sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

 

O normal, com bode e tudo

 

Cesar Vanucci

 

“Depois da subjugação da pandemia, restarão os problemas de sempre.”

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

A luzinha acesa no final do túnel com a vacinação acena para a radiosa expectativa de que a pandemia possa chegar logo ao fim. Essa circunstância conduz a fervilhantes reflexões.

Volta ao normal. Da emotividade das ruas brotam generosos  anseios. Falam de uma esperança ardente quanto ao controle científico do flagelo. Com o vírus, as condições de vida se agravaram. Pioraram, num dizer mais rude.

 Mas como é que vai ficar mesmo a situação deste planeta azul, assim que subjugada a mortífera ameaça? A pergunta abre leque de desconcertantes respostas. Estimula seja aqui contada sugestiva historietazinha. Por certo, já ouvida pelo arguto leitor.

Seguinte: as encrencas envolvendo a patota familiar, implicando em desavenças e  atritos intermináveis, assumiram tal proporção que ao chefe da casa, um bom homem, temente a Deus, não restou outra alternativa que não a de procurar, para conselhos, o rabino. Um personagem respeitado por todos na comunidade. Expostas suas agruras, o consulente ouviu inesperada recomendação. “Coloque um bode na sala de visitas de sua moradia, que isso vai resolver o problema.” Franzindo a testa, o homem fez menção de questionar a sugestão, mas quedou-se mudo diante do tom resoluto do interlocutor. Voltou para o lar levando o bode. Explicou, debaixo de olhares atônitos, que o animal passaria a coabitar a residência com a família. Ninguém ousou levantar objeção. As orientações do influente rabino eram ali sempre seguidas à risca. O quadrúpede chifrudo, assim que se sentiu acomodado, aprontou, como se diz, o “bode”... Os transtornos e estragos produzidos, os desagradáveis odores impregnados no ar fizeram com que o ambiente deixasse de ser, apenas, bastante tenso, para sediar o caos. O retorno ao rabino, para aconselhamento, se tornou inevitável. Após o relato da “tragédia” causada pelo estabanado “hóspede”, o rabino, sem titubeios, ordenou a retirada imediata do animal. A nova ordem foi acatada prontamente pra gáudio geral. E, no tocante ao conturbado relacionamento doméstico, tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes...

Pois bem, quando ocorrer a exclusão da Covid-19 do rol das preocupações comunitárias, ou seja, quando conseguirmos  livrar-nos da presença insuportável do “bode na sala”, as problemáticas a confrontar serão – como não? - as mesmíssimas de sempre.

Na preparação para a “volta ao normal”, cuidemos de enfileirar algumas, dentre as mais doridas. Sem nos esquecermos, naturalmente, de esforços adicionais para enfrentá-las dentro de uma linha de ação que seja humanística e democrática. Quer dizer, sem permitir se apague em nós o candeeiro da esperança por dias mais venturosos. As questões pendentes de solução, na trepidante marcha civilizatória, apontam impactantes itens. Cá estão: desigualdades sociais indecentes; crescimento vertiginoso da pobreza, do desemprego; manifestações aviltantes de racismo e intolerâncias, provocações antidemocráticas, atos terroristas diversificados, produzidos por fanatice religiosa e tibieza política.

E, tudo, tudo isso, Santo Deus!, num momento de esplendor  intelectual único. Numa hora de conquistas tecnológicas extraordinárias, inimagináveis até. Esses feitos, nascidos da inventividade humana, carregam no bojo as sementes necessárias para colheita de frutos capazes de alterar o rumo da história em direção ao bem-estar social global. Basta para isso sejam sementes fertilizadas em terreno onde o humanismo e a espiritualidade operem como fontes geradoras de energia. Esta, a maneira correta, ao alcance da vontade humana, de retirar a manada de “bodes” da sala...

 

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