homem, assim como a palmeira confia no vento, o vento confia no ar, o ar confia no campo azul sereno do céu”, como propõe Thiago de Mello.

Muito obrigado a todos quantos aqui compareceram e fizeram desta noite feérico, amorável e fraternal encontro de congraçamento humanístico. Palavra de leão!


IMAGENS DA SESSÃO SOLENE DO DIA 29.05, NA
ACADEMIA MINEIRA DE LEONISMO
As fotos foram produzidas pelo Companheiro Augusto César Soares dos Santos

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Clamor universal

Cesar Vanucci *

 “O bem estar do povo é a lei suprema.”
(Cícero)

O movimento pode até ter perdido o fôlego inicial. Mas deixou marcas, disseminou conceitos, ganhou consciências. Revelou algo importante para as avaliações antropológicas: as emoções populares transportadas para as ruas, não importa onde, guardam no mundo contemporâneo notáveis afinidades. Independentemente de nacionalidades, idiomas, crenças religiosas, hábitos culturais. Ocorram as manifestações em Manhatan, na Cinelândia carioca, na praça Vermelha em Moscou, nas cercanias do Taj Mahal, na Índia. A multidão, composta basicamente de jovens, do “Ocupe Wall Street”, convocada a exteriorizar seu inflamado inconformismo diante do agravamento das desigualdades socioeconômicas em seu país, reproduziu à sua maneira, dentro de contexto cultural específico, a mesma indignação que a rapaziada de numerosos lugares do Oriente despejou nas praças por ocasião da chamada “primavera árabe”. Nem tudo que uns e outros almejaram, ou continuam almejando em seu formidável desabafo cívico, impregnado de idealismo, redundou de pronto em conquistas. Ocorreram, como sabido, não poucas frustrações. Mas as idéias renovadoras lançadas no ar, as propostas de mudanças vitais apresentadas, os anseios de liberdade propagados fixaram, quando pouco, marcos referenciais reveladores nos caminhos a serem trilhados, daqui pra frente, pelas lideranças políticas e de outros setores providos de lucidez e com responsabilidades definidas na construção do desenvolvimento econômico e social. Fica muito claro na percepção global da sociedade a existência hoje de uma consciência social desperta, em tudo quanto é canto deste planeta azul, para a necessidade de reformulações sociais capazes de garantirem a elevação a patamares dignos e justos das condições de vida de todos os seres humanos. O clamor que volta e meia espoca em passeatas pelas ruas afora do mundo, desvinculado em suas origens de inspirações político-ideológicas contaminadas, acena esperançosamente com as perspectivas descortinadoras de uma nova era. Uma era mais fraternal, mais justa, consentânea com a dignidade do ser humano. Dá pra perceber, auspiciosamente, que tais ações coletivas se contrapõem visceralmente às proposições nascidas das lateralidades incendiárias. Contempla-se momento da história propenso a condenar as exacerbações e extravagâncias do fundamentalismo político e religioso em suas interpretações rançosas da aventura humana. O que está aflorando é um sopro possante e irrefreável, de feição humanística, que abomina o despotismo, a violência contra os direitos fundamentais, o racismo, a prepotência dos feudos econômicos despojados de responsabilidade e sensibilidade social, a arrogância imperial dos arranjos geopolíticos prejudiciais às nações e agrupamentos vulneráveis. E que, paralelamente, por outro lado - arriscamo-nos mesmo a dizer com “benfazejo fanatismo” –, cultua a democracia, em sua pura inteireza e intransigente apego às liberdades de ir e vir e de manifestação plena das idéias. A crescente desigualdade de renda, seja nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa, ou quaisquer outros lugares, coloca como prioridade, na agenda dos grandes e transcendentes debates humanos da atualidade, a exigência de uma reformulação da ordem econômica e social. O processo de canalização das riquezas extraídas do talento e labor humanos precisa ser passado a limpo. O brado dos jovens do “Ocupe Wall Street” exprimiu o desconforto da sociedade estadunidense diante da constatação de que uma minoria da população é escandalosamente favorecida pelo regime de impostos e de bonificações de toda sorte vigorante no país, desfrutando à vista disso do “direito” de poder expandir incessantemente seu patrimônio pessoal. Nada diferente do que acontece, aqui por nossos pagos, ou com igual, maior ou menor intensidade, em tantos outros lugares. Vem daí a certeza da universalidade do sentimento em favor de reformas econômicas, sociais e políticas que povoa as ruas. E pra arrematar essas reflexões: o bem estar do povo é a lei suprema. Cícero já proclamava isso um bocado de anos antes da era cristã.


