sábado, 26 de junho de 2021

 

Meio milhão

 

Cesar Vanucci

 

“Vacina no braço, comida no prato”.

(Dizeres de faixa exibida em manifestações populares,

lamentando o número de mortes pela Covid-19)

 

Nascida de corações angustiados, uma pergunta é ouvida em todos os quadrantes do continente brasileiro. Até quando? A dilacerante interrogação vem carregada de assombro e indignação diante da crise humanitária que a inépcia governamental não soube enfrentar. Meio milhão de vidas perdidas. Quase 20 milhões de infectados, não poucos com sequelas irreversíveis. Segundo previsões da Ciência – encarada com desdém e zombarias -, as estatísticas de cada dia vão continuar seu cortejo lúgubre, sem dar sinais de esmorecimento por largo espaço de tempo ainda.

E saber, com provas irrefutáveis, que esse estado de coisas caótico, advindo de pandemia de alcance mundial, poderia ter sido razoavelmente atenuado em nossas bandas, não fosse a manifesta inoperância gerencial na condução do processo! Equívocos e opções desastrosos ditaram as diretrizes de combate ao flagelo. Concorreram substancialmente para que nos sentíssemos receosos, inseguros e desalentados.

A CPI do Senado tem acumulado informações desnorteantes. Os depoimentos mostram, à saciedade, que há, sim, “culpa no cartório” por parte de nossos dirigentes pela circunstância de não terem adotado, tempestivamente, embora suficientemente alertados, o conjunto de providências preconizadas pela Ciência para sofrear a impetuosidade do flagelo e, com isso, diminuir, com toda certeza, os índices de mortalidade e infecção.

Seja assinalado, a propósito, a grotesca performance de alguns declarantes, empenhados em malabarismos retóricos com o fito de blindar o Governo Federal em suas demonstrações de despreparo executivo e de insano desrespeito aos ditames do bom-senso e às recomendações da Ciência.  A fileira dos desacertos é extensa: faltou tudo. Planejamento, liderança, diálogo, equipamentos, leitos, medicamentos essenciais, testes, oxigênio em instantes desesperadores, como se viu no Amazonas. Faltou vacina, primeira e segunda doses. Negacionismo contribuiu para que houvesse atrasos irremediáveis na aquisição de vacinas; para a disseminação de falsos conceitos sobre tratamento precoce; para uso de medicamentos ineficazes, adquiridos em volume absurdo. Desses posicionamentos oficiais negativos, acompanhados de exemplos públicos criticáveis, resultaram também reações desajuizadas às medidas protetivas recomendáveis. Muita gente desconsiderou o uso das máscaras faciais, o distanciamento social, desrespeitando ainda as advertências quanto ao risco das aglomerações.

No topo da indesejável lista dos países mais afetados pela “gripezinha de nada” – assim definida nas primeiras falas oficiais a pandemia que estava chegando -, o Brasil mantém ritmo muito abaixo das exigências na aplicação de vacinas. Está em 87º lugar no que concerne ao percentual de vacinados em relação à população. Na marcha atual, vai se deparar daqui algum tempo com a circunstância de ter que convocar os primeiros brasileiros vacinados para eventual segunda rodada anual de vacina em momento em que ainda não estará concluída a prometida imunização completa a todos.

A história brasileira registrará, fatalmente, que o Governo falhou clamorosamente no combate à pandemia. Pisou feio na bola, como se diz no jargão popular. Ancorou as ações ineficientes praticadas no negacionismo científico, que bebe inspiração em radicalismo fundamentalista repleto de reinterpretações das coisas do mundo, da vida enfim, incompatíveis com os valores humanísticos e democráticos. Via de consequência, influiu para que os males provocados pela Covid se agigantassem. Com a implementação, no momento adequado, das medidas preventivas e curativas recomendadas por organismos científicos acreditados, a valorosa equipe dos agentes de saúde da linha de frente do combate ao vírus estaria em condições, nesta hora, de arrolar número bem superior de vidas salvas.

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