sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Em colisão com a vida

Cesar Vanucci

“Desapartada dos valores humanísticos e espirituais, a economia colide com a justiça social.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Em tudo quanto é pedaço de chão deste mundo convulsionado o que se contempla é uma avalancha de desatinos. Uma agressão belicosa à ordem social, econômica e política, gerando fieira interminável de injustiças e indignidades. Como costumava dizer um governante – cujo nome a maior parte das pessoas só ousa pronunciar debaixo de certas cautelas, dando três batidinhas no tampo da mesa e dizendo bem baixinho, mas com firmeza, “mangalô”, também três vezes – a economia vai bem, mas o povo vai mal. E, falar verdade, isso não ocorre apenas aqui por estas bandas desguarnecidas do sul do Equador. O cenário pode-se garantir se reproduz por aí afora. Com maior contundência ali, mas configurando sempre que as coisas funcionam mal, que o “Projeto da Criação”, previsto para este planeta pelo bom Deus, vem sendo conspurcado em suas propostas originais.

Um estudioso em economia, de espírito desarmado, que consiga se desvencilhar da “síndrome do economês”, poderá resumir rápido e rasteiro em não mais do que duas frases, todo o drama econômico-social asfixiante destes tempos modernosos. A economia não pode ser considerada um fim em si mesma. Há que ser vista como um meio para se atingir um fim. O fim é sempre social. Está dito tudo.

Os que alcançam esse nível correto de entendimento sabem muito bem que os rumos trilhados pela economia, nesta hora de tremendos disparates globalizantes, continentais, nacionais, regionais, carecem urgentemente de impactantes corretivos. As correções a serem feitas terão que estar compatibilizadas naturalmente com os ditames da cidadania, o sentimento democrático e os valores humanísticos e espirituais que conferem dignidade à aventura humana. As coisas não podem continuar indefinidamente do jeito que andam sob pena de se deixar largada à cobiça, ambição e mesquinhez de poucos a construção de um destino que se descortina catastrófico pra todos. Transformando o dinheiro em ícone sagrado nas ações ruidosas com que movimentam as engrenagens sociais, numerosos detentores do poder político e econômico, com a responsabilidade de quem se acredita a emitir, por desígnio divino, éditos imperiais para a coletividade inteira, só fazem alargar, insensata e incessantemente, o fosso que separa o pedaço do mundo povoado pelos pouquíssimos que têm muito de tudo, do pedaço habitado por multidões desprotegidas que pouco ou nada têm.

A distribuição da riqueza mundial é extremamente perversa. Um pequeno exemplo. Cingapura é um dos menores países desta nossa ilhota perdida no oceano cósmico. A bem dizer, não é um país. É mais uma cidade pomposamente rotulada de país. Não extrai nadica de nada do solo. Sua ostensiva pujança, cantada pela “neobobice” em verso e prosa, deriva de situações puramente artificiais, engendradas nos altos conselhos dos grandes cartéis e da megaespeculação financeira.

Singulares critérios geopolítico-econômicos fazem do minúsculo território, que é regido por figurino governamental despótico, onde as pessoas podem ser severamente punidas pelo “crime” de transportar no bolso goma de mascar, um centro de polarização de investimentos algumas vezes superiores à movimentação financeira de todos os países, juntos, do continente africano. O jogo dos interesses econômicos e a gula insaciável, para exemplificar, dos setores bélico, petrolífero, farmacêutico traçaram destinos muito diferentes para Cingapura e para a África. Tai devidamente caracterizada uma colisão da “economia” com a vida.

    
Cumplicidade muito estranha

Cesar Vanucci

“Os interesses geopolíticos são, às vezes, medonhos.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)


A geopolítica tem “razões” que a própria razão desconhece. A cumplicidade dos governos das grandes potências com os interesses da Arábia Saudita documenta isso magistralmente. O país, feudal, retrógrado, é comandado com mão de ferro por uma realeza dócil às corporações petrolíferas. Os direitos humanos são ali sistematicamente espezinhados. Um fundamentalismo religioso radical, de forte influência na comunidade, opera ininterruptamente como fonte matricial em ações de terroristas que apavoram o mundo.

Essas circunstâncias negativas todas, denunciadas por jornalistas isentos, caso do famoso Michael Moore, já premiado com um Oscar, não impedem em nada continue a Arábia Saudita a desfrutar de prerrogativas e privilégios no conceito universal, graças a poderosos aliados que fingem nada saber do que ali costuma incessantemente rolar.

A ser verdade o que uma rede estadunidense de televisão mostrou, algum tempo atrás, o governo dos Estados Unidos conservou oculta da opinião pública uma informação muito importante relacionada com os atentados terroristas de 11 de setembro. Ao ser editado o vídeo, levado ao ar numa cadeia mundial, em que o líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, aparecia rodeado de prosélitos, a comentar as brutais ocorrências, suprimiu-se trecho, assaz elucidativo, onde o feroz personagem fazia alusões claras, com entusiasmo, ao apoio recebido, em suas empreitadas terroristas, das lideranças religiosas que comandam os destinos da Arábia Saudita. Segundo o que chegou a ser divulgado, no trecho suprimido, Bin Laden falava de seu perfeito entrosamento, nas ideias e atos amalucados, com os mulás wahhabitas que dominam, a partir da influência exercida sobre a casa real saudita, a vida política, espiritual e social naquele misterioso país, apontado pelos Estados Unidos como o mais “leal” dos aliados no mundo árabe. E que, coincidentemente, é o detentor no Oriente das maiores reservas petrolíferas. Laden chegou a afirmar que a colisão dos aviões com as torres conduzidos por pilotos fanáticos – todos coincidentemente sauditas - foi celebrada nas mesquitas de Riad como uma forma gloriosa de sublimação religiosa.

Com base nas escassas informações que conseguiram superar o silêncio oficial a respeito de tão desconcertantes revelações, sabe-se que, na época, porta-vozes da Casa Branca ensaiaram uma explicação que acabou se revelando insuficiente e inconsistente, no ver de abalizados analistas da política internacional. O trecho suprimido seria, segundo os porta-vozes, de audibilidade imprecisa. Desse curioso comportamento oficial estadunidense, pode-se defluir que poderosas injunções geopolíticas, por maior que tenha sido o mal-estar produzido pelos desconcertantes fatos, “desaconselharam” o reconhecimento de que o “leal amigo” não é lá tão leal assim. O embrulho ficou maior quando se relembra o compromisso enfático do então presidente George Bush de atacar o terrorismo em qualquer lugar do mundo onde ele estivesse encastelado. Não padecem dúvidas quanto ao teor extravagante da retórica presidencial. Parece de todo inconcebível, na estratégia estadunidense, cumprir-se a tal promessa, em se tratando da Arábia. As tropas americanas acantonadas no território estão ali para defender consideráveis ativos petrolíferos. Não, por certo, valores éticos e democráticos.

Diante do exposto fica fácil entender das razões pelas quais os EUA sempre fizeram e continuarão fazendo, não importa se a Casa Branca seja ocupada por republicanos ou democratas, vista grossa ao que ocorre na Arábia Saudita, em termos de sistemáticas violações dos direitos humanos fundamentais. Engasgada em contradições, cuidará sempre de bem absorver eventuais hostilidades das lideranças fundamentalistas que ali vivem, mesmo sabedora de suas estreitas relações com os terroristas de ontem, caso da Al Qaeda, ou de hoje, caso do EI. As conveniências negociais petrolíferas falam mais alto que quaisquer outros interesses.



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