A busca da “partícula de Deus”

“A peça que falta para o quebra-cabeças.”
(Fernando Werkhaizer, físico)

Cientistas famosos andam apregoando que suas avançadas pesquisas pelas enigmáticas veredas da física quântica vêm permitindo aproximação cada vez maior da chamada “partícula de Deus”. Gabam-se mesmo de já haver encontrado pistas intrigantes da localização do “bóson de Higgs”, estrutura supostamente responsável pelas interações na Natureza. No entendimento dos doutos, embora hipotético, um elemento provido de massa que teria aparecido logo após o também hipotético “Big Bang”, apontado por círculos científicos como a primeira de todas as coisas dentro da linha conceitual adotada pra explicar a Criação. Tal partícula seria responsável pela composição dos átomos. Advém dessa circunstância a denominação que se lhe foi dada de “partícula de Deus”. Passa bem ao largo das cogitações deste desajeitado escriba, com sua supina ignorância da temática cientifica, desdenhar ou mesmo contradizer diretamente os brilhantes físicos engajados nesse salutar propósito de descobrir, pelos atalhos das exaustivas investigações cientificas, explicações sobre como começou tudo quanto está posto aí. Mas que eu duvido possa esse bem intencionado esforço desembocar, nos prazos estipulados, nas respostas tão desejadas pelo aluvião de interrogações nascidas da compreensível inquietação humana a respeito do principio, sentido e destino da aventura da vida, ah, isso, eu duvido mesmo, sim senhores! Como se costumava dizer, noutros tempos, de forma bem descontraída em papos coloquiais, du-vi-de-o-do. Tanto quanto o meu restrito entendimento leigo consegue alcançar dessa fascinante procura levada avante por alguns cérebros privilegiados, com o concurso de tecnologias assombrosas, o chamado “bóson de Higgs” seria assim como uma peça que estaria faltando pra fechar o quebra-cabeças da teoria do “Big-Bang”, ou seja da explosão nuclear que formou o Universo. Não passa, como já dito, de hipótese, sujeita ainda a comprovação, de acordo com a expectativa de eminentes sábios. Os colisores de prótons, localizados em pontos estratégicos do mundo, empregados nessa busca infatigável já estariam, a esta altura, fornecendo indícios animadores (mais do que isso, talvez, convincentes) de que uma revelação concludente estaria prestes a ser anunciada. Mas, muitos cientistas, precavidamente, não descartam a possibilidade de que o processo possa não lograr atingir, por conta de fatores imponderáveis, os resultados ardentemente almejados. O modelo da investigação poderia ter sido composto com pressupostos equivocados. Se isso de fato, contrariando tantas esperanças, acontecer, ou seja, a descoberta da partícula não puder se consumar, outros caminhos haverão de ser, obviamente, desbravados pela ciência na tentativa de achar explicações consistentes para os mistérios que circundam a infinita vastidão cósmica. Bem, e quanto às descrenças pessoais que, simploriamente, consciente do analfabetismo cientifico que carrego, entendi de externar quanto aos resultados das investigações em curso a respeito da “partícula de Deus”, no que, afinal de contas, se fundamentam? Em mera, pura e simples intuição. Nada mais do que isso. Seria rematado tolo não reconhecesse na ciência um excepcional instrumento de procura da verdade. Uma força poderosíssima em condições de movimentar idéias e ações que se entrelaçam com o futuro e o destino da humanidade. Mas, nada obstante os extraordinários feitos e conquistas proporcionados pela ciência, levando em conta de outra parte tantos problemas cruciais angustiantes, enfrentados pela sociedade humana destes nossos tempos – problemas cuja solução distante depende bastante das inovações tecnológicas –, penso, com meus botões, apoderado de certezas, ser ainda demasiadamente cedo, no atual estágio de desenvolvimento emocional e espiritual do ser humano, pra se conceber a possibilidade da decifração cabal do código da vida. O deslindamento dessa charada não é pra agora. Aposto e dou lambuja.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A contraofensiva do Sistema

Cesar Vanucci *

“Nosso “spread”, como todos nós sabemos,
ainda é o maior do mundo.”
(Antônio Delfim Neto)

A leitura atenta dos jornais deixa-nos conhecedores de que o sistema financeiro já armou, nos devidos conformes, sua contraofensiva às ações da Presidenta Dilma em favor da redução dos juros. A estratégia montada é no sentido de tentar desqualificar as medidas saneadoras tomadas. Apontá-las como inócuas à luz dos sagrados cânones econômicos. E, até mesmo, atribuir a decisões governamentais menos inspiradas a culpa inteira no cartório pelas aberrações cometidas no rendoso jogo do crédito generosamente ofertado à incauta clientela.

