quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

 

O golpe frustrado de Trump

 

Cesar Vanucci

 

"Ontem foi um dos dias mais sombrios da história do nosso país".

(Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos,

referindo-se à invasão do Capitólio, ordenada por Donald Trump)

 

Mesmo sabedora dos traços frisantes de megalomania, autoritarismo e inapelável falta de escrúpulos dominantes, de há muito, na conduta e palavras do personagem, a opinião pública mundial confessou-se estupefata no protesto categórico e sólida repulsa à tentativa golpista de Donald Trump.

É provável que jamais haja sido levantada, na vida pública estadunidense, a remota suposição de que alguém no exercício do posto público mais elevado da nação mais poderosa do mundo pudesse ousar levar avante manobra tão insana e ultrajante contra as tradições culturais e democráticas. O candidato derrotado em campanha pela reeleição comportou-se como um demagogo populista extremado. Relembrou posturas políticas de caudilhos boçais que comandaram os destinos das chamadas “repúblicas bananeiras”, conforme  assinalou, indignado um parlamentar, por sinal do partido Republicano.

O que se viu foi uma verdadeira insurreição patrocinada abertamente pelo já quase – felizmente – ex ocupante da Casa Branca. Recusando-se a admitir a vitória de Joe Biden, obtida de forma insofismável, Trump viu ruírem seus propósitos de deslegitimizar os resultados que lhe foram desfavoráveis. Quase meia centena de recursos submetidos à apreciação do Judiciário foram julgados e indeferidos. Próceres destacados de sua própria agremiação partidária consignaram publicamente pontos de vista vigorosos a respeito da lisura do pleito, numa discordância frontal à insistente proclamação, sem provas, baseada exclusivamente em retórica delirante, do candidato republicano. Entre seus próprios assessores surgiram vozes influentes de divergência quanto ao procedimento do supremo mandatário. No plano internacional, as congratulações ao presidente eleito por parte de chefes de governo de (quase) todos os países do mundo como que referendaram a decisão tomada pelo eleitorado americano, favorável cabalmente ao opositor de Trump, em número de votos individuais e votos distritais. Nada disso arrefeceu o ânimo belicoso e a doentia intransigência de Donald em reconhecer o óbvio ululante. Num gesto desesperado, assustador, utilizando em larga escala os instrumentos de comunicação digital - dos quais, em boa hora, acaba de ser defenestrado até o final do mandato - para concitar adeptos fanáticos a contestarem o veredicto soberano das urnas. Da concitação adveio a invasão inédita, inimaginável do Congresso em Washington. Milicianos agressivos, recrutados em organizações do tipo “supremacistas brancos” e outras de assemelhado cunho político e religioso fundamentalista, romperam as barreiras de segurança do Capitólio com o objetivo de intimidar senadores e deputados para que não promulgassem a vitória de Biden, conforme a ritualística constitucional vigente. Cessada a refrega, com lastimável saldo de cinco mortos e 40 feridos, o Congresso, altivamente, presidido pelo vice-presidente dos Estados Unidos Mike Pence, companheiro de chapa de Trump aprovou, como não poderia jamais deixar de ser, a certificação que assegura o desfecho legal da corrida eleitoral.

A sensação de alivio que os norte-americanos experimentaram foi compartilhada no mundo inteiro. Coro alentado de vozes, condenando a tentativa de golpe de Donald Trump, se fez ouvir, retumbantemente, em tudo quanto é canto do planeta. Mesmo entre líderes mundiais reconhecidamente ligados ao atual ocupante da Casa Branca não faltaram manifestações inequívocas de desagrado a sua tresloucada atitude. Casos, para exemplificar, dos primeiros ministros da Inglaterra e de Israel. Os veículos de comunicação social mais importantes reservaram suas principais manchetes para comentar e noticiar os inacreditáveis acontecimentos registrados nos Estados Unidos, sem poupar de críticas acerbas a atuação golpista de Trump.

A forma imprópria e criticável da reação oficial do governo brasileiro quanto ao assunto, exceção no concerto das nações, foi de molde, evidentemente, a causar desconforto e mal-estar em todos os setores da vida brasileira.Outra coisa chocante foi o desproposito da insinuação presidencial de que o processo eleitoral eletrônico adotado pelo Brasil já rendeu e poderá ainda produzir fraudes no futuro, como aconteceu nos Estados Unidos, valha-nos Deus, Nossa Senhora!

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