Fica claro que a lengalenga marota, que encontra acolhedora cobertura midiática, não conseguirá sensibilizar a sociedade por inteiro. Mas, de qualquer maneira, o ingente esforço despendido com o fito de semear a confusão nos espíritos servirá a algum propósito menos edificante no terreno da contradita política. Ou poderá criar alguma celeuma que venha – quem sabe? - redundar em acertos de bastidores capazes de reduzirem, tiquinho que seja, a quota da contribuição esperada das instituições financeiras, dentro dos critérios definidores da responsabilidade social, para a almejada diminuição das taxas. Diminuição essa que, decididamente, não irá empobrecê-las, mas que, certeiramente, ajustará em termos civilizados a lucratividade descomedida, sempre crescente ano a ano, registrada em suas trilionárias operações.

A falta de sensibilidade social nesses meios confessadamente refratários à nova política de juros, louvavelmente implantada com gestos decididos pela Chefe do Governo, está refletida num sem número de comentários. Neles se projeta visível a intenção de ridicularizar o posicionamento oficial. Indiferentes, como é do feitio da espécie, ao sentimento popular, fingindo não saber do apoio e simpatia maciços da opinião pública às medidas anunciadas, portavozes do complexo financeiro vêm procurando, por todos os meios ao alcance, desacreditar a política de juros colocada em vigor. O economista chefe da Febraban, Rubens Sandesberg, deu o tom da contraofensiva. De forma sarcástica, anotou em relatório concernente a queda de juros, que o cavalo pode até ser levado à beira do rio, mas isso não significa obrigatoriamente que ele se disponha a beber a água. A parlatice foi de tal tamanho que alguns banqueiros, percebendo a indignação que a besteira cometida produziu no Planalto, resolveram maneirar um tanto quanto a barra, desautorizando a fala intempestiva de seu intérprete.

Mas a má vontade com relação ao assunto não cessou. O que levou Dilma a reiterar, com gestos expressos e com declarações peremptórias, batendo forte na cangalha pra turma entender, a convicção governamental – que de resto é a de todo vivente razoavelmente lúcido deste país – de que as taxas de juros não podem continuar situadas nos patamares himalaianos escalados pela ganância e irresponsabilidade social. “Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia mantem-se estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos”, foi o que disse no pronunciamento presidencial no “Dia do Trabalhador”.

No arremate destas considerações, nada mais apropriado para acentuar o acerto das medidas governamentais no tocante aos juros do que estas palavras de um economista que passa, costumeiramente, a impressão de saber do que está falando: “O governo age corretamente, com uma política absolutamente transparente para baixar os juros. O que o Ministério da Fazenda e o Banco Central especialmente têm feito é conversar com os bancos e analisar os componentes do “spread” que, como todos nós sabemos, ainda é o maior do mundo. É razoável, portanto, que se deva esperar uma redução desse “spread”. O nome do economista é Antonio Delfim Neto.


Neobobice vernacular


“Essa língua (...) é a nossa língua” 
(Raquel de Queiroz)

Até hoje o Congresso Nacional não aprovou o projeto do ex-deputado Aldo Rebelo, hoje Ministro dos Esportes, que regulamenta o emprego de expressões estrangeiras em eventos públicos, meios de comunicação, estabelecimentos comerciais, educandários, embalagens de produtos, por aí. Traduzindo, de certo modo, o inconformismo da sociedade diante dessa onda abobalhada de estrangeirices vocabulares que nos assola, o projeto é visto, por muita gente de peso intelectual, como uma tentativa louvável de se deter o processo, em marcha acelerada, da desnacionalização idiomática, com todos os seus nefandos desdobramentos culturais nas práticas cotidianas. Tudo fruto de indigência cívica, pauperismo intelectual e de rematada panaquice, sinais inequívocos da atmosfera que se respira em ambientes despojados do sentimento de brasilidade.

Mesmo não conhecendo na íntegra o projeto e imaginando, à vista disso, possa uma que outra disposição do texto comportar questionamentos, ou mudanças, como propõem alguns, não há como deixar de aplaudir na essência essa iniciativa, por representar reação que já vem tarde contra a neobobice vernacular que nos agride nos lares e nas ruas.

Muita gente, atingida pelos modismos moderneiros, encontra dificuldades em entender coisa tão curial: o idioma é a pátria. É o símbolo – o mais reluzente – da nacionalidade. Projeta, com dinâmica própria, o nosso modo normal de expressão, o nosso jeito de ver e sentir. As emoções puras e generosas da gente do povo. O idioma conta e canta a nossa cultura, nossos feitos e realizações. Mantém-nos íntegros e individidos em nossos sagrados domínios territoriais. Domínios territoriais, aliás, tão cobiçados pelo aventureirismo beligerante e ardiloso destes tempos de globalização fajuta.

Posto que a língua falada no Brasil é o brasileiro, um dos muitos idiomas saídos do português, já vem passando a hora de uma vigorosa resistência contra a tendência, de inocultável frescurice, da utilização, a três por quatro, em tudo quanto é canto, de vocábulos estrangeiros para classificar situações e coisas óbvias.

O aprendizado de outros idiomas é parte relevante na preparação do homem para o instigante jogo da vida. É o caso do inglês e do espanhol, por exemplo, ou o mandarim, talvez mais na frente. Mas a busca do aprendizado de outras línguas não pode significar que a gente deva ou precise esquecer a língua da gente. Isso remete a texto precioso de Eça de Queiroz. “Um homem só deve falar, com impecável segurança e firmeza, a língua da sua terra; todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, sem aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.” Como? O ilustre leitor destas maldigitadas acha que a tintura nacionalista do mestre está forte por demais?

Respondo à observação com uma pergunta: mas será que o momento, face às heresias vocabulares soltas por aí, com base no inglês “more or less”, não está a clamar por posições desse jaez, de claro destemor cívico, que resguardem o nosso patrimônio cultural? Muitos os abusos. Os impropérios linguísticos. O idioma do Brasil é o idioma brasileiro. Ponto final.

É preciso deixar explícito que aos brasileiros aborrece – e muito – esse negócio de cardápio em restaurante e de saldo de retalho de loja anunciados em língua de gringo; de veículo carregando no pára-choque bobagens do tipo “My other car is a plane”, ou de “God bless America”; de repórter de tevê a  falar de “break”, e de incontáveis babaquices assemelhadas. Isso sem falar na nomenclatura aplicada aos dispositivos que acionam as engenhocas eletrônicas que estes tempos tecnológicos introduziram estrepitosamente na vida do cidadão comum.

Isto posto não há como não classificar de bem-vinda a disposição parlamentar de se por freio nisso tudo.

Levar logo o projeto para discussão, alterações nas Comissões, voto em plenário e sanção presidencial é uma boa.
 
* Jornalista, (cantonius1@yahoo.com.br)


sexta-feira, 18 de maio de 2012

CONVITE ESPECIAL AOS AMIGOS DO BLOG DO VANUCCI



Holerite pra lá de avantajado


Cesar Vanucci *

“Graves violações aos princípios da moralidade administrativa.”
(Desembargador Ivan Sartori, presidente do TJ de São Paulo)


É o que se pode chamar, como já disse alguém, de holerite turbinado. Em um único mês, novembro de 2008, o desembargador Roberto Antonio Vallin Bellochi, à época na presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo, recebeu R$ 723.474,93 entre salário e desembolsos extraordinários relativos a férias e licenças-prêmio. Por conta de estipêndios atrasados, ele recebeu R$ 349.876,74, acrescidos do “fator de atualização monetária”, beneficio a mais incidente sobre vantagens concedidas à toga. Esses dados constam de planilha expedida pela Diretoria da Folha de Pagamento da Magistratura (DFM). Bellochi, que ocupa o primeiro lugar na extensa lista dos contracheques milionários da magistratura, presidiu o Tribunal de Justiça de São Paulo entre 2008 e 2009. Entre 2007 e 2008 foi contemplado com a bagatela de R$ 1.44 milhão, com base apenas na rubrica “excepcionais”. Em 2009, ele bateu o recorde em recebimentos: R$ 1.63 milhão, com vencimentos de R$ 896.8 mil e extras de R$ 738.4 mil. As fantásticas vantagens salariais por ele percebidas eram por ele próprio dadivosamente outorgadas. Da trajetória singular desse impoluto marajá do serviço público sabe-se ainda que, em fevereiro de 2009, seu holerite registrava a importância de R$ 136.476,35, ou seja cinco vezes mais que o limite definido como teto salarial pelas leis brasileiras. Mas nesse mesmo mês, o travesso personagem, por vontade própria, à margem pelo visto de qualquer controle fiscal, abiscoitou outros R$ 120 mil, a titulo de “pagamento excepcional”. Bota excepcional nisso.
Todas essas estarrecedoras informações são parte de relatório que vem sendo examinado pelo Conselho Superior da Magistratura. Bellochi não é o único magistrado flagrado em “extravagâncias salariais” no exercício da função gerencial exercida. Outros colegas seus da magistratura paulista estão sendo também investigados, à vista de haverem sido aquinhoados com “gratificações identificadas como graves violações aos princípios constitucionais da isonomia, da impessoalidade e da moralidade administrativa”, como sublinha o desembargador Ivan Sartori, atual presidente do TJ de São Paulo.
Todas essas informações, extraídas de reportagem do jornalista Fausto Macedo, publicada em “O Estado de São Paulo”, reforçam a importância enorme de que se vem revestindo a saneadora ação que a desassombrada ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional de Justiça, desenvolve com outros companheiros do órgão no sentido de refrear não poucos abusos gritantes e de estabelecer política de intransigente transparência nas contas de alguns organismos judiciais brasileiros.
Acolhida, de um lado, com aplausos e solidariedade integrais por parte da opinião publica, essa ação tem encontrado, de outro lado, desoladoramente, por conta de certos setores de visão corporativista, escancaradas e inaceitáveis restrições.


Revitalização da Savassi


“Essa obra tá muito espichada.”
(Desabafo de lojista da Savassi, falando da revitalização da área)


A revitalização da Savassi que fui ver, não vi. Falar verdade, levando-se em conta o tempo gasto na obra (em fase de conclusão há um tempão), o volume de recursos aplicados, os transtornos e prejuízos causados ao comércio e prestadores de serviços da região, embalados a principio pelas propostas sedutoras apresentadas pela Prefeitura, o oba oba da marquetagem descomedida, esperava deparar-me com coisa de nível infinitamente superior. O resultado da requalificação urbanística procedida lembra emblematicamente parto da montanha. Um senhor estrondo, acompanhado de estalido seco com uma figura de proporção liliputiana a esgueirar-se pela fresta da rocha.


Descaminhos do nosso futebol


“Sou atleticana desde garotinha. Foi a primeira vez
 que fiquei com sono numa partida de meu clube.”
(Dona Izaltina, 92 anos, comentando o jogo Atlético e Tupi)

Fixo-me nas cenas da pavorosa partida entre Atlético e Tupi, na rodada derradeira do primeiro turno do campeonato mineiro, pra sublinhar, outra vez mais, meu tremendo desaponto, como cidadão e torcedor, com os descaminhos que vêm sendo trilhados melancolicamente pelo futebol mineiro. O enervante cotejo sinalizou magistralmente a mediocridade que se apoderou desse espaço esportivo, tão caro ao sentimento popular.
Os apreciadores dessa modalidade esportiva, ou seja, todo mundo, precisamos fazer uma avaliação aprofundada sobre o que anda rolando, na área futebolística, nestes nossos pagos das Gerais. O frustrante desempenho dos clubes pode ser debitado, em parte, está certo, ao gerenciamento insatisfatório que os rege, mas não deixa de ser reflexo, também, de outros fatores negativos, complacentemente absorvidos pelas lideranças esportivas. A forma atabalhoada que orientou todo o planejamento das obras de reforma dos estádios da Pampulha e do Horto foi algo terrível. A idéia de jerico da torcida única foi também de lascar. O esquema de transmissão de jogos, atendendo às conveniências mercadológicas da televisão, negando ao público acesso às imagens dos clássicos regionais pelo fato de as partidas serem disputadas em Sete Lagoas, agride o bom senso. Violenta direito do torcedor. Essa sequência de atos falhos clama por reflexão e mudança de rumos. Já.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A fala eloquente dos números

Cesar Vanucci *

“Os 3,3 bilhões de dólares obtidos com a privatização, anos atrás,
da Vale, não deixam nada bem os governantes que patrocinaram o leilão.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Números, sem sombra de dúvida, portentosos. Falam de avanços extraordinários na vereda do progresso, com desdobramentos sociais naturalmente benfazejos.

Repetindo performances exitosas, que afinal de contas constituíram sempre marca registrada na extensa e vitoriosa trajetória da empresa, desde os tempos de regência estatal, a Vale SA, a nossa antiga Vale do Rio Doce, cumpriu excepcional desempenho outra vez mais em 2011.

E isso, justo reconhecer, como consequência direta de ações desenvolvidas competentemente pelo seu comando diretivo, hoje provavelmente mais criativo e aprimorado do que noutros tempos. Como consequência também – está claro – da atuação eficiente de experiente quadro de técnicos e qualificado contingente profissional nas variadas vertentes operacionais.

Vale a pena, sem intenção de trocadilho, destacar os algarismos que documentam os recordes acumulados mais recentemente pela Vale. Recorde de receita operacional: em dólares, 60,4 bilhões. Recorde em lucro operacional, também em dólares, de 30,1 bilhões. Margem operacional de 48.5%, geração de caixa da ordem, ainda em dólares, de 35,3 bilhões, com lucro líquido (na moeda americana) de 22,9 bilhões. No tocante aos embarques de minério de ferro e pelotas, mais recordes históricos: quase 300 milhões de toneladas. As vendas de níquel e cobre no período apontam igualmente algarismos acima dos níveis de exercícios passados.

Recorde também em matéria de investimentos. Deixadas de lado as aquisições, os investimentos da Vale somaram 18 bilhões de dólares. Desse valor, 13,4 bilhões direcionados para projetos e pesquisa e desenvolvimento. Já no tocante ao retorno de capital a acionista chegou-se ao valor recorde de 12 bilhões de dólares, composto pela distribuição de dividendos de 9 bilhões de dólares, equivalente a US$ 1.7354 por ação ordinária ou preferencial, e pelo programa de recompra de ações, da ordem de 3 bilhões de dólares, totalmente executado. Tal performance favoreceu o anúncio antecipado, recebido naturalmente com regozijo pelos acionistas, de garantia de dividendo mínimo de 6 bilhões de dólares para 2012. Os especialistas em matemática financeira celebram também, como triunfo da empresa, o registro de um balanço sólido com baixa alavancagem, medida pela relação dívida total/LTM EBITDA ajustado, e a manutenção do longo prazo médio da dívida, de 9,8 anos.

Mais números, na modelar atuação da Vale, a festejar. Os investimentos em Minas atingiram, ano passado, o volume de 10.1 bilhões de dólares, acréscimo de 39 por cento em relação aos 7.3 bilhões de dólares desembolsados no exercício anterior. A empresa mantém na atualidade mais de 41 mil empregados no Estado. Em 2011, o número de contratações a mais, no quadro efetivo, foi de 2.800 profissionais. Afora isso, os projetos em implantação conduzidos nos canteiros de obras em território mineiro, assinalam a presença de 16 mil empregados.

Outro dado de exponencial significado nas operações da Vale está configurado no montante das aquisições feitas no Estado. Minas Gerais desponta como o principal fornecedor da empresa, com os 12 bilhões de dólares canalizados em vendas de produtos. Os investimentos em ações socioambientais foram igualmente expressivos: 347 milhões de dólares, envolvendo entre outros empreendimentos a preservação de 17 reservas ambientais no quadrilátero ferrífero, numa área total de mais de 12 mil hectares.

Tudo isso posto, bem projetada nos indicadores anotados, em justos termos, a relevância do papel econômico e social desempenhado pela Vale no cenário brasileiro e na vida mineira, sobra, por último, para reflexão por parte dos cidadãos comuns uma tormentosa questão, já por mais de uma vez suscitada em comentários deste escriba.

Os números desse desfile de feitos diante dos olhares de admiração e compreensíveis aplausos de todos vêm consolidar, no seio da opinião pública, a sensação bastante amarga, recoberta de indignação, de que aquele leilão de privatização, anos atrás, no governo de Fernando Henrique Cardoso, alvejou interesses respeitáveis da Nação, ao favorecer a transferência dos colossais ativos da Vale do Rio Doce a empreendedores privados pela bagatela de ... 3,3 bilhões de dólares. Isso dói pacas!


Recomendações naturalistas simples

 “Tudo deveria ser tornado tão simples
quanto possível, mas não mais simples do que isto!”
(Einstein)

São recomendações muito simples. Não exigem esforço físico exagerado. Proporcionam – asseguram os que praticam essas modalidades de exercícios – resultados bastante compensadores. As práticas vêm sendo propagadas intensamente nas redes sociais como contribuição de profissionais da chamada medicina naturalista. Apresentam-nas como ideal para quem não gosta, ou não tem tempo de fazer rotineiramente exercícios físicos.

O que se anuncia, por esse instrumento de comunicação, é que alguns médicos naturalistas confessam-se danados de triste sempre que batem com os costados em congressos de sua categoria profissional. Acontece de experimentarem, nesses encontros, o dissabor de constatar que os resultados de certas experiências exitosas e eficientes, de fácil comprovação, processadas em sua esfera de atuação, não são contemplados, hora nenhuma, com divulgação adequada. “Não dão ibope”, é o que costumeiramente se lhes é passado. Vêem-se compelidos, à vista disso, a utilizarem as redes sociais para repassarem exercícios e ações singelos por eles reconhecidos como úteis no enfrentamento de problemas cardíacos. Vamos lá: 1º. ao acordar, deitado de barriga pra cima, pedalar 30 vezes no ar. Isso concorre para melhorar o posicionamento da coluna e da postura, diminuindo e retardando o encurvamento das costas, aliviando dores e baixando a pressão; 2º. antes do banho, exercitar a barriga da perna (levantar o corpo na ponta dos pés). Primeiramente, de modo rápido, até esquentar as panturrilhas e, depois, fazendo uma sequência de dez movimentos lentos. Pronto. Tal exercício – assevera-se - bombeia o sangue para o coração, melhora os batimentos cardíacos e evita obstrução das veias. Nos primeiros seis meses, a pessoa com excesso de peso poderá vir a emagrecer (oba!) da cintura para baixo. Nos seis meses subsequentes, se beneficiará (oba, outra vez!) da cintura para cima. Depois de dois anos, não engordará mais. Além de tudo, o exercício reduz riscos de cirurgia cardíaca, que custa, como sabido, os tubos.

Outra prática sugerida pelos naturalistas diz respeito às micro varizes. Esta a recomendação: ao chegar em casa, coloque os pés numa bacia com água bem quente. É o famoso “escalda pés”, que além de relaxar, serve para desencadear a dilatação dos vasos sanguíneos dos pés, trazendo benefícios também à visão. O processo foi pesquisado com pacientes diabéticos. Constatou-se melhora na circulação sanguínea. O quadro geral de saúde dos pesquisados melhorou e foram percebidos por muitos efeitos benéficos no sistema visual. O exercício é indicado, ainda, como eficaz para combater o encurvamento da coluna.

Outra recomendação da medicina naturalista: ao perceber que a pressão subiu, coloque as pernas dentro de um balde com água gelada até os joelhos. Permaneça nessa imersão por vinte minutos. Tranchã, atestam os que se entregam a essa prática.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Recado curto e grosso


Cesar Vanucci *


"As grandes nações têm atuado sempre como assaltantes."
(Stanley Kubrick)


Nas relações políticas e econômicas com o resto do mundo, temos dito e repetido, as grandes potências deixam claramente configurada sua disposição imperial. "Façam o que eu digo e não o que eu faço": este o teor da determinação por elas transmitida à comunidade internacional. Nesse recado, curto e grosso, manda-se a sutileza às urtigas e escancara-se, para bom entendimento, a considerável disparidade do poderio econômico, tecnológico e militar existente entre eles e os outros.

No Conselho de Segurança das Nações Unidas, o veto de um desses países – Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França – é suficiente para tornar inócua qualquer aspiração nascida do consenso da assembléia geral, constituída de centenas de Estados. Em não poucas oportunidades, as chamadas grandes potências desafiam abertamente as deliberações de seus pares, assumindo posições unilaterais que consultam apenas seus egoísticos interesses. Não raramente também, esse tipo de ação dá vaza a alguma crítica por parte de outro componente do núcleo do veto. Mas o que acaba prevalecendo mesmo, aí, é uma espécie de "acordo de cavalheiros". A condenação acaba sendo expressa em termos que possam ser amortecidos no diálogo diplomático das chancelarias interessadas. Disso resulta uma certa condescendência recíproca com relação aos absurdos praticados por uns e outros.

Os Estados Unidos se recusaram, insensatamente, todo mundo se lembra, a firmar o "protocolo de Kyoto". O governo da Rússia foi, por outro lado, o último a apor assinatura no documento. Não é difícil calcular o tipo de pressão que estaria sendo exercida contra qualquer outro país, da lista dos emergentes e subdesenvolvidos, que se recusasse a figurar entre os signatários de uma decisão de tamanha magnitude, caso os Estados Unidos tivessem optado por apoiá-la.

No capítulo dos avanços tecnológicos espaciais e das experiências nucleares para fins pacíficos, o Brasil e outros países topam pela frente, volta e meia, com toda sorte de obstáculos e sanções externos. Procura-se impedir caminhem com as próprias pernas na busca das políticas que melhor se harmonizem com seus sagrados interesses. O monitoramento com relação ao que concebem e realizam, nesses domínios interditos, é implacável. "Façam o que eu mando e não o que eu faço". A palavra de ordem que chega, dos países com o domínio do conhecimento espacial e atômico, é incisiva. Enquanto torpedeiam com ameaças o desenvolvimento tecnológico dos outros, os "donos do mundo" entregam-se a frenéticos e, por vezes, diabólicos experimentos, ampliando as conquistas tecnológicas com vistas a bons negócios. Na guerra e na paz.

Os EUA romperam o tratado de não proliferação das armas de extermínio em massa, anunciando, logo depois, a criação de um fantástico complexo de blindagem antimíssil, sugestivamente chamado de "guerra nas estrelas". Enquanto isso, a Rússia, retomando o tom façanhudo de que havia se descartado logo após a debacle comunista, fala com espalhafato da construção de novas, inigualáveis e inimagináveis armas.

Não deixa de ser reconfortante perceber, no meio de tudo, que existe hoje uma consciência cívica coletiva altiva e aguerrida, em constante expansão, no Brasil, noutros países e, até mesmo, no seio das nações de presença hegemônica no mundo. É a sociedade humana se confessando inconformada com os rumos desvairados do planeta. Será dai, dos desejos de paz e dos anseios de progresso dominantes no sentimento das multidões, que acabarão brotando, mais na frente, transformações relevantes nas relações internacionais, na ordem econômica e na convivência social. Transformações que possam, finalmente, garantir para todos acesso pacífico aos benefícios do trabalho, do talento e da criatividade humana.


História escabrosa

 “O grupo era altamente estruturado
para cometer crimes graves.”
(Juiz Paulo de Lima)

Considerando as informações já juntadas pelo noticiário nosso de cada dia, essa história das aprontações de Carlinhos Cachoeira e seus comparsas da máfia composta de “gente bem”, não é tão escabrosa quanto se está a imaginar. É, em verdade, muito mais escabrosa do que jamais se conseguirá imaginar.

As engrenagens montadas pelo poderoso chefão, com forte respaldo em alguns figurões inescrupulosos nas esferas do poder, são reveladoras de que a organização criminosa desbaratada incorreu praticamente em quase todos os ilícitos capitulados nos Códigos. Lavagem de dinheiro, corrupção, peculato, evasão de divisas, contrabando, prevaricação, chantagens, achaques, violação de sigilos por meio de arapongagem eletrônica sistematicamente praticada. E, bem provavelmente, outras muitas malfeitorias ainda em vias de serem devidamente apuradas nas operações saneadoras da Polícia Federal e na CPI do Congresso. O grupo, na avaliação do juiz Paulo de Lima, personagem que deu contribuição valiosa para que as investigações fossem conduzidas a desfecho satisfatório, “era altamente profissionalizado, estável, permanente, habitual, estruturado, montado para cometer crimes graves”. Mantinha, de acordo com o magistrado, “estrutura organizacional e piramidal complexa (...), entranhada no seio do Estado com, inclusive, a distribuição centralizada de meios de comunicação para o desenvolvimento das atividades, visando o objetivo de inviabilizar a interferência das agências sérias de persecução.”

Foi com todo esse descomunal aparato que a quadrilha envolveu, de acordo com informações liberadas pelo inquérito policial, um senador da República, um ou dois governadores, políticos (notadamente do Estado de Goiás) de diferentes siglas, agentes públicos dos diversos poderes e, até mesmo – desoladoramente para uma categoria profissional que tem assumido na cena brasileira, com fervor e idealismo, posição decisiva no combate aos “crimes de colarinho branco” – alguns poucos jornalistas, deslumbrados com os sedutores métodos de aliciamento utilizados por Cachoeira. As interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça registram centenas de ligações trocadas pelo chefe da quadrilha com repórteres ávidos por informações extraídas fraudulentamente, com fitos claros de chantagem, pelo sistema de arapongagem eletrônica ilegal por ele implantado, há anos, em Brasília.

Carlinhos Cachoeira – e não apenas ele – valia-se nas operações de uma rede de gravações clandestinas operada há muitos anos por outras sinistras figuras. Um de seus eficientes comparsas nessa aterrorizante empreitada, já recolhido ao xilindró, é o ex-agente público militar Idalberto Martins de Araújo, também conhecido por Dada.

De acordo com a Polícia Federal, o esquema de espionagem por eles montado estendeu os tentáculos em tudo quanto é direção. Gravou telefonemas em repartições e domicílios, acessou dados sigilosos da Receita Federal e dos mais variados órgãos do Governo federal e dos Governos estaduais. E, igual ou bem pior que isso, estruturou e manteve com cuidadoso zelo um sistema permanente de ligações espúrias, para troca de informações sigilosas, com políticos graduados, agentes públicos, exercentes de funções de confiança no Executivo, Judiciário e Legislativo. Esse perverso intercâmbio favoreceu a elaboração de dossiês brandidos ameaçadoramente nas ações de subornos, chantagens, corrupção (e por aí vai...) desencadeadas pelos salteadores engravatados.

A CPI mista do Senado e Câmara dos Deputados, recentemente aprovada, tem condições plenas de poder deslindar, em todos os pormenores, essa vasta conspiração subversiva contra os interesses democráticos e republicanos. Representa um passo a mais nessa caminhada resoluta da sociedade no sentido de passar a limpo a vida pública, na busca do fortalecimento sempre crescente das instituições nacionais.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

  Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro 1 de agosto de 2026 • Google ...